Desigualdade regional no Brasil
_-_Nmbrs_-_colored.svg.png)
- 1 Região Norte
- 2 Região Nordeste
- 3 Região Centro-Oeste
- 4 Região Sudeste
- 5 Região Sul
A desigualdade regional no Brasil é uma das características mais marcantes do país, refletindo disparidades no desenvolvimento econômico, social e político entre suas diversas regiões.[1] Essas desigualdades são um reflexo de um processo histórico que remonta à colonização, quando os modelos de exploração e desenvolvimento foram centrados principalmente em áreas costeiras e nas grandes monoculturas.[2] Ao longo dos séculos, diferentes regiões foram se desenvolvendo de maneiras desiguais, com o Sudeste e o Sul concentrando os maiores recursos econômicos e industriais, enquanto o Norte e o Nordeste enfrentam grandes desafios relacionados a infraestrutura, acesso a serviços essenciais e índices de desenvolvimento humano.[3] Esse desequilíbrio afeta diretamente a qualidade de vida da população, dificultando a mobilidade social e perpetuando a pobreza em áreas marginalizadas.[4][5]
Histórico
A desigualdade regional no Brasil tem raízes profundas que remontam ao período colonial, quando o modelo de exploração do país se concentrou principalmente na extração de riquezas nas áreas costeiras, com a mão de obra escravizada sendo utilizada nas grandes plantações de açúcar. Durante o ciclo do açúcar, o Nordeste foi a principal região produtora, gerando uma concentração de riqueza e poder, mas também criando desigualdades que perdurariam por séculos.[6]
No entanto, à medida que o Brasil se industrializou, especialmente a partir do final do século XIX e ao longo do século XX, outras regiões começaram a concentrar mais recursos e investimentos. O Sudeste emergiu como o principal centro industrial e financeiro, com destaque para São Paulo, que se consolidou como o motor da economia nacional. A industrialização no Sudeste atraiu investimentos, gerou empregos formais e criou um polo econômico que se distanciava das regiões periféricas, como o Norte do Brasil e o Nordeste, que permaneciam mais dependentes de atividades agrícolas e monoculturas, como a cana-de-açúcar no Nordeste e a soja no Centro-Oeste.[7]
A centralização econômica foi intensificada no período pós-Grande Depressão de 1929, com os capitais dos barões do café sendo redirecionados para a indústria. No entanto, o modelo de desenvolvimento adotado, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985), priorizou grandes projetos de infraestrutura e industrialização nas regiões mais desenvolvidas, como o Sudeste e o Centro-Oeste, e negligenciou a periferia do país, aprofundando ainda mais a disparidade regional. Além disso, a falta de políticas públicas direcionadas ao desenvolvimento das regiões mais carentes contribuiu para a perpetuação das desigualdades. Durante grande parte do século XX, as políticas de incentivo à indústria e ao mercado interno concentraram-se nas regiões mais desenvolvidas, enquanto o Norte e o Nordeste eram marginalizados, o que impediu o desenvolvimento de infraestrutura e a criação de empregos formais nessas áreas.[8]
Características
A desigualdade regional no Brasil se reflete em diversas áreas, como a economia, a infraestrutura e o acesso a serviços públicos essenciais. As disparidades entre as regiões são evidentes, com o Sudeste e o Sul apresentando índices de desenvolvimento superiores em comparação com o Norte e o Nordeste.[9] Essas desigualdades se manifestam de forma particularmente acentuada em alguns aspectos:
Disparidade econômica
Uma das características mais marcantes da desigualdade regional no Brasil é a disparidade econômica entre as regiões. O Sudeste, liderado pelo estado de São Paulo, concentra grande parte do Produto Interno Bruto (PIB) do país, sendo responsável por uma significativa parcela da industrialização, comércio e serviços. Em contraste, o Norte e o Nordeste apresentam PIBs per capita significativamente menores, com economias predominantemente baseadas em setores primários, como agricultura e extrativismo, e com menos indústrias de grande porte. A industrialização de regiões como o Sudeste impulsionou a criação de mais empregos formais, melhores condições de trabalho e um maior dinamismo econômico. Já nas regiões Norte e Nordeste, a falta de infraestrutura e a limitada diversificação da economia dificultam a criação de polos industriais e a atração de investimentos.[10]
Infraestrutura e acesso a serviços públicos
