Ursula Boreal Lopes Brevilheri

Ursula Boreal no Fórum da Procuradoria da Mulher da Câmara de Vereadores de Londrina.

Ursula Boreal Lopes Brevilheri (Cornélio Procópio, 30 de outubro de 2000), conhecida também como Urse, é uma cientista social, produtora cultural e ativista dos direitos humanos brasileira. Seus trabalhos enfocam a linguagem inclusiva, as juventudes e a diversidade de gênero.

Biografia

Brevilheri é uma pessoa transgênero não-binária e travesti.[1] Ursula é licenciada, bacharela e mestra em ciências sociais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).[2] Atualmente é doutoranda em Sociologia na UEL e também cursa Direito na mesma universidade.[3]

Sua pesquisa acadêmica abrange sociologia da educação, estudos de gênero e conservadorismo, transfeminismo, neolinguagem,[4] direitos humanos, teorias queer e decoloniais.[5] Embora ativamente envolvida na defesa LGBTQ+ e na educação cultural,[6] ela participa regularmente de eventos como o Dia da Visibilidade Trans de Londrina para promover a inclusão trans e não-binária.[7]

Em 2025, Ursula proferiu uma palestra intitulada "Juventude e Diversidades na Cena Cultural" para um projeto cultural local, abordando o envolvimento dos jovens com questões de diversidade.[8] Como produtora cultural, ajudou a organizar oficinas gratuitas por meio da iniciativa Usina Cultural "Ligando Pontos" em Londrina.[9][10] Ursula também escreve colunas de opinião para o site de notícias Portal Verdade.[11] Em 2025, ela publicou seu primeiro livro, As armas da cisnormatividade contra a linguagem não binária no Brasil, que analisa os esforços legislativos conservadores para proibir a linguagem neutra em termos de gênero.[12] Além disso, coordena o programa de extensão comunitária "Práxis Itinerante" da UEL, vinculando seu trabalho acadêmico ao ativismo social.[13] Em 2021, sua sugestão legislativa pela "inclusão de marcadores para o campo 'sexo' diferentes de masculino e feminino" no site do Senado Federal alcançou mais de 20 mil votos favoráveis e está em tramitação.[14]

Ursula durante a Jornada pela Visibilidade Trans 2025.

Sua dissertação de mestrado – defendida em janeiro de 2025 – tem o mesmo título de seu livro e foi destaque na Semana de Visibilidade Trans de Londrina,[15] onde ela conectou enfaticamente a ação legislativa cisnormativa ao apagamento de corpos dissidentes.[16] Em seus escritos, Brevilheri alerta que políticos conservadores têm usado atualizações legais para espalhar ódio e falsidades sobre as comunidades LGBTQIA+, e ela pede aos movimentos sociais e educadores que resistam a essas políticas.[17]

Além da pesquisa, Brevilheri é ativa na organização comunitária. Ela ajudou a coordenar a Jornada da Visibilidade Trans em 2025 em Londrina,[18] uma semana de eventos de visibilidade trans organizados em conjunto pelo Práxis Itinerante da UEL e pela Frente Trans local.[19] Seu envolvimento com o Práxis Itinerante remonta aos tempos de graduação: em 2021,[20] como estudante de Ciências Sociais na UEL, integrou a organização do "Sextou Sociológico", um programa sobre desigualdades e perspectivas sociológicas.[21] Em 2024, ela foi uma das principais organizadoras de um simpósio internacional sobre juventude e diversidade na UEL, onde afirmou que o objetivo do projeto era "derrubar os muros da universidade e transformar a teoria em realidade social",[22] capacitando jovens de grupos marginalizados por meio de oficinas de extensão.[23] Sua presença na mídia se estende a podcasts[24] e entrevistas sobre inclusão – muitas vezes discutindo linguagem neutra e direitos trans.[25]

Ela também contribuiu para volumes editados e periódicos acadêmicos sobre tópicos relacionados,[26] e foi entrevistada em fóruns acadêmicos.[27] Seus copesquisadores e colegas incluem o professor Fabio Lanza, seu orientador de tese e colaborador no Práxis Itinerante, e outros membros do Departamento de Ciências Sociais da UEL.[28] Ursula faz parte de Coletivo Trans Não-Binárie,[29][30] La Red No Binarie Latinoamérica y Abya Yala,[14] e Articulação Brasileira Não-Binárie (ABRANB).[31][32]

