Merenré I
| Merenré I | |
|---|---|
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| Nascimento | século XXIII a.C. |
| Morte | 2245 a.C. |
| Sepultamento | Pyramid of Merenre |
| Cidadania | Antigo Egito, Império Antigo |
| Progenitores | |
| Cônjuge | Anquesempepi II |
| Filho(a)(s) | Ankhesenpepi III, Pepi II |
| Irmão(ã)(s) | Pepi II, Iput II |
| Ocupação | soberano |
| Título | faraó |
Merenré I (português europeu) ou Merenrê I (português brasileiro) Nemtyemsaf (nome que significa “Amado de Rá, Nemti é sua proteção”) foi um faraó do Antigo Egito e o quarto rei da VI dinastia egípcia. Governou o Egito por um período estimado entre seis e onze anos, no início do século XXIII a.C., durante a fase final do Antigo Império. Era filho de Pepi I Meryre e da rainha Ankhesenpepi I, sendo sucedido por Pepi II Neferkare, que pode ter sido seu filho ou, menos provavelmente, seu irmão. É possível que Pepi I tenha compartilhado o poder com Merenre em uma corregência durante os últimos anos de seu reinado.[1]
O governo de Merenré I foi marcado por mudanças profundas na administração das províncias do sul do Egito, com um aumento significativo no número de administradores provinciais e, paralelamente, uma acentuada redução da dimensão da administração central sediada em Mênfis. Como consequência, a nobreza provincial passou a ser responsável pela arrecadação de impostos e pela gestão de recursos, adquirindo maior independência política e poder econômico. Esse processo levou ao surgimento dos primeiros sepultamentos provinciais destinados aos mais altos funcionários do Estado, incluindo vizires, governadores do Alto Egito e nomarcas.
Diversas expedições comerciais e de extração ocorreram durante o reinado de Merenre, especialmente em direção à Núbia, para onde foram enviadas caravanas compostas por centenas de jumentos com o objetivo de obter incenso, ébano, peles de animais, marfim e animais exóticos. O interesse pela região foi tal que Merenré I mandou escavar um canal para facilitar a navegação pela primeira catarata do Nilo rumo à Núbia. Também houve comércio com a costa do Levante, de onde se importavam lápis-lazúli, prata, betume e estanho, enquanto a extração de granito, travertino e alabastro ocorria no sul do Egito e no Deserto Oriental.

Um complexo piramidal foi construído para Merenré I em Sacará, conhecido pelos antigos egípcios como Khanefermerenre, expressão que significa “A manifestação da perfeição de Merenré I”, e que provavelmente foi concluído antes da morte do rei. As câmaras subterrâneas foram inscritas com os Textos das Pirâmides. Na câmara funerária, o sarcófago de basalto negro do rei ainda continha uma múmia quando foi aberto no século XIX, embora a identificação dessa múmia como sendo de Merenre permaneça incerta. Após sua morte, Merenré I foi objeto de um culto funerário que perdurou pelo menos até o fim do Império Antigo. Durante o período do Império Novo, ele figurou entre um grupo seleto de reis do passado que continuaram a ser homenageados.
Família real
Merenre era filho do rei Pepi I Meryre e da rainha AnquesempepiI, também chamada Ankhesenmeryre.[2][3] É provável que Pepi I o tenha gerado já em idade avançada.[4][5] A maternidade de Ankhesenpepi é indicada por seus títulos. Em inscrições tumulares, ela ostentava o título de “mãe do rei do Alto e do Baixo Egito da pirâmide de Merenre”, uma formulação que, à época, indicava uma relação direta com o rei.[6]
Anquesempepi era filha do nomarca de Abidos, Khui, e de sua esposa, Nebet.[4][7] Pepi I conferiu a Nebet o título de vizir, tornando-a a única mulher do período do Antigo Império conhecida por ter exercido essa função. O filho de Khui e Nebet, Djau, tio materno de Merenre, também ocupou o cargo de vizir durante os reinados de Merenre e de Pepi II Neferkare.[8][9][10]
A princesa Neith era irmã plena de Merenre. O arqueólogo Gustave Jéquier propôs que Neith teria se casado primeiro com Merenre e, posteriormente, com Pepi II, o que explicaria a ausência de sua tumba nas proximidades da de Merenre, como seria esperado no caso de uma esposa real. No entanto, a egiptóloga Vivienne Callender observa que, entre os títulos de Neith preservados em sua tumba, aqueles que se referiam à sua relação com Merenre tornaram-se ilegíveis. Assim, segundo Callender, não é possível determinar com certeza se Neith foi ou não esposa de Merenre.
