XXIX dinastia egípcia
| Vigésima Nona Dinastia do Egito | ||||
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| Continente | África | |||
| País | Egito | |||
| Capital | Mendes | |||
| Língua oficial | Língua egípcia | |||
| Religião | Religião egípcia antiga | |||
| Governo | Monarquia teocrática | |||
| Faraó | ||||
| • 399-393 a.C. | Neferites I | |||
| • 393 a.C. | Psamutis | |||
| • 393-380 a.C. | Hakor | |||
| • 380 a.C. | Neferites II | |||
| Período histórico | Época Baixa | |||
| • outono de 399 a.C. | Golpe de Neferites I | |||
| • 385 a.C. | Repulsão da invasão persa | |||
| • 380 a.C. | Deposição de Neferites II | |||
| Moeda | Deben (peso de metais)[nota 1] | |||
A XXIX dinastia egípcia, também conhecida como dinastia mendésia devido à sua capital Mendes, governou o Egito Antigo de 399 a 380 a.C.[1] Esta dinastia, situada durante a Época Baixa, foi a quarta dinastia do chamado Período Tardio do Egito e representa uma das últimas tentativas de governantes nativos egípcios de manter a independência face às contínuas ameaças persas.[2]
A dinastia teve início quando Neferites I, um general da cidade de Mendes no delta do Nilo, derrotou Amirteu, o único faraó da XXVIII dinastia egípcia, em batalha aberta no outono de 399 a.C.[3][4] Após a vitória, Amirteu foi executado em Mênfis, e Neferites estabeleceu Mendes como a nova capital do reino.
Apesar dos esforços de seus governantes, a XXIX dinastia foi uma das mais curtas da história egípcia, durando apenas 19 anos.[4] Durante este período, os faraós mendesíos enfrentaram constantes ameaças do Império Persa e dependeram fortemente de alianças com cidades-estado gregas e mercenários estrangeiros para manter a independência do Egito. A dinastia terminou em 380 a.C. quando Nectanebo I, um general de Sebennitos, depôs Neferites II após apenas quatro meses de reinado, fundando a XXX dinastia egípcia, a última dinastia nativa do Egito antes da reconquista persa.
História
Fundação
A XXIX dinastia foi fundada por Neferites I (Neferites I), cujo nome de nascimento era Nefaarud. Ele era originário de Mendes, uma importante cidade localizada na parte oriental do delta do Nilo.[5] De acordo com um relato preservado em um papiro do Museu do Brooklyn, Neferites derrotou o faraó Amirteu em combate aberto no outono de 399 a.C. e posteriormente o executou em Mênfis, estabelecendo assim uma nova dinastia.[1]
Após consolidar seu poder, Neferites escolheu Mendes como capital do reino, afastando-se de Saís, que havia sido a capital durante o reinado de Amirteu.[6] A escolha de Mendes refletia não apenas a origem do novo faraó, mas também a importância estratégica da cidade no controle do delta do Nilo.
Para legitimar seu governo, Neferites I adotou o nome de Hórus de Psamético I e o nome de Hórus Dourado de Amósis II, ambos governantes importantes da XXVI dinastia egípcia, demonstrando sua intenção de associar seu reinado a uma "era dourada" anterior da história egípcia.[1]
Política externa e resistência persa
A principal preocupação dos faraós da XXIX dinastia foi resistir às tentativas persas de reconquistar o Egito. O Império Aquemênida havia controlado o Egito durante a XXVII dinastia egípcia (525-404 a.C.) e mantinha a ambição de recuperar o território.
Neferites I retomou a política de intervenção egípcia no Oriente Médio, formando alianças estratégicas com potências regionais. Em 396 a.C., ele forneceu apoio ao rei espartano Agesilau II em sua guerra contra os persas, enviando 500 mil medidas de grão e material para a construção de 100 trirremes.[1] No entanto, a carga chegou a Rodes logo após os persas retomarem a ilha, sendo inteiramente capturada pelo almirante filo-persa Conão de Atenas.
