Operação Avalanche (Itália)

Desembarque em Salerno
Invasão Aliada da Itália, Segunda Guerra Mundial

Desembarque de tropas estadunidenses nas praias de Laura, no golfo de Salerno, em 9 de setembro de 1943
Data9–18 de setembro de 1943
LocalSalerno
DesfechoVitória aliada
Beligerantes
Alemanha Nazista Alemanha Nazista  Reino Unido
 Estados Unidos
Comandantes
Albert Kesselring
Heinrich von Vietinghoff
Harold Alexander
Estados Unidos Mark Clark
Forças
Seis divisões no total[1] Sete divisões no total (~ 170 000 homens em 16 de setembro)[2]
Baixas
~ 3 000 (mortos, feridos, desaparecidos)[3] ~ 9 000 (mortos, feridos, desaparecidos)[3]
Detalhes sobre as perdas no parágrafo dedicado

O desembarque em Salerno (nome de código operação Avalanche) foi realizado pelos Aliados em 9 de setembro de 1943, ao longo das costas do golfo da cidade homônima, como continuação da campanha da Itália da Segunda Guerra Mundial. Os altos comandos aliados pretendiam estabelecer uma importante cabeça de ponte e, a partir dali, ocupar rapidamente Nápoles e o seu porto estratégico, útil para abastecer as tropas engajadas na frente italiana: o 5.º Exército do tenente-general Mark Clark conduziu o ataque anfíbio com o apoio coordenado do 8.º Exército Britânico, comandado pelo general Bernard Law Montgomery, que desembarcou em Régio da Calábria em 3 de setembro. Juntas, as duas forças armadas atacariam então as posições defensivas alemãs da Linha Volturno e da Linha Gustav, no centro da Itália.

As tropas do general Clark desembarcaram com dificuldades, no geral controláveis, e carregadas de um otimismo ditado pela rendição italiana. Em dois dias, porém, sofreram violentos contra-ataques das divisões do 10.ª Exército do tenente-general Heinrich von Vietinghoff, que o marechal de campo Albert Kesselring (comandante supremo alemão no Mediterrâneo) havia concentrado nas elevações que davam vista para o golfo; os alemães aproveitaram uma grande brecha entre os dois corpos de exército que compunham o 5º Exército, próxima ao rio Sele, e conseguiram avançar profundamente na cabeça de ponte. Clark temeu um desastre e chegou a esboçar planos de evacuação, mas a tenaz resistência anglo-americana (caracterizada pelo maciço apoio de artilharia terrestre e naval) evitou a ameaça e conteve os alemães.

Após dez dias de combates intensos, os Aliados, que haviam sofrido perdas muito maiores que os alemães, conseguiram sair da cabeça de ponte em 19 de setembro e reorganizar-se para a investida contra Nápoles, que já havia se insurgido durante os chamados "Quatro dias de Nápoles"; chegaram lá em 1.º de outubro de 1943. A 10.ª Armee, por sua vez, retirou-se de forma ordenada em direção à Linha Volturno, entrincheirada no terreno acidentado dos Apeninos ao norte da capital da Campânia, onde se preparou para enfrentar novamente os Aliados.

Contexto

Os principais comandantes aliados no teatro mediterrâneo, reunidos em Túnis em dezembro de 1943: na primeira fila, da esquerda para a direita, os generais Eisenhower e Maitland-Wilson (entre eles o primeiro-ministro Churchill); na segunda fila o marechal do ar Arthur Tedder, o almirante John Cunningham (sucessor em outubro de Andrew Cunningham), o general Alexander e o major-general Walter Bedell Smith (último à direita)

Durante a terceira conferência de Washington de maio de 1943, os Aliados concordaram em continuar a campanha de bombardeios sobre a Alemanha e aumentar as operações no Pacífico, mas deixaram a planejamento dos detalhes da estratégia no Mediterrâneo ao comandante-chefe daquele teatro, o general Dwight D. Eisenhower, a quem coube decidir como prosseguir a campanha da Itália após a prevista operação Husky.[4] Os estadunidenses, que priorizavam a planejada invasão do noroeste da Europa e consideravam as necessidades no Pacífico mais urgentes, estavam cientes do custo econômico, militar e temporal que representaria o segundo teatro de operações na Itália; após o término da luta na Sicília, foram iniciados debates para definir o próximo objetivo.[5] Foi seriamente considerada a invasão da Sardenha, defendida por Eisenhower e pelo almirante Andrew Cunningham (comandante supremo das forças navais aliadas no Mediterrâneo), mas não pelo primeiro-ministro Winston Churchill, que preferia um ataque nos Balcãs. Segundo ele, uma campanha naquele setor impediria os alemães de usar matérias-primas valiosas e ameaçaria as linhas de comunicação do Eixo com a frente oriental. A ideia foi recebida com frieza em Washington, mas não houve propostas alternativas; os estadunidenses esclareceram que não deveriam ocorrer novas campanhas que comprometessem os recursos já alocados à segunda frente ou afetassem o front do Pacífico.[6]

Em 24 de julho, após o primeiro bombardeio de Roma, Benito Mussolini recebeu o voto de desconfiança do Grande Conselho do Fascismo e a autoridade político-governamental voltou às mãos do rei Vítor Emanuel III, que formou um novo executivo liderado pelo marechal Pietro Badoglio; a partir daí começaram as negociações secretas com os Aliados para retirar a Itália da guerra.[6] Nos mesmos meses, o marechal de campo Albert Kesselring, Oberbefehlshaber Süd (lit. "Comandante-chefe do setor sul") convencera Adolf Hitler de que seria oportuno tentar a defesa ao sul de Roma tanto pelas dificuldades objetivas de evacuar sem grandes perdas homens e material ali posicionados, quanto pela importância estratégica do complexo aeroportuário de Foggia. Essa decisão deu início aos preparativos alemães de mobilização das unidades destinadas à proteção da península; quando o armistício entrou em vigor, iniciou-se a "operação Achse", o plano elaborado em maio de 1943 pelo Oberkommando der Wehrmacht (OKW) para reagir a uma eventual saída da Itália do conflito, neutralizar suas forças armadas e ocupar seu território.[7]

A disposição das forças e as diretrizes de invasão aliadas à Itália continental, onde estão indicadas as divisões alemãs.

Em 14 de agosto, em meio às negociações ambíguas com os italianos, Churchill e o presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt reuniram-se em Quebec com seus respectivos estados-maiores e conselheiros: a conferência confirmou a abertura do segundo front para o dia 1º de maio de 1944, estabelecendo que todas as operações na Europa deveriam estar alinhadas com esse objetivo. Eisenhower recebeu ordem de aceitar apenas uma rendição incondicional da Itália, avaliar a conquista da Sardenha e da Córsega e não dar trégua aos alemães; os comandos reunidos em Quebec aprovaram, assim, a "operação Avalanche",[8] o plano de invasão da Itália continental elaborado por Eisenhower e pelo estado-maior do 5.º Exército estadunidense. A operação foi confirmada para 9 de setembro no golfo de Salerno, localidade escolhida quase por necessidade, pois durante a conferência decidiu-se retirar do teatro mediterrâneo seis grupos de bombardeiros pesados e transferi-los para a Grã-Bretanha: isso obrigou o general Eisenhower a optar por zonas de desembarque próximas à Sicília (como as regiões meridionais italianas) e renunciar a objetivos mais ambiciosos e distantes, como o golfo de Gênova. Os Aliados visavam posicionar esquadrões de bombardeiros estratégicos em Foggia em apoio à operação Pointblank, parte integrante da estratégia de bombardeio aéreo da Alemanha, e para abastecê-los adequadamente era necessário o controle do grande nó logístico representado pelo porto de Nápoles, situado a apenas 70 quilômetros ao norte de Salerno.[9] No entanto, nem Washington nem Londres consideraram Avalanche o prelúdio à conquista de toda a nação; os estadunidenses queriam apenas bases seguras para seus bombardeiros, enquanto os líderes britânicos viam o engajamento na Itália como forma de manter aberta a possibilidade de uma intervenção posterior nos Balcãs.[8]

Em 26 de julho, o tenente-general Mark Clark, comandante do 5.º Exército posicionado no Norte da África, recebeu os planos para o estudo dos preparativos do desembarque no golfo de Salerno, inicialmente com o VI Corpo estadounidense.[10] Em 3 de agosto transferiu-se para Mostaganém para acompanhar as fases finais do treinamento, mas os preparativos terminaram com mal-entendidos entre estadounidenses e britânicos e nas fileiras do próprio exército. O general do Exército Harold Alexander, comandante do 15.º Grupo de Exércitos formado pelo 5.º Exército e pelo 8.º Exército Britânico do general Bernard Law Montgomery, solicitou repetidamente a Eisenhower que as operações "Buttress" e "Goblet" (planos de ataque anfíbio na Calábria sob responsabilidade exclusiva britânica) fossem consideradas o ataque principal à Itália continental.[11] Montgomery também defendeu essa ideia e inicialmente decidiu-se que à operação Baytown, a ser lançada através do estreito de Messina assim que a campanha da Sicília terminasse, seguiria-se Buttress, o desembarque do X Corpo do general Brian Horrocks em Gioia Tauro. Em 17 de agosto, porém, os chefes de estado-maior aliados no Mediterrâneo defenderam o envio de dois corpos de exército para Avalanche e, consequentemente, o X Corpo foi agregado ao VI Corpo estadounidense para atacar Salerno; a operação Buttress foi cancelada, e a força empregada na operação Baytown foi reduzida a uma única brigada, reforçada por quatro batalhões, o que causou grande irritação em Montgomery:[12] ele protestou energicamente junto a Alexander, evocando o espectro de um desastre anfíbio, e conseguiu obter o XIII Corpo com a 5.ª Divisão de Infantaria, a 1.ª Divisão Canadense e a 231st Brigade.[13]

Consequências da capitulação italiana

O Warspite abre fogo contra a costa da Calábria, preparando-se para a operação Baytown.