Brevilheri é abertamente trans não-binária (travesti) e usa sua identidade como parte de sua defesa. Em fóruns públicos, ela destaca como a linguagem e a política moldam a experiência vivida de indivíduos brasileiros transgêneros e não-binários, incluindo aqueles que são neurodivergentes, pessoas gordas e pessoas com deficiência.[33] Ela explica que a cisnormatividade – a presunção de que todos são cisgêneros – "nos quer invisíveis" e defende a resistência por meio da escrita e do ativismo. Seu trabalho foi citado como fundamental para professores, assistentes sociais e advogados que buscam apoiar jovens LGBTQIA+.[34][35][36]

Contribuições teóricas

Ursula defende sua dissertação "As armas da cisnormatividade contra a linguagem não binária no Brasil: colonialidade, conservadorismo e ação legislativa (2020-2024)" em janeiro de 2025.

Boreal contribuiu para os debates transfeministas brasileiros articulando críticas à cisnormatividade, aos limites do feminismo hegemônico e à emergência de identidades não binárias como sujeitas políticas. Sua abordagem transfeminista integra perspectivas decoloniais e questiona categorias clássicas das ciências sociais, como o conceito de habitus de Pierre Bourdieu, para refletir sobre corpos dissidentes de gênero e suas experiências de exclusão estrutural.[37][38]

Entre suas principais contribuições conceituais está a noção de polifonia na linguagem não binária. Ela argumenta que estratégias como a adoção de pronomes neutros ou a alteração de flexões genéricas de palavras com gênero não formam um sistema unificado, mas um conjunto plural de soluções linguísticas produzidas coletivamente que refletem diferentes contextos e necessidades. Ela estende essa ideia para além dos debates sociolinguísticos, aplicando-a ao movimento LGBTQ+ como um todo, que ela interpreta como uma constelação de vozes e perspectivas que podem divergir, mas são possivelmente complementares.[39] Nessa visão, a pluralidade não é um obstáculo, mas uma fonte essencial do potencial político do movimento.[37]

Boreal também analisou discursos e iniciativas legislativas que buscam proibir o uso da chamada "linguagem neutra" no Brasil. Ela argumenta que tais iniciativas, embora frequentemente inconstitucionais, visam principalmente moldar significados culturais e mobilizar pânico moral em relação a corpos e expressões não normativos. Em seu livro, ela mapeia os principais atores políticos por trás desses processos e propõe interpretar a proibição da linguagem neutra, enquanto socioleto, como uma "arma simbólica" da cisnormatividade na esfera pública.[40][38]

Vida pessoal

Ursula é uma travesti não-binária e usa os pronomes ela e ila, que seria um neopronome.[41] Ela nasceu na cidade de Cornélio Procópio mas ainda jovem se mudou para Londrina para estudar Ciências Sociais, cidade onde iniciou seu ativismo e começou a construção de redes de apoio de pessoas trans e não binárias, que culminariam no evento Vem, Menine! em novembro de 2019.[42]

Livros publicados

  • As armas da cisnormatividade contra a linguagem não binária no Brasil (Editora Sorian, 2025).[43]

