Leon Herzog

Leon Herzog
Leon Herzog em Munique, 1946
Nome completoLajsar Hercyk
Nascimento
21 janeiro 1919

Poland
Morte
21 janeiro 2013

Brazil
CônjugeYvonne Schaack Herzog
Filho(a)(s)Myrna Herzog, Alex Herzog, Arthur Herzog
OcupaçãoIndustrialista, fabricante de motocicletas

Leon Herzog (1919 – Janeiro de 2013), nascido לײַסאַר הערציק (Iídiche) ou Lajsar Hercyk (Polonês), foi um industrial judeu brasileiro de origem polonesa, sobrevivente do Holocausto e pioneiro da indústria de motocicletas no Brasil. Após sobreviver à perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial, emigrou para o Brasil, onde fundou a marca Leonette de motocicletas leves e ciclomotores, notáveis pelo uso de motores licenciados da Europa Central. Herzog e sua esposa, Yvonne Herzog, também estiveram ligados à família Feldman do Rio de Janeiro através de sua filha, a musicista e musicóloga Myrna Herzog, e posteriormente doaram a Coleção Feldman de hanukiot (plural de Hanukiá) ao Museu Judaico do Rio de Janeiro.

Vida precoce e o Holocausto

Herzog nasceu em 1919 na Polônia, em uma família judia. Em sua juventude, foi membro do Hashomer Hatzair, um movimento juvenil sionista socialista e secular. Durante o Holocausto, foi perseguido sob o regime nazista e sobreviveu a prisões antes do fim da guerra. Seu testemunho oral, registrado para a USC Shoah Foundation e citado em estudos acadêmicos sobre a memória do Holocausto no Brasil, documenta suas experiências de perseguição antissemita, deportação em tempo de guerra e eventual libertação. Ele utilizou o nome falso de Jan Grabowsky e voluntariou-se para trabalhar na Alemanha, onde os nazistas teriam menos probabilidade de procurar por judeus durante o conflito.[1][2][3][4]

Emigração para o Brasil

Após a guerra, Herzog emigrou para o Brasil, juntando-se à crescente comunidade de sobreviventes e imigrantes judeus do pós-guerra. Estabeleceu-se na cidade do Rio de Janeiro, onde tinha família, e envolveu-se na pequena indústria e fabricação mecânica. Herzog reuniu-se com parentes já estabelecidos no país, incluindo seu irmão mais velho Bernardo (Berl), que emigrara no início da década de 1920.

Em 1948, obteve sua carteira de motorista no Brasil.[5] Sua familiaridade com motocicletas e ciclomotores europeus, combinada com a emergente demanda brasileira por transporte pessoal de baixo custo, posicionou-o como um dos primeiros fabricantes locais do setor.[6][7]

Início da Carreira no Brasil

Baseando-se em sua experiência anterior à guerra na fábrica de bicicletas de seu irmão Saul na Polônia, Herzog começou a trabalhar em pequenas oficinas mecânicas no Rio de Janeiro. Reparava e fabricava peças, migrando gradualmente para a montagem de motocicletas. No final dos anos 1940, já experimentava protótipos que levariam à marca Leonette.[6]

Motocicletas Leonette

Fundação e desenvolvimento

Nas décadas de 1950 e 1960, Herzog fundou a marca brasileira Leonette, que produzia motocicletas leves e ciclomotores destinados ao mercado interno. A empresa operou antes da chegada dos fabricantes japoneses ao Brasil e é frequentemente citada como parte da geração pioneira de produtores de veículos de duas rodas no país.[6][7]

De acordo com o jornal O Globo, as motocicletas Leonette preencheram uma lacuna no mercado brasileiro em uma época em que modelos importados eram escassos e caros, oferecendo alternativas produzidas localmente que se tornaram populares entre os jovens motociclistas.[6] Os modelos Leonette combinavam quadros fabricados no Brasil com motores importados ou licenciados da Europa Central (linhagem tcheco-eslovaca Pionier/Stadion).[8]

Design e modelos

Os veículos Leonette foram projetados como máquinas simples e robustas para uso urbano. Propagandas da época os retratam como veículos acessíveis para trabalhadores e jovens em um momento em que a motorização privada no Brasil ainda era limitada.[7] Exemplares remanescentes são preservados por colecionadores e museus especializados, como o Moto Museum Hostalek na República Tcheca.[9]

