Gazavão I Camsaracânio
| Gazavão I Camsaracânio | |
|---|---|
| Nacionalidade | Reino da Armênia |
| Progenitores | Pai: Esfendadates I |
Gazavão I Camsaracânio (em latim: Gazavō; em armênio: Գազավոն; romaniz.: Gazavon) foi um nobre armênio do final do século IV e começo do V, membro da família Camsaracânio.
Nome
Gazavão (Gazavō)[1] ou Gazavono (Gazavonus)[2] são as formas latinas do armênio Gazavão (Գազավոն, Gazavon), cuja etimologia é desconhecida.[3]
Vida

Gazavão nasceu em data incerta ao longo do século IV. Era filho de Esfendadates I e sua esposa arsácida e irmão de Savarso. Foi registrado pela primeira vez pouco depois da execução de Vardanes I, que é estimada em 365.[4] Na ocasião, vivia com sua família nos territórios de sua mãe, em Taraunitis e Astianena, após uma querela entre seu pai e seu tio Narses I.[5] Aproveitando-se do exílio do patriarca Narses (r. 353–373), o rei Ársaces II (r. 350–368) promoveu o expurgo sistemático de várias famílias nobres, dentre as quais os Camsaracânios. Quando Esfendadates tomou ciência da morte de seus familiares em Armavir, fugiu com sua esposa e filhos para o Império Romano.[5]
Em 387, pela Paz de Acilisena, a Armênia foi dividida entre o imperador Teodósio I (r. 378–395) e o xainxá Sapor III (r. 383–388). Parte da nobreza permaneceu na porção iraniana sob Cosroes IV (r. 384/5–389), enquanto outros ficaram na porção romana, sob Ársaces III (r. 378–389). Dentre os que permaneceram com Ársaces estava Gazavão.[6] Em 388, após exaurirem os meios diplomáticos, Ársaces e Cosroes declararam guerra e o primeiro invadiu a porção oriental a partir de Vananda. Na subsequente batalha travada na planície de Erevel, Ársaces foi derrotado e fugiu do campo de batalha para morrer pouco tempo depois de tuberculose. Os romanos decidiram não nomear outro rei à porção ocidental da Armênia, que foi anexada. Gazavão e outros nobres foram nomeados condes dos territórios recém-adquiridos (comites Armeniae).[a]
Receosos pela ausência de um rei, os nobres armênios da porção romana decidiram submeter-se a Cosroes IV. Para isso, Gazavão enviou carta em nome deles:[7]
| “ | O general Gazavão e todos os príncipes armênios do setor grego, ao nosso senhor Cosroes, rei da região de Airarate, cumprimentos.
Tu mesmo, senhor, sabes de nossa lealdade para com o nosso falecido rei Ársaces, a qual mantivemos inviolada até o dia de sua morte. E agora decidimos servir-te com igual fidelidade, se confirmares para nós estas três condições mediante um pacto. Primeiro, que não te lembres de nossas transgressões, pois travamos guerra contra ti por constrangimento e não de livre vontade. Segundo, que nos retornes todas as nossas terras hereditárias no setor persa, as quais confiscaste para a corte. Terceiro, que encontres modo de nos desligar do imperador, sem que [os gregos] molestem as propriedades que possuímos nesse setor. Põe este contrato por escrito e confirma-o com o selo da cruz; quando o virmos, apressar-nos-emos em teu serviço. Estejas bem, nosso senhor. |
” |
Diz Moisés que Cosroes, ao receber a carta, respondeu-a da seguinte forma:[8]
| “ | O mais nobre entre os homens, Cosroes, rei da Armênia, ao general Gazavão e a todos os nossos príncipes, muitos cumprimentos.
Alegrai-vos, pois estamos bem e nos alegramos com a notícia de vossos cumprimentos. E enviamos este pacto conforme o vosso pedido. Primeiro, que não nos lembremos de vossas transgressões — as quais, na verdade, não consideramos como transgressões, mas antes como a lealdade de homens agradecidos para com o rei arsácida a quem servíeis; pois esperamos que vos comporteis do mesmo modo para conosco. Segundo, que vos retornemos vossas terras hereditárias que confiscamos para a corte, com exceção daquelas que outorgamos a diversos homens; pois as doações régias não se revogam sem dano, sobretudo porque foram registradas nos arquivos de nosso pai, o senhor Sapor, rei dos reis. Mas, em lugar delas, supriremos vossas necessidades com recursos do tesouro real. Terceiro, desligar-vos-emos dos governadores gregos, seja pela guerra contra o imperador grego, seja por via pacífica. E quanto a ti, Gazavão, meu sangue e meu parente, não segundo tua antiga linhagem, mas segundo os direitos que te provêm de tua mãe, a arsácida Arxanoixe, eu te removerei da tua família ancestral dos Camsaracânios e te receberei naquela de tua mãe e da minha, honrando-te com o nome de arsácida. |
” |
