Conservadorismo de esquerda

O conservadorismo de esquerda é uma ideologia política que tenta combinar políticas de esquerda em matéria económica, com políticas conservadoras em matéria social.[1]

Por vezes, manifesta-se em partidos marxistas da Velha Esquerda, colocando uma maior ênfase no coletivismo e na luta de classes, enquanto rejeitam a Nova Esquerda e políticas identitárias, com visões negativas em matéria de interseccionalidade, aborto, legalização das drogas, feminismo, direitos LGBTIAQ+, ambientalismo e imigração.[2]

Atualmente, encontram-se partidos conservadores de esquerda entre os principais partidos socialistas da Europa de Leste, como na Eslováquia[3] ou na Moldávia,[4] mas também noutros países como a Dinamarca, com os Sociais-Democratas[5] da primeira-ministra Mette Frederiksen e na Alemanha, com os Bündnis Sahra Wagenknecht[6], de Sahra Wagenknecht.

Definição

O conservadorismo de esquerda é uma ideologia política sincrética que sintetiza a economia de esquerda e uma abordagem vanguardista da justiça social com posições socialmente conservadoras, como a defesa da família e dos valores conservadores tradicionais, a oposição ao direito ao aborto, a oposição à imigração e a oposição à legalização de drogas, do trabalho sexual e de certas bebidas alcoólicas.[7][8]

O conservadorismo de esquerda é frequentemente associado a grupos políticos feministas críticos de género, antiglobalistas, populistas de esquerda e nacionalistas de esquerda. Os grupos conservadores de esquerda defendem, geralmente, visões anticapitalistas, anti-imperialistas, anti-americanistas, anti-ocidentais, eurocéticas e anti-ambientalistas, ainda que este último não seja universal em toda a esquerda conservadora.[1][9]

A esquerda conservadora é frequentemente comparada à Velha Esquerda e é influenciada pelos movimentos marxistas-leninistas históricos. Os países marxistas-leninistas da tradição do "socialismo real" eram frequentemente caracterizados por uma união de políticas comunistas e socialmente conservadoras, que as suas lideranças denominavam alinhadas às ideias de Karl Marx e Friedrich Engels sobre questões como a homossexualidade, o feminismo burguês, o patriarcado, o aborto, a contracepção e a prostituição.[10][11][12] Isto contrasta com a Nova Esquerda dos anos 60, influenciada pelo liberalismo social, pelo socialismo libertário e por filósofos como Herbert Marcuse e C. Wright Mills, em vez de Marx e Engels, que rejeitou o envolvimento com o movimento operário e a teoria histórica marxista da luta de classes em favor da libertação cultural; a esquerda conservadora continuou a enfatizar as posições da Velha Esquerda, incluindo a luta de classes, o internacionalismo proletário e o conservadorismo social.

Numerosos partidos políticos modernos de esquerda e antineoliberais na América Latina adotariam, posteriormente, posições de esquerda conservadoras sob a influência do marxismo e do socialismo religioso, incluindo o Peru Livre e o Partido Socialista Unido da Venezuela.[9]

História

Nas décadas de 1950 e 1960, quando os países árabes conquistavam a sua independência, alguns líderes socialistas árabes (como Gamal Abdel Nasser e Muammar al-Gaddafi) recorreram a políticas socialmente conservadoras para ganhar popularidade entre a população maioritariamente islâmica e profundamente religiosa.[13] Uma atitude semelhante foi adotada pelo regime socialista Baath no Iraque, liderado por Saddam Hussein: se até à década de 1990 promoveu intensamente o feminismo e outras políticas socialmente progressistas,[14] após a Guerra do Golfo tornou-se muito mais nacionalista e socialmente conservador, de forma a ganhar popularidade entre a população religiosa.[14][15]

Na Europa de Leste, a maioria dos partidos sociais-democratas são socialmente conservadores, muitos deles com discursos pró-Rússia, anti-LBGT, anti-imigração e anti-Islão, com alguns apoiados na Igreja Ortodoxa.[16][17][18][19] Partidos como o Partido dos Socialistas da República da Moldávia[20] ou os eslovacos Direção - Social-Democracia[3], de Robert Fico, são exemplos desta corrente socialista, que inclui, inclusive, a nostalgia pelo regime comunista.

Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca e líder dos Sociais-Democratas.

Na Europa Central e Ocidental, o conservadorismo de esquerda começou a crescer com a eleição de Mette Frederiksen como líder dos Sociais-Democratas, em 2015 e como primeira-ministra, em 2019.[21] Sob a sua liderança, o partido adotou uma postura de oposição à imigração, particularmente em relação aos imigrantes de países de maioria muçulmana, enquadrando-a como uma resposta aos efeitos negativos percebidos da globalização.[22] Também minimizou, de um modo geral, certas questões socioculturais, como o género e a raça, no seu programa.[23]

Outro exemplo é o de Sahra Wagenknecht e o seu partido político Bündnis Sahra Wagenknecht são conhecidos pela sua perspetiva "conservadora de esquerda". [24][25] O programa do partido enfatiza um programa económico redistributivo e políticas que favorecem os interesses económicos da classe trabalhadora, ao mesmo tempo que adota posições conservadoras em questões culturais, como o combate ao "wokismo".[21]

Para além disso, partidos comunistas como o grego ou o russo também se enquadram, pelas suas posições anti-LGBT e anti-ocidentais.[26][27]

Partidos e organizações

Referências

  1. a b «The Rebirth of the Left-Conservative Tradition - News». Tablet Magazine (em inglês). 16 de junho de 2020. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  2. Kaufman, Cynthia (2003). Ideas for Action: Relevant Theory for Radical Change (em inglês). [S.l.]: South End Press. ISBN 978-0-89608-693-7. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  3. a b c Gehrerová, Ria (11 de maio de 2021). «Fico hovorí o LGBTI ľuďoch čoraz vulgárnejšie, jeho štátna tajomníčka pritom podporila Pride». Denník N (em eslovaco). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  4. a b Ticudean, Mircea (17 de maio de 2011). «Conservatives Angered By Moldova's Recognition Of Muslims». Radio Free Europe/Radio Liberty (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  5. a b Etzerodt, Søren Frank; Kongshøj, Kristian (5 de março de 2022). «The implosion of radical right populism and the path forward for social democracy: Evidence from the 2019 Danish national election». Scandinavian Political Studies (em inglês) (3): 279–300. ISSN 0080-6757. doi:10.1111/1467-9477.12225. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  6. a b Herold, Maik; Otteni, Cyrill (20 de maio de 2025). «Closing the Left-Conservative Gap of Political Representation? Ideological Positions and Democratic Attitudes of 'Bündnis Sahra Wagenknecht' (BSW) Supporters in Germany». German Politics (em inglês): 1–28. ISSN 0964-4008. doi:10.1080/09644008.2025.2497083. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  7. «Attacco femminista alla ministra Kyenge (e ai suoi alleati maschi)». www.ilfoglio.it (em italiano). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  8. elDiario.es (22 de fevereiro de 2020). «Izquierda Unida expulsa al Partido Feminista por cargar contra las leyes trans». elDiario.es (em espanhol). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  9. a b c d Moya, Marta (29 de agosto de 2021). «Ni aborto, ni matrimonio igualitario: la izquierda conservadora latinoamericana». El Orden Mundial - EOM (em espanhol). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  10. «History News Network». hnn.us (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 1 de julho de 2009 
  11. editors, Tusovka. «Anne Buetikofer -- Homosexuality in the Soviet Union and in today's Russia». www.savanne.ch. Consultado em 31 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 24 de setembro de 2015 
  12. Oliari, Enrico. «www.oliari.com - Cuba». www.oliari.com. Consultado em 31 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 16 de maio de 2010 
