Intervenção federal em Goiás em 1964

Intervenção federal em Goiás em 1964
Brasil
Ditadura Militar Brasileira
1964 – 1966
Início27 de novembro de 1964 (61 anos)
Fim31 de janeiro de 1966 (60 anos)
Duração1 ano e 65 dias
Organização e Composição
TipoIntervenção federal
Interventor federalCarlos de Meira Mattos
Emílio Rodrigues Ribas Júnior
Presidente do BrasilHumberto Castelo Branco
ApoioUDN (Até 1965, com o Ato Institucional n.º 2.)
OposiçãoPSD
PTB (Até 1965, com o Ato Institucional n.º 2.)

A intervenção federal em Goiás em 1964 foi a decisão do Governo Castelo Branco, então presidente do Brasil, em suprir a autonomia político-administrativa do estado da referida unidade federativa, em 27 de novembro daquele supracitado ano.[1] Na decisão, o presidente Humberto Castelo Branco alegou que se deu "devido a graves riscos à paz pública[...]"[2], conforme texto do Decreto Legislativo n.º 112/1964. As causas políticas para tal ato se referem aos riscos de Mauro Borges Teixeira, então governador de Goiás, lançar-se à uma campanha presidencial em 1965, além da sua participação na Campanha da Legalidade. Ao contrário da Deposição de Miguel Arraes, o ato foi diferente, pois tratou-se da deposição de um apoiador do Golpe de Estado de 1964, em consequência de seus posicionamentos partidários contrários à influência da linha-dura.[3]

Contexto

Campanha da Legalidade

O Governador de Goiás, Mauro Borges Teixeira.

Mauro Borges, então governador de Goiás, foi considerado, ao lado de Leonel Brizola, um dos principais defensores da Campanha da Legalidade. Chegando a declarar:[4]

"Não sou nem jamais fui comunista", mas, "[...] se a sucessão não ocorrer dentro do respeito à Constituição, Goiás estará pronto a lutar em defesa da ordem nacional."
 

De perfil político conciliador e contrário a posturas radicais, caracterizou sua atuação como voltada à preservação da ordem constitucional e à prevenção do estabelecimento de uma “ditadura militar retrógrada”. O manifesto pela legalidade foi emitido em 28 de agosto, com o apoio de seu pai, Pedro Ludovico Teixeira, senador por Goiás e igualmente filiado do Partido Social Democrático (PSD), além do apoio da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás. A causa legalista no estado foi centralizada no Palácio das Esmeraldas, sede do governo estadual. O Exército Brasileiro impôs censura à Rádio Brasil Central, emissora pública que apoiava o movimento, bem como às demais comunicações estaduais; contudo, a emissora foi transferida para o Palácio das Esmeraldas, de onde também passou a operar um serviço de informações.[5][6]

Oficial da reserva, Mauro Borges organizou um Estado-Maior e liderou o planejamento para a defesa de Goiás, caso fosse necessário, empregando a Polícia Militar e voluntários civis. O Palácio das Esmeraldas recebeu reforços de infraestrutura, incluindo a instalação de um gerador próprio. Em Goiânia, cerca de cinco mil voluntários foram mobilizados e receberam treinamento militar, formando o denominado “Batalhão Tiradentes”. Os armamentos disponíveis no comércio local foram requisitados e colocados sob custódia do Batalhão Anhanguera da Polícia Militar. Em articulação com o governo do Rio Grande do Sul, a empresa Varig foi acionada para o eventual transporte aéreo de armas e munições de Porto Alegre a Goiânia.[7]

Missões de engenharia foram planejadas para a destruição de pontes estratégicas em Itumbiara e Cristalina, localizadas nas vias de acesso a São Paulo e Brasília, respectivamente. Considerando a possibilidade de fechamento do Congresso Nacional, Goiânia chegou a ser cogitada como sede provisória do Legislativo Federal, em operação denominada “Carrapato”. Um carregamento de armas foi encaminhado à capital por estradas secundárias, devido ao controle exercido pelo Exército nas principais rotas. Uma pista de pouso foi improvisada e protegida por forças de segurança para um eventual desembarque do presidente João Goulart, para o qual foi disponibilizada a aeronave oficial do estado.[8]

O Exército acompanhava a situação em Goiás com atenção, devido à proximidade do território goiano com o Distrito Federal e à dependência deste em relação à usina de Cachoeira Dourada para o fornecimento de energia elétrica. Em 30 de março, após ser informado pela deputada federal Ivete Vargas de que um grupamento de canhões antiaéreos de 40 mm passaria por Goiânia, o governador considerou a possibilidade de interceptar a tropa, o que não chegou a ocorrer. Diante da hipótese de um ataque aéreo, o Palácio das Esmeraldas e edificações próximas foram fortificados com barricadas, canhões e metralhadoras, contando com a vigilância de policiais e voluntários.[9]

