Nikolaus Schaack
| Nikolaus Schaack | |
|---|---|
![]() Nikolaus Schaack | |
| Informações gerais | |
| Nome completo | Nikolaus Schaack |
| Nascimento | 7 julho 1892 |
| Morte | 9 de setembro de 1981 (89 anos) Rio de Janeiro, Brasil |
| Gênero(s) | Clássico |
| Ocupação | Citarista, arranjador, compositor, executivo, cônsul |
| Instrumento(s) | Cítara de concerto |
| Gravadora(s) | Musikverlag Jellinghaus (editora) |
Nikolaus Schaack (7 de julho de 1892 – 9 de setembro de 1981) foi um citarista, arranjador, compositor e figura cultural luxemburguês-brasileiro. Reconhecido na enciclopédia Die Musik in Geschichte und Gegenwart (MGG) como um pioneiro da técnica moderna da cítara, ele expandiu o repertório clássico do instrumento por meio de composições originais e transcrições de obras de Bach, Debussy, Schumann, Chopin, Villa‑Lobos, entre outros.[1] Sua transcrição da Chaconne de Bach é considerada um marco do repertório para cítara de concerto.[1]
Schaack seguiu uma carreira paralela como executivo e serviu como Cônsul de Luxemburgo no Rio de Janeiro.[2] Após estabelecer-se no Brasil, tornou-se ativo na vida cultural do país, sendo um dos fundadores da Sociedade de Cultura Artística de São Paulo.[1] Suas gravações, notadamente o álbum Zither at 80 (1973), continuam a circular internacionalmente.
Início de vida e educação
Schaack nasceu em 7 de julho de 1892 em Hamm, na Cidade de Luxemburgo, filho de Mathias Schaack e Magdalena Jeanpierre.[3] Começou a estudar cítara aos oito anos e mais tarde ingressou no Conservatório de Luxemburgo, onde estudou violino, piano com Victor Vreuls (aluno de César Franck) e composição, contraponto e fuga com Egon Kornauth, que mais tarde tornou-se professor no Mozarteum de Salzburgo.[1]

Enquanto prosseguia seus estudos musicais, Schaack trabalhou meio período no comércio, um caminho duplo que manteve durante sua juventude.[1] Um momento formativo ocorreu em 1912, quando conheceu o virtuoso da cítara austríaco Richard Grünwald, cuja abordagem inovadora do instrumento o influenciou profundamente. Sob a orientação de Grünwald, Schaack decidiu dedicar-se primordialmente à cítara de concerto.[1] De 1913 a 1914 viveu em Dortmund, trabalhando em tempo integral no comércio enquanto continuava os estudos noturnos de teoria e piano.[1]


Carreira musical

Após emigrar para o Brasil, Schaack tornou-se uma figura influente na comunidade da cítara clássica no país. Contribuiu para a revista Muse des Saitenspiels e manteve extensa correspondência com os principais citaristas e compositores a partir de 1912.[1] Suas cartas, preservadas por sua família, documentam desenvolvimentos importantes na técnica e no repertório da cítara no século XX.