A infraestrutura é outro ponto em que a desigualdade regional se evidencia de forma clara. O Sudeste e o Sul do Brasil possuem uma infraestrutura mais desenvolvida, com rodovias, portos, aeroportos e sistemas de transporte público mais eficientes. Isso contribui para a mobilidade das pessoas e o escoamento de mercadorias, favorecendo o crescimento econômico. Em contraste, a infraestrutura da Região Norte e a infraestrutura do Nordeste enfrentam dificuldades estruturais graves. Muitas cidades dessas regiões não possuem acesso adequado a saneamento básico, transporte público de qualidade e até mesmo acesso a energia elétrica. A falta de infraestrutura nas regiões mais afastadas, como na Amazônia e em áreas rurais do Nordeste, agrava ainda mais a desigualdade, dificultando o acesso da população a serviços essenciais e limitando as oportunidades de desenvolvimento. Além disso, o acesso à saúde e à educação é desigual entre as regiões. Enquanto o Sudeste e o Sul possuem um sistema de saúde mais bem estruturado, com hospitais e unidades de saúde bem equipados, a exemplo da infraestrutura de São Paulo, o Nordeste e o Norte enfrentam a carência de unidades de atendimento de qualidade, com longas distâncias a percorrer para acessar cuidados médicos.[11]
Desigualdade no mercado de trabalho
O mercado de trabalho brasileiro também reflete a desigualdade regional, com taxas de desemprego mais elevadas no Norte e no Nordeste, em comparação com o Sudeste e o Sul. Nas regiões mais desenvolvidas, a indústria e o setor de serviços oferecem uma ampla gama de empregos formais, enquanto nas regiões mais carentes, a economia ainda é fortemente dependente de setores informais, como a agricultura de subsistência e o comércio de pequeno porte. Além disso, as oportunidades de qualificação profissional e de acesso ao ensino superior também variam significativamente. O Sudeste e o Sul concentram as melhores universidades e centros de pesquisa do país, enquanto o Nordeste e o Norte enfrentam desafios no acesso à educação de qualidade, com altas taxas de evasão escolar e analfabetismo. A desigualdade no mercado de trabalho também está relacionada à renda. Os estados mais ricos do Sudeste têm uma renda per capita bem mais alta, enquanto os estados do Norte e Nordeste apresentam rendimentos muito abaixo da média nacional, refletindo a falta de oportunidades de emprego formal e qualificado.[12]
Concentração de renda
Entre 1950 e 1990, a divisão regional de renda ficou praticamente inalterada, com algum crescimento da participação das regiões Centro-Oeste e Norte, em decorrência da expansão da fronteira agrícola.[13] Em 1990, a região Sudeste, com 42% da população brasileira, respondia por quase 60% da renda do país, ao passo que o Nordeste, com 30% da população, possuía 15% da renda.[13]
De acordo com estudo do IBGE, em 2008, em 32,9% dos municípios a administração pública continua responsável por um terço da economia, mostrando a dependência do fomento público para manutenção econômica.[14]
A riqueza está concentrada em poucos municípios e foi ampliada em decorrência da centralização de gastos e investimentos públicos, o que causou o congelamento e desestímulo aos desenvolvimentos regional e local.[15]
Educação, trabalho, reforma agrária, transporte e planejamento urbano incipientes provocaram a migração em massa para os grandes centros urbanos, especialmente nas décadas de 60 e 70, o que gerou a formação e o inchaço de aglomerados subnormais - formado por mais de 11,4 milhões de pessoas[16] - que incluem favelas, mocambos, palafitas e outros conjuntos irregulares e carentes de serviços públicos.[17]
Em 1920, os 10% municípios economicamente mais ricos tinham 55,4% de participação no PIB, ampliaram para 72,1% em 1970 e para 78,1% em 2007.[15]
Estudo do IBGE, divulgado em 2010 com dados relativos a 2008, mostrou que seis capitais brasileiras — São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte e Manaus — concentravam 25% do PIB do país.[14] De acordo com o mesmo estudo, as diferenças regionais em cada estado também são claras, visto que, em 2008, os cinco maiores municípios do Amazonas eram responsáveis por 88,1% do PIB estadual, assim como no Amapá (87,6%) e Roraima (85,4%).[14]
Resultado parecido também foi obtido em outro estudo do IBGE divulgado em 2011 com dados de 2005 a 2009 ao detectar que aproximadamente 25% de toda a geração da renda brasileira estava concentrada em cinco municípios (12,6% da população nacional): São Paulo (12,0%), Rio de Janeiro (5,4%), Brasília (4,1%), Curitiba (1,4%) e Belo Horizonte (1,4%).[18]
O Brasil é considerado o país menos desigual da América Latina, embora as capitais Goiânia, Fortaleza, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba estejam entre as cidades mais desiguais do mundo entre 141 cidades de países em desenvolvimento e ex-comunistas, segundo aponta relatório da ONU divulgado em 2010.[19][20]