Diz-se que, ao ler a carta, Gazavão rapidamente trouxe todos os príncipes ao rei Cosroes, que o favoreceu com boa fortuna e glória e atendeu a todos os seus pedidos.[8] Algum tempo depois, Cosroes nomeou Isaque como novo patriarca, em sucessão a Aspuraces. Isso, somado às suas supostas boas relações com Teodósio I (confundido com Arcádio, 395–408), enfureceu o xainxá Sapor III, que enviou emissários com reprovações e ameaças. Cosroes devolveu os emissários com insultos, e Sapor respondeu enviando o príncipe Artaxer com um grande exército à Armênia.[b] Os romanos supostamente se negaram a dar suporte e o rei foi obrigado a se encontrar com Artaxer, que o removeu se sua posição e nomeou seu irmão Vararanes Sapor (r. 389–414). Artaxer decidiu levar Cosroes para Ctesifonte junto de Gazavão, de quem tinha suspeitas. Gazavão foi acorrentado e suas propriedades foram confiscadas pela corte.[9] Gazavão passou o restante de sua vida preso no Castelo do Esquecimento e seu filho, chamado Fraates I, também foi enviado ao exílio.[10] Christian Settipani propôs que Gazavão foi sucedido por seu irmão Savarso como chefe de sua família,[11] enquanto Cyril Toumanoff sugeriu que, durante todo o período de vida de Gazavão, Savarso atuou como chefe.[12]
Notas
- [a] ^ Moisés de Corene erroneamente alegou que Gazavão se destacou dos demais ao ser nomeado príncipe presidente (առաջնորդ էր նախարարացն, aṙaǰnord ēr naχararac'n; aṙaǰnord análogo a archōn (ἄρχων), "arconte"). Tratando de um contexto semelhante, Procópio de Cesareia, no século VI, equipara as funções de conde e arconte, o que demonstra que a divisão sugerida por Moisés é tardia em relação ao período. Cyril Toumanoff assume que essa distinção não deve ser anterior à vitória do imperador Heráclio (r. 610–641) contra o Império Sassânida na guerra de 602–628.[13][14]
- [b] ^ Moisés de Corene apresenta uma confusa descrição da sucessão real no Império Sassânida. No relato, afirmou que o xainxá responsável por destronar Cosroes IV foi Sapor, que seria sucedido pelo príncipe Artaxer. Entretanto, por questões cronológicas, o governante de nome Sapor só poderia ser Sapor III, filho de Sapor II (r. 309–379) e irmão e sucessor de Artaxer II (r. 379–383). Por essa razão, a sucessão apresentada em III.51 é equivocada. Por conseguinte, essas personagens não são contemporâneas de Arcádio (r. 395–408). A esse respeito, no relato de Lázaro de Farpe, é dito que a ruína de Cosroes IV foi causada por calúnias dos nobres armênios, que alegaram que ele havia trocado correspondência com um imperador romano, cujo nome não é registrado. Não há, portanto, menção a Arcádio, tampouco diz-se que a nomeação de Isaque ao episcopado possa ter sido uma das razões para sua queda.[15] Alguns historiadores assumem que o xainxá que destronou Cosroes, contrariando Moisés, foi Vararanes IV (r. 388–399), filho de Sapor III, pois desconfiou de seu vassalo e o substituiu por seu irmão Vararanes Sapor.[16][17]
Referências
- ↑ Moisés de Corene 1736, p. 292.
- ↑ Moisés de Corene 1736, p. 287.
- ↑ Ačaṙyan 1942–1962, p. 438.
- ↑ Settipani 2006, p. 131-132.
- ↑ a b Moisés de Corene 2006, p. 288.
- ↑ Moisés de Corene 2006, p. 305-306.
- ↑ Moisés de Corene 2006, p. 311.
- ↑ a b Moisés de Corene 2006, p. 311-312.
- ↑ Moisés de Corene 2006, p. 314-315.
- ↑ Moisés de Corene 2006, p. 323.
- ↑ Settipani 2006, p. 389 e 535.
- ↑ Toumanoff 1976, p. 267.
- ↑ Toumanoff 1963, p. 331.
- ↑ Moisés de Corene 2006, p. 309, nota 6.
- ↑ Moisés de Corene 2006, p. 314, nota 1.
- ↑ Garsoïan 1997, p. 92.
- ↑ Terian 2022, p. 133.
Bibliografia
- Ačaṙyan, Hračʻya (1942–1962). «Գազավոն». Hayocʻ anjnanunneri baṙaran [Dictionary of Personal Names of Armenians]. Erevã: Imprensa da Universidade de Erevã
- Garsoïan, Nina (1997). «4. The Aršakuni Dynasty (A.D. 12-[180?]-428)». In: Hovannisian, Richard G. Armenian People from Ancient to Modern Times vol. I: The Dynastic Periods: From Antiquity to the Fourteenth Century. Nova Iorque: Palgrave Macmillan. ISBN 978-1-4039-6421-2
- Moisés de Corene (2006). Thomson, Robert W., ed. History of the Armenians. Cambrígia, Massachusetts; Londres: Harvard University Press
- Moisés de Corene (1736). Historiae armeniacae libri III. Ejusdem epitome geographiae. Praemittitur praefatio de literatura ac versione sacra armenica (etc.) armeniace ediderunt, latine verterunt notisque illustrarunt Gulielmus et Georgius Whiston. Londres: Whiston
- Settipani, Christian (2006). Continuité des élites à Byzance durant les siècles obscurs les princes caucasiens et lempire du VIe au IXe siècle. Paris: de Boccard. ISBN 978-2-7018-0226-8
- Terian, Abraham (2022). The Life of Mashtots' By His Disciple Koriwn. Oxônia: Oxford University Press
- Toumanoff, Cyril (1963). Studies in Christian Caucasian History. Washington: Georgetown University Press
- Toumanoff, Cyril (1976). Manuel de généalogie et de chronologie pour le Caucase chrétien (Arménie, Géorgie, Albanie). Roma: Edizioni Aquila