Schaack compôs principalmente em um idioma polifônico de inspiração barroca, escrevendo tocatas, invenções e fugas para a cítara de concerto.[1] Também produziu inúmeras transcrições e arranjos de obras clássicas, incluindo a Chaconne de Bach, prelúdios para teclado e movimentos das partitas para violino e suítes para violoncelo; peças para piano de Debussy; obras de Schumann; e composições brasileiras de Francisco Mignone e Waldemar Henrique.[1] Muitas de suas obras foram publicadas pela Musikverlag Jellinghaus em Dortmund.[1]
A edição de 1924 do Handbuch der musikalischen Literatur menciona as duas primeiras composições de Schaack: Siegesjubelmarsch (opus 1) e Gruss ans Müllertal Marsch (opus 2).[4]
Suas inovações técnicas — particularmente sua abordagem ao timbre e à articulação polifônica — foram observadas no Handbuch der Zither de Brandlmeier e no artigo da MGG sobre o instrumento.[1] A pedido do Quarteto Brasileiro da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele arranjou várias de suas obras de cítara para quarteto de cordas, que foram posteriormente executadas.[1]
Educador musical
Schaack também teve alunos de cítara, como Avena de Castro, que mencionou Nikolaus Schaack como "a 2ª maior autoridade mundial em cítara", depois de Richard Grünwald, em sua entrevista ao Correio da Manhã em 1950.[5]
Carreira profissional e diplomática
Paralelamente às suas atividades musicais, Schaack seguiu uma carreira profissional no mundo dos negócios. Serviu como Cônsul de Luxemburgo no Rio de Janeiro e foi diretor da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, a maior produtora de aço do Brasil na época,[2] sendo citado pelo Jornal do Comércio em um relatório de 1946.[6] Foi também um dos fundadores da Sociedade de Cultura Artística de São Paulo.[1]
De 1947 a 1954, foi membro do conselho da Companhia Territorial de Osasco, bem como da CIMAF em 1950.[7][8][9][10]
Entre 1957 e 1959, Schaack serviu como membro efetivo do Conselho Fiscal da Companhia Administradora Caraúna, uma firma de investimentos imobiliários no Rio de Janeiro.[11][12][13]
Schaack iniciou sua carreira como cônsul em 10 de setembro de 1948.[14] Ele ainda era cônsul de Luxemburgo no Rio em 1955.[15][16] É também citado nessa função nas festividades do Dia de Luxemburgo em 1958.[17][18]
Na visita de 1959 do Príncipe João, Grão-Duque de Luxemburgo e sua esposa, a Princesa Josefina Carlota da Bélgica, Schaack participou como cônsul honorário.[19]
Em 25 de setembro de 1965, o Jornal do Comércio registrou a presença de Schaack e sua esposa Mathilde na recepção oferecida por Affonso de Toledo Bandeira de Mello em honra à visita do Grão-Duque e da Princesa ao Rio de Janeiro.[20]
Gravações
A gravação mais conhecida de Schaack é o álbum Zither at 80 (1973), lançado quando ele tinha oitenta anos. O álbum apresenta transcrições clássicas e obras originais e permanece disponível em plataformas de streaming como Spotify e YouTube.[21] No início de sua carreira, suas performances circulavam por transmissões de rádio e gravações privadas.[1]
Arranjos e composições
A produção de Schaack inclui composições originais e um corpo substancial de transcrições para a cítara de concerto. Suas obras incluem:[1]
- Composições polifônicas em estilo barroco (tocatas, invenções, fugas);
- Transcrições da Chaconne de Bach, prelúdios, movimentos das partitas para violino e suítes para violoncelo;
- Arranjos de Debussy, Schumann, Chopin, Gluck e Tchaikovsky;
- Transcrições de obras brasileiras de Francisco Mignone e Waldemar Henrique;
- Revisões de arranjos existentes, incluindo os Prelúdios de Villa‑Lobos.
Muitas de suas obras publicadas apareceram pela Musikverlag Jellinghaus (mais tarde absorvida pela Verlag Richard Grünwald). Manuscritos adicionais permanecem em arquivos familiares e destinam-se à doação ao Arquivo Internacional de Cítara em Trossingen.[1] A Invenção de Schaack é citada na análise de Brandlmeier sobre a polifonia da cítara e é apresentada ao lado de obras de Grünwald, Blomqvist e outros como literatura exemplar para instrumentistas avançados.[22]
Estilo e influência
A performance de Schaack era notada por sua clareza, nuance expressiva e precisão técnica. Pamela Hickman descreveu seu estilo como "elegante, lírico e tecnicamente seguro".[23]
