Orquestra Villa-Lobos

Orquestra Villa-Lobos é uma orquestra brasileira sediada na cidade de Porto Alegre. Fundada em 1992 como um projeto de educação musical da Escola Municipal de Ensino Fundamental Heitor Villa-Lobos, tem uma distinguida trajetória e é reconhecida também pelo seu positivo impacto social. Gravou vários álbuns e recebeu muitos prêmios. É um Patrimônio Cultural Imaterial de Porto Alegre.
História
A orquestra foi idealizada e organizada em 1992 por Cecília Rheingantz Silveira, professora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Heitor Villa-Lobos, situada na Vila Mapa, bairro Lomba do Pinheiro, na periferia de Porto Alegre. Silveira atua desde sua criação como coordenadora e regente.[1][2] A escola se situa numa das comunidades mais carentes da capital.[2] Conforme declaração da fundadora, "as crianças e os adolescentes estavam à margem da vida cultural da cidade, desassistidos socialmente e sem perspectivas de futuro. O envolvimento com a drogadição e a criminalidade se tornava quase inevitável, assim como a estagnação social. [...] A localidade se caracteriza por população de baixa renda vitimada pelo desemprego, consumo e tráfico de drogas, desestrutura familiar, violência doméstica, principalmente contra a mulher, gravidez precoce, prostituição e delinquência juvenil, além de sofrer com problemas estruturais, como ocupação indevida de terrenos, construções irregulares, alta densidade demográfica, saneamento e atendimento de saúde precários, ausência de praças e áreas de lazer, entre outros".[3]

A ideia surgiu a partir das constantes solicitações dos alunos para receberem alguma formação em música.[2] Iniciando com o nome de Clube de Flautas, Silveira reuniu 15 jovens para receberem aulas de flauta doce fora do horário das aulas regulares. Em 1993 o projeto chamou a atenção da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, sendo incluído em seu programa de incentivo a projetos sociais, e a partir de 1999 diversos outros apoiadores se associaram, injetando recursos essenciais para sua expansão, contratação de mais professores e compra de equipamentos.[4] Com o sucesso da iniciativa, o projeto passou incluir as escolas Saint Hilaire, Afonso Guerreiro Lima e São Pedro e o Centro de Promoção da Criança e do Adolescente São Francisco de Assis,[2] atraindo cada vez mais estudantes. Em 1997 o grupo já era grande o bastante para assumir o nome Orquestra de Flautas, e ao completar 18 anos de existência, mudou a denominação para Orquestra Villa-Lobos, que mantém até hoje.[4][5]

O projeto se destina a promover o acesso ao conhecimento musical e a vivências artísticas, desenvolver a autoestima, estabelecer laços com a cultura local e ampliar as possibilidades de participação na sociedade.[6] Oferece iniciação musical para a comunidade e professores e cursos específicos de flauta doce, violino, viola, violoncelo, violão, cavaquinho, piano, baixo elétrico, gaita-ponto, percussão e canto coral,[7] além de sapateado, dança e teatro.[5]

De 300 a 400 jovens são atendidos e cerca de 20 mil já passaram pelo projeto, muitos deles depois seguiram carreiras na música.[2][5] Para muitos outros, a experiência teve um impacto transformador para o desenvolvimento da sensibilidade, de um senso de pertencimento e de habilidades e valores de organização, confiança, amizade, objetividade, disciplina, respeito, responsabilidade, companheirismo, colaboração e convivência pacífica. Muitos relatos de participantes assinalam a importância da experiência para ajudar a superar difíceis problemas pessoais ou familiares, e outros tantos se referem à orquestra não só como uma escola de música, mas uma escola para a vida.[8][9]
A orquestra é formada selecionando-se os alunos do projeto que se revelam mais capazes e comprometidos.[10] Com um repertório que passa da música erudita à música folclórica e popular, incluindo composições dos próprios integrantes,[11] desde sua criação já realizou mais de 1,4 mil concertos,[12] em cidades do Rio Grande do Sul, Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia, Argentina e Uruguai,[13] alcançando um público de cerca de 360 mil pessoas. Lançou dois CDs, três DVDs e o livro Orquestra Villa-Lobos – Música que Transforma (2012), tendo recebido cerca de 30 prêmios de importantes instituições locais, nacionais ou internacionais ligadas à música, à cultura, à educação e aos direitos humanos,[1][12] consolidando-se como uma das principais iniciativas do gênero no Brasil.[1] Em 2024 foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial de Porto Alegre pela Câmara Municipal.[14]
Já foi estudada por vários acadêmicos, que enfatizaram sua importância social e educativa e seu potencial transformador de indivíduos, famílias e comunidade, fomentando a aproximação entre a escola e a comunidade, atraindo os jovens para dentro da escola e possibilitando que desenvolvam novas habilidades, qualificando o ensino e promovendo uma nova identidade para a comunidade.[15]

