Paço Municipal de Porto Alegre
| Paço Municipal de Porto Alegre | |
|---|---|
![]() Fachada do Paço Municipal | |
| Informações gerais | |
| Nomes alternativos | Paço dos Açorianos Prefeitura Velha |
| Tipo | Público, governamental |
| Estilo dominante | Eclético |
| Arquiteto | Giovanni Carrara Colfosco |
| Início da construção | 1898 |
| Fim da construção | 1901 |
| Website | http://www2.portoalegre.rs.gov.br/vivaocentro/default.php?p_secao=68 |
| Geografia | |
| País | Brasil |
| Localização | Praça Montevidéu, n.° 10, Centro Histórico de Porto Alegre. |
| Coordenadas | 🌍 |
| Localização em mapa dinâmico | |
O Paço Municipal de Porto Alegre, também conhecido como Paço dos Açorianos ou Prefeitura Velha, e desde 2022 sede do Museu de Arte do Paço, é um prédio histórico brasileiro situado na Praça Montevidéu, no Centro Histórico de Porto Alegre, a capital do estado do Rio Grande do Sul.
É um dos mais icônicos e importantes marcos arquitetônicos da cidade, com uma rica decoração alegórica na fachada de caráter positivista. Inaugurado em 1901, com projeto do italiano radicado no Brasil Giovanni Carrara Colfosco, por muito tempo sediou o gabinete do prefeito, a Câmara de Vereadores e outros órgãos administrativos. Tombado pelo município em 1979, a partir de então entrou em um longo período de reformas e restauração, concluído em 2003. Em 2022, na semana de comemorações dos 250 anos de fundação da cidade, o prefeito passou o prédio para a administração da Secretaria Municipal da Cultura, que ali instalou o Museu de Arte do Paço, depositário da Pinacoteca Aldo Locatelli, um dos equipamentos do Acervo Artístico da Prefeitura de Porto Alegre.
História
O Paço Municipal foi construído para ser a sede da Intendência de Porto Alegre, que até então funcionava em diversos espaços alugados. Eleito pelo Partido Republicano Rio-Grandense em 1897, o intendente José Montaury comprometeu-se com a construção de uma sede definitiva para o Poder Executivo local. Para tal, foram necessários o aterro da Doca do Carvão e a venda de terrenos municipais a fim de levantar fundos para a obra.[1]
O primeiro projeto para a Intendência foi do engenheiro Oscar Bittencourt, mas devido a ponderações de ordem política o projeto foi vetado e encomendou-se um novo desenho ao veneziano Giovanni Colfosco, seguindo um estilo eclético com predomínio da influência neoclássica. A pedra fundamental foi lançada em 5 de abril de 1898, e a construção iniciou em 28 de setembro daquele mesmo ano. O prédio foi concluído em abril de 1901, sendo ocupado a partir de 15 de maio pela Intendência, o Conselho Municipal, o Arquivo, a Inspetoria de Veículos, a Assistência Pública e o primeiro Posto Policial, com sua respectiva cadeia. O custo final da obra chegou a 500 contos de réis, e a maior parte dos materiais empregados proveio da própria Porto Alegre.[1][2] A decoração interna foi concluída em torno de 1910, ficando a cargo de Fernando Schlatter a pintura ornamental, Joseph Wollmann produziu os vitrais, Emmerich Berta produziu elementos decorativos em ferro forjado, incluindo a guarda das escadarias de mármore, lampadários e os portões do térreo, e Carlo Fossati se responsabilizou pelos frisos em relevo no teto do Salão Nobre e pela criação dos leões de mármore na entrada. Ornamentos em bronze da fachada foram encomendados na França.[2]


Concebido simbolicamente como uma afirmação monumental dos ideais cívicos e do progresso, foi o primeiro prédio da cidade a exibir decoração de caráter positivista, ideologia muito influente nos governos do estado e dos municípios, com rica estatuária alegórica na fachada, e o partido geral da planta, em forma de H, deixou profunda influência na arquitetura oficial do período.[3][4]