Dados da pesquisa Contas Regionais do Brasil 2005-2009, realizada pelo IBGE e divulgada em 2011, mostram que, em 2009, oito estados concentravam 78,1% da riqueza econômica do país.[21] Apenas o estado de São Paulo tinha 33,5% de participação na economia nacional em 2009, ao passo que em 2008 concentrava 33,1%.[21]
A renda discrepante também é perceptível na forma de acesso à oferta de alimentos.[22] Segundo Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, a partir de uma amostragem formada por 60 mil domicílios urbanos e rurais, 35,5% das famílias brasileiras não têm a quantidade mensal suficiente de alimentos, mesmo em um contexto de uma agropecuária eficiente e competitiva e um custo de alimentação considerado baixo para os padrões mundiais.[22][23] Esse mesmo indicador mostra a desigualdade entre as regiões brasileiras: no Norte, essa parcela equivale a 51,5% das famílias; no Nordeste, a 49,8%; no Centro-Oeste, 32%; no Sudeste, 29,4%; e no Sul, 22,9%.[22][23]
Uma pesquisa do Ipea, divulgada em 2011, estima que 39,5% dos brasileiros não têm uma conta bancária, cujo acesso depende da renda.[24] Este indicador também mostra as desigualdades regionais, ao apurar que a exclusão bancária atinge 52,6% dos nordestinos e 30% dos sulistas.[24]
Causas

Motivos históricos são apontados como responsáveis pelas diferenças regionais, como:
- falta de políticas públicas para a inclusão social da massa populacional vinda abruptamente do processo escravista;[13]
- o processo de industrialização de cunho concentrador;[13]
- a divisão de terras em latifúndios e voltada para uma minoria;[13]
- as baixas taxas de absorção e remuneração da mão de obra e crises econômicas acompanhadas por longos períodos inflacionários mais sentidas pelas classes menos favorecidas.[13]
Algumas regiões não conseguem avançar em decorrência do isolamento geográfico e da ineficiência do poder público para atender várias demandas, como desenvolver a infraestrutura básica, atrair investimentos e gerar empregos.[25] Alguns municípios não conseguem organizar-se localmente.[25]
Outras condições climáticas, assim como as do solo, são elementos que dificultam o progresso em algumas regiões.[25]
A região com maior concentração de pobreza é o Nordeste, que possui áreas com altos índices de miséria e desnutrição, devido a uma estrutura socioeconômica frágil e marcada pela desigualdade social, ocasionalmente agravada pelas secas periódicas da região e inexistência de rios, que impedem o desenvolvimento da agricultura.[25]
Em alguns municípios os investimentos não foram acompanhados por investimentos em municípios próximos, causando inchaço populacional e violência. Em Brasília, que tem o segundo maior PIB per capita do Brasil,[26] o plano de desenvolvimento da capital do país não contemplou as cidades do entorno[25] e resultou na explosão da violência em cidades como Luziânia, onde, a cada mil jovens de 12 a 18 anos, 5,4 morrem assassinados - o maior Índice de Homicídios na Adolescência da Região Centro-Oeste.[27]
Migrações internas
De acordo com o Censo 2010, 37,3% da população brasileira não morava no município de origem.[28]
De acordo com estudo do Ipea, as migrações internas diminuíram no Brasil de 1995 a 2008.[29] Em 1995, os migrantes eram aproximadamente 4 milhões de pessoas (ou 3% da população) e, em 2008, esse número passou para 3,3 milhões ou 1,9% da população.[29]
Entre 2002 e 2007, os fluxos migratórios foram majoritários do Sudeste para o Nordeste, mas, em 2008, a região Sudeste voltou a ser o principal destino de migrantes no País.[29] O perfil predominante do migrante, neste caso, é a busca pelo trabalho formal, especialmente pela origem marcada pela baixa escolaridade e salários baixos.[29]
Em outra região, o migrante costuma ter uma média salarial superior à dos não migrantes, mas uma jornada média de trabalho de 45 horas semanais.[29]
O último censo demográfico realizado no Brasil detectou que a região Centro-Oeste tem a maior proporção de pessoas de origem diferente morando nos seus municípios (51,9%) e também de outras unidades da federação (32,9%), ao passo que o Nordeste demonstra ser a região com menor capacidade de atração populacional com 29,4% e 7,0%, respectivamente.[28]
-

-
Décadas de 80 a 90 -
Década de 90 em diante
Indicadores
Para compreender de forma mais detalhada a magnitude da desigualdade regional no Brasil, é necessário analisar indicadores específicos que refletem as condições de vida, o desenvolvimento econômico e o acesso a direitos básicos entre as diferentes regiões do país. Os principais indicadores que evidenciam essas disparidades incluem o PIB per capita, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a taxa de escolarização, a expectativa de vida e o acesso a serviços de saúde e educação.[30]