Os planejadores aliados consideraram indispensável uma estreita coordenação entre a Operação Avalanche e a Operação Baytown, não só pela relativa escassez de meios de desembarque, mas também pelas preocupações das altas esferas (como as do general Alexander) quanto à resistência italiana no continente, supostamente muito mais incisiva que a encontrada na Sicília. Os comandantes julgavam crucial, portanto, concluir um armistício com a Itália o quanto antes, ato que seria um duro golpe à Alemanha e, no melhor dos casos, desorganizaria a previsível defesa alemã da península.[14] Essa decisão foi motivada também pelo fato de que as reservas para o ataque a Salerno deveriam chegar do Norte da África e da Sicília, dando tempo precioso aos ítalo-alemães para preparar um contra-ataque[13]. Por fim, os Aliados concordaram que o anúncio do armistício seria feito simultaneamente por Eisenhower e Badoglio às 18h30, no mesmo dia do lançamento previsto da 82.ª Divisão Aerotransportada sobre Roma (operação Giant 2, prevista para 7 ou 8 de setembro): os italianos seriam alertados por uma transmissão codificada do Italian Service da BBC.[15]

Enquanto isso, às 03h45 de 3 de setembro, a operação Baytown havia sido iniciada, precedida pelo fogo concentrado dos navios de batalha HMS Nelson, HMS Warspite e HMS Valiant, do monitor HMS Erebus, de uma frota de contratorpedeiros e unidades menores e de toda a artilharia estadounidense posicionada na Sicília no trecho de costa entre Régio da Calábria e Villa San Giovanni.[16] Apesar dessa demonstração de poder, o general Montgomery nunca deu especial importância ao desembarque em Reggio Calabria, uma vez que não gostava de correr riscos desnecessários com as tropas e que, naquela altura, estava à espera de saber qual seria o seu comando na próxima operação Overlord: segundo o historiador Eric Morris, não pretendia arruinar sua reputação com eventuais fracassos em um front considerado secundário. A ascensão da Calábria pelo 8º Exército foi, portanto, cautelosa: Montgomery continuava preocupado com a possibilidade de ter de lidar com um contra-ataque alemão (apesar de a inteligência do exército ter concluído corretamente que as forças alemãs na Calábria eram irrisórias), não escondeu que considerava Avalanche um erro e ficou amargurado por Baytown, que se tornara uma operação secundária, ter sido confiada a ele, enquanto Clark, com menos experiência no comando, dirigiria o ataque anfíbio a Salerno.[17]

O general Castellano (ao centro) aperta a mão do general Eisenhower em 3 de setembro, logo após a assinatura do Armistício de Cassibile. Ao fundo, está o general Bedell Smith, chefe de estado-maior de Eisenhower.

Na tarde de 3 de setembro, o general Giuseppe Castellano, delegado de Badoglio, assinou o armistício de Cassibile. Clark e Montgomery foram informados por Eisenhower pouco depois, que só então revelou a existência da operação paraquedista sobre Roma, com o previsto apoio do Exército Real Italiano que deveria tanto ocupar os aeroportos ao redor da capital quanto abrir aos Aliados os portos de Tarento e Brindisi, no primeiro dos quais chegaria a 1.ª Divisão Aerotransportada britânica a bordo de unidades navais. Clark questionou Eisenhower sobre a estratégia de lançamento da 82ª Divisão, alegando que o local ideal seria ao longo do Volturno (operação Giant 1) com a tarefa de ocupar todas as passagens e impedir assim que as forças alemãs posicionadas ao sul de Roma avançassem para a cabeça de ponte aliada em Salerno.[18] Como a operação sobre Roma teria importantes implicações políticas, Clark foi obrigado a aceitar a decisão tomada e o 179th RCT, formado a partir da 45.ª Divisão de Infantaria, substituiu os paraquedistas como reserva móvel. Em suas memórias, Clark escreveu: "Fiquei sem paraquedistas para explodir as pontes sobre o Volturno, mas nosso ataque teria sido menos violento se os italianos tivessem se recusado a resistir", e considerou a operação Giant 2 "fútil, porque não conseguia entender como os paraquedistas poderiam ter sucesso em sua empreitada, diante da forte concentração alemã perto da capital, [...] nem como poderíamos ajudá-los do mar [...]".[19]

Horas antes do início da operação Giant 2, os italianos mudaram de ideia e Badoglio transmitiu aos Aliados a seguinte mensagem: "Devido à piora da situação e à presença de forças alemãs na região de Roma, não é mais possível anunciar o armistício, pois a capital corre o risco de ser ocupada à força pelos alemães. A operação não é mais possível, pois não disponho de forças suficientes para defender os aeroportos". A realidade era que as forças armadas reais não haviam feito nada do que podiam para apoiar as operações anglo-americanas; a cadeia de comando do Exército estava em total confusão, pois, embora alguns generais apoiassem os Aliados, outros não estavam muito convencidos do que havia sido combinado.[20] Às 08h00 de 8 de setembro, Eisenhower recebeu a mensagem de Badoglio, com o pedido de adiar o anúncio do armistício; o comandante supremo aliado telegrafou, no entanto, aos chefes do Estado-Maior Conjunto: "[...] decidi não aceitar a mudança solicitada pelos italianos. Pretendemos prosseguir com o plano e anunciar o armistício, dando início à propaganda subsequente e a outras medidas".[21] Os estadounidenses já haviam enviado a Roma o vice-comandante da 82.ª Divisão, major-general Maxwell Taylor, para coordenar com os italianos: ao chegar em 7 de setembro com o coronel William T. Gardiner, ele pôde constatar pessoalmente a situação e enviou uma transmissão naquela mesma noite a Eisenhower para cancelar o ataque. Na tarde do dia 8, ele a retransmitiu, temendo que não tivesse sido recebida. A mensagem chegou a tempo de impedir a decolagem dos primeiros aviões e evitar um desastre certo. Às 18h30, o general Eisenhower transmitiu pelo rádio o anúncio do armistício, repetido à noite por Badoglio, que fugiu de Roma com a família real, alguns expoentes militares do governo e funcionários rumo a Brindisi, enquanto os alemães ocupavam a cidade com pouco esforço.[22]

Escolha do local do desembarque

Poucos estrategistas aliados consideravam a costa de Salerno uma escolha ideal para um desembarque: havia praias muito mais adequadas ao norte de Nápoles e no Golfo de Gaeta, mas foram descartadas por estarem fora do alcance dos caças Supermarine Spitfire estacionados na Sicília; os aviões mal conseguiriam sobrevoar o golfo de Salerno, pelo que o aeroporto de Montecorvino, no interior de Salerno, tornou-se um dos objetivos a conquistar o mais rapidamente possível. Aparentemente, o golfo parecia ideal para uma operação anfíbia: a visibilidade era ótima e a costa arenosa, cortada ao meio pelo rio Sele, era ampla e estreita, mas apresentava um terreno elevado e perigoso, que permitia aos defensores manter a costa sob fogo, bem como os meios de desembarque, os navios ancorados e as tropas desembarcadas. Além disso, durante os vinte anos do fascismo, a planície do Sele foi recuperada e os canais constituíram um obstáculo para o tráfego aliado. A capital, no entanto, era para os Aliados um importante ponto de encontro, pois passavam por ela as rodovias n.º 18 (que ligava Nápoles a Régio da Calábria), n.º 19 (que, partindo de Battipaglia, passava por Eboli e Potenza, e chegava finalmente a Catanzaro) e a n.º 88 (Salerno–Morcone, passando por Avelino). Por fim, através da passagem de Chiunzi, era possível chegar a Nápoles a partir de Maiori, ou seguir pela estrada Sorrento–passagem de Agerola. Entretanto, tratava-se de estradas que atravessavam o fundo do vale e podiam ser facilmente defendidas e interceptadas.[23]

Planos e forças opostas

Aliados

O plano de invasão aliado para o Dia D de 9 de setembro
O tenente-general Mark Clark, comandante do 5.º Exército, fotografado a bordo do navio de comando USS Ancon
O cruzador ligeiro USS Philadelphia ao longo da costa de Salerno: os Aliados contaram com um sólido apoio naval.

Os detalhes da operação foram discutidos em 23 de agosto em Argel, durante um encontro entre Eisenhower, Alexander, Cunningham, o marechal do ar Arthur Tedder, o general Carl Andrew Spaatz da USAAF e Montgomery. Todos concordaram que a investida do 8º Exército seria uma manobra de diversão e que o esforço principal seria realizado pelo 5º Exército em Salerno.[24] A força de desembarque seria composta por dois corpos de exército: o VI Corpo estadounidense do major-general Ernest Dawley, formado pela 34.ª e pela 36.ª Divisão de Infantaria, pela 1.ª Divisão Blindada e pela 82.ª Aerotransportada; e o X Corpo Britânico, sob o comando do tenente-general Sir Richard McCreery, que havia substituído Horrocks, ferido em um ataque aéreo alemão em Bizerta em junho de 1943: incluía a 46.ª e a 56.ª Divisão de Infantaria, a 7.ª Divisão Blindada e a 1.ª Divisão Aerotransportada (destinada à operação Slapstick), que deveriam capturar Nápoles e unir-se ao 8.º Exército do general Montgomery vindo da Calábria.[10]

Embora tivesse perdido o apoio de sua divisão aerotransportada, Clark elaborou um plano considerado audacioso e imaginativo. As lições da campanha da Sicília haviam sublinhado novamente a necessidade de ocupar um grande porto em poucos dias do desembarque: por isso contou tomar Nápoles no quinto dia (D+5, 13 de setembro) explorando o fator surpresa. Ele descartou, portanto, a possibilidade de um bombardeio preliminar das praias e encarregou seu exército de ocupar o mais rapidamente possível os desfiladeiros que davam para a estrada estadual nº 18, impedindo que os alemães se apoderassem deles.[23] Os dois corpos do 5.º Exército seriam divididos pelo Sele: ao sul desembarcariam os estadounidenses, encarregados de proteger o flanco direito dos britânicos, unir-se 15 quilômetros no interior em Ponte Sele passando por Altavilla (os britânicos, por sua vez, executariam a manobra de pinça, passando por Battipaglia e Eboli), ocupar o terreno elevado e unir-se ao 8.º Exército vindo do sul. Três batalhões de rangers desembarcariam em Maiori, no flanco esquerdo do X Corpo, para se apoderar da estrada costeira e avançar no interior entre as montanhas até Nocera, que controlava a rota para a planície de Nápoles. Em Vietri, cerca de 20 quilômetros à direita dos rangers, desembarcariam o Comando nº 2 do Exército Britânico e o Comando nº 41 (Royal Marines), encarregados de tomar as colinas acima de Salerno para garantir a segurança da rodovia n.º 88 e o vale chamado "La Molina", por onde passava a rodovia n.º 18 que ligava Salerno a Cava de' Tirreni.[23] As forças especiais então cederiam lugar à infantaria da 46ª Divisão, que, por sua vez, manteria as posições para a 22ª Brigada Blindada da 7ª Divisão Blindada britânica. Esta deveria desembarcar em 10 de setembro e avançar imediatamente em direção a Nápoles.[25] O ataque no setor norte-americano, de Paestum a Agropoli, foi confiado à 36ª Divisão, formada por soldados texanos e comandada pelo major-general Fred Walker, antigo professor de Clark em Fort Lewis. Essa divisão teria seu batismo de fogo em Salerno, pois o comandante do 5º Exército confiava em Walker e em seu pessoal, mantendo a mais experiente 34ª Divisão como reserva.[26] Do lado britânico, ao contrário, o ataque inicial envolveu ambas as divisões disponíveis: a 46.ª Divisão, sob ordens do major-general John Hawkesworth[N 1] atacaria ao longo da porção oeste do front, perto da cidade de Salerno; a 56.ª Divisão, sob liderança do major-general Douglas Graham marcharia ao longo da costa em frente à planície diante de Battipaglia, em direção ao aeroporto de Montecorvino.[27]

