Academia Portuguesa de Belas-Artes de Roma
A Academia Portuguesa de Belas-Artes de Roma foi uma instituição de formação artística destinada a acolher e apoiar estudantes portugueses em Roma durante o século XVIII. Estabelecida com patrocínio régio e sediada talvez no Palácio Cimarra ou no Palácio Magnani (Campo de Marte, perto da Basílica de São Lourenço em Lucina)[1], a Academia teve por objectivo promover o estudo do desenho académico, do nu e a prática de cópia de moldes e gessos, seguindo o modelo pedagógico da Accademia di San Luca.[2]
História

A criação da Academia insere-se nas políticas culturais do reinado de D. João V, que procurou formar artistas portugueses junto dos mestres italianos e das instituições académicas de Roma. O seu primeiro diretor foi Paolo de Matteis, como narrado por Cirilo Wolkmar Machado. A Academia Portuguesa de Roma funcionou como ponto de apoio para bolsistas e como centro de circulação de modelos didáticos (gessos, estampas, gravuras) que seriam posteriormente enviados a Portugal. A atividade institucional manteve-se até à interrupção da presença diplomática portuguesa em Roma, por volta de 1728, com a entrada dos franceses em Roma.[3] Depois foi refundada e teve uma segunda fase, com o diretor Giovanni Gherardo de Rossi.
Alguns dos professores da Academia Portuguesa de Belas-Artes de Roma foram Paolo de Matteis (pintura), Benedetto Luti (pintura e desenho), Francesco Trevisani (pintura), Carlo Monaldi (escultura), Ludovico Stern (pintura), Pietro Labruzzi (pintura), Antonio Cavallucci (pintura e composição), Domenico Corvi (pintura e desenho), Marcello Lombardi (pintura e desenho), e Giuseppe Cades (pintura e desenho).[2]
Objectivos e funcionamento
Os principais objectivos da Academia incluíam:
- financiar e organizar a estada de alunos portugueses em Roma;[4]
- promover o estudo do desenho académico, do nu e da anatomia artística;[5]
- constituir um repositório de modelos pedagógicos — gessos, estampas e gravuras — para uso didáctico em Portugal.[6]
Relação com a Accademia di San Luca
A Academia Portuguesa actuou num contexto dominado pela Accademia di San Luca, cuja prática pedagógica (Concurso Clementino; Academia del Nudo; ênfase no desenho anatómico e na cópia de estátuas antigas) serviu de referência para os métodos ensinados aos bolsistas portugueses. Muitos dos estudantes portugueses de Roma participaram em concursos e foram reconhecidos pela Accademia di San Luca.[7]
Alunos e figuras associadas
Alguns dos artistas portugueses ligados a esta experiência formativa em Roma incluem:
- Francisco Vieira Lusitano (1699–1783) — aluno em Roma; participou em concursos académicos e foi eleito Académico de Mérito da Accademia di San Luca.[8] Estudou com Benedetto Luti.
- José de Almeida (1708–c.1770) — escultor; discipulado em oficinas romanas; premiado em San Luca.[9]
- João da Gama Estroberle (c.1708–1792) — estudante em Roma e premiado em concursos de desenho.[10]
- Joaquim Carneiro da Silva (1727–1812) — gravador; regressou a Portugal e atuou no ensino nacional.[11]
- Domingos António Sequeira (1768–1836) — participou em concursos romanos e teve posterior carreira influente em Portugal.[12]
Actividades e legado
A Academia contribuiu para a constituição de colecções didácticas (gessos, moldes e gravuras) e para a transmissão do método académico romano às academias portuguesas fundadas no século XIX (Academia de Belas-Artes de Lisboa e a Academia/Faculdade do Porto). Muitas práticas pedagógicas e materiais recolhidos por bolsistas em Roma foram incorporados nas instituições de ensino portuguesas posteriores.[13]
Fecho
A actividade regular da Academia cessou por volta de 1728, em consequência da interrupção da acção diplomática portuguesa em Roma. Apesar do encerramento institucional, o modelo formativo romano continuou a influenciar fortemente a formação artística em Portugal nos séculos seguintes.[14]
Bibliografia selecta
- Arruda, Luísa. Roma e a Academia de S. Luca como modelo para os estudos artísticos em Portugal: O Desenho e a literatura artística de Francisco de Holanda a Domingos António Sequeira. (tese/estudo).[15]
- Cipriani, Angela; Valeriani, Enrico (eds.). I disegni di figura nell'Archivio Storico dell'Accademia di San Luca, Vol. II. Roma: Casa Editrice Quazar, 1989.
- Machado, Cirilo Wolkmar. Collecção de memórias relativas às vidas dos pintores, e escultores, architectos, e gravadores portuguezes… Lisboa, 1823.
Ver também
- Accademia di San Luca
- Irmandade de São Lucas
- Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa
- Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto
Referências
- ↑ Markl, Alexandra (1 de janeiro de 2014). «A obra gráfica de Domingos António de Sequeira no contexto da produção europeia do seu tempo». Consultado em 22 de outubro de 2025
- ↑ a b Luísa Arruda, Roma e a Academia de S. Luca como modelo para os estudos artísticos em Portugal: O Desenho e a literatura artística de Francisco de Holanda a Domingos António Sequeira, tese/estudo (documento carregado pelo utilizador).
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.; Angela Cipriani & Enrico Valeriani (ed.), I disegni di figura nell'Archivio Storico dell'Accademia di San Luca, vol. II.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.; consulta a bibliografia especializada.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.; Faria 2007.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.; Markl 1996.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.; estudos sobre as colecções do MNAA e da Faculdade de Belas-Artes do Porto.
- ↑ Luísa Arruda, op. cit.
- ↑ Luísa Arruda, Roma e a Academia de S. Luca como modelo… (PDF).