O Produto Interno Bruto (PIB) per capita é um dos indicadores mais utilizados para mensurar a desigualdade econômica entre as regiões do Brasil. O Sudeste, especialmente o estado de São Paulo, lidera o país com um PIB per capita muito superior ao de outras regiões. Isso reflete a concentração de riqueza e o dinamismo da economia nas áreas industriais e de serviços dessa região. Em comparação, o Norte e o Nordeste apresentam PIBs per capita muito mais baixos, em grande parte devido à dependência de economias baseadas na agricultura de subsistência e atividades extrativistas, que geram menos valor agregado e não oferecem as mesmas oportunidades de emprego e crescimento. Esse desequilíbrio reflete diretamente as diferenças no nível de industrialização e nos setores que predominam em cada região. As regiões mais desenvolvidas, como o Sudeste, são grandes polos de indústria, comércio e serviços, enquanto as regiões mais pobres, como o Nordeste, dependem ainda de setores primários com menor valor agregado.[31]
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um indicador composto que mede o progresso de um país ou região em três áreas fundamentais: educação, saúde e renda. O IDH no Brasil também revela disparidades significativas entre as regiões. Estados do Sudeste, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, têm IDHs elevados, o que reflete melhores condições de vida, acesso a serviços de saúde e educação de qualidade, além de uma renda per capita mais alta. Por outro lado, estados do Nordeste e do Norte, como Maranhão, Piauí, Alagoas e Acre, apresentam os menores índices de IDH, principalmente devido ao baixo nível de escolarização, serviços de saúde precários e maiores taxas de pobreza. Isso destaca a persistente disparidade no acesso a direitos básicos e na qualidade de vida, o que dificulta a mobilidade social e perpetua a desigualdade.[32]
A taxa de escolarização e as taxas de analfabetismo também são indicadores cruciais da desigualdade regional no Brasil. Enquanto o Sudeste e o Sul do país apresentam taxas de alfabetização elevadas e altas taxas de escolarização em todos os níveis de ensino, o Nordeste e o Norte enfrentam desafios significativos em relação à evasão escolar e ao analfabetismo, especialmente em áreas rurais e periféricas. A falta de infraestrutura educacional, escolas de qualidade e programas de capacitação voltados para a população mais jovem impede que muitos jovens dessas regiões tenham acesso a uma educação adequada, o que, por sua vez, afeta diretamente suas perspectivas de trabalho e mobilidade social. As disparidades educacionais entre as regiões contribuem para a manutenção das desigualdades de renda e a perpetuação da pobreza.[33]
Outro importante indicador da desigualdade regional é a expectativa de vida, que está diretamente relacionada ao acesso a serviços de saúde de qualidade. O Sudeste, com a melhor infraestrutura hospitalar e maior acesso a tratamentos médicos de ponta, tem uma expectativa de vida média mais alta. Já no Norte e Nordeste, especialmente em áreas rurais e periféricas, o acesso à saúde ainda é limitado, o que resulta em uma expectativa de vida significativamente mais baixa. A falta de acesso a saneamento básico, hospitais públicos mal equipados e a escassez de profissionais de saúde em determinadas regiões são fatores que contribuem para os altos índices de mortalidade infantil, doenças evitáveis e a disparidade na qualidade de vida entre as regiões. A desigualdade no acesso à saúde também se reflete nas diferentes taxas de incidência de doenças como HIV/AIDS, tuberculose, doenças cardiovasculares e mortalidade materna.[34]
Além dos indicadores econômicos e sociais, o acesso a serviços públicos como energia elétrica, saneamento básico, transporte público e segurança pública também reflete a desigualdade regional no Brasil. Enquanto o Sudeste e o Sul possuem uma rede de serviços públicos mais eficiente e universalizada, no Norte e Nordeste, muitas cidades ainda enfrentam dificuldades no fornecimento desses serviços. A falta de infraestrutura básica e de serviços essenciais contribui para a manutenção da pobreza e da marginalização das populações que vivem em regiões menos favorecidas. Além disso, a segurança pública é um grande desafio em muitas regiões mais carentes, onde a violência e o tráfico de drogas são mais prevalentes, enquanto em áreas do Sudeste, a presença do Estado é mais forte e estruturada.[35]
Consequências
Uma das principais consequências da desigualdade regional é o aumento da pobreza, especialmente nas regiões do Nordeste e do Norte, onde a concentração de riqueza é muito menor em comparação com o Sudeste e o Sul. A falta de investimentos em infraestrutura, educação, saúde e geração de empregos formais contribui para a perpetuação da pobreza nessas regiões, criando um círculo vicioso difícil de quebrar.