Segundo Arnoldo Doberstein, o grupo estatuário da esquerda ilustra as bases econômicas do estado, com figuras representando a deusa Deméter, simbolizando a Agricultura; o deus Hermes, simbolizando o Comércio, e uma figura feminina sem relação com o panteão clássico, mas com atributos que a identificam como a Indústria. No grupo da direita, as estátuas representariam a Liberdade, portando atributos da Vitória e da Lei; a musa Clio, representando a História; ela porta um martelo para significar que ela forja a Democracia, no sentido em que é inevitável a evolução histórica em direção ao devir positivo; e por fim, uma figura masculina com uma tábua ou livro e um instrumento de escrita, interpretada como a Ciência; neste grupo, uma estatueta de Péricles representa a Democracia Ateniense, considerada superior à democracia moderna. Wachholz, Reinke & Saldanha fazem uma outra interpretação deste grupo, sugerindo que em vez de Clio a figura representa uma síntese dos atributos de todas as filhas de Mnemosine, deusa da Memória e mãe das musas, "não gerando a Democracia em si, mas exaltando, por meio das artes, os feitos e a glória republicana dos heróis do passado. Em ambos os casos, ela atua com a função da História Positivista". Quanto à figura masculina escrevendo, sugerem que possa simbolizar o Legislador, "aquele que escreve e promulga as leis que sustentarão a liberdade republicana". Duas estátuas isoladas representam a Justiça e a República. Na fachada também existem bustos de José Bonifácio e do marechal Deodoro da Fonseca e efígies de Floriano Peixoto e Júlio de Castilhos, governador do estado, grande líder do Partido Republicano Rio-Grandense e o grande mentor do republicanismo positivista. No centro encontra-se o Brasão da República.[5][4]

Wachholz, Reinke & Saldanha fazem notar que quase todas as figuras alegóricas divergem de alguma forma da iconografia canônica, sendo reinterpretadas na óptica positivista. Por exemplo, a figura da República difere do padrão por segurar o globo terrestre, símbolo romano de domínio sobre o mundo, sobre o qual está assentada uma águia, símbolo da autoridade de Zeus, o deus grego supremo. A Justiça não tem os tradicionais olhos vendados, mas está de olhos abertos para não cometer erros na premiação do bem e na punição do mal; além disso, a sua espada mostra que ela é uma Justiça punitiva, "de um governo que esmagou os inimigos da República". Segundo os autores, "não há, em um único espaço do prédio, referência à população local ou a qualquer elemento cultural da cidade de Porto Alegre. Todos os símbolos são externos ao poder municipal, seja estadual, na figura de Júlio de Castilhos, seja ao nacional, nos heróis da República. Mesmo as figuras alegóricas cívicas remetem a um discurso avesso às regionalidades – à exceção do Patriarca do Rio Grande do Sul (Júlio de Castilhos). O prédio do poder municipal discursa sobre esferas de poder muito além das suas, um monumento erguido para posicionar, dentro da 'sala de visitas do Rio Grande do Sul', a ascensão do poder republicano – mas um poder autoritário e messiânico".[4]

O emprego de ordens clássicas não impediu adaptações criativas e simbólicas dos padrões estilísticos tradicionais. Por exemplo, a ordem dórica no térreo representaria o Poder, e a coríntia, ao alto, falaria da Harmonia e da Justiça. O corpo do prédio tem volumetria movimentada, tripartida, com elementos angulares que se projetam à frente. Todas a quatro fachadas são decoradas com cuidado, embora a estatuária e maior ornamentação se concentrem na fachada principal, onde também se eleva uma pequena torre central. Janelas em edícula com tímpanos, platibandas, balaustradas, embasamento simulando pedra rústica, e grandes leões de mármore nas escadarias laterais da frente contribuem para acentuar a beleza e interesse do conjunto.[5]
