Citricultura no Brasil

A citricultura no Brasil refere-se à produção de frutas do tipo citrus (ou ainda citros ou frutas cítricas) no Brasil, integrando, principalmente, a laranja, o limão, a tangerina e a lima.[1]

Segundo a Embrapa, "o Brasil é o primeiro produtor mundial de citros com uma produção de 19,6 milhões de toneladas/ano numa área cultivada de 883 mil hectares, em 2008"[2] e, de acordo com o site G1 em setembro de 2017, "a citricultura brasileira é a maior do mundo e o citros foi a cadeia do agro que mais empregou em SP em 2016".[3]

A principal região produtora de citros no Brasil é o cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste de Minas Gerais.

Evolução histórica

O desenvolvimento da citricultura no Brasil acompanhou o crescimento do próprio país, partindo de uma cultura tradicional de subsistência até chegar ao patamar atual de uma potência mundial, cuja trajetória foi marcada por vários momentos decisivos.

Os primeiros navegadores portugueses que introduziram as primeiras laranjeiras no Brasil por volta de 1530, inicialmente na cidade de Salvador mas logo permeando pomares privados pelo litoral paulista[4]. Inicialmente, o maior interesse nestas frutas era para consumo por colonos e navegantes para prevenir o surgimento de escorbuto (uma forma de avitaminose grave)[5], mas logo as condições ecológicas de algumas áreas mostraram-se favoráveis para a expansão gradual da cultura. De acordo com o professor da USP-Ribeirão Preto Marcos Fava Neves, "introduzida no Brasil logo no início da colonização, a laranja encontrou no país melhores condições para vegetar e produzir do que nas próprias regiões de origem, expandindo-se por todo o território nacional.[6]

Durante séculos, a citricultura limitou-se a uma cultura local dentro de pomares diversificados dentro de sítios e de fazendas, sem atrair grande interesse do mercado local. Uma primeira plantação comercial foi registrada onde hoje é Santos, SP, entre 1542 e 1546.[4] Os primeiros pés de laranja chegaram ao planalto paulista em 1781, trazidas pelo fransciscano João das Mercês, na localidade que eventualmente deu o nome à cidade de Limeira, por terem sido pés de laranja-lima. O interesse comercial era apenas local, de forma que as primeiras grandes plantações comerciais surgiram apenas no final do século XIX e no início do século XX, especialmente em algumas regiões interiorinas do atual estado de São Paulo.[7] A maior expansão comercial da citricultura brasileira aconteceu, de fato, a partir do final da década de 1950. Até então, quase toda a produção nacional era voltada para o consumo de frutas in natura. Dois eventos parecem ter sido cruciais para um grande salto no mercado de citros no país[8]: (i) a grande Geada na Flórida de 1962 que devastou os pomares nos Estados Unidos, que à época era o maior mercado produtor de citros do mundo. A indústria norte-americana de suco de laranja precisou recorrer a uma nova fonte de matéria-prima, donde o Brasil surgiu como a alternativa mais direta. (ii) Maciços investimentos em processamento foram feitos para atingir a crescente demanda externa, quando as primeiras indústrias de processamento de suco de laranja foram instaladas em São Paulo. Estas criaram a infraestrutura capaz de transformar a laranja em um produto industrial de alto valor agregado: o suco concentrado e congelado (FCOJ).

Eventualmente, desde os anos 80 o Brasil se consolidou como líder mundial na produção de laranjas e, principalmente, como o maior exportador mundial de suco de laranja. O estado de São Paulo permanece até hoje como o principal polo citrícola, por concentrar a maior parte dos pomares e das indústrias de processamento. Atualmente, o Brasil exporta a maior parte de seu suco de laranja, principalmente para a União Europeia, Estados Unidos e Japão. A citricultura é um dos grandes pilares da economia agrícola brasileira, gerando milhares de empregos e de divisas, e mantém-se na vanguarda da pesquisa e da inovação no setor.

Segundo Neves "no Brasil, em 2010, são quase 165 milhões de árvores produzindo e na Flórida, 60 milhões. A densidade de árvores por hectare aumentou bastante. Era de 250 árvores/hectare em 1980, 357 árvores em 1990, 476 árvores em 2000 e atualmente existem pomares com quase 850 árvores por hectare. Hoje estão disponíveis mudas melhores, vindas de viveiros telados e praticamente 130 mil hectares já são irrigados. Cerca de 11.000 produtores com menos de 20 mil árvores (87% do total) detêm 21% das árvores existentes no cinturão citrícola. Outras 32% das árvores estão nas mãos de 1.500 produtores que tem entre 20 mil a 199 mil plantas. 120 produtores têm mais de 200 mil plantas e já representam 47% das árvores".[6]

Laranjal, em Avaré, SP.