Ele desenvolveu uma abordagem distinta ao timbre, notando famosamente que na cítara ele poderia "tocar o mesmo acorde com mais de 30 timbres diferentes".[1] Sua correspondência com grandes figuras da cítara é considerada uma fonte importante para entender a evolução do instrumento no século XX.[1]
Nikolaus Schaack é citado extensivamente no Handbuch der Zither (1949–1950) de Josef Brandlmeier como uma figura de liderança no desenvolvimento da técnica moderna do instrumento. Seu trabalho é referenciado em discussões sobre dedilhado polifônico, transmissão entre zonas de execução e o uso expressivo do timbre. As composições de Schaack são usadas para ilustrar a escrita avançada a três vozes e texturas contrapontísticas, e seus insights teóricos são citados em capítulos sobre estilo instrumental e notação.[22]
Reconhecimento na literatura técnica
Nikolaus Schaack é citado em múltiplos capítulos do Handbuch der Zither (1949–1950) de Josef Brandlmeier, uma obra de referência fundamental na pedagogia da cítara. Suas composições são usadas para ilustrar a escrita contrapontística, distribuição de vozes e técnicas de dedilhado expressivo. Suas observações teóricas são citadas em discussões sobre estilo instrumental, notação e propriedades acústicas da cítara. Seu trabalho é apresentado ao lado de nomes como Richard Grünwald, Ott e Swoboda, confirmando seu lugar no cânone da literatura para cítara do século XX.[22]
Vida pessoal

Schaack casou-se com Mathilde Schaack, com quem teve uma filha, Yvonne. Yvonne casou-se posteriormente com o industrial Leon Herzog e tornou-se mãe da musicista e musicóloga Myrna Herzog.[24]

Em 1924, antes de se mudar para o Rio, Schaack viveu em São Paulo com sua família, conforme registrado no Rio Cosmopolita em uma lista de "visitantes hospedados nos principais hotéis do Rio de Janeiro".[25]
A partir de 1944, e pelo menos até 1952, Schaack residiu na Rua Carvalho Azevedo, 72, conforme indicado no Guia Vermelho do Automobilista.[26]
Viveu por muitos anos no Rio de Janeiro, onde permaneceu ativo como músico. Schaack era poliglota, lendo em francês, inglês, português, espanhol, alemão e luxemburguês, e mantinha amplos interesses intelectuais, incluindo literatura, filosofia, ciência, medicina, matemática, psicologia, cibernética e apicultura.[1] Foi um defensor precoce da consciência ecológica e mantinha abelhas para produção pessoal de mel.[1]
Últimos anos e morte
Schaack morreu em 9 de setembro de 1981 no Rio de Janeiro, aos 89 anos. Seu atestado de óbito lista sua ocupação como "aposentado" e sua nacionalidade como luxemburguesa.[27] Foi sepultado no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro.[27]
Legado
Schaack é considerado um pioneiro da técnica moderna da cítara e uma figura chave no renascimento clássico do instrumento no século XX.[1] Suas composições e transcrições permanecem parte do repertório de cítara de concerto, e suas gravações continuam a circular entre músicos e colecionadores. Sua extensa correspondência, preservada por sua família, é considerada uma importante fonte documental para a história da cítara e destina-se à doação ao Arquivo Internacional de Cítara em Trossingen.[1] A inclusão das obras de Schaack e seus comentários técnicos ao longo do Handbuch der Zither de Brandlmeier confirma seu status como uma figura fundamental na pedagogia da cítara do século XX. Suas composições são usadas para demonstrar princípios estilísticos, e suas observações teóricas são citadas em capítulos sobre notação e técnica expressiva. Essa presença sustentada em uma grande obra de referência ressalta a influência duradoura de suas contribuições musicais e pedagógicas.[22]
Discografia
- Zither at 80 (1973) – transcrições clássicas e obras originais[21]
Bibliografia
- Brandlmeier, Josef. Handbuch der Zither. Leipzig: Friedrich Hofmeister, 1949–1950. Obra de referência técnica e estilística abrangente que cita as composições e contribuições teóricas de Schaack. Disponível via Princeton ReCAP Library
