Drogas do sertão

Drogas do sertão
Castanha-do-pará, uma das principais "drogas do sertão"
LocalAmazônia, Brasil Colônia

As drogas do sertão foram produtos naturais da Amazônia — incluindo sementes, raízes, cascas, óleos e resinas — explorados por colonizadores europeus durante o Brasil Colônia e especialmente no período das entradas e bandeiras.[1] Eram utilizadas como medicamentos, condimentos, corantes, óleos aromáticos e bálsamos, sendo muitas vezes comparadas às especiarias asiáticas em valor e função.[1] O termo “sertão” designava vastas áreas interioranas ainda não ocupadas ou controladas plenamente pela colonização portuguesa, especialmente na região amazônica.[2]

Contexto histórico

O contato com os povos indígenas permitiu aos portugueses conhecer uma ampla gama de espécies nativas com usos farmacológicos, alimentares e cosméticos, muitas delas inexistentes na Europa.[1] A abundância de recursos — alimentos, fibras, madeiras e óleos — despertou o interesse de comerciantes europeus, que passaram a disputar o acesso à região amazônica.[3]

O interesse português estava ligado à perda de posições estratégicas no comércio asiático, à necessidade de ocupação do interior amazônico e à disputa de fronteiras com a Espanha.[1] A região da foz do rio Amazonas tornou-se foco de contrabando conduzido por ingleses, franceses, holandeses e irlandeses desde a década de 1610.[1][3] Em resposta, os portugueses fundaram, em 1616, o Forte do Presépio, origem da atual Belém.[4]

No século XVII, expedições como a de Pedro Teixeira (1637–1639) consolidaram o domínio português até a região de Quito. Jesuítas implantaram missões e dominaram inicialmente a coleta, com apoio de saberes e trabalho indígena.[1] Posteriormente, colonos e bandeirantes assumiram maior protagonismo, resultando em conflitos com ordens religiosas.

Entre 1783 e 1792, o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira percorreu a Amazônia com a Viagem Filosófica, alertando para os riscos da extração predatória e defendendo práticas agrícolas para garantir sustentabilidade econômica.[1]

Principais produtos

As principais drogas do sertão incluíam:[1][3]

O cacau foi o produto mais lucrativo para os portugueses, já apreciado pelos europeus graças ao contato espanhol no México e no Caribe.[1] O guaraná, cultivado pelos Sateré-Mawé, tornou-se conhecido como estimulante e medicinal. A copaíba ganhou fama entre europeus por suas propriedades cicatrizantes, enquanto o pau-cravo e o urucum serviram como condimentos e corantes. A salsaparrilha destacou-se como produto farmacêutico exportado para o tratamento de febres, reumatismo e sífilis.[1]

Legado

O ciclo das drogas do sertão contribuiu para:

  • integração econômica da Amazônia ao sistema colonial português;
  • formação de redes de comércio atlântico;
  • expansão territorial portuguesa na Amazônia;
  • valorização e apropriação do conhecimento botânico indígena;
  • primeiras políticas de controle estatal e missionário sobre populações nativas.

O comércio das drogas antecedeu a mineração aurífera, preparando a ocupação do interior e inaugurando práticas de exploração extrativista que se configurariam também na borracha, séculos depois.[5][6]

Referências

  1. a b c d e f g h i j «As drogas do sertão tipo exportação». Brasiliana Iconográfica. 28 de abril de 2024. Consultado em 18 de novembro de 2024 
  2. Globo Amazônia. (25 de dezembro de 2010). Obras de Belo Monte devem passar em área com árvore em extinção, diz estudo Arquivado em 28 de dezembro de 2010, no Wayback Machine., acesso em 27 de dezembro de 2010
  3. a b c Sommer, Barbara (1 de janeiro de 2023). «"A quem o quizer colher": as drogas do sertão e o Diretório dos Índios, Grão-Pará, 1757-1798». History Faculty Publications. doi:10.51427/10451/62280. Consultado em 18 de novembro de 2024. Resumo divulgativo 
  4. «História de Belém, Pará, Brasil». "Cidades" Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 2012. Consultado em 8 de março de 2018 
  5. Chandless, William (1866). Notes on the River Purús. [S.l.]: Royal Geographical Society 
  6. Fausto, Boris (2017). História do Brasil. [S.l.]: Edusp 

Ver também

Ligações externas