Toque dos sinos em Minas Gerais
| Toque dos Sinos em Minas Gerais | |
|---|---|
| Categoria: | Formas de Expressão |
| Data de Registro: | 30 de dezembro de 2009 |
| Nº de Processo: | 01450.011821/2009-82 |
| Cidade: | São João del-Rei, Ouro Preto, Mariana, Catas Altas, Congonhas, Diamantina, Sabará, Serro e Tiradentes, Minas Gerais |
| Órgão: | IPHAN |
O Toque dos Sinos em Minas Gerais, também denominado Linguagem dos Sinos, é uma tradição da Igreja Católica que consiste em um sistema sonoro codificado, por meio do qual os sinos das igrejas comunicam eventos litúrgicos, sociais e comunitários. A prática é especialmente associada à cidade de São João del-Rei, conhecida como “a terra onde os sinos falam”, mas também se encontra presente em outras localidades históricas de Minas Gerais, onde se consolidou como forma singular de expressão cultural, religiosa e simbólica.[1]
Do ponto de vista historiográfico e antropológico, o toque dos sinos pode ser compreendido como uma forma de linguagem sonora, isto é, um sistema de comunicação não verbal estruturado por códigos culturalmente compartilhados, no qual os sons organizam o tempo social, o espaço urbano e as experiências coletivas.[nota 1] Abordagens oriundas da antropologia sonora e da etnomusicologia reconhecem práticas como o toque de sinos enquanto expressões de sound heritage (patrimônio sonoro), em consonância com debates internacionais sobre patrimônio cultural imaterial.[2][3][4]
Em reconhecimento ao seu valor histórico, cultural e identitário, o Toque dos Sinos em Minas Gerais foi registrado como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2009, com base em estudos iniciados no início da década de 2000. O processo de registro abrangeu as cidades de São João del-Rei, Ouro Preto, Mariana, Catas Altas, Congonhas, Diamantina, Sabará, Serro e Tiradentes, destacando a transmissão oral do saber sineiro, a diversidade dos toques e sua função social como elementos centrais da salvaguarda do bem cultural, em consonância com os parâmetros internacionais definidos pela UNESCO para a proteção do patrimônio imaterial.[5][6]
Registro
O Toque dos Sinos em Minas Gerais é reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil por meio de registro concedido pelo IPHAN em 2009, no Livro de Registro das Formas de Expressão, conforme os dispositivos da política nacional de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial.[7]
A proposta de registro tomou como referência as cidades de São João del-Rei, Ouro Preto, Mariana, Catas Altas, Congonhas, Diamantina, Sabará, Serro e Tiradentes. O processo teve início em 2001, por iniciativa da comunidade de São João del-Rei, e envolveu a realização de inventários, levantamentos históricos, registros sonoros e pesquisa etnográfica conduzidos pelo IPHAN a partir de 2002, culminando na elaboração do dossiê técnico que fundamentou o registro oficial do bem cultural.[5][7]
O reconhecimento institucional do toque dos sinos insere-se no contexto mais amplo das políticas brasileiras de valorização do patrimônio cultural imaterial, alinhadas às diretrizes internacionais consolidadas no início do século XXI, que enfatizam a centralidade das comunidades detentoras, a transmissão intergeracional dos saberes e a salvaguarda de práticas culturais de caráter simbólico e identitário.[8][6]
Dossiê de registro e metodologia
O registro do Toque dos Sinos em Minas Gerais foi fundamentado em um dossiê técnico elaborado pelo IPHAN, no âmbito da política federal de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial. O documento consolidou os resultados de pesquisas realizadas ao longo de mais de uma década, articulando levantamento histórico-documental, inventário de bens associados, registros sonoros e pesquisa etnográfica junto às comunidades detentoras da prática.[9]
A metodologia adotada seguiu os princípios estabelecidos pelo IPHAN para o reconhecimento de bens culturais imateriais, com ênfase na participação das comunidades envolvidas, na documentação dos saberes transmitidos oralmente e na identificação dos contextos sociais, religiosos e simbólicos em que se insere o ofício do sineiro. O processo incluiu entrevistas, observação de rituais, catalogação dos diferentes toques e análise de sua função na organização do tempo litúrgico e da vida comunitária.[8]
O dossiê também destacou a diversidade local das práticas sineiras nas cidades inventariadas, evidenciando tanto elementos comuns quanto variações regionais na execução dos toques, em consonância com abordagens da antropologia do som e da etnomusicologia. Essa perspectiva permitiu compreender o toque dos sinos como uma forma de linguagem sonora estruturada, cujo significado é produzido na interação entre técnica, tradição e experiência coletiva.[10]
A elaboração do dossiê e o consequente registro do bem cultural alinham-se às diretrizes internacionais para a salvaguarda do patrimônio imaterial, especialmente aquelas consolidadas na Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO, que enfatizam a centralidade das comunidades, a transmissão intergeracional dos saberes e a necessidade de medidas contínuas de proteção e valorização.[6]
Finalidade do registro