Produção de laranja

Segundo o site G1 em 2017, "ainda na década de 1980, o Brasil superou os Estados Unidos e se tornou o maior produtor de laranja do mundo. O posto é mantido até hoje: a safra brasileira em 2016/2017 foi de 245 milhões de caixas, contra 67 milhões de caixas dos Estados Unidos." De acordo com a matéria também, "o Brasil é responsável ainda por produzir 61% de todo o suco de laranja consumido no planeta".[3]

Já no ano de 2004, o Brasil produziu dezoito milhões e trezentas mil toneladas em laranja, o que equivalia a 45% do total em frutas colhido naquele ano, o que tornou a fruta o principal cultivo do setor frutícola no país,[9] enquanto que entre 2015/16, segundo a CitrusBr, "a safra foi finalizada em 300.650.000 caixas de 40,8 quilos em todo o cinturão citrícola.[10]

A principal região produtora de laranja no Brasil é o cinturão citrícola, composto por 349 municípios,[3] sendo que o estado de São Paulo responde, sozinho, por um total de 79% da produção de laranja no país.[11]

A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) reportou em março de 2020 que, em 2019, a quantidade produzida de laranja cresceu 5,62%.[12]

As variedade mais produzidas no Brasil são: valência, valência-folha-murcha, pera-rio, hamlim, westin e rubi.[13]

Evolução da produção de laranja no Brasil (Fonte: Neves; Marcos Fava, Tabela 09)
Ano Toneladas
1970/71 43.480
1980/81 219.020
1990/91 302.990
2000/01 407.562
2008/09 427.010

Produção de limão

Segundo a Embrapa, no Brasil foram produzidas 1.481.322 toneladas de limão em 2018, sendo que a produção no estado de São Paulo corresponde a 79% do total.[14]

As variedades mais produzidas no país são a tahiti e a siciliano[13] e, junto com o México, o Brasil é o maior produtor da variedade tahiti no mundo.[15]

Maiores produtores de limão em 2018 (Fonte: Embrapa)
Estado Produção (tonelada)
São Paulo 1.171.745
Minas Gerais 72.412
Bahia 65.089
Pará 39.120
Rio de Janeiro 20.645

Produção de tangerina

Tangerina (bergamota)

Conhecida como bergamota no Rio Grande do Sul e como tangerina ou mesmo mexerica em outros estados do Brasil, segundo a Embrapa a área colhida desta fruta cítrica passou de 26.312 hectares em 1970 para 48.999 em 2015.[16]

A variedade mais produzida no Brasil é a ponkan.[17]

Maiores produtores de tangerina em 2018 (Fonte: Embrapa)
Estado Produção (tonelada)
São Paulo 384.714
Minas Gerais 203.737
Rio Grande do Sul 144.233
Paraná 137.663
Rio de Janeiro 32.348

Consumo interno

Laranja: de acordo com a CitrusBr, entre 2015/16 era "possível mensurar o mercado interno da fruta in natura ao redor de 39.064.000 caixas de 40,8 quilos".[10] Quanto ao consumo de suco, segundo José Roberto Mendonça de Barros (p. 48 e 49) o consumo médio no Brasil por ano é de apenas 0,5 litro por habitante, o que é considerado um "baixo consumo per capita".[18]

Limão: o consumo brasileiro de limão é de 0,549 kg/ano de acordo com o IBGE.[15]

Tangerina: segundo o Incaper, no Brasil o consumo médio familiar de tangerina Ponkan passou de 1,17 para 1,18 kg per capita por ano entre 2002 e 2008, sendo que as maiores regiões consumidoras são a Sul (2,54kg) e Sudeste (1,38kg).[19]

Exportação

Segundo Neves (p. 17), "em 2009, as exportações do complexo citrícola totalizaram 2,15 milhões de toneladas de produtos e US$ 1,84 bilhão em receita, representando cerca de 3% das exportações do agronegócio.[6]

Já o G1 reportou em janeiro de 2019 que só as exportações de limão chegavam ao valor de US$ 800 milhões por ano[20] e, de acordo com Paulo Lipp João (p. 03), o Brasil ocupa o 5º lugar entre os maiores exportadores de limão.[13]