A exclusão social é outra consequência direta da desigualdade regional. Regiões com menor nível de desenvolvimento enfrentam dificuldades para promover a inclusão social de suas populações, com muitos indivíduos e famílias vivendo em condições precárias, sem acesso adequado a direitos básicos como saúde, educação e moradia. Esse quadro perpetua a marginalização e as desigualdades entre os grupos sociais e aumenta as desigualdades intergeracionais, ou seja, a dificuldade das próximas gerações em romper com a pobreza.
A desigualdade regional também se reflete no acesso desigual a direitos básicos. Enquanto as regiões mais desenvolvidas, como o Sudeste, têm maior acesso a serviços de saúde, educação e segurança, as regiões mais carentes, como o Norte e o Nordeste, enfrentam sérias limitações em termos de infraestrutura e qualidade desses serviços. Esse desequilíbrio no acesso a serviços essenciais agrava ainda mais as condições de vida da população e impede que as pessoas nas regiões mais pobres possam alcançar o mesmo nível de bem-estar e oportunidades que as de regiões mais prósperas. Além disso, a desigualdade de acesso à educação limita as oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional, deixando as pessoas de regiões mais pobres em desvantagem em relação àqueles que têm acesso a um sistema educacional de qualidade. Isso contribui para a baixa mobilidade social e perpetua a disparidade de renda.[36]
Outra consequência da desigualdade regional no Brasil é a concentração de poder nas regiões mais desenvolvidas, especialmente no Sudeste, onde as principais decisões políticas, econômicas e empresariais são tomadas. Essa concentração de poder político e econômico limita a representatividade das regiões mais pobres, resultando em políticas públicas que muitas vezes não atendem às necessidades específicas das populações dessas áreas. Além disso, a concentração de oportunidades de emprego e crescimento econômico nas grandes metrópoles do Sudeste e Sul faz com que muitas pessoas migrem em busca de melhores condições de vida, o que agrava a fuga de cérebros e a depopulação de áreas mais carentes, como o interior do Nordeste e o Norte. Esse movimento populacional pode acirrar ainda mais as disparidades econômicas entre as regiões e enfraquecer as economias locais.[37]
As disparidades regionais também contribuem para o aumento da violência e da instabilidade social. Em regiões como o Nordeste e o Norte, onde as condições de vida são mais precárias, o tráfico de drogas, a violência urbana e os conflitos sociais tendem a ser mais frequentes. A ausência de políticas públicas eficazes para combater a desigualdade e melhorar a segurança nas áreas mais carentes resulta em uma instabilidade social que afeta diretamente a vida das pessoas. Além disso, a violência estrutural, que tem suas raízes na desigualdade socioeconômica, pode levar ao agravamento das tensões sociais e aumentar os índices de criminalidade, criando um ciclo de insegurança e desconfiança nas instituições públicas. A falta de confiança nas políticas de segurança pública também pode levar a uma maior marginalização e a um afastamento da população das instituições governamentais, comprometendo a eficácia de qualquer tentativa de promoção da justiça e da paz social.[38]
A desigualdade regional também impõe sérios desafios para o desenvolvimento sustentável no Brasil. Para que o país consiga alcançar um crescimento inclusivo e sustentável, é necessário que as políticas de desenvolvimento atendam de forma equitativa todas as regiões, garantindo que áreas mais carentes tenham acesso às mesmas oportunidades de desenvolvimento econômico, social e ambiental. O desmatamento e a exploração dos recursos naturais no Norte e no Nordeste, muitas vezes associados a modelos de desenvolvimento predatórios, são um reflexo dessa desigualdade e podem comprometer os esforços de conservação ambiental e de promoção de um futuro sustentável para o país. A falta de políticas ambientais que integrem as regiões mais pobres no processo de desenvolvimento sustentável agrava ainda mais as disparidades e coloca em risco o equilíbrio ecológico e as condições de vida das futuras gerações.[39]