Atividade industrial posterior

Após o fim da produção das motocicletas Leonette, Herzog fundou a empresa L. Herzog S.A. Indústria e Comércio, aplicando sua experiência em fabricação mecânica ao emergente mercado brasileiro de "corte e dobra" de aço. Estudos acadêmicos identificam Herzog como um dos inovadores que reconheceram as vantagens centrais do processamento de aço para construtoras.[10]

A empresa tornou-se associada à marca Armafer. Na década de 1990, tanto a L. Herzog quanto a Armafer foram listadas como afiliadas da Companhia Siderúrgica da Guanabara (COSIGUA), parte do Grupo Gerdau. A aquisição da empresa de Herzog foi estratégica para a expansão do Grupo Gerdau no setor de serviços de construção.[11][12]

Família

Herzog foi casado com Yvonne Herzog (nascida Schaack), filha do músico luxemburguês Nikolaus Schaack. O casal teve uma filha, a musicista Myrna Herzog, e dois filhos, Alex e Arthur Herzog. Através do casamento de Myrna com Eliahu Feldman, os Herzogs ligaram-se à família Feldman do Rio de Janeiro. Leon e Yvonne doaram um conjunto de hanukiot produzidas e colecionadas por Joseph Feldman ao Museu Judaico do Rio de Janeiro, formando a chamada Coleção Feldman.[13]

Filantropia

Em 1992, Herzog presidia o conselho dos Amigos Brasileiros da Universidade Hebraica de Jerusalém.[14] Ele serviu como presidente da entidade por 11 anos.[15]

Morte e Legado

Leon Herzog faleceu em janeiro de 2013, aos 93 anos. Seu legado reside na intersecção do empreendedorismo imigrante, história industrial e memória judaica. As motocicletas Leonette ocupam um lugar de nicho na historiografia da indústria brasileira de duas rodas como um exemplo precoce de produção nacional com tecnologia europeia. Sua história como sobrevivente do Holocausto que reconstruiu a vida no Brasil foi preservada em testemunhos em vídeo e na memória institucional de organizações culturais judaicas.

Ver também

Referências

  1. «Testimony of Leon Herzog». USC Shoah Foundation Visual History Archive (via United States Holocaust Memorial Museum). Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  2. «Testemunhos do Holocausto no Brasil». UFRGS. WebMosaica. Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  3. Dantas, Sara. Análise de relatos de sobreviventes do Holocausto no Brasil (PDF) (Tese). Universidade Federal Fluminense. Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  4. Bitencourt, Aline Gabriel. Memória do Holocausto no Brasil (PDF) (Tese). UNESC. Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  5. «Exame de Motorista». Diário de Notícias. 30 de dezembro de 1948. Consultado em 23 de dezembro de 2025 
  6. a b c d «A história do pioneiro que fabricou motos no Brasil bem antes da chegada das japonesas». O Globo. Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  7. a b c «Veículos históricos: Leonette». Jornal Periscópio. Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  8. «Pionier motor v Brazílii – Leonette». Moto Museum Hostalek (em checo). Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  9. «Motocykle Leonette v zbierkach». Moto Museum Hostalek (em checo). Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  10. Da origem à transformação: a evolução do corte e dobra no Brasil (Tese). Universidade Federal de Minas Gerais. Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  11. «Companhia Siderúrgica da Guanabara – COSIGUA». Jornal do Commercio. 22 de março de 1995. p. 11 
  12. Foggiatto, Jomar Leandro (2013). Análise da estratégia de internacionalização do Grupo Gerdau (PDF) (Tese). Universidade Federal do Paraná. O crescimento do Grupo se deveu basicamente à aquisição da Cia. Siderúrgica da Guanabara – COSIGUA e da L. Herzog Indústria e Comércio Ltda. 
  13. «Acervo – Coleção Feldman». Museu Judaico do Rio de Janeiro. Consultado em 21 de dezembro de 2025 
  14. «Integração». informativo da Confederação Israelita do Brasil (1-44). 1992. Consultado em 24 de dezembro de 2025 
  15. Levy, Sofia Débora (27 de outubro de 2022). Nove Relatos Sobre Viver – 2ª. edição, ampliada. [S.l.]: Mauad Editora Ltda. ISBN 9788530400163