Entre os prováveis filhos de Pepi I que teriam sido, ao menos, meio-irmãos de Merenre, incluem-se os príncipes Hornetjerkhet e Tetiankh, bem como a princesa Meritites IV.[11][12]
Consortes e filhos
Selos reais da VI Dinastia e blocos de pedra encontrados em Sacará demonstram que Anquesempepi II, tia de Merenre, que havia sido esposa de Pepi I, também se casou com Merenre.[13] Ela foi mãe do futuro faraó Pepi II, fato evidenciado por seus títulos de “Esposa real da pirâmide de Meryre”, “Esposa real da pirâmide de Merenre” e “Mãe real da pirâmide de Neferkare [Pepi II]”.[14]
Muitos egiptólogos consideram Pepi I como o pai de Pepi II. No entanto, o egiptólogo Philippe Collombert observa[23] que, uma vez que as fontes históricas concordam que o reinado de Merenre se interpôs entre os de Pepi I e Pepi II e durou cerca de uma década, e considerando que uma das fontes afirma que Pepi II ascendeu ao trono aos seis anos de idade,[24] isso indica indiretamente que Merenre I, e não Pepi I, teria sido o pai de Pepi II. Essa interpretação é compartilhada pelos egiptólogos Naguib Kanawati e Peter Brand. [9][15]
Merenre teve ao menos uma filha, Ankhesenpepi III,[15] que se tornou esposa de Pepi II.[16] É possível também que Merenre tenha sido o pai da rainha Iput II, outra esposa de Pepi II.[17]
Referências
- ↑ Samuel A. B. Mercer (ed.). «The Pyramid Texts». Sacred Texts. Consultado em 9 de dezembro de 2014
- ↑ Altenmüller 2001, p. 603.
- ↑ Callender 1994, p. 154.
- ↑ a b Baud 1999b, pp. 426–429.
- ↑ Rice 1999, p. 110.
- ↑ Strudwick 2005, p. 357.
- ↑ Dodson & Hilton 2004, p. 73.
- ↑ Baud 1999b, p. 630.
- ↑ a b Kanawati 2003, p. 173.
- ↑ Grimal 1992, p. 83.
- ↑ Dodson & Hilton 2004, pp. 70–78.
- ↑ Grajetzki 2005, p. 25.
- ↑ Callender 1994, p. 158.
- ↑ Strudwick 2005, p. 385.
- ↑ a b Brand 2002, p. 255.
- ↑ Dodson & Hilton 2004, p. 74.
- ↑ Clayton 1994, p. 66.
Bibliografia
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- Callender, Vivienne Gae (1994). «Part III. A prosopographical register of the wives of the Egyptian Kings (Dynasties I–XVII)». The Wives of the Egyptian Kings: Dynasties I–XVII. Sydney, Austrália: Macquarie University. School of History, Philosophy, and Politics. OCLC 862671624
- Callender, Vivienne Gae (2002). «Princess Inti of the Ancient Egyptian Sixth Dynasty». Journal of Near Eastern Studies. 61 (4): 267–274. JSTOR 3128942. doi:10.1086/469041
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- Baud, Michel (2006). «The Relative Chronology of Dynasties 6 and 8». In: Hornung, Erik; Krauss, Rolf; Warburton, David. Ancient Egyptian Chronology. Col: Handbook of Oriental Studies. Leiden: Brill Publishers. pp. 144–159. ISBN 978-9-04-740400-2
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- Grimal, Nicolas (1992). A History of Ancient Egypt. Translated by Ian Shaw. Oxford: Blackwell Publishing. ISBN 978-0-631-19396-8
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- Clayton, Peter (1994). Chronicle of the Pharaohs. New York: Thames & Hudson. ISBN 978-0-500-05074-3
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