  13. Haugbolle, Sune; Sing, Manfred (2016). «New Approaches to Arab Left Histories». The Arab Studies Journal (1): 90–97. ISSN 1083-4753. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  14. a b «IRAQ: Was Life for Iraqi Women Better Under Saddam?». PeaceWomen (em inglês). 3 de fevereiro de 2015. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  15. «From Militant Secularism to Islamism | Wilson Center». www.wilsoncenter.org (em inglês). 7 de novembro de 2011. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  16. Broszkowski, Roman. «No, Eastern Europe Isn't Doomed to Right-Wing Rule». jacobin.com (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  17. «Igor Dodon, Moldova's Strawman Dictator (Part Two) - Jamestown». jamestown.org. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  18. «Voronin vrea referendum "anti-homosexuali"». point.md (em russo). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  19. Teraz.sk (16 de novembro de 2015). «Islamská nadácia: Premiér urobil z moslimov na Slovensku hrozbu». TERAZ.sk (em eslovaco). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  20. a b «Igor Dodon, Moldova's Strawman Dictator (Part Two) - Jamestown». jamestown.org. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  21. a b Pabst, Adrian (14 de novembro de 2023). «The left's conservative turn». New Statesman (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  22. Orange, Richard; Copenhagen, Richard Orange (11 de maio de 2019). «Mette Frederiksen: the anti-immigration left leader set to win power in Denmark». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  23. Weeks, Ana Catalano; Allen, Peter (27 de abril de 2022). «Backlash against "identity politics": far right success and mainstream party attention to identity groups». Politics, Groups, and Identities (em inglês) (5): 935–953. ISSN 2156-5503. doi:10.1080/21565503.2022.2065318. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  24. Schmoll, Thomas. «Wagenknecht, die Ein-Frau-Querfront ohne Mehrheit». ntv.de (em alemão). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  25. «Rechts oder links?: Sahra Wagenknecht, die Nationalbolschewistin». Der Tagesspiegel Online (em alemão). ISSN 1865-2263. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  26. a b Featherstone, Kevin; Sotiropoulos, Dimitri A.; Sōtēropoulos, Dēmētrēs A. (2020). The Oxford Handbook of Modern Greek Politics (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-882510-4. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  27. a b «Левый консерватизм: ностальгия по утопии?». ИМЭМО РАН | Официальный сайт (em russo). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  28. Braidwood, Ella (7 de junho de 2018). «Leader of Bulgaria's opposition party turns down Pride invite because she opposes same-sex marriage». PinkNews | Latest lesbian, gay, bi and trans news | LGBTQ+ news (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  29. «KSČM». KSČM (em checo). 9 de julho de 2024. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  30. Steinberg, Julia. «The MAGA Communists Launched a Party». www.thefp.com (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  31. «Keskerakond ja vene valijad – Martin Mölder» (em inglês). 7 de março de 2019. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  32. BNS (2 de fevereiro de 2021). «Lithuanian Labour Party quits EP's liberal group after leader's homophobic rant». lrt.lt (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  33. admin (30 de outubro de 2020). «Lithuania turns right: urban-rural cleavage, generational change, and left-wing perspectives». Foundation for European Progressive Studies (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  34. Salynė, Roberta. «Be intrigos – vedliu nauja partija pasirinko S.Skvernelį». 15min.lt (em lituano). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  35. Mudde, Cas (16 de janeiro de 2024). «Can Europe's new 'conservative left' persuade voters to abandon the far right?». The Guardian (em inglês). ISSN 0261-3077. Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  36. Desk, News (1 de março de 2024). «Rochdale by-election 2024: Who are the Workers' Party of Britain?». Mancunian Matters (em inglês). Consultado em 31 de janeiro de 2026 
  37. «Pragmatism is a winner for Romanian Left». POLITICO (em inglês). 12 de dezembro de 2016. Consultado em 31 de janeiro de 2026 

Ver também