Políticas públicas
As desigualdades regionais no Brasil refletem grandes disparidades em áreas como saúde, educação, infraestrutura e condições econômicas, especialmente entre as regiões Norte, Nordeste e outras mais desenvolvidas. Para enfrentar esse desafio, o país tem adotado diversas políticas públicas com o objetivo de promover um desenvolvimento mais equilibrado.[40]
Entre as principais iniciativas, destaca-se o Bolsa Família e tem sido essencial no combate à pobreza, especialmente no Norte e Nordeste. O Pronatec, que oferece cursos técnicos e profissionalizantes, também tem contribuído para qualificar a população dessas regiões e aumentar as chances de inserção no mercado de trabalho. Além disso, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) foi uma das grandes apostas em infraestrutura, priorizando investimentos em áreas mais carentes. A expansão do uso de energias renováveis, como a solar e eólica, tem ganhado força no Nordeste, promovendo um desenvolvimento sustentável e criando novos empregos.[41][42]
Para fomentar o desenvolvimento regional, o Brasil conta com programas como a SUDAM e a SUDENE, que oferecem incentivos fiscais e financiamentos para atrair empresas e investimentos. A Zona Franca de Manaus, por exemplo, tem se mostrado eficaz em gerar empregos e estimular a economia local. Também há investimentos em rodovias como a BR-163 e BR-319, além da rodovia Transamazônica, que promove a integração regional e melhoram a conectividade e o escoamento da produção em regiões isoladas. A educação também desempenha um papel crucial na redução das desigualdades. Programas como o ProUni e o FIES ampliam o acesso ao ensino superior, principalmente para estudantes das regiões menos favorecidas. As universidades federais e institutos federais criados em diversas regiões também contribuem para a formação de profissionais e o desenvolvimento local. Além disso, a política de cotas tem garantido mais oportunidades de acesso a esses espaços. Em relação ao setor produtivo, o Proagro e o crédito rural têm sido instrumentos importantes para apoiar a agricultura familiar e estimular a produção em áreas do Norte e Nordeste. O turismo, particularmente no Nordeste, também tem gerado uma fonte significativa de emprego e renda.[43][44]
Ver também
- Economia do Brasil
- Quatro Brasis
- Projeto Rondon
- Programa de cidade de porte médio
- Racismo ambiental
- Segregação espacial
- Xenofobia contra nordestinos
Referências
- ↑ De Melo, Luzia Maria Cavalcante; Simões, Rodrigo (8 de junho de 2016). «Desigualdade econômica regional e spillovers espaciais: evidências para o Nordeste do Brasil». Revista Econômica do Nordeste (1): 9–24. ISSN 2357-9226. doi:10.61673/ren.2011.136. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Albuquerque, Roberto Cavalcanti de; Calvalcanti, Clóvis de Vasconcelos (1976). «Desenvolvimento regional no Brasil». https://www.ipea.gov.br. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Siqueira, Tagore Villarim de; Siffert Filho, Nelson Fontes (dezembro de 2001). «Desenvolvimento regional no Brasil: tendências e novas perspectivas». Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Monteiro Neto, Aristides (junho de 2014). «Desigualdades regionais no Brasil : caracterísiticas e tendências recentes». http://www.ipea.gov.br. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Monteiro Neto, Aristides (28 de julho de 2021). «Território e indústria no Brasil : revisitando o passado recente, mirando o futuro – conclusões e apontamentos para políticas regionais». Ipea: 513–541. ISBN 978-65-5635-020-2. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Denslow, David (1 de abril de 1973). «As origens da desigualdade regional no Brasil». Estudos Econômicos (São Paulo) (1): 65–88. ISSN 1980-5357. doi:10.11606/1980-5357313dd. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Nasser, Bianca (dezembro de 2000). «Economia regional, desigualdade regional no Brasil e o estudo dos eixos nacionais de integração e desenvolvimento». Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Rands, Alexandre (1 de novembro de 2012). Desigualdades Regionais no Brasil: Natureza, Causas, Origens e Solução. [S.l.]: Elsevier Brasil
