Orquestra Lira Sanjoanense

A Orquestra Lira Sanjoanense é um conjunto musical brasileiro sediado na cidade de São João del-Rei, em Minas Gerais. Fundada em 1776, é amplamente reconhecida por sua longevidade e pela continuidade de suas atividades, sendo frequentemente citada na bibliografia especializada como uma das mais antigas orquestras em atividade nas Américas e no mundo.[1][2][3][4]
Segundo parte da historiografia musical, a Lira Sanjoanense é apontada como o primeiro conjunto musical de caráter profissional de que se tem notícia no Brasil, em razão de sua organização formal e da remuneração regular de seus músicos desde o período colonial.[1]
História
A orquestra foi fundada em 1776 por um grupo de músicos liderados por José Joaquim de Miranda, sob a denominação de Companhia de Música. Sua criação esteve vinculada a um contrato firmado com a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, responsável pela organização do culto religioso, o que conferiu ao grupo um papel central na execução da música sacra local.[1]
Além das funções litúrgicas, a Companhia de Música também atuava em outras atividades culturais da vila, como récitas operísticas, apresentações de teatro musicado e bailes públicos e privados, evidenciando a amplitude de sua atuação musical ainda no período colonial.[5] De acordo com registros históricos, grande parte de seus integrantes era composta por músicos afrodescendentes, em especial mulatos, o que reflete as dinâmicas sociais e culturais da época.[1]
Em 1846, Francisco de Paula de Miranda redigiu novos estatutos para a instituição, ocasião em que passou a se chamar Philarmonica Paulina. Já em meados do século XIX, adotou a denominação Sociedade Musical Lyra São Joannense. No século XX, o maestro Pedro de Souza simplificou o nome para Orquestra Lira Sanjoanense, forma que permanece em uso até a atualidade.[6]
Acervo e legado
A Orquestra Lira Sanjoanense construiu, ao longo de sua trajetória, uma sólida tradição musical e institucional. Por suas fileiras passaram músicos e compositores de destaque, e seu acervo preserva uma das mais importantes coleções musicais do Brasil, com manuscritos dos séculos XVIII e XIX, partituras raras, correspondência, instrumentos históricos e outros documentos de valor patrimonial.[7][2][8]
O bicentenário da orquestra, celebrado em 1976, foi marcado por ampla programação cultural, solenidades oficiais e pela emissão de um selo comemorativo pelos Correios.[9] As comemorações contribuíram para despertar maior interesse da crítica e da musicologia pela pesquisa e interpretação da música brasileira dos períodos colonial e imperial, até então pouco explorados.[7]
Atuação contemporânea
Mantendo sua vocação histórica ligada à música sacra, a Orquestra Lira Sanjoanense atua regularmente nas celebrações religiosas das irmandades de Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Mercês e Nossa Senhora da Boa Morte, vinculadas à Paróquia de Nossa Senhora do Pilar.[2]
Em parceria com a Universidade Federal de São João del-Rei, a orquestra desenvolve o Projeto Orquestra Escola, voltado à iniciação musical de crianças e adolescentes, contribuindo para a formação de novos músicos e para a preservação das tradições musicais da cidade.[2]
Relação com a Orquestra Ribeiro Bastos
A história da Orquestra Lira Sanjoanense está estreitamente ligada à trajetória da Orquestra Ribeiro Bastos, com a qual compartilha o contexto urbano, religioso e musical de São João del-Rei. A coexistência dessas duas corporações musicais, desde o período colonial e ao longo do século XIX, reflete a complexidade e a vitalidade da vida musical sanjoanense, marcada pela atuação simultânea de diferentes conjuntos voltados à música sacra e às atividades civis.
Parte da historiografia aponta que a Orquestra Ribeiro Bastos pode ter surgido como uma dissidência institucional da própria Lira Sanjoanense, em meio a transformações organizacionais e disputas por contratos musicais junto às irmandades religiosas da cidade.[10][1]
A atuação paralela da Lira Sanjoanense e da Ribeiro Bastos contribuiu para a consolidação de São João del-Rei como um dos principais centros de produção, circulação e preservação da música sacra no Brasil, com reflexos duradouros na formação de repertórios, músicos e práticas interpretativas.[11][7]
Referências
- ↑ a b c d e Rizzi 2016.
- ↑ a b c d Vertentes 2016.
- ↑ Robinson 2014.
- ↑ Dourado 2004.
- ↑ Almeida 2009.
- ↑ ViegasMS 2006.
- ↑ a b c ViegasAJ 2003.
- ↑ Marcolin 2004.
- ↑ Prieto 2013.
- ↑ Resende 2011.
- ↑ Boschi 1986.
Bibliografia
- Rizzi, Celso (2016). Música brasileira: o chorinho através dos tempos. São Paulo: Galáxia
- «Lira Sanjoanense: 240 anos de tradição na música em SJDR». Vertentes – Agência de Notícias. 2016
- Robinson, Gardenia; Alex (2014). Brazil Footprint Handbook. Bath: Footprint
- Dourado, Henrique Autran (2004). Dicionário de termos e expressões da música. São Paulo: Editora 34. p. 186
- Almeida, Marcelo Crisafuli Nascimento (2009). A música e suas manifestações populares em São João del-Rei (1870–1920) (Comunicação científica). Fortaleza
- Viegas, Maria Salomé de Resende (2006). O solo de flauta do IV responsório das matinas de Natal do Padre José Maria Xavier: aspectos históricos, estéticos e interpretativos (Mestrado). Universidade Federal de Minas Gerais. ViegasMS
- Viegas, Aluísio José (2003). «O Arquivo Musical da Orquestra Lira Sanjoanense de São João del-Rei (MG)». Mariana. Anais do I Colóquio Brasileiro de Arquivologia e Edição Musical. ViegasAJ
- Marcolin, Neldson (2004). «Música para Deus». Agência FAPESP
- Prieto, José Carlos Hernández (2013). São João del-Rei e a filatelia: registros históricos sobre os Correios. São João del-Rei: 300 anos. São João del-Rei: Academia de Letras de São João del-Rei / Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei. Tirado, Abgar Campos; Guimarães, Betânia Maria; Andrade e Silva, Mariluze (orgs.)
- Boschi, Caio César (1986). Os leigos e o poder: irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo: Ática