Terrorismo estocástico é uma forma de violência instigada por retórica pública hostil, direcionada a um grupo de pessoas ou a um indivíduo. Ao contrário do que ocorre no terrorismo, o terrorismo estocástico é praticado através de linguagem indireta, vaga ou codificada, o que fornece àquele que a instiga negação plausível quanto a qualquer violência associada.[1] Um elemento chave do terrorismo estocástico é o uso da mídia para propagação, onde a pessoa que executa o ato de violência pode não ter conexão direta com nenhum outro usuário de retórica violenta.[2][3][4]
Características
Embora o terrorismo estocástico seja considerado um termo acadêmico sem definição legal formal,[1] a prática se diferencia de outras formas de terrorismo devido a sua natureza pública, indireta e aparentemente aleatória.
Discurso: um grupo ou figura públicos dissemina retórica violenta e incitante, através da mídia de massa, direcionada a pessoas ou grupos de pessoas, algumas vezes sugerindo ou legitimando o uso de violência.[1] Este discurso tende a ser protegido devido à utilização de ambiguidades, codificação, linguagem velada, piadas, insinuações, e outros subtextos contidos em declarações que não atingem o limite criminal de causalidade.[1][5][6][7] A alegação de que foi só uma brincadeira, ou foi só uma piada foi conectada ao início do nazismo.[8] Outros temas identificados incluem narrativas em preto e branco do bem versus o mal,[9] bem como a representação do inimigo como uma ameaça mortal, que foram comparadas às técnicas de radicalização usadas por grupos terroristas.[10][11] Tais ataques são frequentemente repetidos e amplificados dentro de uma câmara de ecomidiática.[12][13]
Orador: um orador é tipicamente uma figura política ou de destaque na mídia, detentora de influência, a quem costuma-se referir como "terrorista estocástico", por sua suposta culpabilidade indireta pelo ataque.[1][7][13][14] O instigador, ou "terrorista estocástico" pode ou não usar esta técnica conscientemente para atacar e intimidar inimigos; no entanto, o efeito permanece o mesmo. A figura pública pode plausivelmente se isentar de qualquer ataque subsequente, já que suas palavras não foram um apelo explícito à violência, e pela inexistência de vínculo organizacional direto entre o instigador e o perpetrador do ataque.[1][15] A figura pública não pode ser processada por suas declarações enquanto estas não se enquadrarem na definição legal de incitação.[16] Esta é a principal distinção entre terrorismo estocástico e outras formas de terrorismo. Nos Estados Unidos, o caso da Suprema Corte "Brandenburg v. Ohio", de 1969, sustentou que discursos violentos e inflamatórios não podem ser criminalizados, a menos que tenham a intenção de, e provavelmente, resultar em ações ilegais iminentes.[5] No entanto, Kurt Braddock alerta que o discurso pode ser bastante perigoso, mesmo que legal.[14]
Inspiração: um indivíduo, ou grupo de indivíduos, sem qualquer conexão com grupos terroristas conhecidos, ouve o discurso e se motiva a cometer violência contra o alvo do discurso, acreditando que isso promoverá um objetivo ideológico ou político.[5][17]Annalee Newitz aponta para as mídias sociais e outros tipos de propaganda que demonizam grupos como uma fonte moderna comum de inspiração.[8]
Probabilidade: enquanto cada ato de violência individual se mostra difícil de prever devido à ausência de conexões de causalidade entre os eventos, o discurso torna as ameaças e os ataques terroristas mais prováveis. Tais ataques, observados como um conjunto de eventos, possuem um relacionamento estatístico válido, mesmo que os ataques individuais sejam demasiadamente estocásticos, para serem previstos com assertividade.[20]
Origem e popularização do termo
O termo "terrorismo estocástico" foi cunhado em 2002 pelo físico e matemático Gordon Woo, um perito em gerenciamento de riscos, com especialização em quantificar riscos catastróficos. Escrevendo para o Journal of Risk Finance sobre o aumento da segurança após os ataques de 11 de setembro, Woo observou que eventos terroristas poderiam ser modelados a partir de princípios econômicos, e que, após um ataque terrorista tão grande, à medida que as sociedades ocidentais aumentavam a segurança, era provável que grupos como a Al-Qaeda mudassem seu foco de ataques altamente direcionados para alvos de oportunidade mais descentralizados.[1][21][22][23][24][25]