O conjunto de forças era composto por cerca de 30.000 soldados britânicos e 25.000 americanos para atacar as posições alemãs que, segundo os cálculos, poderiam ser reforçadas em pouco tempo por cerca de 100.000 soldados.[28] Os comandos aliados estavam bastante preocupados com o potencial de reação alemão no setor e, portanto, depositaram grande confiança na rapidez da chegada de Montgomery vindo da Calábria. Era uma possibilidade, porém, incerta; como tanto Clark quanto o general britânico perseguiram suas ambições e tentaram satisfazer suas necessidades, os dois exércitos travaram suas próprias batalhas: o 5º Exército tentou antecipar os confrontos, enquanto o 8º Exército procurou prolongá-los, aproveitando a oportunidade para dar descanso aos homens após as longas campanhas que haviam realizado.[29]

O almirante Henry Kent Hewitt comandaria as duas forças-tarefas navais destinadas à operação, uma para cada exército; Hewitt acompanharia pessoalmente as forças estadounidenses a bordo de sua nau-capitânia, o USS Ancon, que seria também o quartel-general de Clark até que ele pudesse desembarcar.[11] O próprio general esforçou-se para criar o que definiu como "reserva flutuante", ou seja, uma força de apoio composta por nove LST, seis LCI e quarenta e oito DUKW que faria parte da frota de Hewitt e embarcou a 45.ª Divisão de Infantaria (major-general Troy Middleton), pronta para chegar a Salerno em caso de necessidade.[30]

Alemanha

O marechal de campo Albert Kesselring, responsável pelo setor meridional na Europa ocupada (esquerda), e o tenente-general Heinrich von Vietinghoff, comandante da 10.ª Armee que se opôs ao desembarque aliado em Salerno
O canhão de 8.8 cm Flak foi usado com notável sucesso também para tiro antitanque. As faixas brancas no cano indicam os aviões e blindados inimigos destruídos.

Após a retirada da Sicília, a principal unidade de combate à disposição do marechal de campo Albert Kesselring era o 10.º Exército do tenente-general Heinrich von Vietinghoff, formado a partir da fusão das forças alemãs na Itália continental com as que haviam fugido da ilha: contava com cerca de 135 mil homens, incluindo os efetivos da 16.ª Divisão Panzer (do major-general Rudolf Sieckenius), provavelmente a divisão alemã melhor equipada na região. O exército ainda estava em fase de preparação quando a rendição italiana foi tornada pública, deixando os alemães em um país ex-aliado, com ameaças iminentes de invasões anfíbias e comunicações enfraquecidas pelo colapso quase total da rede telefônica. De seu quartel-general em Frascati, Kesselring buscou gerir a situação confusa da melhor forma, aproveitando as informações recebidas: em 6 de setembro, agentes de reconhecimento da Luftwaffe relataram que porta-aviões britânicos estavam se reunindo e um relatório da Kriegsmarine levantou a hipótese de um ataque ao golfo de Salerno. No dia 7, chegou a notícia da presença de um comboio ao norte de Palermo, confirmada na tarde seguinte e suficiente para provocar um alerta. Embora incompleto, o quadro estratégico sugeria que Roma não seria atacada imediatamente e, com a autorização de Hitler, Kesselring deu início à operação Achse às 20h do dia 8 de setembro. Quanto à presença do 8º Exército na Calábria, nem o marechal nem seus tenentes acreditaram que fosse o prólogo de uma ofensiva anglo-americana até Roma, e concederam àquela região apenas um pequeno contingente de tropas com tarefas de retaguarda. No entanto, ao solicitarem reforços adicionais para a zona de Salerno, Kesselring e seu chefe de estado-maior, general Siegfried Westphal, tiveram duas divisões blindadas negadas pelo coronel-general Alfred Jodl (chefe de estado-maior do OKW) e pelo comando do Grupo de Exércitos B posicionado no centro-norte da Itália.[31][32] O grupo de exércitos argumentou que elas, então estacionadas em Mântua, seriam necessárias no norte, mas chegariam tarde demais. Kesselring contra-argumentou que os 700 quilômetros entre Mântua e Salerno poderiam ser percorridos em poucos dias, caso os reforços chegassem em 13 de setembro, quando o combate ainda estaria equilibrado. Ele falhou, porém, em persuadir os superiores.[33]

Paraquedistas a bordo de um veículo blindado de reconhecimento Sd.Kfz. 231 8 rad, pertencente à 16.ª Divisão Panzer e em marcha para o front

Vários oficiais reconheceram que a aparente falta de coordenação entre as operações do 5.º Exército e do 8.º Exército (em 9 de setembro Montgomery ainda estava em Nicastro, cerca de 320 quilômetros de Salerno) oferecia oportunidade para infligir um duro golpe aos Aliados, e Kesselring observou que "os planos aliados demonstram que a preocupação dominante [...] era garantir o sucesso absoluto, o que os levava a recorrer a sistemas e meios ortodoxos". Essas avaliações convenceram-no definitivamente a confirmar a ordem ao general von Vietinghoff de ignorar a Calábria e concentrar homens e meios em Salerno.[33][34] Para resistir ao ataque inicial dos anglo-americanos, estava a 16ª Divisão Panzer, com cerca de 17.000[35]/20 000 homens,[28] 104 tanques e 700 metralhadoras.[35] A divisão, logo após o anúncio do armistício, assumiu o controle das posições defensivas oferecidas pela zona salernitana; o general Sieckenius subdividiu-a ao longo do vale do Sele em quatro kampfgruppe (cada um com o nome de seu comandante) espaçados cerca de 10 quilômetros, para cobrir o front do golfo de Salerno ao norte a Agropoli ao sul. Com as armas capturadas da 222ª Divisão Costeira italiana, que havia sido neutralizada, os alemães ergueram oito cabeças de ponte fortificadas, com 400 metros de largura, equipadas com paliçadas, armas automáticas, morteiros, canhões pesados e cercadas por campos minados, para apoiar a ação das unidades. Além disso, foram preparadas posições de observação no monte Soprana, que permitiam uma ótima vista das praias e do mar, possibilitando direcionar com precisão o tiro da artilharia. Isso reduziu a eficácia das cortinas de fumaça aliadas.[36][37]

Para auxiliar Sieckenius, poderiam convergir outras quatro divisões da 10.ª Armee, todas posicionadas nas imediações do golfo e prontas para serem mobilizadas não diretamente nas praias — a artilharia embarcada aliada já havia demonstrado sua letalidade na Sicília —, mas no interior, ocupando posições elevadas. O XIV Corpo Panzer (General der Panzertruppe Hermann Balck) recebeu a ordem de posicionar-se contra as forças do X Corpo britânico, enquanto o LXXVI Corpo Panzer (General der Panzertruppe Traugott Herr) deveria enfrentar os Estados Unidos ao sul do Sele. No entanto, os movimentos respectivos não foram bem organizados. De fato, enquanto a Fallschirm-Panzer-Division 1 "Hermann Göring" e elementos da 1. Fallschirmjäger-Division e da 15. Panzergrenadier Division (posicionada ao norte no golfo de Gaeta, mas que carecia de veículos blindados) começaram a se deslocar na noite de 9 para 10, as outras duas unidades demoraram mais: a 29.ª Divisão de Infantaria permaneceu parada por dois dias nas proximidades do Golfo de Policastro por falta de combustível, e a 26.ª Divisão Panzer levou uma semana para alcançar Salerno, após ações de retaguarda contra a 1.ª Divisão Canadense, sem seus veículos blindados, que haviam sido deixados em Roma.[38] Kesselring decidiu finalmente abandonar a Córsega: graças à ação decisiva do tenente-general Fridolin von Senger und Etterlin, mais de 30 000 homens com todo seu equipamento (incluindo a experiente 90.ª Divisão de Infantaria Leve) foram transportados sem incidentes para o continente italiano e reorganizaram-se perto de Pisa, embora não a tempo de chegar à Campânia.[39]

Desenrolar da batalha

Os desembarques

Eles devem ser completamente aniquilados e empurrados de volta para o mar. Eles precisam entender que não têm nenhuma esperança contra a força concentrada da Alemanha

— Declaração de Albert Kesselring transcrita no diário do OKW em 29 de agosto de 1943[31]
O fogo antiaéreo do navio de batalha Warspite, durante as fases noturnas dos desembarques

As forças alemãs posicionadas na Itália continental estavam em alerta há dias, à espera de um desembarque aliado. Quando o assalto anfíbio se confirmou, às 14h do dia 8 de setembro, o comando da 16ª Divisão Panzer transmitiu a todos os subordinados a mensagem de pré-alerta "Operação Feuerbrunst", seguida, às 16h30, por um segundo anúncio: "Atenção, operação Orkan", comunicando que o comboio aliado estava à vista. A patrulha blindada de reconhecimento do tenente Rocholl,[40] em patrulha na área de Salerno, enviou destacamentos a Castellammare e Vietri: menos de quatro horas depois anunciou-se a capitulação italiana. A notícia foi imediatamente recebida pela expedição anglo-americana e suscitou uma grande onda de otimismo, que mal conseguiu ser contida pelos oficiais.[41][42] No mesmo momento, os sapadores alemães explodiram o cais de Salerno e as posições abandonadas ou evacuadas pelos italianos foram ocupadas[43]. Pouco antes da meia-noite do dia 9, a frota de invasão posicionou-se a menos de 20 quilômetros do litoral, reunindo um total de 642 embarcações distribuídas em mais de 1.500 quilômetros quadrados. O general Clark assumiu efetivamente o comando das operações, iniciou os procedimentos de preparação para o desembarque e, às 2h, transmitiu a Alexander: "Chegamos à zona de transbordo conforme estabelecido. Barcos já estão no mar e em posição. Mar calmo. Desembarque previsto como programado".[44] Às 3h30, na extrema direita do contingente, os batalhões de assalto da 36ª Divisão[N 2] desembarcaram sem fogo de apoio preparatório nas quatro praias designadas na região de Paestum, esperando surpreender os defensores. Os alemães, porém, dispararam foguetes de iluminação e puderam imediatamente ajustar o tiro de metralhadoras, morteiros e alguns canhões Flak de 88 mm bem posicionados;[45] também usaram um alto-falante que transmitia em inglês: "Venham e rendam-se. Estão sob fogo!".[46] As primeiras ondas sucederam-se a intervalos de oito minutos, mas o fogo dos defensores manteve-se intenso e logo as praias ficaram congestionadas de homens, cadáveres, veículos e destroços. Em alguns momentos, o fogo da artilharia foi tão intenso que obrigou os meios de desembarque a regressarem sem terem desembarcado os homens, para tentarem novamente noutro ponto da costa.[45]

