Caso Spinumviva

O caso Spinumviva foi um escândalo político em Portugal desencadeado por acusações de eventuais conflitos de interesses por parte do Primeiro-Ministro Luís Montenegro. Em causa estará uma empresa de consultoria da propriedade da família de Montenegro, a Spinumviva, e contratos que terá mantido com a operadora de casino Solverde, que atua sob concessão do Estado.[1]

A polémica levou à queda do XXIV Governo Constitucional em março de 2025, na sequência da rejeição de uma moção de confiança na Assembleia da República.

No dia 17 de dezembro de 2025, o Ministério Público anunciou a decisão de arquivar a averiguação preventiva à empresa Spinumviva por não existir notícia da prática de ilícito criminal, encerrando o caso.[2]

Contexto

A 15 de fevereiro de 2025, o jornal Correio da Manhã noticia que a família do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, é dona de uma empresa de consultoria para negócios e gestão, a Spinumviva, que tem como uma das suas atividades a compra e venda de imóveis; a investigação revela que Montenegro seria beneficiário dos proveitos da empresa, sendo que se levanta ainda a suspeita de haver um potencial conflito de interesses por poder beneficiar da alteração à lei dos solos aprovada pelo Governo.[3][4] Montenegro confirmaria a existência da empresa, mas negou quaisquer conflitos de interesse por ter vendido a sua quota maioritária à mulher, Carla Montenegro, quando assumiu a presidência do Partido Social Democrata em 2022, antes ainda se ser eleito primeiro-ministro.[5] O partido Chega criticou a ausência de explicações por parte de Montenegro, e apresentou uma moção de censura na Assembleia da República, que foi rejeitada.[6]

Emergiu, mais tarde, que o negócio da venda da quota do primeiro-ministro à mulher seria nulo, porque ambos estariam casados em regime de comunhão de bens adquiridos e a quota de Montenegro é considerada um bem comum do casal, já que a Spinumviva foi criada depois do casamento.[7] Este facto levantou mais questões de possíveis conflitos de interesses, e Montenegro viu-se pressionado a revelar a lista de clientes da empresa, mas rejeitou fazê-lo.[8]

Duas semanas mais tarde, a 28 de fevereiro, o semanário Expresso publicou que a Spinumviva estaria a receber uma avença mensal de 4500 euros por parte de um dos seus principais clientes, a Solverde, sociedade que gere casinos; os pagamentos terão começado em 2021 e teriam continuado até àquela data, com Montenegro já como chefe do governo.[9] Na sequência desta investigação, a Spinumviva divulgou a lista de clientes, atividades e trabalhadores.[10] Os partidos da oposição exigiram explicações, o Chega pediu a demissão do primeiro-ministro.[11] No mesmo dia, Luís Montenegro anuncia uma reunião de emergência do Conselho de Ministros para "analisar a sua situação política e pessoal",[12] após a qual anunciou que submeteria uma moção de confiança à Assembleia da República caso a oposição não "validasse" o seu governo.[13] Após estas declarações, o Partido Comunista Português anunciou que iria apresentar uma moção de censura ao governo,[14] mas o Partido Socialista que lidera a oposição posicionou-se contra a moção.[15] Poucos dias mais tarde, o Ministério Público anunciou estar a analisar uma denúncia anónima contra Montenegro e a empresa da família[16] e o Partido Socialista pediu uma comissão parlamentar de inquérito ao caso.[17] A 5 de março, a moção de censura do Partido Comunista Português foi rejeitada com 88 votos contra, 14 a favor, e 126 abstenções,[18] mas Luís Montenegro anuncia que o governo irá submeter à votação do parlamento uma moção de confiança,[19] que ficou agendada para 11 de março.[20]