Segundo José Paulo da Rosa, secretário municipal de Educação, "a Orquestra Villa-Lobos é uma das mais belas iniciativas da nossa rede municipal. Além de um importante projeto social e uma ótima opção de atividade de contraturno escolar, a orquestra ultrapassou os muros da escola e hoje envolve dezenas de profissionais".[7] Para a jornalista Naira Hofmeister, "a música transforma vidas na Lomba do Pinheiro, oferecendo oportunidades e cultura para a comunidade local e brindando Porto Alegre com espetáculos de altíssimo nível".[5]
Na visão da pesquisadora Virgínia Sanchotene, "o trabalho desenvolvido na orquestra é proveniente de uma luta de resistência a um discurso legitimado que exclui jovens moradores de periferia e estudantes de escola pública ao acesso à linguagem musical e à expressão por meio dela. É um projeto de disseminação e democratização do ensino e do aprendizado de música. O programa não dá conta de todas as questões sociais às quais os estudantes estão à margem, mas ela gera tantas outras oportunidades, que acaba por abarcar questões mais amplas que apenas o caráter musical. [...] Essas experiências auxiliam na formação pessoal do integrante da orquestra, de forma mais ampla que apenas em caráter musical, relacional, cultural. [...] Os estudantes crescem dentro da orquestra, os anos que eles passam ali dentro são de formação integral, de caráter, de valores, de ética. [...] A orquestra transforma a vida dessas crianças e desses jovens, de forma irreversível. E eles têm consciência disso, eles verbalizam isso".[16]
Discografia
- Trenzinho do Caipira (CD, 2002)
- Olhos Coloridos (CD, 2008)
- Orquestra Villa-Lobos Ao Vivo (DVD, 2013)
- Paz & Amor (DVD, 2021)
- Afrika (DVD, 2023)
Premiações


Algumas distinções selecionadas recebidas pela orquestra:[17][18][19]
- Prêmio Lupicínio Rodrigues, oferecido pela Câmara Municipal de Porto Alegre, 2003
- Troféu de Defesa de Direitos Humanos no Rio Grande do Sul, oferecido pela UNESCO em parceria com a Assembleia Legislativa e a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho, 2004
- 3 Prêmios Líderes & Vencedores, oferecidos pela Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande Sul em parceria com a Assembleia Legislativa: categorias Destaque Comunitário em 2009 e 2024, Referência Educacional em 2013
- Prêmio Itaú-UNICEF, 2011
- 3 Prêmios Açorianos de Música, da Prefeitura de Porto Alegre: categorias Menção Especial em 2012, Melhor Espetáculo em 2019 e 2020
- Medalha Cidade de Porto Alegre, 2015
- Prêmio Boas Práticas em Direitos Humanos, da Associação de Juízes do Rio Grande do Sul, 2017
- Prêmio Cultura Viva, do Ministério da Cultura, 2018
- Troféu Destaque Cultura, do Conselho Estadual de Cultura, 2018
- Prêmio FUNARTE de Arte e Educação, 2018
- Troféu Câmara Municipal de Porto Alegre, 2022
- Patrimônio Cultural Imaterial de Porto Alegre, 2024
A fundadora Cecília Silveira recebeu também a Medalha do Mérito Farroupilha da Assembleia Legislativa e o Troféu Guri do Grupo RBS pelo seu trabalho frente à orquestra.[18]
Ver também
Referências
- ↑ a b c "Orquestra Villa-Lobos". Bienal do Mercosul, 12 de abril de 2025
- ↑ a b c d e Gomes, Luís. "Orquestra Villa-Lobos completa 32 anos: Exemplo contundente de transformação social pela arte". Sul 21, 7 de abril de 2024
- ↑ Silveira, Cecília Rheingantz. Construindo uma cultura de paz por meio da inclusão social: a via da educação musical. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2006, p. 5
- ↑ a b Sanchotene, Virgínia Crivellaro. Orquestra Villa-Lobos: reescrevendo histórias. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011, pp. 17-18
- ↑ a b c d Hofmeister, Naira. "A Sinfonia da Vila Mapa". Jornal Extra Classe, 10 de dezembro de 2019
- ↑ Dolores, Patrícia Celaro. Projeto orquestra Villa-Lobos: a perspectiva da comunidade escolar. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2016, p. 11
- ↑ a b Moraes, Orlando. "Espetáculo Mapa-Múndi celebra os 32 anos da Orquestra Villa-Lobos". Prefeitura de Porto Alegre, 13 de abril de 2024
- ↑ Dolores, pp. 22-27
- ↑ Sanchotene, pp. 25-35
- ↑ Sanchotene, p. 30
- ↑ Sanchotene, pp. 43-45
- ↑ a b "Orquestra Villa-Lobos é atração na Biblioteca Pública do Estado nesta terça". Correio do Povo, 24 de setembro de 2024
- ↑ Dolores, p. 12
- ↑ "Orquestra Villa-Lobos será patrimônio cultural imaterial de Porto Alegre". Câmara Municipal de Porto Alegre, 19 de junho de 2024
- ↑ Dolores, p. 15
- ↑ Sanchotene, pp. 42; 48-50
- ↑ Dolores, pp. 11-12
- ↑ a b "Sarau do Solar Solidário | Orquestra Villa-Lobos". Theatro São Pedro, 4 de dezembro de 2022
- ↑ "Orquestra Villa-Lobos encerra programação de aniversário na BPE". Secretaria de Estado da Cultura, 26 de abril de 2023