Os artilheiros alemães posicionados entre as muralhas de Paestum disparavam continuamente e, dos celeiros e de todos os edifícios próximos à costa, os tanques disparavam à queima-roupa contra as tropas que conseguiam avançar entre as dunas logo atrás das praias. Ao raiar do dia, apareceram grupos de aviões da Luftwaffe, que metralharam e lançaram bombas contra as tropas na praia e contra os LST ao largo; essas incursões logo se confirmaram como a pior ameaça e ficaram registradas nos escritos do correspondente de guerra John Steinbeck, embarcado em um navio da frota de invasão: “Quando a luz vermelha do alarme aéreo acende, os contratorpedeiros começam a se mover em círculos ao redor dos navios maiores, expelindo uma fumaça esbranquiçada e sufocante que cheira a enxofre. Eles continuam serpenteando para frente e para trás até esconder toda a frota com sua névoa artificial. [...] Então, através da fumaça, começam a se ouvir os estrondos surdos das bombas. [...] E as explosões das bombas rasgam a água e atingem o navio. Você as sente vibrar sob os pés”.[47][48] Na confusão, dezenas de LSTs desembarcaram as tropas em setores errados. Muitos soldados ficaram separados de suas armas de acompanhamento, e as comunicações foram difíceis em muitos casos, tanto pela perda de equipamentos quanto pelo intenso fogo alemão.[49] No entanto, algumas unidades conseguiram avançar para o interior, ultrapassar as cercas e destruir algumas das posições alemãs: o primeiro objetivo dos americanos era a linha ferroviária que ficava paralela à costa. Às 06:00, os DUKW conseguiram desembarcar as primeiras armas pesadas, os obuses M114 de 155 mm do 133º e do 151º Batalhão de Artilharia de Campo, enquanto os tratores de esteira começavam a abrir passagens para os veículos blindados que estavam à espera nas praias.[50]

Um LST desembarca seu carregamento de homens e veículos, mais precisamente Universal Carrier, nas praias de Salerno

No setor setentrional, os comandos britânicos e os rangers estadunidenses, guiados pelo tenente-coronel William Darby, conseguiram surpreender as defesas inimigas e apoderar-se de posições elevadas próximas a Maiori, que serviram como pilar para o flanco esquerdo da formação.[51] Como encontrou resistência mínima, Darby enviou o 1º e o 2º Batalhão em direção ao desfiladeiro de Chiunzi, no topo da cordilheira que se estende pela península de Sorrento, e manteve o 3º Batalhão na costa. O terreno acidentado e a vegetação densa retardaram o avanço, mas logo após o nascer do sol, as vanguardas dos Rangers alcançaram o topo e se entrincheiraram a cerca de 1,5 quilômetro do desfiladeiro de Nocera. Lá, foram alcançados pelo resto dos batalhões, e Darby ignorou a cadeia de comando, comunicando ao general Clark o sucesso da missão (em vez de reportar ao general McCreery, como era de se esperar). Na realidade, os Rangers estavam na posição errada, pois os reforços alemães destinados à cabeça de desembarque seguiram para Salerno precisamente pelo desfiladeiro de Nocera, evitando a passagem.[52] Além disso, privado das armas pesadas necessárias para enfrentar forças blindadas inimigas, Darby foi obrigado a permanecer inativo, limitando-se a observar as tropas alemãs dirigidas ao front, não completando, de fato, sua missão.[53]

À direita dos Rangers, os comandos britânicos reunidos na Layforce desembarcaram em Vietri sul Mare, a cerca de 11 quilômetros a leste de Salerno. Ao norte dessa vila ficavam Cava de' Tirreni e o vale de Molina, que era o objetivo principal: ao conquistá-lo, deveriam impedir que as tropas alemãs usassem o desfiladeiro que ligava Cava a Vietri por meio do vale. Além disso, foram encarregados de ocupar a ponte rodoviária que atravessava o vale. Se destruída pelos alemães, a ponte causaria um engarrafamento na cabeça de ponte e isolaria os rangers em Nocera. Os britânicos, porém, depararam-se com uma oposição obstinada em Vietri, que causou várias baixas e foi replicada pelos alemães também no interior. Ao chegarem com dificuldade ao desfiladeiro de Molina, perceberam que os alemães estavam entrincheirados em posições bem defendidas e continuavam a receber reforços, pois os Rangers não haviam conseguido bloquear a passagem de Nocera.[53] O equipamento leve dos comandos era insuficiente para sustentar uma longa batalha defensiva, e o único apoio para expulsar os alemães do desfiladeiro — os veículos blindados da 46ª Divisão — estava atrasado.[54]

Panzer IV da 16.ª Divisão Panzer no sul da Itália, no final do verão de 1943

A 46ª e a 56ª Divisão desembarcaram à direita da “Layforce” em dois pontos ao lado do aeroporto de Montecorvino, a pouco menos de 5 quilômetros de distância, e em direção a Battipaglia. Nesta área, os britânicos aproveitaram um intenso bombardeio preparatório e conseguiram, assim, desarticular parcialmente as defesas alemãs.[55] Os soldados da 46ª Divisão foram recebidos com fogo intenso do Panzergrenadier-Regiment 64, que os forçou a avançar metro a metro e a solicitar apoio da artilharia naval.[51] Esse foi um caso isolado, pois a resistência nas praias foi esporádica.[54] A captura de Salerno foi atrasada pelas ações eficazes da retaguarda e pelas demolições, e a cidade teve de ser tomada casa a casa, o que atrasou a reunião dos efetivos da 46ª Divisão com os comandos em Vietri e Cava. Somente no final da tarde um destacamento de infantaria alcançou as tropas especiais. A 56ª Divisão não teve melhor sorte, devido à extrema defesa alemã das pistas do aeroporto. Os destacamentos do "Royal Hampshire", encarregados de tomar o aeroporto (fundamental para apoio aéreo tático imediato à cabeça de ponte), não conseguiram seu objetivo após muitos ataques e contra-ataques. Battipaglia, situada no cruzamento das duas estradas estaduais mais importantes, as de número 18 e 19, foi rapidamente ocupada pelo 9º Batalhão "Royal Fusiliers", que, no entanto, estava perigosamente exposto à artilharia alemã e sem o apoio de veículos blindados, sendo forçado a ficar na defensiva. Ao final do dia, o X Corpo de Exército havia desembarcado cerca de 23 mil homens, 80 tanques, 235 canhões e aproximadamente 2 mil veículos de todos os tipos. De qualquer forma, o general McCreery não conseguiu atingir a rota prevista, que deveria passar por Salerno, o aeroporto de Montecorvino, as passagens que levavam para fora da planície, Battipaglia e o nó rodoviário de Eboli.[54]

Tropas britânicas ultrapassam dois tanques destruídos perto de Fasanara

No setor estadunidense, o general Sieckenius posicionou duas companhias de infantaria mecanizada que, apesar da inferioridade numérica, mantiveram os texanos da 36ª Divisão em posição defensiva nas praias e contiveram com sucesso as tentativas de avanço para o interior. Por volta das 9h, os estadunidenses finalmente conseguiram derrubar as linhas alemãs, graças à intervenção dos canhões de 381 mm do monitor HMS Abercrombie e das salvas de 152 mm dos cruzadores leves USS Philadelphia e USS Savannah.[56] Os navios puderam se aproximar somente após os caça-minas, após horas de laboriosa atividade, terem limpado um canal através dos campos minados. No final da manhã, os navios de guerra puderam se posicionar a apenas cem metros do litoral e atingir com precisão os tanques de guerra.[57] No entanto, a frota de invasão encontrou outros problemas. A varredura de minas no setor estadounidense foi realizada de maneira errada e atrasada devido às incursões da Luftwaffe. A embarcação que transportava o general Walker circulou por cerca de cinco horas a aproximadamente 20 quilômetros da costa, e o desembarque do oficial só ocorreu por volta das 8h.[58] Ele pôde constatar que a ausência de veículos blindados aliados encorajava os alemães a lançarem contra-ataques cada vez mais frequentes, embora muitas vezes descoordenados e sem consistência. Segundo o historiador Morris, se essas ações fossem melhor gerenciadas, a cabeça de ponte estadunidense estaria em sérias dificuldades. Ao anoitecer, entretanto, as tropas da 36ª Divisão haviam se instalado mais ou menos firmemente, embora apenas duas das quatro cabeças de ponte pudessem receber veículos de desembarque.[56]

O plano de batalha dos Aliados para 9 de setembro falhara parcialmente, pois previa a união entre os anglo-americanos ao longo do rio Sele até o final do Dia D. Entretanto, os dois corpos de exército estavam separados por uma brecha de cerca de 16 quilômetros que chegava até o mar. A ocupação planejada e fulminante de Nápoles fracassou nas primeiras horas da operação anfíbia, devido à resistência alemã inesperada. A Operação Slapstick, que deveria desviar parte da 10.ª Armee de Salerno, não alcançou o objetivo: a 1ª Divisão Aerotransportada desembarcou em Tarento sem oposição, pois o general von Vietinghoff havia dado prioridade máxima ao combate em Salerno, com a intenção de eliminar a cabeça de ponte.[59] No campo aliado, o general Clark, no entanto, considerou a situação no geral ainda boa e considerou a brecha ao longo do rio Sele como um fator “não muito grave” – na verdade, ele considerava que as praias estavam sob o controle firme de suas tropas, que, assim que possível, se movimentariam tanto para fechar a brecha entre os dois batalhões quanto para lançar uma investida no terreno montanhoso com o objetivo de avançar imediatamente em direção a Nápoles.[60] Na verdade, ele foi muito otimista, subestimou a importância do corredor do Sele e se deixou atrair para posições elevadas, concedendo uma vantagem considerável aos alemães.[61]

A batalha pela cabeça de ponte

Tanques M4 Sherman britânicos marcham pelas ruas de Salerno, recebidos pela população

No dia 10, ficou imediatamente claro que a maior parte das forças alemãs havia sido concentrada contra o X Corps, que, de fato, ao tentar avançar de Salerno em direção à rodovia estadual n.º 18 e dali para Nápoles, encontrou forte resistência. Os estadounidenses, por sua vez, conseguiram avançar mais em profundidade e ocupar um importante grupo de colinas entre Altavilla e Ogliastro Cilento, área abandonada pelas forças alemãs após os contra-ataques fracassados do dia anterior. Os alemães, no entanto, ainda controlavam o corredor formado pelos rios Sele e Calore, que continha o objetivo principal do 179th Regiment da 45th Division – a Ponte Sele, ponto central para o trânsito ao longo da rodovia estadual n.º 19.[60]

Pela manhã, o general Clark desembarcou para decidir onde posicionar o 157th RCT, que constituía a reserva flutuante, para se comunicar pessoalmente com os comandantes e inspecionar a cabeça de ponte. O general Walker informou que a situação estava "sob controle"; a brecha entre os dois grupos não havia sido fechada, mas os alemães pareciam estar se retirando, e o desembarque do 179th Regiment prosseguia rapidamente.[62] Clark então se dirigiu ao general McCreery, que apresentou um quadro muito mais sombrio e pessimista: as tropas britânicas enfrentavam dificuldades crescentes, o aeródromo de Montecorvino ainda não havia sido assegurado e, naquela mesma manhã, os alemães haviam contra-atacado em Battipaglia, onde a fábrica de tabaco se tornara o centro dos combates, pois ali permanecia confinado o 9th Battalion "Royal Fusiliers". Ao longo do dia, a unidade, sem peças antiaéreas (destruídas pelo fogo da artilharia alemã), teve de suportar uma série de contra-ataques lançados pela 26ª Divisão Panzer , bem como por unidades de paraquedistas. Apoiados por tanques Panzer IV, os alemães romperam as linhas britânicas e capturaram centenas de soldados. O 3º Batalhão das Coldstream Guards organizou uma contraofensiva, que, no entanto, foi repelida pelas tropas alemãs. Esse fracasso selou o destino do 9º Batalhão. Enquanto isso, McCreery manifestou novas preocupações com a situação dos rangers do major Darby e com a falta de integração entre os dois contingentes da 5th Army. Diante disso, Clark e seu subordinado concordaram em utilizar os dois batalhões do 157th Regiment para fechar a brecha e deslocar o 143rd Regiment (36th Division) para Maiori, a fim de apoiar Darby.[63]

