Centro Artístico Portuense

O Centro Artístico Portuense foi uma associação de ensino artístico livre fundada em 1880 na cidade do Porto por António Soares dos Reis, João Marques de Oliveira e Joaquim de Vasconcelos. Teve como objetivo promover o ensino e a prática das belas-artes fora do contexto académico, divulgar o gosto artístico e fomentar o estudo do modelo vivo. A sua atividade, desenvolvida entre 1880 e 1893, incluiu cursos, conferências, publicações e exposições, como as célebres Exposições-Bazares de Belas-Artes. O Centro desempenhou um papel pioneiro na socialização do ensino artístico em Portugal e na consolidação da chamada Escola Portuense de Pintura e Escultura.

Centro Artístico Portuense
Fundação1880

O Centro Artístico Portuense foi uma associação de ensino artístico livre fundada na cidade do Porto, em 1880, por um grupo de artistas e intelectuais ligados à Academia Portuense de Belas-Artes. Entre os seus fundadores destacam-se o escultor António Soares dos Reis, o pintor João Marques de Oliveira e o historiador de arte Joaquim de Vasconcelos.[1]

A associação tinha como objetivo promover o desenvolvimento intelectual e artístico dos seus associados, difundir o gosto pelas belas-artes e pelas artes industriais, e criar um espaço de estudo livre e de sociabilidade artística, num contexto de modernização do ensino e das práticas artísticas em Portugal no final do século XIX.[2] Teve como precursores no Porto a Sociedade dos Amigos das Artes (criada em 1835), o Colégio Portuense (1876), e o Ateneu Artístico Portuense (1877). Como precursores em Coimbra, a Sociedade de Instrução dos Operários de Coimbra (1851), a Associação dos Artistas de Coimbra (1861), a Escola Livre das Artes do Desenho de Coimbra (1878). Precursores em Lisboa: a Irmandade de São Lucas (1602), a Sociedade Promotora das Belas Artes em Portugal (1861).[1]

O escultor António Soares dos Reis, o principal criador do Centro Artístico Portuense.

História

Fundado oficialmente a 22 de janeiro de 1880, o Centro Artístico Portuense foi a única associação de ensino artístico livre existente no Porto durante a segunda metade de oitocentos. Reuniu cerca de duzentos sócios, provenientes de diferentes origens sociais, entre artistas, artesãos, professores, amadores e colecionadores.[1]

António Soares dos Reis dirigiu o ateliê de escultura e João Marques de Oliveira o de pintura, enquanto Joaquim de Vasconcelos assumiu a coordenação pedagógica e teórica. Entre os seus associados encontravam-se nomes como Henrique Pousão, Tomás Soller, Custódio da Rocha, António José da Costa, Manuel Maria Rodrigues, Alfredo José Torquato Pinheiro, Silva Porto, José de Brito e o Visconde da Trindade.[3]

Atividades

O Centro desenvolveu atividades em várias áreas:

  • Ensino artístico livre, com cursos de desenho, modelação e estudo do modelo vivo (uma novidade em regime associativo);[1]
  • Exposições e bazares de belas-artes, que contribuíram para a dinamização do mercado de arte portuense;
  • Conferências e publicações, incluindo a revista A Arte Portugueza (1882–1884);
  • Missões arqueológicas e patrimoniais, precursoras da proteção do património artístico e arquitetónico no norte do país.

As suas exposições mais relevantes foram:

  • Primeira Exposição-Bazar de Belas-ArtesPalácio de Cristal, 27 de março a 1 de maio de 1881;[1]
  • Segunda Exposição-Bazar de Belas-Artes — Ateneu D. Pedro IV (atual Museu Nacional Soares dos Reis), 1882;[1]
  • 14.ª Exposição Trienal da Academia Portuense de Belas-Artes (1884) — com uma secção póstuma dedicada a Henrique Pousão, organizada em colaboração com o Centro.[1]
Antigo edifício do Palácio de Cristal, onde decorreu a primeira exposição-bazar do Centro Artístico Portuense.
A última sede do Centro Artístico Portuense, na Rua de Sá de Noronha, 76.


O Centro teve várias sedes no Porto — a primeira na Rua dos Caldeireiros 225, mais tarde também num edifício não identificado em S. Lázaro (algures na esquina da Rua Duque de Loulé e Avenida Rodrigues de Freitas), seguindo-se na Rua do Moinho de Vento 54 (hoje chamada Rua de Sá de Noronha 54), e finalmente na Rua de Sá de Noronha 76 — encerrando as suas atividades em 1893.[1]

Legado

O Centro Artístico Portuense representou uma inovação decisiva na socialização do ensino artístico em Portugal, articulando a prática livre com a reflexão teórica e histórica sobre as artes. Foi um espaço de experimentação e diálogo entre artistas naturalistas e realistas, e contribuiu para a consolidação da chamada Escola do Porto.[4]

Foi pioneiro no ensino artístico a mulheres, oferecendo formação em desenho, pintura e escultura, com a mesma qualidade que para os homens incluindo aulas de nu, algo raro para a época. Por exemplo, o Centro Artístico Portuense oferecia cursos para mulheres de 1880, enquanto que a École des Beaux-Arts, principal academia de arte da França, só admitiu mulheres em 1897, e instituições alemãs como a Universität der Künste Berlin só começaram a admitir mulheres em 1919.

A sua ação influenciou diretamente outras instituições e movimentos posteriores, como o Grémio Artístico, as Exposições do Ateneu Comercial do Porto (1887–1893), e a criação de novas associações de artistas na transição para o século XX.[2]

Ver também

Referências

  1. a b c d e f g h Moncóvio, Susana Maria Simões (2014). O Centro Artístico Portuense (1880–1893): Socialização do Ensino, da História e da Arte Moderna no Portugal de Oitocentos (Tese). Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. pp. 105–120 
  2. a b França, José-Augusto (1990). A Arte em Portugal no Século XIX. II. Lisboa: Bertrand Editora. p. 63 
  3. Machado, Carlos Diogo de Villa-Lobos (1947). Soares dos Reis e o Centro Artístico Portuense. Porto: Livraria Fernando Machado. pp. 45–58 
  4. Rosas, Lúcia Maria Cardoso (1995). Monumentos Pátrios: A Arquitetura Religiosa Medieval — Património e Restauro (1835–1929) (Tese). Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. pp. 124–125 

Bibliografia

  • Moncóvio, Susana Maria Simões. O Centro Artístico Portuense (1880–1893): Socialização do Ensino, da História e da Arte Moderna no Portugal de Oitocentos. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2014.
  • França, José-Augusto. A Arte em Portugal no Século XIX. Lisboa: Bertrand Editora, 1990.
  • Machado, Carlos Diogo de Villa-Lobos. Soares dos Reis e o Centro Artístico Portuense. Porto: Livraria Fernando Machado, 1947.
  • Valente, Vasco. “Soares dos Reis e a fundação do Centro Artístico Portuense.” In Soares dos Reis In Memoriam (1847–1947). Porto: Escola de Belas-Artes do Porto, 1947.
  • Botelho, Maria Leonor. “O Núcleo do Porto e o culto dos Monumentos.” In Portugal, Encruzilhada de Culturas, Artes e Sensibilidades. APHA, 2006.
  • Rosas, Lúcia Maria Cardoso. Monumentos Pátrios: A Arquitetura Religiosa Medieval — Património e Restauro (1835–1929). Porto: Universidade do Porto, 1995.