O crédito pela definição do termo também foi dado ao blogueiro G2geek, que, em 2011, na plataforma Daily Kos, definiu "terrorismo estocástico" como "o uso da comunicação em massa para incitar lobos solitários aleatórios a realizar atos violentos ou terroristas estatisticamente previsíveis, mas individualmente imprevisíveis", com negação plausível para aqueles que criam mensagens midiáticas.[1][26][27] O artigo abordava o tiroteioem Tucson, ocorrido em 2011.[14]
Em 2016, de acordo com o professor David S. Cohen, "terrorismo estocástico" era um termo acadêmico "obscuro".[28] Durante um comício de campanha em 9 de agosto de 2016, o então candidato Donald Trump comentou: "Se [[[Hillary Clinton]]] puder escolher seus juízes, não há nada que vocês possam fazer, pessoal. Embora, pessoal da Segunda Emenda, talvez haja. Eu não sei." Tais comentários foram amplamente condenados por instigarem a violência, além de serem descritos por Cohen como "terrorismo estocástico", popularizando ainda mais o termo.[14][28][29] Trump continuou a ser criticado por inspirar violência.[30][31][32][33]
Técnicas de contraterrorismo, como a inoculação de atitudes, podem ajudar a explicar a um público amplo como a radicalização e a manipulação funcionam, ajudando a atenuar o impacto de mensagens que aumentam as tendências violentas.[11][14] Seth Jones argumenta que rotular grupos terroristas nacionais, de forma semelhante à rotulação de grupos internacionais, seria útil, embora reconheça que a maior parte da violência de direita é perpetrada por lobos solitários.[34] Rachel Kleinfeld defende o aumento das penas para atos violentos ou ameaças contra autoridades eleitas, mesários e outros funcionários essenciais ao funcionamento de uma democracia, classificando-os como uma classe especialmente protegida, semelhante à classificação dos crimes de ódio.[35]
Embora a jurisprudência dos Estados Unidos defina de forma restrita o crime de incitação, condutas que incitem ódio étnico ou racial são ilegais em muitas outras jurisdições. Na Alemanha, por exemplo, denomina-se Volksverhetzung o discurso que "denigre um indivíduo ou grupo com base em sua etnia ou religião", ou "tenta incitar ódio, ou promover violência, contra tal grupo ou indivíduo", e é punível com pena de até cinco anos de prisão.[36]
Imagem da câmera de segurança da escola no momento do início do massacre na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP).Março de 2019 – Massacre de Suzano: dois jovens, de 17 e 25 anos, invadiram a Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, e mataram sete pessoas – cinco alunos e duas funcionárias do colégio. Em seguida, um deles atirou no comparsa e cometeu suicídio. Luís Antônio Alves Meira e Ramon Spaaij, sociólogo holandês, classificaram o evento como exemplo de terrorismo estocástico, refletindo um padrão de violência encontrado em ataques similares, como o Massacre de Isla Vista, motivados por um sentimento de ressentimento e vitimização, e encontrando no bullying um gatilho.[37][38]
Dezembro de 2019 – Ataque à sede da produtora Porta dos Fundos com coquetéis molotov: as jornalistas Debora Diniz e Giselle Carino classificaram como terrorismo estocástico o ataque à sede da produtora do programa de humor, de autoria de um grupo extremista autodenominado Comando de Insurgência Popular Nacionalista da Família Integralista Brasileira. O grupo agiu em resposta ao especial de Natal da Netflix, "A Primeira Tentação de Cristo", que satirizava figuras religiosas.[39]
Estados Unidos
Início da invasão ao Capitólio, no dia 6 de janeiro de 2021, conforme gravação de câmera de segurança2009 – Assassinato de George Tiller: foi descrito como um exemplo de terrorismo estocástico, já que muitos programas de opinião e programas de rádio conservadores o demonizaram repetidamente por sua realização de abortos pós-viabilidade.[29][40][28]
2010 – Tiroteio na rodovia de Oakland: Byron Williams estava a caminho dos escritórios da American Civil Liberties Union e da Tides Foundation, planejando cometer assassinatos em massa, "indiretamente habilitado pelas teorias da conspiração" de Glenn Beck e Alex Jones.[27]
2012 – Tiroteio no Family Research Council: também citado como exemplo de terrorismo estocástico.[27]
2017 – Tiroteio no jogo de beisebol do Congresso: descrito como um ato de terrorismo estocástico.[41][42]
2018 – Tentativas de atentados com bombas pelo correio: atribuídas por Barbara MacQuade,[2] Medhi Hasan[43] e Jonathon Keats[44] como terrorismo estocástico indiretamente inspirado pela retórica de Donald Trump.