Em 1925 o intendente Otávio Rocha ordenou a urbanização do largo defronte ao Paço (hoje denominado Praça Montevidéu), com um amplo canteiro gramado em forma de elipse, sendo instalada em seu centro uma fonte com a estátua A Samaritana, criada por Alfred Adloff. Dez anos depois a fonte foi transferida para a Praça da Alfândega, e em seu lugar foi instalada a Fonte Talavera de La Reina, doada pela colônia espanhola em homenagem ao centenário da Revolução Farroupilha. Entre 1926 e 1927 as salas no térreo foram adaptadas para a instalação da Contadoria-Geral do Município, a Receita, a Tesouraria e a Procuradoria. Em 1933 o teto do Salão Nobre foi reformado e foram acrescentados elementos em alabastro, o antigo assoalho foi substituído por um piso em parquet de diferentes cores, formando desenhos geométricos, e a decoração original das paredes foi recoberta com nova pintura. No ano seguinte o pátio interno do edifício foi fechado na parte de trás com a construção de uma ala térrea entre os dois blocos laterais, e o Salão Nobre foi muito reformado.[2]

Em 1964 as telhas de barro capa-canal foram substituídas por telhas de cimento amianto.[2] Em 1977 o Paço foi incluído pela Prefeitura no Inventário dos Bens Imóveis de Valor Histórico e Cultural e de Expressiva Tradição,[6] sendo tombado em 21 de novembro de 1979.[2] Nas décadas de 1980 e 1990 foram feitas grandes obras de manutenção e recuperação de espaços e estruturas degradados. Neste período o Acervo Artístico Municipal, até então armazenado e exposto no Paço, foi transferido para a guarda temporária do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, até que as reformas terminassem. Isso aconteceu em 2003, mas o acervo só retornou para sua casa em 2008.[2]
A demorada restauração procurou recuperar na medida do possível o aspecto original do prédio, e envolveu profundas intervenções na fachada e no interior, com reforço de estruturas, limpeza, recomposição de lacunas na alvenaria, substituição das telhas de amianto por cerâmicas, remoção de elementos acrescentados tardiamente no interior como painéis, esquadrias e divisórias, recuperação de antigas pinturas decorativas ocultas sob sucessivas camadas de tinta, o porão foi rebaixado e saneado para possibilitar um pleno aproveitamento dos seu amplos espaços, pisos de ladrilhos hidráulicos, escadarias de mármore e gradeados de ferro originais tiveram peças danificadas substituídas por cópias, e a Praça Montevidéu em frente foi revitalizada.[2]
Museu de Arte do Paço

No final de 2021 foi anunciado que o Paço Municipal deixaria de abrigar a sede administrativa da Prefeitura. No início de 2022 a Prefeitura começou sua mudança para um novo endereço, o Edifício Habitasul, na Travessa General João Manoel n° 157, e em 26 de março ocorreu a entrega do prédio para a Secretaria Municipal da Cultura, para possibilitar a instalação do Museu de Arte de Porto Alegre. A solenidade integrou as comemorações pelos 250 anos da Capital. Contudo, o gabinete do prefeito e o Salão Nobre serão reservados para utilização do Executivo.[7][8][9]
