Pianola

Pianola Chase & Baker (Buffalo, EUA), de 1885.

A Pianola, também chamada piano mecânico, é um piano que executa músicas automaticamente, por meio de motores a vácuo,[1] mecanismos pneumáticos, ou eletromecânicos que operam o piano através de rolos de pianola, que são feitos de papel perfurado, ou, mais raramente, de metal. Versões mais modernas do instrumento podem incluir implementos usando música gravada em formato MIDI, que é armazenada em discos rígidos ou flexíveis, ou ainda em CDs. Frequentemente o instrumento permite determinadas regulações, que são executadas por um músico através de pedais e alavancas manuais.

O instrumento cresceu com a produção em massa de pianos domésticos, entre o final do século XIX e o começo do século XX.[2] As vendas atingiram seu ápice em 1924, e depois disso gradualmente declinaram devido ao aperfeiçoamento do fonógrafo e de gravações. Posteriormente, a popularização de aparelhos de rádio reduziu sensivelmente o mercado para esses instrumentos, que finalmente tiveram sua produção interrompida devido à crise econômica de 1929.

Origens

Rolo de papel perfurado alimentando uma pianola.

O mecanismo original, patenteado em 1897 pelo engenheiro americano Edwin S. Votey, era instalado diante do teclado e consistia num rolo de papel perfurado com a notação da peça que se pretendia executar, acionado pelos pedais. Cada perfuração abaixava uma tecla e impulsionava o respectivo martelo, o que substituía a ação dos dedos. Mais tarde o mecanismo foi incorporado ao instrumento, que passou a possibilitar uma considerável variação de dinâmica e andamento.

Entre outras obras, a pianola inspirou o Estudo para pianola, de Stravinski, em 1917, e a Toccata de Hindemith, composta em 1926. Para esse insólito instrumento de teclado, os músicos escreviam peças sem cuidado com as limitações impostas pelo tamanho da mão do executante.

Também conhecida como piano mecânico, a pianola ganhou vasta popularidade por volta da primeira guerra mundial. Algumas companhias fabricavam rolos que reproduziam com bastante exatidão as interpretações de músicos famosos, como Cortot e Debussy. Apesar do sucesso que fez no início do século XX, a pianola caiu em desuso logo a seguir.

Na década de 1990 passaram a ser produzidos pianos mecânicos que, utilizando dados armazenados num disquete de computador, são capazes de gravar e reproduzir com fidelidade uma execução real.

Predecessores

Gráfico do interior de um piano mecânico: 1) pedal; 2) conexão do pedal; 3) escape (mostra-se apenas um); 4) reservatório de alta pressão (o reservatório de baixa pressão não é mostrado); 5) tronco do escapamento; 6) tubo de escape do motor; 7) espaço de ar acima das válvulas primárias; 8) válvulas secundárias; 9) percussor pneumático (striking pneumatic); 10) conexão do pneumático com a ação do piano; 11) ação do piano; 12) motor pneumático; 13) tracker board (a tábua de leitura pela qual passa o rolo de música).

A criação do piano mecânico teve de superar as dificuldades de controlar a força da percussão e a duração da nota. O primeiro piano mecânico foi provavelmente o Forneaux Pianista, que funcionava com ar comprimido para inflar os foles quando um cilindro abria as válvulas. Esse fole acionava a tecla que fazia soar a nota.[3]

A aceleração dos desenvolvimentos que conduziram ao dispositivo com “reprodutor” pneumático começou na década de 1840 e começou a dar frutos na década de 1870. O início do período do piano mecânico pode ser observado na Exposição Universal da Filadélfia de 1876. Nessa exposição havia uma série de dispositivos de reprodução automática, incluindo o Pianista, que continha os elementos que dariam origem ao piano mecânico.[4]

A primeira descrição de um piano mecânico com rolos de papel perfurado aparece na patente francesa de Claude Seytre, de 1842. O conceito era bom, mas o dispositivo descrito não era prático na forma como lia o papel perfurado.[5]

Em 1847, Alexander Bain descreveu um dispositivo que usava um rolo de papel como uma “válvula de deslocamento”, permitindo que o ar circulasse pelos tubos de um harmônio.[6] Harmônios com cilindros que utilizavam esse tipo de sistema também foram produzidos. No entanto, o fluxo de ar não era suficiente para acionar um mecanismo de piano. Em 1848, Charles Dawson, da Inglaterra, descreveu um dispositivo de válvula de deslocamento mais complexo, que evoluía um pouco a partir do invento de Bain.[7]

Nos Estados Unidos, em 1849, Hunt & Bradish utilizaram um rolo lido por molas suficientemente fortes para acionar diretamente o mecanismo do piano. Esse dispositivo aplicava toda a força sobre o papel, fazendo com que se rompesse rapidamente, e o aparelho teria tido a mesma largura do teclado do piano.[8]

História

O primeiro dispositivo a atender ao requisito prático de acionar um mecanismo de piano foi o de Forneaux, em 1863. Ele reconheceu que era necessário um acionamento forte para mover o martelo em direção às teclas. Utilizou um cilindro tradicional, mas desenvolveu um dispositivo pneumático que inflava rapidamente o fole para acionar a nota. Em 1871, o cartão perfurado substituiu o cilindro, mas ainda era lido por molas. Esse dispositivo entrou em produção e é considerado o primeiro reprodutor automático prático. Ele foi exibido na Exposição da Filadélfia em 1876.[9]

A patente americana de Van Dusen, de 1867, foi a primeira a descrever um mecanismo pneumático dianteiro acionado por um rolo. Possivelmente, baseava-se nos trabalhos de John McTammany.[10]

