Cajón

Na música, o cajón (aumentativo da palavra espanhola "caja": "caixa", "gaveta"), é um instrumento de percussão[1] que teve sua origem no contexto do Peru Colonial, onde os escravos africanos, separados de seus instrumentos de percussão pelos feitores da época, utilizaram-se de caixas de madeira e gavetas (outra tradução para cajón) para tocarem seus ritmos. Daí dizer que sua origem é afro-peruana. Com o passar do tempo o instrumento transformou-se no que conhecemos hoje por cajón. O instrumento hoje é considerado pelo governo peruano como "Patrimônio Cultural da Nação".
O cajón atravessou as fronteiras do Peru e tem encontrado espaço nas expressões musicais de diferentes culturas no mundo. Paco de Lucia foi um dos principais responsáveis pela introdução do instrumento na música flamenca. Com uma sonoridade tida como ideal para acompanhar as palmas, sapateado e a sonoridade das guitarras flamencas, o cajón popularizou-se. Hoje é tão comum a presença do instrumento nas apresentações flamencas que muitos imaginam que sua origem é espanhola.
Construído totalmente em madeira, o cajón mais difundido internacionalmente apresenta cordas colocadas por dentro sob o tampo, uma versão moderna que tem muita aceitação internacional. O instrumento encanta pela simplicidade, desempenho, por sua grandiosa vibração e versatilidade.
Por tratar-se de um instrumento muito simples e barato, o cajón vem se popularizando cada vez mais no Brasil, tanto entre os músicos profissionais quanto entre os amadores, revelando-se um acompanhamento muito rico para voz e violão. No Brasil o instrumento foi aperfeiçoado e adaptado pelo luthier Pithy Cajonero em parceria com Lanlan, percussionista que ficou conhecida ao dar ritmos aos hits da Cantora Cássia Eller. O cajón é extremamente versátil para praticamente todos os ritmos, podendo ser utilizado acusticamente, microfonado em apresentações ao vivo, provocando no espectador a sensação de "onde está a bateria?", e ainda apresentar excelentes resultados em gravações de estúdio.
Origem e evolução

O cajón é o instrumento musical afro-peruano mais amplamente utilizado desde o final do século XIX. Pessoas escravizadas de origem africana ocidental e centro-africana nas Américas são consideradas a fonte do cajón. Atualmente, o instrumento é comum em apresentações musicais em partes das Américas e da Espanha. O cajón foi desenvolvido durante os períodos de escravidão na costa do Peru. O instrumento atingiu um auge de popularidade por volta de 1850, e no final do século XIX os tocadores de cajón começaram a experimentar com o design, curvando algumas das tábuas do corpo do instrumento para alterar seus padrões de vibração sonora. Após a escravidão, o cajón se espalhou para um público muito mais amplo, incluindo os criollos.[2]
Como o cajón tem origem entre músicos escravizados nas colônias espanholas das Américas, existem duas teorias complementares para sua origem. É possível que o tambor seja um descendente direto de uma série de instrumentos musicais em forma de caixa provenientes da África Ocidental e Central, especialmente de Angola, e também das Antilhas. Esses instrumentos teriam sido adaptados por pessoas escravizadas a partir de caixas de transporte espanholas disponíveis. Em cidades portuárias como Matanzas, em Cuba, caixas de transporte de bacalhau e gavetas pequenas tornaram-se instrumentos semelhantes.[3] A musicista e etnomusicóloga peruana Susana Baca relata a história contada por sua mãe de que o cajón teria se originado como “a caixa das pessoas que carregavam frutas e trabalhavam nos portos”, colocando-a no chão para tocar sempre que tinham um instante.[4] Outra teoria é que pessoas escravizadas usavam caixas como instrumentos musicais para subverter as proibições coloniais espanholas sobre música em áreas predominantemente africanas, essencialmente disfarçando seus instrumentos.[3]
Enquanto versões do festejo do início do século XX pareciam ser executadas sem cajón — especialmente devido à influência do grupo musical Perú Negro, fundado em 1969 —, o cajón passou gradualmente a se tornar mais importante do que o violão e, de fato, tornou-se “um novo símbolo da negritude peruana”.[4]
Após uma breve visita em 1977 a uma festa diplomática e uma apresentação de TV em Lima ao lado do percussionista peruano Caitro Soto, o violonista flamenco espanhol Paco de Lucía levou um cajón para a Espanha para usá-lo em sua própria música, depois de se impressionar com as possibilidades rítmicas do instrumento.[3][5] Segundo historiadores da percussão, foi Pepe Ébano quem introduziu o cajón no flamenco espanhol, mais tarde tocando com Paco de Lucía na percussão de “Entre dos aguas”.[6] Em 2001, o cajón foi declarado Patrimônio Nacional pelo Instituto Nacional de Cultura do Peru.[7] Em 2014, a Organização dos Estados Americanos declarou o cajón um “Instrumento do Peru para as Américas”.[8]
Referências
- ↑ «Cajón». Biblioteca Nacional da Alemanha (em alemão). Consultado em 22 de novembro de 2019
- ↑ Tompkins, William David: "Afro-Peruvian Traditions" in "Music of the African Diaspora in the Americas," p. 493. Springer US Press, 2005
- ↑ a b c Jenkins, Dilwyn (2003). Peru (em inglês). [S.l.]: Rough Guides. Consultado em 21 de novembro de 2025
- ↑ a b Feldman, Heidi Carolyn (2006). Black Rhythms of Peru: Reviving African Musical Heritage in the Black Pacific (em inglês). [S.l.]: Wesleyan University Press. Consultado em 21 de novembro de 2025
- ↑ Chuse, Loren (11 de outubro de 2013). Cantaoras: Music, Gender and Identity in Flamenco Song (em inglês). [S.l.]: Routledge. Consultado em 21 de novembro de 2025
- ↑ Santos, Ralph (2 de novembro de 2013). «La percusión. Orígenes, familias, técnicas, étnicas.». Revista ISP Música (em espanhol). Consultado em 21 de novembro de 2025
- ↑ "National Directoral Resolution 798 August 2 2001". Archived from the original on 2014-03-03. Retrieved 2014-03-02.
- ↑ OAS (1 de agosto de 2009). «OAS - Organization of American States: Democracy for peace, security, and development». OAS - Organization of American States (em inglês). Consultado em 21 de novembro de 2025