Em junho de 2022 foi assinado um convênio entre a Prefeitura e o Fundo para Recuperação de Bens Lesados para financiamento do restauro e adaptação do prédio,[10] e em setembro foi recebida a primeira doação para o novo museu, um busto em bronze de Borges de Medeiros, do artista português Rodolfo Pinto do Couto, datado de 1923.[11] Durante a grande enchente de 2024 o prédio foi inundado, prejudicando a instalação definitiva do museu. Depois de reparos emergenciais, as atividades foram retomadas em 19 de outubro com a abertura da exposição Marco Zero.[12]
Em 16 de dezembro de 2024 a Câmara de Vereadores aprovou projeto do Executivo criando oficialmente o museu, com o nome Museu de Arte do Paço. De acordo com a lei, sua missão é "preservar, pesquisar e comunicar a história e a produção das artes visuais, em especial de Porto Alegre, a partir da promoção e divulgação do seu acervo, enfatizando a história política e a arquitetura do Paço Municipal, sua sede, e local de origem das pinacotecas do município, processo histórico que o constitui, visando contribuir para o desenvolvimento sociocultural da comunidade, do Estado e do país".[13] Alem de organizar eventos diversos e mostras de convidados, o museu preserva e expõe o acervo da Pinacoteca Aldo Locatelli, a principal coleção do Acervo Artístico da Prefeitura de Porto Alegre.[14]
Em 2025 foi montada uma exposição fotográfica recordando os impactos da enchente de 2024 na capital,[15] e no mesmo ano foi montada uma mostra comemorativa dos 100 anos do Salão de Outono de 1925, o primeiro grande evento das artes plásticas do estado e um marco na história da arte moderna no Rio Grande do Sul.[16]
Ver também
Referências
- ↑ a b Franco, Sérgio da Costa. Guia Histórico de Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da UFRGS / Prefeitura Municipal, 1988
- ↑ a b c d e f g Medeiros, Arthur Thiago Thamay & Silva, Fábio Pinto da. "Anamnese do Paço dos Açorianos de Porto Alegre: análise das dimensões arquitetônicas". In: Arquitetura e Lugar, 2024; 2 (5): 73-91
- ↑ Weimer, Günter. Arquitetos e construtores no Rio Grande do Sul. Santa Maria: Editora da UFSM, 2004, 204 pp.
- ↑ a b c Wachholz, Wilhelm; Reinke, André Daniel; Saldanha, Marcelo Ramos. "Paço dos Açorianos: a estética religiosa do positivismo castilhista na Primeira República (1889-1930)". In: Protestantismo em Revista, 2019; 45 (1): 83-106
- ↑ a b Doberstein, Arnoldo Walter. Estatuária e Ideologia: Porto Alegre 1900-1920. Porto Alegre: SMC, 1992
- ↑ "Lei nº 4317 de 16 de setembro de 1977". Prefeitura de Porto Alegre
- ↑ "Prefeitura de Porto Alegre se mudará para prédio com vista para o Guaíba". Zero Hora, 25/12/2021
- ↑ "Prédio da nova sede administrativa será entregue à prefeitura nesta quinta-feira". Prefeitura de Porto Alegre, 03/03/2022
- ↑ Mendonça, Lissandra. "Paço Municipal será transformado em Museu de Arte de Porto Alegre". Prefeitura de Porto Alegre, 26/03/2022
- ↑ "Prefeitura assina convênio para recuperação do Paço dos Açorianos". Prefeitura de Porto Alegre, 24/06/2022
- ↑ "Busto de Borges de Medeiros é a primeira doação feita ao novo Museu do Paço". Prefeitura de Porto Alegre, 12/09/2022
- ↑ "Museu de Arte de Porto Alegre retoma atividades com exposição". Prefeitura de Porto Alegre, 19 de outubro de 2024
- ↑ Canto, Andressa de Bem e. "Aprovada criação do Museu de Arte do Paço". Câmara Municipal de Porto Alegre, 16 de dezembro de 2024
- ↑ Silva, Luiz Mariano Figueira da. A formação do acervo artístico de Porto Alegre: a gênese das pinacotecas municipais nos anos 1970. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013, pp. 25-44
- ↑ "Mostra fotográfica da enchente terá exposição no Museu de Arte do Paço em Porto Alegre". Correio do Povo, 09/05/2025
- ↑ Maria, Marihá. "Exposição comemora centenário do 1º grande evento de artes visuais de Porto Alegre". Sul 21, 05/06/2025

