Pirarrãs

 Nota: Se procura pela língua falada pelos Pirarrãs, veja Língua pirarrã.
Pirahã
Hiaitsiihi
População total
592[1]
Regiões com população significativa
 Brasil (AM)5922014 (Siasi/Sesai)
Línguas
Língua pirarrã
Religiões
Animismo
Etnia
Nativo americanos

Os pirarrãs (também chamados de pirahãs ou mura-pirahãs) são um povo indígena brasileiro de caçadores-coletores, que se destacam de outras etnias pela diferença linguística e cultural. Hiaitsiihi é a auto-denominação do grupo, significando um dos seres ibiisi ("corpos") que habitam uma das muitas camadas que compõem o cosmos.[2] Eles habitam um trecho das terras cortadas pelo Rio Marmelos e quase toda a extensão do Rio Maici, no município de Humaitá, estado brasileiro do Amazonas.[3] Os pirarrãs concebem o tempo como uma alternância entre duas estações bem marcadas, definidas pela quantidade de água que cada uma possui: piaiisi (época da seca) e piaisai (época da chuva). Segundo a Funai, em 2010, a população pirarrã era de aproximadamente 420 pessoas.[2] Já em 2023, segundo o site da Fundação, a população total era de aproximadamente 900 pessoas, subdividindo-se entre dois grupos maiores que habitavam o alto e o baixo rio Maici, além de um terceiro grupo que habitava a Terra Indígena Ipixuna, tradicionalmente ocupada pelo povo Parintintin.[4]

Apaitsiiso ("aquilo que sai da cabeça") é como os pirahãs se referem à sua língua, o pirarrã, classificada como pertencente à família Mura. [5]

Uma característica curiosa dessa etnia é o fato de seus membros não acreditarem em nada que eles não possam ver, sentir ou que não possa ser provado ou presenciado. Por esse motivo os Pirahã não acreditam em espírito supremo ou divindade criadora, apenas em espíritos menores que às vezes tomam a forma de coisas no ambiente (devido a experiência pessoal de cada indivíduo), e que a terra e o céu sempre existiram, ninguém os criou.[6] Esforços já foram feitos para convertê-los ao cristianismo, talvez o mais relevante seja o do missionário Daniel Everett que nos anos 70 tentou evangelizá-los. Sem sucesso, escreveu um livro em que descreve sua cultura. Segundo ele, os indígenas perderam o interesse em Jesus quando descobriram que Everett nunca o viu de fato. Seu constante contacto com este tipo de pensamento acabou transformando Everett em ateu.[7]

Suas palavras para parentescos são bem limitadas: baí'i para pessoas de geração anterior, tais como pai, mãe, avô, avó; 'ahaigí para irmão, irmã; hoagí ou hoísai para filho; kai para filha; piihí para enteado, filho(a) preferido(a) ou órfão de pelo menos um dos pais.[8]:26

Devido a característica única de sua língua, os Pirahã não conseguem entender conceitos que outras culturas desenvolveram, tais como o cálculo. Sua denominação numérica não vai além do número três: eles usam palavras genéricas e relativas como "poucos" e "muitos" para quantificar as coisas. É possível ensiná-los, mas, devido à pouca ou nenhuma utilização desses conceitos em sua cultura, eles nunca chegam a desenvolvê-los.[9][10]

Para Rolf Theil, professor de linguística da Universidade de Oslo, o pirarrã seria a língua mais difícil do mundo.[11] Devido à sua complexidade, os especialistas acreditam que levaria cerca de dez anos para uma pessoa com memória média para aprender esta língua. [12] Trata-se de uma língua tonal. Sua entonação é crucial para o entendimento e a comunicação. Por exemplo, as palavras "amigo" e "inimigo" são as mesmas, diferindo apenas na entonação.[13] Por essa razão, a comunicação pode ser falada, cantada e até mesmo assobiada. Na verdade, a língua é baseada em um conjunto de sons baixos transmitidos através de longas distância, permitindo que os nativos se orientem na selva, inclusive durante as chuvas torrenciais da Amazônia.

O idioma não utiliza verbos nos tempos do passado e futuro,que podem ser conjugados de 65 mil maneiras diferentes, segundo Daniel Everett.[14] Além disso, não possui substantivos no singular ou plural.[8]:42 O contexto da frase é que poderá dar o verdadeiro significado. Com apenas três vogais e oito consoantes, somente o conjunto de sons específicos darão o significado de palavras inteiras.

Referências

  1. «Quadro Geral dos Povos». Instituto Socioambiental. Consultado em 2 de setembro de 2017 
  2. a b Gonçalves, Marco Antonio. «Pirahã - Introdução». Povos Indígenas no Brasil. Consultado em 20 de dezembro de 2012 
  3. Gonçalves, Marco Antonio. «Pirahã - Localização». Povos Indígenas no Brasil. Consultado em 20 de dezembro de 2012 
  4. Funai realiza visita a aldeias Pirahã no rio Maici e propõe criação de rede interinstitucional para enfrentamento de crise de segurança alimentar e saúde. Fundação Nacional dos Povos Indígenas, 1º de agosto de 2023.
  5. Gonçalves, Marco Antonio. «Pirahã - Língua» . Povos Indígenas no Brasil. ISA.
  6. «Why the pirahã don't have numbers.» (HTML) (em inglês). Edge Foundation, Inc. Consultado em 20 de dezembro de 2012 
  7. Claudio Ângelo (1º de fevereiro de 2009). «Após trabalho com índios no Amazonas, missionário evangélico vira cientista ateu» (HTML). Folha de S.Paulo. Consultado em 20 de dezembro de 2012 
  8. a b Everett, Daniel L. Cultural Constraints on Grammar and Cognition in Pirahã: Another Look at the Design Features of Human Language.[ligação inativa] Cópia arquivada em 12 de março de 2005.
  9. «Tribo da Amazônia contradiz noção de que contar é capacidade 'inata'» (HTML). 17 de julho de 2008. Consultado em 20 de dezembro de 2012 
  10. Bredow, Rafaela von. Brazil's Pirahã Tribe. Living without Numbers or Time. Spiegel Online, 3 de maio de 2006.Cópia arquivada em 24 de novembro de 2016.
  11. Idioma mais difícil do mundo é falado no Brasil. IHU-Unisinos, 22 de novembro 2016
  12. Noronha, Heloísa Qual a língua mais difícil do mundo? Ela é falada no Brasil! Pirahã, falada pelo povo de mesmo nome, tem apenas três vogais, seis consoantes e um único tempo verbal. Terra 8 de julho de 2024
  13. Idioma mais difícil do mundo é falado no Brasil. Sputnik Brasil, 20 de novembro de 2016.
  14. Kvittingen, Ida. What is the world’s weirdest language? This language lacks words for numbers and colours. But at least it can be whistled. ScienceNordic, 19 de novembro de 2016.