O registro do Toque dos Sinos em Minas Gerais como patrimônio cultural imaterial teve como finalidade principal a salvaguarda de uma prática tradicional ameaçada por transformações técnicas, sociais e culturais, notadamente a substituição do toque manual por dispositivos eletrônicos, a deterioração física dos sinos e a diminuição do número de sineiros aptos à transmissão do saber.[9]
Do ponto de vista das políticas de patrimônio cultural, o registro buscou reconhecer não apenas os sinos enquanto objetos materiais, mas sobretudo os conhecimentos, técnicas, códigos sonoros e significados simbólicos associados à sua execução, compreendidos como um sistema cultural complexo transmitido majoritariamente por via oral. Essa abordagem insere-se na concepção de patrimônio imaterial consolidada no Brasil a partir do início do século XXI, que privilegia os processos sociais, a participação das comunidades detentoras e a continuidade das práticas culturais.[8]
O dossiê de registro destacou ainda a centralidade do ofício do sineiro como mediador entre o espaço religioso, a organização do tempo litúrgico e a vida cotidiana das comunidades, atribuindo ao toque dos sinos um papel estruturante na experiência coletiva e na memória social. Tal compreensão aproxima-se das abordagens da antropologia do som, segundo as quais práticas sonoras tradicionais constituem formas de ordenação simbólica do espaço e do tempo.[2][10]
Nesse sentido, a finalidade do registro não se limita à preservação formal da prática, mas envolve a promoção de medidas contínuas de valorização, documentação e transmissão intergeracional, em consonância com as diretrizes estabelecidas pela Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO.[6]
Finalidade dos toques
Nas cidades contempladas pelo registro, os toques dos sinos exercem funções predominantemente religiosas, mas também cumprem papéis sociais e comunicativos que extrapolam o âmbito estritamente litúrgico. Cada toque corresponde a um conjunto de códigos sonoros compartilhados pela comunidade, capazes de informar, convocar, advertir ou marcar acontecimentos relevantes da vida coletiva.[9]
Do ponto de vista etnográfico, os toques foram historicamente criados e sistematizados pelos próprios sineiros, sobretudo durante o período colonial, sendo transmitidos de forma oral e prática entre gerações. Entre os principais tipos de toque encontram-se aqueles associados ao calendário litúrgico (Ângelus, missas, Natal, Páscoa), aos ritos de passagem (exéquias, finados, parto), às solenidades religiosas (Te Deum, festas, procissões) e a situações extraordinárias, como incêndios ou falecimentos.[5][9]
A diversidade e a complexidade desses toques permitem compreendê-los como uma verdadeira linguagem sonora, estruturada por regras litúrgicas e convenções locais, mas aberta à interpretação e à criatividade do sineiro. Essa característica aproxima a prática do toque dos sinos das definições propostas pela etnomusicologia e pelos estudos do som, que reconhecem sistemas sonoros tradicionais como formas de comunicação culturalmente situadas.[3]
Além de sua função comunicativa imediata, os toques dos sinos desempenham um papel simbólico fundamental na constituição das paisagens sonoras urbanas históricas, contribuindo para a produção de identidades locais e para a percepção coletiva do tempo e do espaço. Nesse sentido, a prática é reconhecida como parte do patrimônio sonoro, ou sound heritage, articulando memória, experiência sensorial e pertencimento comunitário.[2][4]
Notas e referências
Notas
- ↑ O conceito de linguagem sonora é amplamente utilizado nos estudos de antropologia do som e da paisagem sonora para designar sistemas acústicos dotados de significação social, histórica e simbólica, nos quais o som atua como meio de comunicação e ordenação da vida coletiva.
Referências
- ↑ Revista de História da Biblioteca Nacional 2009.
- ↑ a b c Schafer 1994.
- ↑ a b Seeger 2004.
- ↑ a b Smith 2006.
- ↑ a b c Estado de Minas 2009.
- ↑ a b c d UNESCO 2003.
- ↑ a b IPHAN 2009.
- ↑ a b c Fonseca 2009.
- ↑ a b c d IPHAN 2017.
- ↑ a b Abreu Gomes 2017.
Bibliografia
Artigos acadêmicos
- Abreu Gomes, Ana Lúcia de (2017). «O Toque dos Sinos em Minas Gerais: materialidade e práticas sociais». Museologia & Interdisciplinaridade. 6 (11): 84–94. doi:10.26512/museologia.v6i11.17742
Livros
- Fonseca, Maria Cecília Londres (2009). O patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ
- Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Brasil) (2017). Toque dos sinos e ofício de sineiro em Minas Gerais. Brasília: IPHAN. ISBN 9788573342932
- Schafer, R. Murray (1994). The Soundscape: Our Sonic Environment and the Tuning of the World. Rochester: Destiny Books
- Seeger, Anthony (2004). «Sound, Music, and Culture». In: Martin Clayton; Trevor Herbert. Sound, Music, and Culture. The Cultural Study of Music: A Critical Introduction. New York: Routledge
- Smith, Laurajane (2006). Uses of Heritage. London: Routledge
Documentos institucionais
- IPHAN (2009). «Toque dos sinos em Minas Gerais». Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Consultado em 2 de janeiro de 2026
- UNESCO (2003). «Convention for the Safeguarding of the Intangible Cultural Heritage». Consultado em 2 de janeiro de 2026
Imprensa e divulgação científica
- «A voz das badaladas». Revista de História da Biblioteca Nacional. 1 de janeiro de 2009. Consultado em 1 de março de 2010
- «O toque dos sinos vai ser preservado». Estado de Minas. 3 de dezembro de 2009. Consultado em 1 de março de 2010