Hakor (conhecido pelos gregos como Acóris), que governou de 393 a 380 a.C., foi o faraó mais bem-sucedido da dinastia na resistência persa. Ele formou uma rede complexa de alianças, incluindo tratados com Atenas, Esparta e Evágoras I de Chipre.[7] Em 385 a.C., os persas lançaram uma grande invasão do Egito, mas foram repelidos pelas forças de Hakor com o auxílio de mercenários gregos comandados pelo general ateniense Chabrias.[8]
A Paz de Antálcidas em 387 a.C., que encerrou as hostilidades entre gregos e persas, foi um ponto de virada crucial. Após este tratado, o Egito e Chipre permaneceram como os únicos oponentes ativos de Artaxerxes II.[8] Em 381 a.C., Hakor enviou ajuda financeira e 50 trirremes a Evágoras para auxiliá-lo em sua resistência contra os persas. No entanto, quando Evágoras visitou pessoalmente o Egito em 380 a.C. pedindo mais auxílio, Hakor recusou fornecer apoio substancial adicional, levando à eventual rendição de Evágoras aos persas.[1]
Para pagar os mercenários gregos, Hakor ordenou a cunhagem das primeiras moedas egípcias, marcando uma inovação significativa na economia do país.[8]
Luta sucessória
Após a morte de Neferites I no inverno de 394/393 a.C., uma luta dinástica eclodiu pelo controle do trono.[1] Dois grupos rivais emergiram: um apoiando Mutis, possivelmente filho de Neferites I, e outro apoiando Psamutis, um usurpador. Embora Psamutis tenha conseguido tomar o poder, seu reinado durou apenas cerca de um ano (393 a.C.).[3]
Em 1986, o egiptólogo John D. Ray propôs uma hipótese sobre a sucessão que é amplamente aceita por outros estudiosos como Alan B. Lloyd e Toby Wilkinson. Segundo esta teoria, Hakor era o herdeiro legítimo de Neferites I e governou inicialmente sem interrupções até seu segundo ano, quando foi deposto por Psamutis. Após um ano, Hakor conseguiu recuperar o trono derrubando o usurpador, continuando a datar seu reinado desde sua coroação original, como se o intervalo nunca tivesse ocorrido.[1]
Para afirmar sua legitimidade, Hakor enfatizou sua descendência de Neferites I, embora não esteja claro se essa conexão familiar era real ou fabricada.[6] Alguns estudiosos sugerem que Hakor e Nectanebo I (fundador da XXX dinastia) podem ter sido parentes de alguma forma, possivelmente ambos relacionados a Neferites I, mas rivais entre si.
Declínio e queda
Hakor morreu em 379/378 a.C., deixando o trono para seu filho Neferites II.[1] No entanto, Neferites II não conseguiu manter o poder e seu reinado durou apenas quatro meses. Em 380 a.C., ele foi deposto por Nectanebo I, um general do exército oriundo de Sebennitos.[7]
Alguns relíquias arqueológicas sugerem que Nectanebo I pode ter recebido auxílio do general ateniense Chabrias em seu golpe contra Neferites II.[9] Após tomar o poder, Nectanebo I mostrou pouco apreço pelos governantes da dinastia anterior, descrevendo Neferites II como incompetente e referindo-se a Hakor como um usurpador.[9]
Com a deposição de Neferites II, a XXIX dinastia chegou ao fim, e Nectanebo I estabeleceu a XXX dinastia egípcia, transferindo a capital de Mendes para Sebennitos.
Construções e projetos arquitetônicos
Apesar de sua curta duração, os faraós da XXIX dinastia realizaram diversos projetos de construção e restauração, buscando legitimar seu governo através do patrocínio religioso e da associação com o passado glorioso do Egito.
Obras de Neferites I
Neferites I iniciou diversos projetos de construção no Baixo Egito, embora não tão impressionantes quanto os de faraós anteriores.[4] Em Karnak, ele começou a construção de uma estação para a barca sagrada de Amon-Rá próxima ao primeiro pilone, projeto que seria posteriormente completado por seus sucessores.[10]
Obras de Hakor
Hakor foi o faraó mais ativo da dinastia em termos de construção e restauração. Sua atividade construtiva foi notável e ele restaurou extensivamente muitos monumentos de seus predecessores reais.[1]
Em Karnak, Hakor completou a capela para a barca sagrada de Amon-Rá próxima ao primeiro pilone, que havia sido iniciada por Psamutis ou possivelmente por Neferites I.[8] Esta capela, conhecida como Capela de Acóris, incorpora inscrições que invocam o favor de Amon e atribuem a prosperidade sob seu reinado à benevolência divina.[11] Ele também possivelmente iniciou um complexo de templos em Sacará setentrional, que foi posteriormente desenvolvido por Nectanebo II.[1]
A atividade construtiva de Hakor está bem documentada em vários locais do Alto Egito, incluindo Luxor, Medinet Habu, El-Kab, El-Tod, Medamud e Elefantina.[6] Ele também trabalhou no Templo de Hibis no Oásis de Kharga e em outros locais do Médio Egito.[1] No templo de Montu em Karnak, Neferites e Hakor construíram um salão hipóstilo com capitéis de Hathor.[12]
Esses projetos refletiram a ambição de Hakor de deixar um legado tangível e reforçar sua autoridade através do patrocínio religioso, promovendo o culto aos deuses tradicionais do Egito e enfatizando a conexão entre o faraó e o divino.[6]
Lista de faraós
Aqui estão listados os faraós da XXIX dinastia egípcia.[3]
Ordem: Nome de batismo, (nome do cartucho, nome escolhido pelo faraó para reinar) – data do reinado
- Neferites I, (Baenre-merynetjeru) – 399 - 393 a.C.