Volumes exportados (Fonte: Neves; Marcos Fava, p. 19)
Ano Laranja in natura (caixas) Óleo essencial de laranja (toneladas) Dlimoneno e terpenos cítricos (toneladas )
2000 1.846.685 17.564 38.728
2005 751.326 31.690 35.379
2009 641.795 28.408 35.926
Volumes exportados (Fonte: João, Paulo Lipp)
Ano Limão (tipo tahiti/toneladas)
2015 96.631
2016 95.747
2017 92.392

Quanto à tangerina, segundo o Sebrae, "menos de 1% da safra nacional é exportada".[17]

Doenças e Pragas

A citricultura no país surgiu pela introdução das primeiras laranjas no país por colonos à época da colonização, logo trazendo sementes da Europa, que não devem ter introduzido as pragas. Os primeiros relatos registrados de ataques de pragas às plantas de citros no país datam de 1581, sobre formigas (certamente cortadeiras saúvas ou quenquéns ) atacando os pés de laranja e de cidras, na Bahia. Suspeita-se de que queixas oriundas do século XIX sobre a persistência da doença fumagina nos pomares de citros da região fluminense na verdade fossem consequência dos ataques por uma cochonilha conhecida por ortézia ou também conhecida por piolho-branco-da-laranjeira, a Orthezia praelonga, nativa do Brasil[21], e que até hoje configura uma das principais pragas dos citros no país.[22] Estes insetos sugadores de seiva secretam uma substância açucarada sobre a planta, que ocasiona o crescimento do fungo Capinodium citri, cujo bolor leva o nome de fumagina por se parecer com fuligem. Foi por volta de 1931 que ficaram registradas as primeiras preocupações com a aparência de frutos de citros que buscam o "padrão exportação", onde preconizava-se o momento correto de pulverizar as plantas contra o ácaro-da-falsa-ferrugem Phyllocoptruta oleivora [23]e os tripes Frankliniella insularis[24], sendo eventualmente mencionados coccídeos.[25] Desde meados do século XX, vem-se comentando sobre a importância das pragas citrícolas ácaro-da-leprose Brevipalpus phoenicis e, em seguida o psilídeo Diaphorina citri vetor do huanglonbing (também conhecida por greening dos citros)[26].

Um evento particularmente relevante de ser enfatizado foi o aparecimento da doença Tristeza do citros, por volta de 1937 no país, mas que foi diagnosticada como uma doença virótica somente por volta de 1947, depois de ter dizimado cerca de 80% das laranjeiras no país. O vírus da Tristeza do citrus é transmitido pelo pulgão-preto, Toxoptera citricida. Nos anos 70, foi reportado o aumento dos problemas relacionados com a mosca-branca-dos-citros Aleurothrixus floccosus, que estava se expandido a partir de Limeira, SP.[27]

Até cerca de 1987, as maiores ameaças à cultura de citros no Brasil eram diferentes ácaros, de forma que geralmente eram aplicados acaricidas nas lavouras. No entanto, a partir dessa data, a bactéria do xilema Xylella fastidiosa, passou a causar a grave doença clorose variegada dos citros (CVC), sendo transmitidas por cigarrinhas, sendo as espécies mais importantes Acrogonia citrina, Oncometopia facialis e Dilobopterus costalimai, da família Cicadellidae (ordem de insetos Hemiptera)[28]. Logo em seguida, deu-se no Brasil a chegada da doença do greening do citrus, de forma que intensificou-se o combate aos diferentes tipos de cigarrinhas. Em 1996, em Iracemápolis, SP, foi registrado o início dos problema com a larva-minadora-dos-citros Phyllocnistis citrella, que, além de causar por si só grandes danos econômicos por afetar a produtividade dos pomares, esse inseto facilita a infecção por pela bactéria Xanthomonas axonopodis pv. citri, causadora do cancro cítrico que atinge as plantas já jovens[29].