O Savannah é atingido por uma bomba planadora alemã na manhã de 11 de setembro: a fotografia foi tirada do Ancon

Por volta das 13:00, Clark retornou ao Ancon e, dali, comunicou ao general Alexander: "Retornei agora de reconhecimento pessoal no setor do VI Corps. Situação boa".[62] No entanto, ao chegar ao navio, Clark foi informado de que o 157th RCT já havia desembarcado ao sul do Sele, no setor estadounidense. O almirante Hewitt explicou que havia recebido a ordem do quartel-general aliado em Argel de liberar os navios, que estavam destinados aos portos britânicos e se preparavam para a Operação Overlord. Como o comandante do exército estava ausente, Hewitt teve de atender ao pedido. Somente ao amanhecer do dia seguinte, o 157th RCT chegou ao setor britânico. O 143rd RCT, por sua vez, levou quase três dias para alcançar Maiori.[64]

Embora Clark tivesse realizado alguns deslocamentos táticos corretos, ele ainda não estava convencido de que os alemães contra-atacariam e considerava McCreery excessivamente pessimista. Ordenou, portanto, que Walker levasse suas tropas às colinas circundantes, cujos declives permaneceram bloqueados pela obstinada resistência alemã, especialmente perto de Altavilla, e continuou a negligenciar o corredor do Sele.[65] Pouco antes do anoitecer, o 179th RCT avançou ao longo de Persano em direção à Ponte Sele, mas ali encontrou um dos vários contra-ataques organizados pelo general Sieckenius no final do dia; combates ferozes ocorreram também no aeródromo de Montecorvino e em Battipaglia, no setor britânico, e novamente em Altavilla. Os combates prosseguiram até o dia seguinte, quando ficou claro que a batalha por Salerno seria decidida ao longo do perímetro da cabeça de ponte.[66]

No dia 11, chegou ao comando do VI Corpo de Exército o general Dawley, que desembarcara com muitas dificuldades em Paestum na tarde do dia anterior, após seu navio (o Funston) enfrentar várias vicissitudes devido às incursões da Luftwaffe. Embora as forças aéreas anglo-americanas fossem superiores em qualidade e quantidade, a Luftwaffe tinha a vantagem de operar a partir de bases próximas à zona de combate. Apenas entre os dias 10 e 11, foram realizadas 450 incursões contra a cabeça de praia, causando perdas significativas. No dia 10, quatro bombas atingiram a proa do navio-almirante Ancon, que, com suas antenas de rádio e seu tamanho, havia atraído a atenção dos aviadores alemães. Na manhã do dia 11, outro ataque da Luftwaffe utilizou a nova bomba planadora Ruhrstahl SD 1400, que provavelmente era destinada ao Ancon, mas atingiu a torre número três do cruzador leve Savannah, a 400 metros à direita. A bomba perfurou a blindagem e explodiu no interior do navio, causando graves danos e muitas perdas entre a tripulação. A ação das equipes de controle de danos e o alagamento de vários compartimentos impediram a explosão do depósito de munições e permitiram que o Savannah recuasse para Malta a fim de realizar reparos urgentes.[67][68] Enquanto isso, pela manhã, Clark decidira retornar à terra firme e instalar seu quartel-general perto da foz do Sele, em Villa Rossa, suficientemente próximo ao comando britânico, mas, acima de tudo, a uma distância útil para controlar as ações de Dawley: o general nutria fortes dúvidas em relação ao subordinado e pensava que ele precisaria de apoio caso as operações não seguissem o plano[69][70]. Até o final do dia, os alemães expulsaram os britânicos de Battipaglia; na Ponte Sele, as unidades estadounidenses relataram estar cada vez mais expostas a ataques e bombardeios inimigos. Clark combinou com Dawley o deslocamento de tropas do sul para enfrentar a pressão inimiga no setor norte ao longo do Sele: a situação era tão crítica que Clark resolveu retornar ao Ancon, onde recebeu a notícia de que a Operação Giant 2 havia sido cancelada e de que, portanto, Alexander lhe devolvera o controle da 82nd Airborne Division.[67]

O contra-ataque alemão

A situação da cabeça de praia às 24:00 do dia 11 de setembro

Nesse meio tempo, o general Montgomery não havia atendido às solicitações do general Alexander para uma rápida ocupação da Calábria e, pelo contrário, em 11 de setembro concedeu dois dias de descanso à 5ª Divisão de Infantaria (que havia chegado entre Nicastro e Catanzaro). Era exatamente o momento em que os reforços alemães se reuniam nos estreitos vales a leste de Salerno. O general von Vietinghoff calculou que poderia cercar a cabeça de ponte com cinco divisões até 13 de setembro e mantê-la sob fogo de artilharia, capaz de alcançar as crescentes milhares de toneladas de material anglo-americano descarregadas nas praias.[71][72] No domingo, 12 de setembro, von Vietinghoff compreendeu que um ataque em força contra os americanos deveria explorar o corredor do Sele, que “apontava como uma adaga para o coração da cabeça de ponte”, e assim ter boas chances de sucesso. Uma vitória defensiva em Salerno permitiria infligir duras perdas aos Aliados e, acima de tudo, adiar a invasão prevista através do Canal da Mancha.[73][74]

 
Acima: artilheiros alemães posicionam uma instalação Flakvierling de 20 mm. Abaixo, canhões de assalto e semilagartas alemães em movimento para a cabeça de ponte, durante o contra-ataque de 13 de setembro

Naquele mesmo dia, o general Clark transferiu o comando da 5th Army para a cabeça de ponte e visitou Dawley, onde imediatamente percebeu a criticidade da situação. O flanco direito parecia seguro, mas o centro preocupava consideravelmente o comandante: os granadeiros alemães haviam ocupado Altavilla e praticamente aniquilado o 142nd Regiment (reduzido a 162 homens), enquanto o corredor do Sele (codinome "Bryan") estava agora em mãos do adversário. Além disso, o 179th RCT havia sido definitivamente repelido da Ponte Sele, e os britânicos foram expulsos de Eboli e Battipaglia pela 16. Panzer-Division. Apenas durante o dia Clark percebeu que, se os alemães seguissem o rio até a foz, poderiam contornar tanto o VI quanto o X Corps, dividindo seu exército[72]. Ao visitar o general McCreery, Clark constatou que os britânicos enfrentavam dificuldades semelhantes. Somente em 11 de setembro, os alemães fizeram mais de 1 500 prisioneiros que, somados aos mortos e feridos, elevavam as perdas do X Corps a cerca de 3 000; a 56th Division, atacada pelos panzer, retirara-se exausta para uma nova linha defensiva 3 quilômetros a oeste de Battipaglia, em direção a Persano, e até os "Coldstream" haviam se posicionado a cerca de 600 metros da praia: alguns oficiais, tomados pelo pânico, queimaram documentos e mapas. Clark retornou a Paestum e ordenou a transferência imediata do posto de comando da foz do Sele para um bosque no setor do VI Corps; deu instruções a Dawley para reposicionar a 45th Division ao norte do rio, com dois batalhões na extrema esquerda do setor, estendendo a linha estadounidense do Bivio Cioffi até Santa Lucia (às portas de Battipaglia), com o objetivo de se unir ao X Corps.[75] O comandante estadounidense também enviou outras tropas para defender Persano. Enquanto isso, o general Dawley planejava um contra-ataque da 36ª Divisão para retomar Altavilla, seguindo a tradição militar de que a posse do terreno elevado era fundamental para a vitória.[73]

Soldados americanos em ação entre os escombros de Persano, ponto focal dos confrontos de 13 de setembro

Entre os soldados posicionados ao longo da costa de Salerno, rapidamente se espalhou a consciência de que se encontravam numa situação crítica, confirmada pelas transmissões do BBC Overseas Service, cujos boletins descreviam a batalha como "desesperada".[76] A cidade de Persano tornou-se um dos pontos centrais do confronto, pois estava situada bem na entrada do corredor entre os dois batalhões. Clark determinou que ela fosse mantida a qualquer custo para proteger o flanco do VI Corps; no entanto, a vila ainda estava em mãos do debilitado 1st Battalion do 179th RCT, e o general não se opôs à intenção de Dawley de reocupar Altavilla, agora de importância secundária no quadro da batalha.[73] As duas divisões estadounidenses, com forças apenas suficientes para defender o terreno já ocupado, tiveram de guarnecer uma área maior e, além disso, marchar em três direções (Persano, Bivio Cioffi/Santa Lucia e Altavilla) para obedecer às ordens; isso provocou uma série de conflitos entre os comandantes.[77] O general Walker enviou a Persano o 2nd Battalion do 143rd RCT sem artilharia pesada, veículos blindados ou unidades especializadas, apenas com as baterias de campo que haviam apoiado o ataque a Altavilla. Nas primeiras horas de segunda-feira, 13 de setembro, um kampfgruppe apoiado por uma dúzia de Panzer IV e tropas de assalto em semilagartas irrompeu surpreendentemente no setor de Persano. Os estadounidenses foram pegos de surpresa e nem contaram com o apoio da artilharia naval, que naquele momento cobria a retirada da 36th Division após o contra-ataque em Altavilla; o 1st Battalion do 142nd Regiment tentara entrar na localidade, mas ficara imobilizado pelas precisas salvas da artilharia alemã, fragmentando-se progressivamente e dispersando-se pelo campo. Qualquer ideia adicional de retomar Altavilla foi abandonada. O general Walker assumiu a tarefa de deslocar suas tropas e encurtar a linha, que foi restabelecida ao longo do riacho La Cosa, espécie de córrego no setor americano, com cerca de 8 quilômetros de extensão paralela ao mar.[78]