Fundador da dinastia, general de Mendes que derrotou e executou Amirteu. Estabeleceu Mendes como capital e iniciou uma política de alianças com gregos contra os persas. Apoiou Esparta com recursos militares em 396 a.C. Iniciou projetos de construção em Karnak.[1][10]
- Psamutis, (User-re-setepenptah) – 393 a.C.
Usurpador que tomou o trono após a morte de Neferites I, derrotando Mutis (possivelmente filho de Neferites I) e Hakor em uma luta dinástica. Seu reinado durou apenas cerca de um ano antes de ser derrubado por Hakor. Pode ter continuado a construção da capela da barca sagrada em Karnak.[3][1]
- Hakor, (Khnem-maat-re) – 393 - 380 a.C.
O faraó mais significativo da dinastia, reivindicando ser neto de Neferites I. Governou por 13 anos, mais da metade da duração total da dinastia. Repeliu uma grande invasão persa em 385 a.C. com ajuda de mercenários gregos comandados por Chabrias. Formou alianças com Atenas, Esparta e Chipre. Realizou extensos projetos de construção em Karnak, Saqqara e diversos templos no Alto Egito. Ordenou a cunhagem das primeiras moedas egípcias.[1][8][6]
- Neferites II – 380 a.C.
Filho de Hakor, reinou por apenas quatro meses antes de ser derrubado por Nectanebo I, que fundou a XXX dinastia. Seu breve reinado marca o fim da dinastia mendésia e o início da última dinastia nativa do Egito.[1][7]
Legado
A XXIX dinastia, embora curta, representa uma das últimas tentativas bem-sucedidas de governantes nativos egípcios de manter a independência face à dominação estrangeira. Apesar dos recursos limitados, os faraós mendesíos conseguiram, através de diplomacia hábil e alianças estratégicas, repelir as tentativas persas de reconquista por quase duas décadas.[4]
A dinastia é particularmente notável por seu uso pioneiro de mercenários gregos e pela cunhagem das primeiras moedas no Egito, inovações que refletem a crescente integração do país no mundo mediterrâneo mais amplo.[8] Os projetos de construção e restauração, especialmente sob Hakor, demonstram a continuidade das tradições religiosas e culturais egípcias mesmo em um período de instabilidade política.
No entanto, a XXIX dinastia também exemplifica as vulnerabilidades estruturais do Egito neste período: dependência de mercenários estrangeiros, lutas dinásticas recorrentes e recursos insuficientes para restaurar plenamente a glória do passado.[4] Estas fragilidades se tornariam ainda mais evidentes nas décadas seguintes, culminando na reconquista persa em 343 a.C. e, eventualmente, na conquista macedônia por Alexandre, o Grande em 332 a.C.
| Precedido por XXVIII dinastia |
Dinastias faraónicas 399 - 380 a.C. |
Sucedido por XXX dinastia |
Notas
- ↑ Durante a maior parte da dinastia, o sistema econômico baseava-se no peso de metais (deben e kite). Hakor foi o primeiro faraó egípcio a ordenar a cunhagem de moedas, inovação introduzida para pagar mercenários gregos.
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o «Pharaoh Hakor». World History Edu (em inglês). 14 de janeiro de 2025. Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ «Época Baixa». Wikipédia. Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d Grandes Império e Civilizações - O Mundo Egípcio Vol. 1 pg. 37, 52 - Tradução de Maria Emília Vidigal, Edições del Prado (Brasil e Portugal), 1996
- ↑ a b c d e «Late Period of Ancient Egypt». World History Encyclopedia (em inglês). 12 de outubro de 2016. Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ «Brooklyn Museum Papyrus Collection». Brooklyn Museum (em inglês). Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e «The Twenty-Ninth Dynasty of Egypt: The Rise and Fall of the Mendesian Rulers». Historact Community (em inglês). 20 de março de 2025. Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ a b c «Late Period Egypt: Who Was the Last Native Pharaoh?». TheCollector (em inglês). 21 de agosto de 2021. Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d e f «Achoris». Livius (em inglês). Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ a b «King Nectanebo I». Hurghada Lovers (em inglês). 21 de agosto de 2024. Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ a b «Nepherites I». Livius (em inglês). Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ «Hakor». Grokipedia (em inglês). Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ «Egypt: Karnak, A Feature Tour Egypt Story». Tour Egypt (em inglês). Consultado em 31 de dezembro de 2025
Ligações externas
- «29th Dynasty (Mendesians)» (em inglês) no Livius
- «Late Period of Ancient Egypt» (em inglês) na World History Encyclopedia

