Vírus da tristeza do cítrus
Tristeza do Citros é uma das doenças mais devastadoras da citricultura, em escala internacional. O nome "Tristeza" foi dado devido ao rápido declínio e aspecto "triste" das plantas afetadas. Trata-se, assim, de uma ameaça econômica para regiōes dependentes de produção citrícola, sendo o foco de muitos estudos científicos. A doença é causada pelo Vírus da Tristeza do Citros (ou CTV , do inglês Citrus Tristeza Virus) que é uma espécie viral do gênero Closterovirus (família Closteroviridae) que afeta diversas variedades de citros (i.e. tangerineiras, laranjeiras e toranjeiras). Trata-se de um vírus constituído genomicamente por uma fita única, em tradução sentido positivo, de RNA envelopada em uma cápsula protéica flexível em formato helicoidal medindo por volta de 11 nm diâmetro × 2,000 nm de comprimento [1] .
Formas de transmissão e Sintomas
A principal forma de contaminação das plantas se dá pela picada de insetos sugadores de seiva, especialmente de pulgões (insetos afídeos)[2], sendo a principal espécie transmissora o pulgão-preto-dos-citrinos (Aphis citricidus, antes conhecido por Toxoptera citricida)[3]; outras espécies de pulgões agindo como vetores relevantes da doença incluem o afídeo-verde-do-algodão (Aphis gossypii)[4] e pelo pulgão-marrom Aphis spiraecola.[5] Secundariamente, também sabe-se que Toxoptora aurantii, Myzus persicae, Aphis craccivora e Uroleucon jaceae conseguem adquirir e passar o vírus. Mais recentemente, vem acumulando-se evidências indicando que o psilídeo-asiático-do-citros Diaphorina citri também seria um vetor relevante desta doença.[6][7][8] Por ser um vírus que se limita ao floema da planta, também pode ser transmitido por meio de enxertagem, que também acaba tornando-se uma estratégia de manejo, vide mais adiante. Certos tecidos, particularmente a casca das árvores, os ramos mais verdes e as folhas, acumulam maior carga viral, influenciando no processo.
Curiosamente, alguns parasitas de seiva, a exemplo do cipó-chumbo (Cuscuta spp) também foram demonstrados de terem o potencial de adquirir e até de transmitir o vírus CTV de uma planta para outra, mas bem menos importante do que de insetos com rápida propagação.[9] Existe, ainda, a possibilidade de uma transmissão vertical, uma vez que foi detectada uma carga viral nas sementes de certas variedades do citros, mas esta possibilidade ainda está sendo investigada.[10]
O vírus é adquirido pelo inseto durante sua fase imatura de ninfa, quando se alimenta de uma planta infectada. Aparentemente, o terceiro estágio de desenvolvimento como ninfa é o mais propício para a infecção do inseto, que leva mais de duas semanas incubando os vírus para tornar-se infectivo.[11] Algumas variedades de cítrus apresentam maior resistência à passagem do vírus para insetos não-infectados, e podem assim ser inseridas nos pomares para aumentar a resistência da plantação.[12] De forma semelhante, temperaturas extremas parecem afetar o ciclo viral, sugerindo que algumas zonas climáticas sejam mais suscetíveis à proliferação da doença.[12]
Existem diversas variedades, ou estirpes, do vírus CTV com diferentes intensidades de sintomas[13], mas no geral caracteriza-se no pé de citros por uma marcante murcha seguida de declínio e amarelecimento (clorose), ocasionando a morte da planta no médio ou longo prazo[3]. A severidade dos sintomas depende também de outros fatores, incluindo a cultivar da planta, seu estado nutricional, e o porta-enxerto utilizado. Essencialmente, trata-se de uma doença que afeta a circulação de nutrientes, gerando grandes danos por atrofiar o crescimento dos pés infectados e atingir drasticamente a qualidade dos frutos, que saem menores, deformados, com menor teor de suco e sabor alterado. Não existe uma cura comprovada, e assim a solução recomendada é a eliminação da planta infectada, para evitar que a doença se espalhe mais[14].
Mais tecnicamente, os principais sintomas da Tristeza do Citros vêm de mudanças anatômicas (p.ex., na região da enxertia), tais como alteração de células cromáticas, colapso e necrose dos tubos crivados, super produção e degradação celular pelo floema, acúmulo de floema disfuncional que acaba permeando o córtex. O declínio dos ramos e, consequentemente, as alterações nos frutos decorrem de uma necrose que atinge o floema e os tecidos circundantes tornando-os disfuncionais próximos ao broto ou gema, na junção com o ramo. A causa mortis da planta está intimamente ligada a esta degradação funcional do floema circulante, em que a necrose e colapso estrutural impedem a translocação dos carboidratos produzidos por fotossíntese a partir da copa, de volta para as raízes, ocasionando definhamento do sistema radicular e, consequentemente, da planta inteira[14].
É comum a confusão, tanto por conta dos sintomas como do histórico de espalhamento da doença, com o greening do citrus, que é outra grande ameaça à indústria critícola, mas que causada por bactérias transmitidas por insetos psilídeos.
Importância Econômica e Controle
Devido ao estrago causado pelo vírus Cítrus tristeza virus (CTV) tanto nos pés de citros como nos seus frutos, sendo incurável, esta é considerada a virose de maior importância econômica no mundo para a citricultura. Internacionalmente, estima-se que mais de 100 milhões de árvores foram mortas ou tornaram-se improdutivas por causa da tristeza dos citros. A principal estratégia de controle da doença, no Brasil, tem sido o emprego de porta-enxertos tolerantes à doença.[15][16]
No Brasil, a tristeza dos citros dizimou a citricultura paulista na década de 40 do século XX, quando era prática usual que as variedades-copas eram enxertadas sobre laranja-azeda Citrus aurantium. A citricultura nacional recuperou momento apenas devido, principalmente, à utilização de porta-enxertos mais tolerantes à doença (ou seja, estavam infectados, mas não muito afetados pelo CTV), tais como o limão-cravo Citrus limonia. Tal medida funcionou satisfatoriamente para muitas copas comerciais, a exemplo das laranjas doces Citrus sinensis Hamlin, Valência , Natal e as tangerinas, que têm seus tecidos tolerantes ao vírus. Entretanto, alguns cultivares de citros como a laranja-pêra (C. sinensis), a lima ácida Galego C. aurantiifolia , os pomelos e alguns outros de menor valor comercial, ainda eram atingidos pela tristeza mesmo quando enxertados em porta-enxertos tolerantes.
Outras formas de controle passam pela quarentena de pomares infectados, eliminação das árvores doentes, e mesmo algumas estratégias de "pré-imunização" usando uma inoculação com uma estirpe menos virulenta que por competição expulsaria uma nova infecção mais grave[17].
Referências
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