- ↑ Rocha, Sonia (junho de 1998). «Desigualdade regional e pobreza no Brasil: a evolução - 1981/95». http://www.ipea.gov.br. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Neto, Leonardo Guimarães (1998). «Ciclos econômicos e desigualdades regionais no Brasil». Cadernos de Estudos Sociais (2). ISSN 2595-4091. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Albuquerque, Mariana Vercesi de; Viana, Ana Luiza d’Ávila; Lima, Luciana Dias de; Ferreira, Maria Paula; Fusaro, Edgard Rodrigues; Iozzi, Fabíola Lana (abril de 2017). «Desigualdades regionais na saúde: mudanças observadas no Brasil de 2000 a 2016». Ciência & Saúde Coletiva: 1055–1064. ISSN 1413-8123. doi:10.1590/1413-81232017224.26862016. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Azzoni, Carlos Roberto; Ferreira, Dirceu Alves (21 de julho de 1997). «COMPETITIVIDADE REGIONAL RECONCENTRAÇÃO INDUSTRIAL: O FUTURO DAS DESIGUALDADES REGIONAIS NO BRASIL». Revista Econômica do Nordeste (Suplemento Especial): 55–85. ISSN 2357-9226. doi:10.61673/ren.1997.2241. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ a b c d e f Vasconcellos, Marco Antonio Sandoval de; Gremaud, Amaury Patrick; Toneto Júnior, Rudinei Toledo. Economia Brasileira Contemporânea. 3a edição. São Paulo: Atlas, 1999. p.66-81
- ↑ a b c IBGE. (10 de dezembro de 2010). Em 2008, seis capitais concentravam 25% do PIB do país, acesso em 11 de dezembro de 2010
- ↑ a b IPEA. (12 de agosto de 2010). Comunicados do IPEA - Informativo n.º 60 - Desigualdade da renda no território brasileiro, acesso em 13 de agosto de 2010
- ↑ IBGE (21 de dezembro de 2011). Censo 2010: 11,4 milhões de brasileiros (6,0%) vivem em aglomerados subnormais, acesso em 26 de dezembro de 2011
- ↑ Folha de S.Paulo (26 de dezembro de 2011). 11 milhões em favelas, Opinião, Editoriais
- ↑ IBGE (14 de dezembro de 2011). Em 2009, preços das commodities minerais influenciaram a participação de municípios no PIB, acesso em 14 de dezembro de 2011
- ↑ Antunes, Claudia. (20 de março de 2010). País tem 5 capitais entre as 20 cidades mais desiguais. Folha de S.Paulo, acesso em 20 de março de 2010
- ↑ Lauriano, Carolina. (19 de março de 2010). Quatro capitais brasileiras estão entre as mais desiguais do mundo, diz ONU. G1, acesso em 19 de março de 2010
- ↑ a b ABDALA, Vitor (23 de novembro de 2011). Oito estados concentravam quase 80% do PIB nacional em 2009. Agência Brasil, acesso em 24 de novembro de 2011
- ↑ a b c IBGE. (23 de junho de 2010). POF 2008/09 mostra desigualdades e transformações no orçamento das famílias brasileiras, acesso em 28 de junho de 2010
- ↑ a b O Estado de S. Paulo. (27 de junho de 2010). Pobreza sem mistério, acesso em 28 de junho de 2010
- ↑ a b IPEA. (11 de janeiro de 2011). Bancos - Exclusão e Serviços[ligação inativa]. Sistema de Indicadores de Percepção Social, acesso em 11 de janeiro de 2011
- ↑ a b c d e Godoy, Denise. (30 de maio de 2010). O Brasil que não cresce. Folha de S.Paulo
- ↑ IBGE. (16 de dezembro de 2009). Administração pública é responsável por mais de um terço da economia em quase 34% dos municípios brasileiros Arquivado junho 22, 2012 no WebCite , acesso em 30 de maio de 2010
- ↑ Neri, Márcia. (12 de abril de 2010). Crime em Luziânia - Vizinhos do pedreiro ficaram chocados com a revelação de que ele teria matado os seis jovens Arquivado em 14 de abril de 2010, no Wayback Machine.. Correio Braziliense, acesso em 30 de maio de 2010
- ↑ a b IBGE (16 de novembro de 2011). Censo 2010: País tem declínio de fecundidade e migração e aumentos na escolarização, ocupação e posse de bens duráveis, acesso em 18 de novembro de 2011