Durante os combates, Clark deslocou-se para a confluência entre o Sele e o Calore, onde pôde constatar pessoalmente o desastre em Persano e a perigosa penetração alemã. Com binóculos, ele observou os blindados da 16ª Divisão Panzer , posicionados em forma de leque na margem norte do rio Calore, que abriram fogo contra os depósitos e as retaguardas estadunidenses, desencadeando pânico. As unidades blindadas alemãs, em superioridade numérica local, estavam a menos de três quilômetros do mar e ameaçavam o quartel-general da 5ª Divisão de Infantaria dos Estados Unidos, a ponto de o general ordenar que os membros do estado-maior se posicionassem na linha de combate. A contenção da brecha recaiu principalmente sobre as unidades de artilharia de campo da 45ª Divisão, pois os estadunidenses não quiseram correr o risco de causar danos colaterais ao solicitar apoio naval — alemães e estadunidenses estavam a menos de 2 quilômetros de distância, o que era insuficiente para um tiro preciso das embarcações. Os obuses M114 de 155 mm foram posicionados em configuração antitanque e todas as peças de artilharia disponíveis foram concentradas nos pontos de maior perigo, com ordem de atirar incessantemente contra os inimigos. O confronto se arrastou até o anoitecer, quando os panzers finalmente recuaram de Persano. Algumas horas depois, pouco antes da meia-noite, dezenas de Dakota apareceram no céu do golfo e começaram a lançar os primeiros pelotões do 504th Airborne Regiment (comandados pelo coronel Reuben Tucker), da 82nd Division, reforços solicitados por Clark naquela mesma manhã.[79]

Clark considera o reembarque

Homens da 5th Army resgatam barris de combustível sob fogo alemão

Embora encorajado pela chegada das primeiras unidades aerotransportadas, Clark convocou antecipadamente uma conferência com seus principais colaboradores para a mesma noite de 13, com o objetivo de avaliar a situação confusa. Pouco após as 19:30, os generais Dawley, Middleton, Walker e o chefe de estado-maior da 5th Army, major-general Alfred Gruenther, reuniram-se; Clark iniciou a discussão expressando temores de que Salerno pudesse se tornar outra Galípoli ou outra Dunkerque e, como comandante do exército, declarou sentir-se no dever de elaborar planos para todas as eventualidades, incluindo a evacuação da cabeça de ponte. De fato, ele apresentou aos presentes o que já havia sido decidido: o estado-maior havia sido instruído a elaborar dois planos ("Sealion" e "Seatrain"). O primeiro previa a retirada do VI Corpo no setor do X Corpo, o segundo considerava o movimento contrário.[80]

Artilheiros norte-americanos operando um obus M114 de 155 mm: essas peças de artilharia foram fundamentais para repelir os ataques da 16ª Divisão Panzer.

As revelações de Clark deixaram os generais presentes perplexos e Dawley protestou oficialmente, sem, no entanto, receber qualquer atenção por parte do superior. Walker disse estar confiante de que, se os alemães avançassem contra a linha do riacho La Cosa, ficariam em posição descoberta e vulneráveis ao fogo concentrado da artilharia; ele estava tão otimista que colocou em reserva os primeiros destacamentos da 82ª Divisão Aerotransportada, oferecidos por Clark. Middleton também demonstrou frieza e reiterou que as posições da 45ª Divisão ao norte do Sele eram sólidas. No final da reunião, Clark, ainda duvidoso, continuou a elaborar os planos de evacuação, mas nenhum dos seus subordinados se preocupou em ativar as diretrizes e Middleton chegou ao ponto de divulgar uma ordem que tornaria impossível qualquer evacuação: "Coloquem alimentos e água atrás da 45ª. Vamos ficar aqui".[81] No entanto, nenhum representante britânico foi convidado para a reunião, uma omissão motivada pela agitação do momento, ainda mais grave considerando que os planejadores estavam trabalhando no Sealion. Apenas o almirante Hewitt foi informado do fato, pois o reembarque exigiria um grande esforço logístico dos recursos navais mobilizados pelos Aliados. Surpreso, Hewitt transmitiu as instruções para que todas as operações de desembarque nas praias controladas pelos americanos fossem interrompidas e chamou o Ancon de volta de Argel, onde se encontrava, para a zona de operações; convocou então o comodoro Geoffrey Oliver, o oficial naval de mais alta patente no setor britânico, para informá-lo do possível reembarque e dos planos gerais: em particular, pediu para usar o navio de comando britânico HMS Hilary para embarcar Clark em caso de necessidade antes da chegada do Ancon. Oliver entrou em contato com o general McCreery para lhe apresentar a questão e só então o comandante do X Corps tomou conhecimento das intenções de Clark; surpreso, enviou imediatamente um despacho ao almirante Andrew Cunningham, comandante superior das forças navais aliadas em Malta, para pedir seu apoio com o objetivo de impedir o que considerava um absurdo. Cunnigham também recebeu uma mensagem de Hewitt solicitando reforço naval adicional: naquela mesma noite, os navios de guerra Valiant e Warspite partiram e rumaram para o golfo de Salerno, juntamente com o Nelson e o Rodney.[82]

Operações de carregamento de um lançador de foguetes Nebelwerfer (modelo desconhecido) posicionado na frente de Salerno

Na manhã do dia 14, os alemães retomaram o ataque contra o 179th RCT, ao norte do Sele. Por volta das 8h, dez tanques abriram caminho para um batalhão de infantaria, mas se depararam com uma defesa estadunidense reorganizada e reforçada por dois batalhões de infantaria equipados com tanques e caça-tanques. Os alemães continuaram a sondar o terreno em busca de pontos fracos, mas desistiram após várias tentativas não revelarem brechas. Então, os esforços concentraram-se nas posições ocupadas pelo 157th RCT, mas o ataque alemão foi frustrado pelo fogo do cruzador Boise e falhou novamente. O major-general Sieckenius mais uma vez dirigiu seus homens contra a 45ª Divisão, sem resultados tangíveis. As forças alemãs se reorganizaram para atravessar o riacho La Cosa, defendido pelos contingentes da 36ª Divisão, que contaram com um intenso fogo de artilharia. O ataque começou ao meio-dia, e os soldados alemães foram dizimados e mantidos à distância pelo bombardeio, recuando finalmente. Os estadunidenses enfrentaram outras duas investidas ofensivas durante o dia, que foram repelidas com sucesso. No setor britânico, o general McCreery, totalmente contrário à ideia de abrir mão da cabeça de ponte, manteve a situação sob controle e impediu que a ansiedade se espalhasse entre suas unidades. A frente britânica não foi penetrada pelos alemães. Ao anoitecer, começaram a chegar os reforços da 82ª Divisão, fato que selou a ordem de Hitler (transmitida à tarde do dia 14) de recuar de Salerno para o norte, implementando a estratégia da terra queimada. O marechal de campo Kesselring comunicou as novas disposições a von Vietinghoff, que já sabia que o momento da vitória havia passado. Preocupado também com o avanço da 8th Army, von Vietinghoff iniciou os preparativos para uma retirada combatida.[83]

Consolidação e reforços

Soldados britânicos buscam refúgio contra bombas de morteiro alemãs

Ao tomar conhecimento da gravidade da situação, ainda em 14 de setembro, o general Alexander ordenou que Montgomery interviesse em Salerno o mais rápido possível, ignorando qualquer risco. Ele então decidiu visitar pessoalmente a cabeça de ponte e embarcou no contratorpedeiro HMS Offa, chamado da frota de apoio.[84] Antes de partir, Alexander contatou o tenente-general George Smith Patton, que ainda estava na Sicília com o Sétimo Exército dos Estados Unidos, e obteve o destacamento da 3ª Divisão de Infantaria, do major-general Lucian Truscott, para reforçar as fileiras da 5th Army.[85] A máquina logística britânica entrou em ação para levar reforços dos campos de trânsito no norte da África às divisões britânicas em Salerno. Naquela mesma noite, 120 Douglas C-47 Dakota/Skytrain lançaram 2.100 homens do 505th Parachute Regiment dos Estados Unidos na zona ao sul de Paestum. Eles foram rapidamente transferidos para Agropoli, onde ficaram como reserva. Mais arriscada foi a missão de lançamento do 509th Regiment atrás das linhas alemãs, perto de Avelino, uma manobra que Clark esperava que atrapalhasse a logística alemã. Segundo ele, operando em pequenos grupos, os soldados conseguiriam atacar efetivamente os comboios alemães que seguiam para a frente de batalha. Seiscentos homens saltaram de 46 aeronaves sobre uma área de 25 km², mas é difícil avaliar se essa operação teve algum efeito.[86] Posteriormente, Clark avaliou a operação como um sucesso, apesar dos riscos e da ferocidade dos combates. Ele declarou que os ataques dos paraquedistas "perturbaram seriamente as comunicações alemãs" e que "a missão do 509th rendeu grandes dividendos". Em dois meses, 80% do regimento estava em segurança nas linhas estadunidenses.[87]

Os destroços da invasão: um Jeep e um caça-tanques M10 Wolverine destruídos nas praias

Na noite do dia 14, após uma intensa incursão aérea aliada nas proximidades das linhas amigas com o objetivo de atingir as concentrações alemãs,[88] Clark recebeu uma carta do general Eisenhower informando-o sobre a vasta operação de reforço em andamento na África e na Sicília para reverter a situação em Salerno. Na manhã seguinte, chegaram Alexander e o marechal do ar Arthur Coningham. Enquanto isso, vindos do sudeste, chegaram alguns jipes com correspondentes de guerra britânicos, impacientes com a lentidão do avanço de Montgomery. Eles percorreram sozinhos a distância até a cabeça de ponte e se juntaram aos batedores estadunidenses ao sul de Agropoli.[89] Alexander declarou-se satisfeito pelo fato de a cabeça de ponte ter superado a crise e, após cancelar qualquer plano de evacuação, partiu com Clark para visitar os generais Dawley e McCreery. Os altos oficiais puderam observar os intensos combates no setor da 46ª Divisão.[90] Impressionado com a luta, Alexander manifestou preocupação com Dawley e, ao sair do posto de comando do VI Corpo de Exército, disse a Clark: "Não quero me intrometer em seus assuntos, mas afirmo com certeza que esse homem é como uma cana ao vento e sugiro que ele seja imediatamente substituído". O general estadunidense disse estar ciente da situação e pediu que Alexander relatasse o ocorrido a Eisenhower — um pedido supérfluo, pois, ao saber que o exército havia superado o momento difícil, Eisenhower resolveu visitar pessoalmente a cabeça de ponte.[89] No dia 15 de setembro, chegaram os primeiros elementos da 3rd Division e da 7th Armoured Division, ambas britânicas. Na manhã seguinte, a Fifth Army contava com cerca de 170 mil homens, divididos em sete divisões. Por outro lado, o general von Vietinghoff não recebeu reforços e foi forçado a recuar com o que restava de seu exército. A superioridade aliada era esmagadora em termos de veículos blindados, pois Clark podia enfrentar os cerca de vinte tanques ainda operacionais das divisões de von Vietinghoff com duzentos.[2] O clima de tranquilidade e o aumento do moral no campo anglo-americano foram abalados pela atitude do general Montgomery, que parecia indiferente ao drama da operação anfíbia. Desde 3 de setembro, ele havia capturado apenas 85 alemães, perdido 62 homens e renunciado a perseguir o adversário em retirada com audácia. Somente no dia 15, ele telegrafou a Clark que estava prestes a chegar, embora, na realidade, ainda estivesse a 80 quilômetros de Paestum.[89]

Os últimos combates

Um soldado alemão morto em sua trincheira: em primeiro plano, ao lado do fuzil Karabiner 98k, estão dois Panzerfaust destinados ao combate anticarro.