Referências

  1. «Pessoas trans usam a arte para dizer: 'Basta de nos matar' - Rede Lume de Jornalistas». redelume.com.br. 10 de junho de 2021. Consultado em 2 de julho de 2025 
  2. «As armas da cisnormatividade contra a linguagem não binária no Brasil: colonialidade, conservadorismo e atuação legislativa. – Pós-graduação em Sociologia». Consultado em 2 de julho de 2025 
  3. Brevilheri, Ursula Boreal Lopes (8 de maio de 2025). «Carta ao avô de uma travesti». Portal Verdade. Consultado em 2 de julho de 2025 
  4. Ribas, Dianna de Oliveira (11 de junho de 2025). «Linguagem e emoção: o sofrimento ético-político de professores sobre a abordagem de "linguagem neutra" na escola». The ESPecialist. 46 (1): 587–611. ISSN 2318-7115. doi:10.23925/2318-7115.2025v46i1e68104 
  5. Marques, Luana Cristina Santos (2022). Análise de tentativas de (des)legitimidade da linguagem inclusiva de gêneros (Relatório). [s.n.] 
  6. Medeiros, Raphael Ferreroni Paula Noronha (2023). «Nossos corpos por nós mesmas: desafios a uma tradução feminista de Our Bodies, Ourselves». Pantheon Institutional Repository – via UFRJ 
  7. Rodrigues, Franciele (31 de janeiro de 2023). «Paraná é 8º estado mais violento para população trans no país; estado registrou seis assassinatos em 2022, aponta ANTRA». Portal Verdade. Consultado em 2 de julho de 2025 
  8. Brevilheri, Urse Lopes (18 de março de 2020). «Por uma linguagem mais inclusiva». Parada LGBTI+ de Londrina. Consultado em 2 de julho de 2025 
  9. Costa, Claudia (24 de junho de 2025). «Projeto "Ligando Pontos" tem três oficinas gratuitas de formação cultural». Ideia Delas. Consultado em 2 de julho de 2025 
  10. Elorza, Telma (25 de junho de 2025). «"Ligando Pontos": projeto da Usina Cultural oferece 3 oficinas gratuitas - O Londrinēnse - Sua identidade para o mundo!». Consultado em 2 de julho de 2025 
  11. Rodrigues, Franciele (26 de março de 2025). «Portal Verdade e Aroeira estreiam coluna sobre igualdade e diversidade de gênero». Portal Verdade. Consultado em 2 de julho de 2025 
  12. «Uso da linguagem inclusiva de gênero requer hábito». redelume.com.br. 18 de janeiro de 2022. Consultado em 2 de julho de 2025 
  13. «UEL: Evento internacional promove debates sobre juventudes e diversidades». Portal Verdade. 6 de agosto de 2024. Consultado em 2 de julho de 2025 
  14. a b «Testemunho autoral da ideia legislativa "Regulamentar opções no campo 'sexo' nos Registros Civis que não 'masculino' ou 'feminino'"». www25.senado.leg.br. Consultado em 2 de julho de 2025 – via SUG 27/2021 - Senado Federal 
  15. Stefeni, Laís Amábile (13 de junho de 2025). «Em seu primeiro livro, Ursula Brevilheri analisa as tentativas de silenciamento de corpos dissidentes». Portal Verdade. Consultado em 2 de julho de 2025 
  16. Stefeni, Laís Amábile (13 de junho de 2025). «Em seu primeiro livro, Ursula Brevilheri analisa as tentativas de silenciamento de corpos dissidentes». Portal Verdade. Consultado em 2 de julho de 2025 
  17. «Estudos e práticas sobre aspectos socioculturais das violências contra as mulheres. Volume 4» (PDF). Coleção Sistema de justiça, gênero e diversidades. Assembleia Legislativa de Santa Catarina: Observatório da Violência Contra a Mulher de Santa Catarina (OVM/SC). 2023 
  18. Rodrigues, Franciele (29 de janeiro de 2025). «Londrina sedia Marcha Trans Por Uma Vida Digna nesta quarta-feira (29)». Portal Verdade. Consultado em 2 de julho de 2025 
  19. Botelho, Beatriz Silverio (20 de agosto de 2021). «Desigualdade social é tema do "Sextou Sociológico"». O Perobal. Consultado em 2 de julho de 2025 
  20. «Práxis Itinerante: novas perspectivas às juventudes e populações em situações vulneráveis – Portal». Consultado em 2 de julho de 2025 
  21. «UEL retoma projeto que debate as desigualdades sociais». Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Consultado em 2 de julho de 2025 
  22. «Curso de Introdução à Não-Binariedade e o Direito à Identidade» 
  23. «FILO 2023 - O que o público achou do primeiro espetáculo de rua?». Folha de Londrina. 19 de junho de 2023. Consultado em 2 de julho de 2025 
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  42. Brevilheri, Ursula Boreal Lopes (16 de janeiro de 2025). «As armas da Cisnormatividade contra a linguagem não binária no Brasil: colonialidade, conservadorismo e ação legislativa (2020-2024)». Consultado em 4 de novembro de 2025 
  43. Stefeni, Laís Amábile (4 de julho de 2025). «Em seu primeiro livro, Ursula Brevilheri analisa as tentativas de silenciamento de corpos dissidentes». Portal Verdade. Consultado em 4 de novembro de 2025