Referências

  1. Dirceu de Mattos Junior, José Dagoberto De Negri, José Orlando de Figueiredo e Jorgino Pompeu Junior (26 de abril de 2005). «CITROS: principais informações e recomendações de cultivo». IAC. Consultado em 12 de outubro de 2009 
  2. «1° D I A d o viveirista de citros. - Portal Embrapa» 
  3. a b c «Citricultura brasileira é a maior do mundo» 
  4. a b Gravena, Santin (2011). «História do controle de pragas na citricultura brasileira». Citrus Research & Technology (2): 85–92. ISSN 2236-3122. doi:10.5935/2236-3122.20110010. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  5. Morais, J. A. David de (1 de dezembro de 2014). «O «mal de Loanda» ou o escorbuto revisitado». Anais de História de Além-Mar: 373–399. ISSN 2795-4455. doi:10.57759/aham2014.36979. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  6. a b c Neves, Marcos Fava. O retrato da citricultura brasileira (PDF). São Paulo: Markestrat | USP 
  7. Fernandes, Bruno Campos [UNESP (2010). «Desenvolvimento histórico da citricultura». Consultado em 1 de agosto de 2025 
  8. Boechat, Cássio Arruda. «O colono que virou suco: terra, trabalho, Estado e capital na modernização da citricultura paulista». Consultado em 1 de agosto de 2025 
  9. «A Indústria Brasileira das Frutas - Ampliação e Conquista de Mercados». Consultado em 1 de outubro de 2009 
  10. a b «PRESS RELEASE: Dados de rendimento e processamento da safra 2015/2016». CitrusBr. 16 de maio de 2020. Consultado em 26 de abril de 2020 
  11. IBGE. «Produção Agrícola Municipal - 2003». Notícia: Milho tem maior aumento, mas soja continua em primeiro lugar no ranking da produção agrícola brasileira de 2003. Consultado em 1 de outubro de 2009 
  12. «PIB do Agronegócio cresce 3,81% em 2019» (em inglês) 
  13. a b c João, Paulo Lipp (2019). Panorama do Limão no RS (PDF). Rio Grande do Sul: UFRGS 
  14. Embrapa (2019). Produção brasileira de limão em 2018 (PDF). [S.l.]: Embrapa 
  15. a b «Com mercado garantido, limão taiti vira alternativa para a fruticultura». 16 de abril de 2018 
  16. Embrapa (2019). Produção brasileira de tangerina em 2018. [S.l.]: Embrapa 
  17. a b «O cultivo e o mercado da tangerina | Sebrae» 
  18. Barros, José Roberto Mendonça de. O mercado da citricultura no Brasil e as suas novas perspectivas. [S.l.]: CitrusBr 
  19. PRODEST; Incaper. «Tangerina Ponkan é excelente opção para consumo alimentar na época de outono/inverno» 
  20. «Produção de limão gera renda de mais de R$ 1 bilhão» 
  21. Mariconi, F.A.M.; Nass, L.L.; Passos, H.R.; Ciniglio Neto, F.; Vieira Jr, F.M.; Campos Neto, H.M. (dezembro de 1994). «Controle da cochonilha (Orthezia praelonga Douglas, 1891) em laranjeira, com inseticidas granulados». Scientia Agricola (3): 474–480. ISSN 0103-9016. doi:10.1590/s0103-90161994000300016. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  22. «Cochonilha (Orthezia praelonga)». Portal Agrolink. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  23. Mariconi, F.A.M.; Motta, R.; Silva, J.M.; Takaoka, M.; Raizer, A.J.; Kato, W.Y. (1986). «Eficiência no combate ao ácaro da falsa ferrugem dos citros Phyllocoptruta Oleivora (ASHMEAD, 1879)». Anais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (2): 751–762. ISSN 0071-1276. doi:10.1590/s0071-12761986000200020. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  24. «Tripes da laranja (Frankliniella insularis)». Portal Agrolink. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  25. Borges, Ana Claudia Giannini; Miranda Costa, Vera Mariza H. de (13 de janeiro de 2005). «A Evolução do Agronegócio Citrícola Paulista e o Perfil da Intervenção do Estado». Revista Brasileira Multidisciplinar (2). 101 páginas. ISSN 2527-2675. doi:10.25061/2527-2675/rebram/2006.v9i2.270. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  26. Zhang, Jingtian; Xiao, Yuxin; Chen, Longtong; Cui, Xiaoqing; Deng, Xiaoling; Xu, Meirong (2 de março de 2023). «First report of Citrus Tristeza virus in Diaphorina citri of different nymphal and adult stages or different sexes collected from field». doi.org. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  27. «Mosca branca (Aleurothrixus floccosus)». Portal Agrolink. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  28. Cosmo, Bruno Marcos Nunes; Galeriani, Tatiani Mayara (2020). «Pragas dos citros: cochonilhas, pulgões, minador dos citros, cigarrinhas, bicho furão e mosca branca dos citros». Revista Agronomia Brasileira (2020). ISSN 2594-6781. doi:10.29372/rab202025. Consultado em 1 de agosto de 2025 
  29. Riley, Timothy D.; Dewdney, Megan M.; Burrow, Jamie D. (19 de julho de 2018). «Sintomas de Cancro Citrico en Arboles de Vivero». EDIS. 2 páginas. ISSN 2576-0009. doi:10.32473/edis-pp307-2018. Consultado em 1 de agosto de 2025