Paralelamente à batalha entre os dois exércitos, ocorreram algumas revoltas pela população civil e por militares do Exército Real Italiano após o armistício de 8 de setembro, brutalmente reprimidas pelas tropas alemãs: um exemplo disso foi o massacre de Nola, que foi cometido por integrantes da divisão blindada "Hermann Göring", resultando na morte de dezoito italianos, entre civis e soldados. Na manhã do dia 16 de setembro, ocorreu a última contraofensiva dos defensores: a 26. Panzer-Division saiu em força de Battipaglia e tomou a rodovia estadual n.º 18 para se juntar à "Hermann Göring", mas a tentativa foi interrompida devido à violenta reação da artilharia aliada, que se tornara preponderante. As colunas alemãs, desorganizadas e com perdas, recuaram durante a manhã. No fim da tarde do dia 17, o general Eisenhower encontrou uma situação relativamente favorável[91] e imediatamente visitou os comandos da 36ª e da 45ª Divisão. Concluída a inspeção, ele conversou com Clark e ordenou que Dawley fosse removido do comando do VI Corpo, que foi confiado ao major-general John Lucas. A demissão e a nomeação decepcionaram profundamente o general Walker, que se considerava o substituto mais lógico de Dawley, e alimentaram suas suspeitas em relação a Clark. Este foi informado pelo major-general Ernest Harmon (comandante da 1ª Divisão Blindada) de que o episódio teve um efeito deprimente na opinião dos outros generais,[92] os quais já estavam perplexos com a substituição de cinco comandantes de batalhão.[93]

No final da tarde de quinta-feira, 16 de setembro, von Vietinghoff concluíra que "não se podia mais esperar por um sucesso completo em Salerno". O marechal de campo Kesselring, por sua vez, tomou nota das graves perdas sofridas pela 10. Armee e autorizou a retirada, desde que o rio Volturno, 35 quilômetros ao norte de Nápoles, fosse mantido pelo menos até 15 de outubro; os alemães iniciaram a retirada naquela mesma noite, coberta por uma retaguarda de 2 500 homens.[94] Na manhã do dia 18, um longo comboio alemão avançou pela estrada de Eboli, enquanto unidades de engenheiros e outros soldados se dedicavam metodicamente a devastar tudo. Houve saques intensos de alimentos, metais preciosos, veículos, automóveis, ônibus etc. As tropas confiscaram ou abateram cavalos e mulas, queimando até selas e cascos. Elas exterminaram todas as ovelhas, bovinos e aves, arrancaram os dormentes ferroviários e demoliram as casas ao longo das estradas. O objetivo era retardar o avanço dos Aliados e privar a população de meios de subsistência.[95]

Nos relatos alemães, é possível perceber uma relativa satisfação pelos dez dias de batalha em Salerno. Kesselring informou a Berlim que havia capturado 3 mil anglo-americanos, infligido pelo menos 10 mil perdas ao inimigo e tornado os invasores "incapazes de atacar por muito tempo". "Mas o que mais importa para nós é o tempo ganho, que nos permite nos reorganizarmos", disse ele. O general Sieckenius concluiu que os combatentes aliados não estavam à altura dos alemães, pois careciam de "espírito ofensivo" e apresentavam "dependência excessiva da artilharia", além de serem "relutantes ao contato próximo". Hitler compartilhava da mesma opinião, afirmando: "Nada mais de invasões para eles! São covardes demais. Conseguiram fazer a de Salerno apenas porque os italianos lhes deram a bênção".[96] Von Vietinghoff também elogiou suas tropas e, nos comunicados a Berlim, especificou que a 10. Armee havia feito 5 mil prisioneiros e infligido perdas gravíssimas.[97]

Prisioneiros alemães nas praias

No dia 18 de setembro, o serviço de informações do 5º Exército confirmou a retirada geral dos alemães. Patrulhas do 179º RCT atravessaram o corredor e, ao final do dia, chegaram à Ponte Sele. Uma patrulha da 36ª Divisão desceu as colinas acima de Altavilla e foi alcançada por alguns blindados da 56ª Divisão Britânica. Os objetivos estabelecidos para o dia 9 de setembro haviam sido conquistados. Enquanto isso, o 8º Exército seguia pela rodovia estadual n.º 19, com a maior parte de suas tropas posicionada nas proximidades de Montesano, a cerca de 40 quilômetros ao sul do setor americano,[98] mas, na tarde anterior, algumas patrulhas da 5ª Divisão haviam chegado ao quartel-general de Walker para acertar os detalhes da tão esperada união. A mídia britânica deu grande destaque à intervenção do 8º Exército, que chegou no último momento "como a 7ª Cavalaria", mas o próprio major-general Francis Wilfred de Guingand, chefe do Estado-Maior de Montgomery, escreveu: "Alguns gostariam de acreditar [...] que fomos úteis ou que salvamos a situação em Salerno", mas a verdade era que "o general Clark tinha tudo sob controle antes que o 8º Exército aparecesse em cena".[97] As relações entre os dois altos oficiais ficaram irremediavelmente abaladas, porque Montgomery se considerava o salvador e Clark ficou profundamente ressentido por ver-se atribuído, pela propaganda britânica, um papel subordinado: por isso, durante a campanha na Itália, ele procurou promover a sua imagem de todas as formas possíveis.[97] Em 18 de setembro, Montgomery enviou a Clark uma mensagem na qual se dizia satisfeito por suas forças terem alcançado a 5ª Divisão, ao que o general americano respondeu laconicamente: “Recebi sua mensagem. Não ouvi nada”, comprovando que o contato entre as duas divisões não havia surtido nenhum efeito na batalha em torno da ponte.[98][N 3]

O avanço em direção a Nápoles

Soldados britânicos da infantaria em Salerno após o fim dos combates.

No dia 21 de setembro, o general Alexander retornou à cabeça de ponte para delinear a estratégia futura do 15º Grupo de Exércitos ao general Clark: o 5º Exército avançaria em direção a Nápoles sem parar, para atravessar o rio Volturno e subir pelo lado ocidental dos Apeninos, enquanto o 8º Exército subiria pelo lado adriático. A ofensiva sobre Nápoles, entretanto, mostrou-se mais difícil do que o esperado, devido à chuva, à lama e às eficazes táticas dilatórias implementadas por Kesselring e seus generais. Pequenas retaguardas de infantaria motorizada, entrincheiradas com abundância de armas automáticas nas encostas dominantes e apoiadas por núcleos de fuzileiros nos cumes, obrigaram as forças aliadas a realizar manobras contínuas de contorno, expondo-as a tiros repentinos da artilharia alemã.[99] O estado do terreno e das estradas (muitas pontes haviam sido destruídas pelos alemães) prejudicou totalmente a logística das forças aliadas, que eram totalmente motorizadas, a ponto de grande parte dos suprimentos ter que ser transportada por mulas ou homens, em uma área montanhosa infestada por campos minados insidiosos, cuja desminagem foi difícil e custou um grande número de baixas adicionais. Durante o avanço, o general Montgomery visitou Clark para informá-lo de que a vastidão da zona de operações da 8th Army, somada aos obstáculos logísticos, permitiria o avanço britânico aos aeródromos de Foggia apenas a partir do dia 1º de outubro.[100]

As diretrizes do avanço aliado em direção ao Volturno

No dia 28 de setembro, os preparativos da 5ª Divisão de Infantaria para a conquista de Nápoles foram concluídos. Os Rangers do major Darby, operando ao longo da cordilheira de Salerno-Sorrento, foram flanqueados pela 82ª Divisão do general Ridgway, que assumiu o comando dessa formação e com ela entrou na planície de Nápoles. Ao mesmo tempo, o X Corpo de Exército penetrou em Castellammare di Stabia, na costa sul do golfo de Nápoles, e no dia 29 abriu uma brecha nos declives do Vesúvio.[101] O avanço aliado foi precedido pela insurreição espontânea da população de Nápoles em 27 de setembro, após uma ocupação alemã particularmente violenta, com saques, pilhagens e alistamento forçado de todos os homens em idade militar para batalhões de trabalho. Após os primeiros tiroteios esporádicos, uma parte importante dos cidadãos participou da vasta rebelião. Segundo o Office of Strategic Services, os chamados "quatro dias de Nápoles" forçaram a Wehrmacht a abandonar a cidade um par de dias antes do previsto.[102] Enquanto os combates ocorriam na cidade, Clark recebeu a visita do coronel Frank Knox, enviado pelo presidente Roosevelt de Washington para parabenizá-lo e a seus homens. Posteriormente, o general Alphonse Juin, comandante do corpo expedicionário francês que estava para se juntar à 5th Army, alcançou Clark. Os dois chegaram à frente em 1º de outubro e, com uma coluna, percorreram a rodovia estadual n.º 18 rumo a Nápoles, esperando encontrar combates na periferia. No entanto, chegaram inesperadamente a San Giovanni a Teduccio sem encontrar resistência. Lá, encontraram o general Ridgway, que os informou sobre a entrada das vanguardas estadunidenses em Nápoles. Clark, então, subiu em um veículo blindado (sem Juin, cujas tropas não participaram dos combates) e, com escolta de paraquedistas, dirigiu-se ao centro da cidade.[101] Ele foi imediatamente à Praça Garibaldi, onde foi recebido pelo Regimento 1st King's Dragoon Guards do X Corpo, que havia chegado à cidade por volta das 9h30 (a primeira unidade aliada a entrar). Os contingentes da 82ª Divisão Aerotransportada assumiram imediatamente tarefas de ordem pública e segurança, auxiliados pela Polícia Militar.[103]

Os alemães deixaram a cidade em ruínas. Os sapadores destruíram todas as instalações urbanas e industriais, como aquedutos, esgotos, fábricas, meios de transporte e depósitos de carvão, além de minarem um número considerável de edifícios e quartéis (inclusive com bombas-relógio, que explodiram dias após a libertação). A biblioteca da Sociedade Real Italiana e o depósito de San Paolo di Belsito, perto de Nola, foram incendiados, resultando na perda de documentos preciosos do Arquivo de Estado de Nápoles relativos à história da Idade Média. A sabotagem que teve maior impacto nas operações foi a do amplo porto: já atingido pelos bombardeios aéreos aliados, os alemães o inundaram afundando todos os rebocadores e embarcações, destruindo todos os guindastes, gruas, cais e edifícios ao redor dos molhes, que haviam sido derrubados para obstruí-los. O toque final na obra de devastação foi a colocação de minas e cilindros de oxigênio entre os escombros, tornando a reativação do porto um trabalho longo, complexo e repleto de riscos.[104][105]

Balanço, análise e consequências

Os generais Fred Walker (à esquerda) e Ernest Dawley, cujo desempenho em Salerno gerou muita discussão.