2020 – Plano de sequestro de Gretchen Whitmer: descrito por Molly Amman e Reid Meloy como exemplo de terrorismo estocástico.[1][5][11][45]
Início dos anos 2020 – Ataques à comunidade LGBT: incluem ameaças de bomba a hospitais infantis e o tiroteio em uma boate em Colorado Springs. Ativistas de direita como Matt Walsh e Chaya Raichik foram acusados de terrorismo estocástico por comentaristas como Kristofer Goldsmith[46], Helen Santoro[47] e Juliette Kayyem.[48][49]
Outubro de 2022 – Ataque a Paul Pelosi: o agressor afirmou estar procurando Nancy Pelosi, e queria intimidar outros legisladores democratas, ações descritas por alguns comentaristas e acadêmicos como terrorismo estocástico.[41][58][59][60].
Setembro de 2024 – Rumores em Springfield, Ohio: falsas alegações de que imigrantes haitianos estavam roubando e comendo animais de estimação foram amplificadas por figuras da direita americana, especialmente Donald Trump e seu vice J. D. Vance.[61][62] Nos dias seguintes, Springfield recebeu dezenas de ameaças de bomba,[63] levando comentaristas, o senador Brian Schatz, Elie Mystal e administradores escolares a sugerirem que Trump e Vance estavam promovendo terrorismo estocástico.[64][65][66]
2025 – Tiroteios contra legisladores em Minnesota: descritos por vários comentaristas como exemplo de terrorismo estocástico [16][67][68].
Finlândia
Junho de 2024 – Ataques com faca em Oulu: dois ataques motivados por racismo foram descritos como terrorismo estocástico pela organização Green Sisu.[69] Eles apontaram que os ataques foram precedidos por anos de retórica hostil de políticos da extrema-direita finlandesa, especialmente do Partido dos Finlandeses.[70][71]
Reino Unido
2016 – Assassinato de Jo Cox: o assassinato da parlamentar britânica Jo Cox por Thomas Mair, um supremacista branco, antes do referendo do Brexit, foi descrito como terrorismo estocástico.[72] As opiniões de Mair — incluindo sentimentos anti-imigrantes e anti-refugiados — fazem parte do discurso político britânico contemporâneo. O juiz que presidiu o caso enquadrou o crime no contexto do nazismo, separando-o do discurso político moderno, em vez de destacar grupos e figuras extremistas contemporâneos, que provavelmente influenciaram Mair.[73]
↑ abcMcQuade, Barbara (27 de fevereiro de 2024). Attack from Within: How Disinformation Is Sabotaging America (em inglês). Nova Iorque: Seven Stories Press. pp. 192–193. ISBN 978-1-64421-363-6. Consultado em 15 de setembro de 2025. Al-Qaeda and ISIS were engaging in a tactic known as 'stochastic terrorism,' the incitement of violence through public demonization of a group or individual.
↑ abHutterer, Michaela (2 de junho de 2023). «From Sparks To Fire»(PDF). Max Planck Institute for the Study of Crime, Security and Law. Consultado em 15 de setembro de 2025
↑Woo, Gordon (dezembro de 2003). «Insuring Against Al-Quaeda»(PDF). Cambridge: National Bureau of Economic Research. Consultado em 15 de setembro de 2025
↑ abcHamm, Mark S.; Spaaij, Ramón (9 de maio de 2017). The Age of Lone Wolf Terrorism (em inglês). Nova Iorque: Columbia University Press. ISBN 978-0-231-54377-4. Consultado em 15 de setembro de 2025