Houve um avanço importante na patente dos irmãos Schmoele, em 1873. Eles descreveram um sistema de “válvula dupla” que funcionava como um amplificador pneumático, lendo o rolo eletricamente e acionando o sistema pneumático por meio de um eletroímã. Esse dispositivo também foi exibido na Filadélfia. Com algumas modificações e leitura pneumática do rolo, ele se tornaria o piano mecânico cerca de 20 anos depois, embora os irmãos Schmoele nunca tenham se beneficiado disso.[11]

Os primeiros pianos mecânicos domésticos funcionavam com cilindros, como os pianos de rua, mas raramente possuíam mais de dois cilindros, o que limitava o repertório. As primeiras tentativas foram feitas por Alexandre Debain, na França, em 1860, ao criar um piano que funcionava com cartões de madeira, chamados planchettes, que tinham pequenas saliências que acionavam as teclas do piano. Apesar de oferecerem um repertório mais amplo de melodias, esses modelos não se popularizaram.[12]

Uma das versões mais famosas foi criada por Edwin Scott Votey, em 1896, na cidade de Detroit (Michigan), conhecida como piano player. Tratava-se de um mecanismo que se encaixava no teclado do piano para acionar automaticamente as teclas. A empresa Aeolian Company patenteou o invento junto com Votey, sob o nome pianola. Theodor P. Brown incorporou esse mecanismo aos pianos verticais, sob o nome de player piano, instrumento que em espanhol passou a ser chamado de autopiano e, em francês, piano automatique.[13]

Somente em 1901, Melville Clarke produziu o primeiro piano que continha o mecanismo dentro do próprio instrumento e que não necessitava de um aparelho externo, conseguindo pela primeira vez que o rolo acionasse diretamente o teclado. Esses primeiros instrumentos tocavam apenas 58 notas, e posteriormente surgiram modelos com 65 notas.[12]

Na Catalunha

Trabalhadores perfurando rolos para pianola em uma oficina londrina da Aeolian Company (1911).

Na Catalunha, em 1905 foi criada a primeira produtora de rolos de pianola: a fábrica “La Solfa”, fundada em La Garriga por Joan Baptista Blancafort (pai do compositor Manuel Blancafort, cuja formação musical foi marcada pelo trabalho na fábrica do pai, onde transferia as notas dos pentagramas para as fitas contínuas da pianola). A indústria, produtora dos rolos Victòria, exportava sua produção para a Europa, América e Oceania, e chegou a produzir mais de quatro mil obras entre 1919 e 1930.[14]

No início do século XXI, a descoberta de mais de 2.000 rolos de pianola em uma masia no Priorat levou à criação do Pianola Roll Digitizer, uma nova tecnologia para digitalizar a música armazenada em rolos perfurados. A pesquisa, liderada pela Universidade Autônoma de Barcelona, encontrou obras inéditas de Manuel Blancafort e Frederic Mompou, assinadas sob pseudônimo, algumas das quais datam de 1914.[15][16]

Uma das pianolas mais antigas conservadas na Catalunha é a da Biblioteca de Catalunya, adquirida em 2009 juntamente com 74 rolos: um modelo Apollo Player Piano, construído pela Melville Clark Co. em 1913, um dos primeiros modelos capazes de reproduzir 88 notas, o mesmo número de um piano. Originalmente, pertencia a Isabel de Urruela, marquesa de Retes, membro da família Arnús-Sert.[17]

Referências

  1. Pianola.com - The Air Motor. (em inglês) Acessado em 26/08/2018.
  2. Roehl, Harvey (1973). Player Piano Treasury. Vestal Press. p. 316. ISBN 0-911572-00-7
  3. «Pianos and their makers : a comprehensive history of the development of the piano from the monochord to the concert grand player piano | WorldCat.org». search.worldcat.org. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  4. «The Pianola Institute - History of the Pianola - Organettes». www.pianola.org (em inglês). Consultado em 22 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 16 de junho de 2023 
  5. «Technologies of inclusive well-being : serious games, alternative realities, and play therapy | WorldCat.org». search.worldcat.org. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  6. «The world of the American West : a daily life encyclopedia | WorldCat.org». search.worldcat.org. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  7. Ord-Hume, Arthur W. J. G.. Player Piano: The History of the Mechanical Piano and how to Repair it (en anglès). A. S. Barnes, 1970.
  8. «Automatic pianos : a collector's guide to the pianola, barrel piano, & Aeolian orchestrelle | WorldCat.org». search.worldcat.org. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  9. «The Piano : an Encyclopedia | WorldCat.org». search.worldcat.org. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  10. McTammany, John. The Technical History of the Playe (en anglès). Madison: Vestal Press, 1915
  11. «Encyclopedia of automatic musical instruments | WorldCat.org». search.worldcat.org. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  12. a b McElhone, Kevin. Mechanical music (en anglès). Oxford: Shire Publications, 2004. ISBN 0 74780 578 6.
  13. «Revista Catalana de Musicologia». Viquipèdia, l'enciclopèdia lliure (em catalão). 8 de outubro de 2025. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  14. «- Museu Nacional de la Ciència i la Tècnica de Catalunya - MNACTEC». Museu del la Ciència i de la Tècnica de Catalunya (em espanhol). Consultado em 22 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 3 de outubro de 2023 
  15. «Rollos de pianola escondían obras inéditas de Mompou y Blancafort». Agencia SINC (em espanhol). Consultado em 22 de novembro de 2025 
  16. Cia, Blanca (6 de dezembro de 2015). «En busca de rollos de pianola». Madrid. El País (em espanhol). ISSN 1134-6582. Consultado em 22 de novembro de 2025 
  17. ATI. «La pianola de la Biblioteca de Catalunya / El Blog de la BC / Inici - Biblioteca de Catalunya». www.bnc.cat (em catalão). Consultado em 22 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 6 de agosto de 2025