Queda do governo

A 11 de março de 2025, o governo de Montenegro foi demitido ao ver a moção de confiança que apresentou ser rejeitada na Assembleia da República, com 137 votos contra e 87 a favor.[21] O debate da moção de confiança foi marcado por fortes trocas de acusações e tentativas de imputação de culpa entre o Governo e a oposição, especialmente com o PS, após várias recusas durante o debate de propostas do governo de retirar a moção de confiança e a realização de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) com 15 dias de duração ou, após uma interrupção dos trabalhos por 1 hora, uma nova proposta de uma CPI com duração até 80 dias. O PS manteve a exigência de uma CPI com duração de 90 dias prorrogáveis por iguais períodos, pelo que o Governo manteve a moção de confiança.[22]

No dia imediato à votação, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa auscultou os líderes dos partidos políticos no Palácio de Belém e, a 13 de março, convocou o Conselho de Estado; ainda naquele dia, em declaração ao país, o Presidente da República anuncia formalmente a sua decisão de dissolver a Assembleia da República, terminando a XVI Legislatura, e convocar eleições legislativas antecipadas para o dia 18 de maio de 2025.[23]

Referências

  1. «Moção de censura ao Governo de Montenegro: as justificações e um chumbo pré-anunciado». Público. 20 de fevereiro de 2025. Consultado em 7 de março de 2025 
  2. «Spinumviva. MP arquiva averiguação preventiva à empresa da família Luís Montenegro» 
  3. «Família de Montenegro tem empresa imobiliária». Correio da Manhã. 15 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  4. «Mulher e filhos de Luís Montenegro têm uma empresa imobiliária». CNN Portugal. 15 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  5. «Montenegro nega conflito de interesse por família deter imobiliária». Eco. 15 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  6. «Moção de censura. Iniciativa do Chega foi chumbada no Parlamento». RTP. 21 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  7. «Montenegro vendeu participação na Spinumviva à mulher numa operação "nula e inútil"». CNN Portugal. 20 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  8. «"Quem são os clientes?" A questão que ficou no ar no debate da moção de censura e fez renascer polémica». SIC Notícias. 28 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  9. «Solverde paga avença de 4.500 euros à empresa familiar de Montenegro». RTP. 28 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  10. «Empresa da família Montenegro divulga clientes, actividades e trabalhadores». Público. 28 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  11. «Partidos aguardam explicações de Luís Montenegro». RTP. 28 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  12. «Montenegro vai avaliar a sua situação "política e pessoal" para anunciar uma "decisão" ao país amanhã». CNN Portugal. 28 de fevereiro de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  13. «Montenegro exige que PS valide Governo, caso contrário apresenta moção de confiança». CNN Portugal. 1 de março de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  14. «PCP vai apresentar moção de censura ao Governo». SIC Notícias. 1 de março de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  15. «Moção de censura do PCP esbarra no PS de Pedro Nuno Santos». RTP. 1 de março de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  16. «PGR está a analisar denúncia anónima contra Montenegro e a empresa da família». SIC Notícias. 3 de março de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  17. «Pedro Nuno Santos pede uma comissão parlamentar de inquérito ao caso Montenegro». Eco. 4 de março de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  18. «Moção de censura do PCP chumbada e Governo avança com moção de confiança». RTP. 5 de março de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  19. «O discurso e anúncio de Luís Montenegro: Governo vai apresentar uma moção de confiança». SIC Notícias. 5 de março de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  20. «Moção de confiança: Quanto tempo vai demorar o debate? E a que horas é que sabemos se o Governo cai?». Executive Digest. 11 de março de 2025. Consultado em 16 de março de 2025 
  21. «Moção de confiança rejeitada. Governo de Montenegro cai». CNN Portugal. 11 de março de 2025. Consultado em 15 de março de 2025 
  22. «Parlamento rejeita moção de confiança e derruba Governo da Aliança Democrática». euronews. 11 de março de 2025. Consultado em 11 de março de 2025 
  23. «Presidente marca eleições legislativas para 18 de Maio e pede debate "digno e esclarecedor"». Público. 13 de março de 2025. Consultado em 15 de março de 2025