- ↑ a b c d e Ipea. (17 de agosto de 2010). Comunicado do Ipea n.º 61 – Migração Interna no Brasil, acesso em 17 de agosto de 2010
- ↑ Figueiredo, Erik; Porto Junior, Sabino (abril de 2015). «Persistência das desigualdades regionais no Brasil: polarização e divergência». Nova Economia: 195–208. ISSN 0103-6351. doi:10.1590/0103-6351/2106. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Costa, Romão Maurício (30 de julho de 1994). «DISTRIBUIÇÃO DE RENDA, POBREZA E DESIGUALDADES REGIONAIS NO BRASIL». Revista Econômica do Nordeste (3): 331–384. ISSN 2357-9226. doi:10.61673/ren.1994.2203. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Guimarães, André Rodrigues; Brito, Cristiane de Sousa; Santos, José Almir Brito dos; Guimarães, André Rodrigues; Brito, Cristiane de Sousa; Santos, José Almir Brito dos (2020). «EXPANSÃO E FINANCIAMENTO DA PÓS-GRADUAÇÃO E DESIGUALDADE REGIONAL NO BRASIL (2002-2018)». Revista Práxis Educacional (41): 47–71. ISSN 2178-2679. doi:10.22481/praxisedu.v16i41.7244. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Ferraro, Alceu Ravanello; Kreidlow, Daniel (1 de dezembro de 2004). «Analfabetismo no Brasil: configuração e gênese das desigualdades regionais». Educação & Realidade (2). ISSN 2175-6236. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Caetano, Marcelo Abi-Ramia; Monasterio, Leonardo Monteiro (2014). «Previdência social e desigualdade regional no Brasil: Uma abordagem multiescalar». Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Viacava, Francisco; Porto, Silvia Marta; Carvalho, Carolina de Campos; Bellido, Jaime Gregório (22 de julho de 2019). «Desigualdades regionais e sociais em saúde segundo inquéritos domiciliares (Brasil, 1998-2013)». Ciência & Saúde Coletiva: 2745–2760. ISSN 1413-8123. doi:10.1590/1413-81232018247.15812017. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Ribeiro, José Mendes; Moreira, Marcelo Rasga; Ouverney, Assis Maffort; Pinto, Luiz Felipe; Silva, Cosme Marcelo Furtado Passos da (junho de 2018). «Federalismo e políticas de saúde no Brasil: características institucionais e desigualdades regionais». Ciência & Saúde Coletiva: 1777–1789. ISSN 1413-8123. doi:10.1590/1413-81232018236.07932018. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Cavalcante, Luiz Ricardo (2011). «Desigualdades regionais em ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no Brasil: Uma análise de sua evolução recente». Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Barros, Alexandre Rands Coelho (2012). «Dinâmica das desigualdades regionais no Brasil». Revista Econômica do Nordeste (4): 9–26. ISSN 2357-9226. doi:10.61673/ren.2012.253. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Magalhães, Aline Souza (2011). O comércio por vias internas e seu papel sobre o crescimento e desigualdade regional no Brasil. [S.l.]: Banco do Nordeste do Brasil
- ↑ Magalhães, João Carlos Ramos; Alves, Pedro Jorge Holanda (2021). «A relação entre o crescimento econômico e as desigualdades regionais no Brasil». Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Memória, Caroline Viriato; Caminha, Uinie (1 de dezembro de 2021). «A política de inovação como instrumento de redução das desigualdades regionais no Brasil. | EBSCOhost». openurl.ebsco.com. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Piola, Sérgio F.; Vieira, Fabiola Sulpino (2024). «Financiamento das ações e serviços públicos de saúde no Brasil: Um retrato das desigualdades regionais do período 2010-2022». Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Campos, Francieli do Rocio de; Estanislau, Patrícia (2009). «A Polarização e as Desigualdades Regionais no Brasil». Revista Capital Científico - Eletrônica (RCCҽ) - ISSN 2177-4153 (1): 35–45. ISSN 2177-4153. Consultado em 18 de março de 2025
- ↑ Ismael, Ricardo (25 de maio de 2018). «A evolução do federalismo cooperativo e a persistência das desigualdades regionais no Brasil». Cadernos do Desenvolvimento (7): 187–208. ISSN 2447-7532. Consultado em 18 de março de 2025