- Herzog, Myrna. "Nikolaus Schaack – Zitherliebhaber." Em Saitenspiel, vol. 51, no. 3 (maio–junho de 2011), pp. 123–129. Retrato e entrevista refletindo sobre a vida de Schaack, sua filosofia musical e seu legado na comunidade da cítara. Deutscher Zithermusik-Bund
- Hickman, Pamela. "The Concert Zither – Nikolaus Schaack." Pamela Hickman’s Blog, 2021. Visão geral das gravações de Schaack e sua significância estilística. Artigo online
- Levy, Sofia Débora (ed.). Sobre viver: nove relatos antes, durante e depois do Holocausto. 2ª edição revista e ampliada. Rio de Janeiro: Mauad X, 2022. Coleção de testemunhos de sobreviventes, incluindo Leon Herzog, contextualizando experiências do Holocausto no Brasil. Mauad Editora
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w «Nikolaus Schaack – Zitherliebhaber». Saitenspiel (em alemão) (3). Deutscher Zithermusik-Bund. Maio–junho de 2011. pp. 123–129
- ↑ a b Leon Herzog (2023). Nove Relatos Sobre Viver – 2ª edição ampliada. [S.l.]: Edição Independente. p. 69. ISBN 978-85-304-0016-3
- ↑ «Registro de nascimento de Nikolaus Schaack». FamilySearch. Consultado em 21 de dezembro de 2025
- ↑ Handbuch der musikalischen Literatur. 16 1924 ed. Leipzig: Friedrich Hofmeister. 1924. p. 645. Consultado em 22 de dezembro de 2025
- ↑ «As Próximas apresentações de "Ondas Musicais"» (17703). Correio da Manhã. 1 de dezembro de 1950. Consultado em 22 de dezembro de 2025
- ↑ «Companhia Industrial e Mercantil de Artefatos de Ferro» (249). Jornal do Comércio. 25 de julho de 1946. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ «Companhia Territorial de Osasco (1947)» (27933). Correio Paulistano. 27 de abril de 1947. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ «Companhia Territorial de Osasco» (28849). Correio Paulistano. 26 de abril de 1950. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ «Correio Paulistano (SP) - 1950 a 1959 - DocReader Web» (28867). Correio Paulistano. 18 de maio de 1950. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ «Companhia Territorial de Osasco (1954)» (30077). Correio Paulistano. 28 de abril de 1954. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ «Relatório da Diretoria – Companhia Administradora Caraúna». Biblioteca Nacional Digital do Brasil. Consultado em 21 de dezembro de 2025
- ↑ «Ata da Assembleia Geral Ordinária – Companhia Administradora Caraúna». Biblioteca Nacional Digital do Brasil. Consultado em 21 de dezembro de 2025
- ↑ «Ata da Assembleia Geral Ordinária – Companhia Administradora Caraúna». Biblioteca Nacional Digital do Brasil. Consultado em 21 de dezembro de 2025
- ↑ Relatório do Ministério do Exterior 1 ed. [S.l.]: Ministério do Exterior. 1949. p. 254. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ «Diplomáticas» (18968). Correio da Manhã. 26 de janeiro de 1955. Consultado em 22 de dezembro de 2025
- ↑ «Dia do Luxemburgo» (14918). A Noite. 25 de janeiro de 1955. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ «Mala Diplomática: Festa do Luxemburgo» (19886). Correio da Manhã. 23 de janeiro de 1958. Consultado em 22 de dezembro de 2025
- ↑ «A Data Nacional do Luxemburgo» (11469). O Jornal. 26 de janeiro de 1958. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ «Os Príncipes do Luxemborgo II» (11841). O Jornal. 11 de abril de 1959. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ Trompowsky, Gilberto (26 de setembro de 1965). «Registro» (299). Jornal do Comércio. Consultado em 22 de dezembro de 2025
- ↑ a b «Nikolaus Schaack – Página de Artista». Spotify. Consultado em 21 de dezembro de 2025
- ↑ a b c d Brandlmeier, Josef (1949–1950). Handbuch der Zither (em alemão). Leipzig: Friedrich Hofmeister. pp. 126, 131, 135, 155–156, 178–179, 194, 198, 201, 205–206, 208, 229–230, 238, 249, 251, 260, 281–282, 290, 294, 304
- ↑ Hickman, Pamela (2021). «The Concert Zither – Nikolaus Schaack». Pamela Hickman's Blog. Consultado em 21 de dezembro de 2025
- ↑ «Feldman Family History». FeldmanJazz.com. Consultado em 21 de dezembro de 2025
- ↑ «Grandes Hoteis». Rio Cosmopolita (1): 12. 1924. Consultado em 22 de dezembro de 2025
- ↑ «Automóveis Particulares». Guia Vermelho do Automobilista (1): 180. 1944. Consultado em 23 de dezembro de 2025
- ↑ a b «Registro de óbito de Nicolau Schaack». FamilySearch. Consultado em 21 de dezembro de 2025