O desembarque e a batalha no Golfo de Salerno causaram à 10.ª Armee cerca de 3.500 baixas, dentre as quais 630 mortos,[3] contra 840 mortos, 2.002 feridos e 630 desaparecidos do lado alemão.[1] Os Aliados registraram um número maior de vítimas: cerca de 9 mil, sendo 5,5 mil no X Corpo de Exército e 3,5 mil no VI Corpo de Exército, totalizando mais de 1,2 mil mortos.[3] No pós-guerra, o general Clark detalhou as perdas britânicas: 531 mortos, 1.915 feridos e 1.561 desaparecidos. Ele também detalhou as perdas estadunidenses: 225 mortos, 853 feridos e 589 desaparecidos. Clark esclareceu, porém, que a maioria dos desaparecidos de ambos os corpos de exército retornou posteriormente às linhas.[106] Segundo o historiador Morris, o total de baixas foi ligeiramente superior: para o X Corpo de Exército, ele fala de 725 mortos, 2.734 feridos e 1.800 desaparecidos; para o VI Corpo de Exército, a diferença está apenas no número de feridos, que ele estima em 835.[1]

O desembarque em Salerno foi prejudicado por uma série de erros e falhas aliadas. Primeiramente, os generais Clark e Walker abriram mão de qualquer tiro naval preparatório no setor estadunidense para preservar um suposto efeito surpresa sobre os defensores alemães, que, na verdade, já estavam cientes da chegada dos anglo-americanos.[107] Em segundo lugar, a logística da 5ª Exército não foi devidamente planejada e, assim, não houve meios de desembarque em número suficiente. Essa fraqueza não só atrasou a chegada de reforços cruciais, como também foi amplificada pela ausência de estrutura portuária adequada: centenas de soldados tiveram de ajudar a descarregar equipamentos e materiais na praia, ficando expostos aos ataques alemães. Em terceiro lugar, a não ocupação do aeródromo de Montecorvino fez com que a 5ª Divisão de Infantaria dependesse das porta-aviões de escolta britânicas (que foram chamadas de volta em 10 de setembro) ou de aeronaves da Sicília, o que apresentava obstáculos: a cabeça de ponte estava no limite do raio de ação dos caças na ilha, enquanto os Supermarine Seafire embarcados podiam decolar apenas com a porta-aviões a 20 nós e com vento de 10 nós a favor. Acidentes aéreos não foram raros e reduziram ainda mais a cobertura aérea.[108][109] Além disso, o afluxo de reforços para a 16. Panzer-Division e outras unidades alemãs não foi impedido pelos rangers do tenente-coronel Darby, posicionados entre Nocera e Vietri, mas sem armamento pesado.[53] Por fim, os historiadores destacaram a ineficiência da cadeia de comando, presa a disputas pessoais e rivalidades. O general Clark, por exemplo, enfrentou a difícil situação de comandar dois generais mais antigos: Walker, seu professor em West Point, e Dawley, "protegido" do chefe do Estado-Maior do Exército, Marshall. Dawley nunca teve a confiança de Clark e demonstrou indecisão e confusão nos momentos críticos. O próprio comandante do 5ª Exército cometeu o grave erro de subestimar a brecha entre os dois grupos: em 9 de setembro, ele comunicou ao almirante Hewitt que "a brecha não é algo muito grave".[110] No pós-guerra, Clark tentou se eximir da culpa, esclarecendo que, ao chegar ao local no dia 10, encontrou uma situação que considerou bastante tranquila, agravada apenas após o repentino contra-ataque alemão na região do rio Sele.[111]

A frota ao largo de Salerno, durante uma das inúmeras ações de fogo em apoio às tropas

O marechal de campo Kesselring acertou ao avaliar que as cautelosas operações da 8th Army em Puglia e Calábria não representavam ameaça e pôde concentrar todas as reservas na área de Salerno: ali, as forças de von Vietinghoff beneficiaram-se da manobra por linhas internas, protegidas pela conformação montanhosa do terreno atrás das praias escolhidas pelos Aliados.[112] Segundo seu chefe de estado-maior, o general Westphal, os Aliados evitaram uma derrota apenas porque von Vietinghoff não recebeu reforços mais maciços. Para ele, "se aquelas duas divisões blindadas tivessem sido enviadas a tempo, a situação em Salerno teria se revertido a favor dos alemães". Essa convicção foi confirmada a posteriori pelo general Jodl. Mais realisticamente, os alemães, com forças terrestres mais abundantes, poderiam ter adotado contramedidas mais eficazes, mas certamente não teriam expulsado as preponderantes forças aliadas ao mar. O certo é que, mesmo em inferioridade, conseguiram conter efetivamente as tropas aliadas e evitar um colapso imediato de suas posições no sul da Itália.[33] A situação do Oberbefehlshaber Süd era precária: a 10. Armee sofria carências graves de comunicações, combustível[71] e os reforços que chegavam a Salerno eram enviados imediatamente à linha de frente, impedindo a formação de uma massa crítica de ataque.[113] Dois terços dos tanques disponíveis foram inutilizados até 12 de setembro, de modo que a 10. Armee pôde contar com apenas 30 tanques em condições de combate. Os alemães lamentaram sobretudo a modéstia de seus recursos aéreos e o domínio da artilharia de campo e naval aliada, que tornava quase impossíveis os reconhecimentos terrestres (os aéreos, ainda mais incertos). Assim, para Sieckenius e outros comandantes, foi necessário concentrar os assaltos ao longo do Sele, favorecendo a defesa anglo-americana.[71] O historiador Morris observa que von Vietinghoff insistiu em pequenas incursões não coordenadas, envolvendo forças de um batalhão. Uma gestão mais cuidadosa das tropas lhe permitiria superar a 36ª Divisão, apesar da superioridade aeronaval aliada. No pós-guerra, participantes de ambos os lados reconheceram o papel decisivo da artilharia embarcada em cruzadores leves, contratorpedeiros e monitores, mais do que a dos couraçados, que chegaram apenas em 15 de setembro — o HMS Warspite, aliás, foi atingido por uma bomba planadora SD 1400 no dia seguinte e deixou o teatro de operações. Igualmente impactante foi a ação da aviação aliada, que atacou centenas de alvos estratégicos e táticos, isolou a área de Eboli e Battipaglia, e chegou a atingir veículos alemães isolados.[114][115]

Uma esquadrilha de Spitfires em Foggia: o complexo de aeroportos ao redor da cidade era de grande importância para os Aliados.

A Operação Avalanche foi criticada do ponto de vista estratégico pelo lado alemão. De acordo com o tenente-general von Senger und Etterlin, os Aliados teriam feito melhor ocupando a Sardenha e a Córsega, onde havia efetivos alemães inferiores a duas divisões, e dali realizar operações anfíbias no centro-norte da Itália (ele indicou Livorno como possível objetivo). No entanto, os chefes do Estado-Maior Conjunto anglo-americano autorizaram o desembarque em Salerno, por considerá-lo de maior efeito propagandístico (pois prenunciava um avanço sobre Roma) e porque as duas ilhas não possuíam portos de grande porte, indispensáveis para transformá-las em bases adequadas a um ataque marítimo. Além disso, levantaram preocupações sobre a proximidade dos aeródromos da planície Padana, que estavam em mãos alemãs, e sobre a presença, em La Spezia, do núcleo de batalha da Marinha Real Italiana.[116] No final de 1943, os Aliados apoderaram-se da Sardenha e da Córsega, mas sem aproveitá-las particularmente: na segunda, instalaram apenas o comando do Sétimo Exército dos Estados Unidos, do general George Smith Patton, para confundir os comandos alemães na Itália. Eles preferiram priorizar a conquista de aeródromos (Foggia em primeiro lugar) para ampliar a campanha de bombardeios sobre a Europa ocupada, assegurar a máxima cobertura aérea tática das bases na Sicília e confiar totalmente na grande superioridade aérea. A ideia de interditar o controle do território italiano pelos alemães com o emprego preponderante da aeronáutica, até acelerar seu recuo ao norte da Itália, afirmou-se em 1943, mas mostrou-se muito otimista. O próprio general Clark, em suas memórias, definiu tal convicção como "tática do desejo piedoso", baseada em hipóteses esperançosas, mais do que em análises sérias. Kesselring e seus colaboradores quase sempre resolveram os graves danos às infraestruturas da península até as últimas semanas de guerra e mantiveram forças importantes na frente italiana.[117][118] As observações de von Senger foram replicadas pelo general Westphal, que foi entrevistado pelo historiador Basil Liddell Hart no pós-guerra. Ele afirmou que, se o 5ª Exército desembarcasse em Civitavecchia, coordenado com um assalto paraquedista e com o apoio de cinco divisões italianas na região de Roma, a cidade seria conquistada em menos de 72 horas. Ele também foi crítico em relação à Operação Baytown, afirmando que seria mais proveitoso substituí-la por um desembarque entre Pescara-Ancona, o que dividiria a 10ª Armee e dificultaria o fluxo de reforços do norte da Itália. O planejamento metódico aliado, centrado na redução de riscos, privilegiou a aviação tática e os bombardeios estratégicos, facilitando a situação das não tão numerosas forças alemãs na Itália, a ponto de Westphal e outros oficiais ficarem perplexos com a facilidade com que as guarnições alemãs na Sardenha e na Córsega foram salvas. Para Kesselring, "o sucesso total da evacuação parecia problemático, dada a superioridade aeronaval inimiga. Mas a reação aliada foi inexplicavelmente inexistente".[33]

Imagens e comentários do desembarque de Salerno em revista inglesa

Filmografia

Ver também

Notas e referências

Notas

  1. Hawkesworth havia substituído o comandante anterior, o major-general Harold Freeman-Attwood, um dos generais mais jovens do exército na época, há poucos dias. Ele havia enviado uma carta à esposa que, imprudentemente, revelava o destino dos desembarques, e um controle casual da censura bastou para removê-lo do cargo. Veja: (Morris 1993, p. 146)
  2. Em suas memórias, Clark relata que as primeiras unidades a chegar ao setor americano foram a 142ª Equipe de Combate Regimental (RCT), comandada pelo coronel John D. Forsythe, e a 141ª RCT, do coronel Richard J. Werner. Veja: (Clark 2010, p. 208)
  3. Em 1943, Montgomery gozava de grande fama em seu país e, ciente disso, agiu com independência e até mesmo com insubordinação em relação aos superiores, aproveitando-se da incerteza do marechal Alexander. Segundo o historiador Morris, é importante contextualizar a situação da 8th Army na Calábria: a grande unidade contava com menos de três divisões, e se os alemães contra-atacassem, poderiam surgir grandes dificuldades. Aliás, Montgomery considerava toda a operação "inútil e arriscada": desde os primeiros dias de Salerno, ficou claro que os alemães concentrariam forças contra a 5th Army, e ele preferiu não dar a Kesselring e von Vietinghoff pretexto para se reforçarem na Calábria. No entanto, permanece confirmado que o ritmo do avanço britânico poderia ter sido mais rápido. Veja: (Morris 1993, pp. 192–193)

Referências

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Ligações externas