Na manhã de 31 de agosto, tropas do Exército ocuparam o aeroporto de Anápolis, enviando cerca de 200 soldados do 6.º Batalhão de Caçadores (6.º BC), que posteriormente se aquartelaram no Depósito de Subsistência do Exército. O governo estadual, entretanto, declarou que Anápolis não havia sido ocupada. À época, a guarnição federal em Goiás contava com aproximadamente 849 militares bem armados, enquanto a Polícia Militar dispunha de cerca de 300 homens. O Exército mantinha no estado dois batalhões de infantaria, o 6.º BC, sediado em Ipameri, e o 10.º BC, em Goiânia, além do Batalhão da Guarda Presidencial, baseado em Brasília.[5]

Mudança ideológica, apoio ao golpe e avanço da linha-dura

No entanto, Mauro Borges começou sua aproximação à linha Sorbonne dos movimentos em contrariedade ao governo Goulart em 1964, utilizando especialmente argumentos anticomunistas contra João Goulart. O mesmo teria dito:[1]

“[...] será a solução destruir o regime democrático e levantar a bandeira da República Popular do Brasil? [...] afirmo que não [...] precisamos de um governo com autoridade, forte [...]. É preciso que não se permita ao presidente João Goulart o uso das ditas reformas para seu continuísmo [...] aspiramos e lutaremos por um governo social economicamente justo, calcado em princípios cristãos. Queremos as reformas dentro da lei, queremos governo que, ao lado da iniciativa privada, socialmente justa, e com um planejamento global, dinamize todas as potencialidades de trabalho e riqueza, para que aumente a produção e distribua com equidade os seus frutos.”

Uma das causas desse apoio eram conflitos de interesses, entre o Governo João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), e a Gestão Mauro Borges: o governo federal do Brasil não concedeu à Metago (Metais de Goiás S.A.[10]) o direito de explorar o níquel no estado; priorizando a renovação de mineração da Votorantim S/A, propriedade do então senador e correligionário de Jango em Pernambuco, José Ermírio de Moraes. Tal ação levou à ruptura da coligação PSD-PTB em Goiás.[11]

Seu apoio ao Golpe de Estado no Brasil em 1964, levou-o à assunção do Comando Supremo da Revolução do Estado, conforme afirmação do Jornal O Popular, em 11 de abril do referido ano.[1] O constante avanço da linha-dura brasileira, no entanto, começou uma rigidez maior nas perseguições internas e o aumento do extremismo assimilou Teixeira Borges ao comunismo. O início dessa perseguição se deu em maio, quando o coronel Danilo Darcy de Sá Mello foi enviado à unidade federativa para comandar o 10.º Batalhão de Caçadores. Sá Mello abriu uma série de inquéritos policiais militares, que abarcaram mais de 100 integrantes do governo estadual de Teixeira.

Em seguida, três secretários estaduais tiverem seus direitos políticos cassados, eram o da Educação e Cultura, padre Rui Rodrigues da Silva; o do Interior e Justiça, Wilson da Paixão; e o da Administração, deputado Valteno Cunha Barbosa; membros das mais importantes pastas governamentais. Um IPM foi instaurado contra o próprio governador, no qual o coronel Danilo acusou Mauro Borges de ser um comunista. Tal acusação levou Borges à solicitar ao presidente, marechal Humberto Castelo Branco, a mudança de comandante do BC. O pedido foi atendido, sendo instaurado o general Riograndino Kruel, irmão de Amaury Kruel.

Porém, a oposição da UDN, pressionou fortemente o investigador militar para depor Mauro Borges. A fomentação para tal ato, foi também a preocupação dos militares linha-duras quanto à proximidade de Goiás para com o Distrito Federal, seguido de um pequeno furto de armas de fogo em Anápolis, que foi dado como ''um ato contrarrevolucionário'', sendo considerado uma grave ameaça à segurança nacional. O assalto foi organizado por membros da Executiva do Partido Comunista do Brasil.[12]

O Supremo Tribunal Federal deliberou o habeas corpus, impetrado de forma preventiva pela defesa do governador, declarando que este deveria ser julgado pela Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, conforme determinavam as Constituições Estadual e Federal.[13] Numerado em 41.296, o HC foi redigido no Distrito Federal e impetrado pelos advogados Heráclito Fontoura Sobral Pinto e José Crispim Borges, sendo o último o Procurador-Geral do Estado de Goiás, e o ministro relator foi Antônio Gonçalves de Oliveira.[14]

Um dos apoiadores da deposição de Mauro Borges, que foi pessoalmente à Goiânia para solicitar tal ato, foi o udenista e então Governador da Guanabara, Carlos Lacerda. Outro incitador da intervenção foi o general do Exército, membro da Linha-dura e então Ministro da Guerra, Artur da Costa e Silva.[11]

A intervenção

Militares do Exército durante a intervenção, efetivando rondas nas rodovias de Goiás.

Em 26 de novembro de 1964, o então Presidente do Brasil, Humberto Castelo Branco, decreta Intervenção federal sobre o estado de Goiás, no Decreto n.º 55.082, de 26 de Novembro de 1964.[15][3][16] No texto em que enviou ao Senado Federal do Brasil, justificou suas ações:

MENSAGEM 1'4.° 710, DE 1964

(Do Poder Executivo)
Submete ao Congresso Nacional o ato de intervenção federal no Estado de Goiás.
Senhores Membros do Congresso Nacional:
Em declaração feita no dia 23 do corrente, tive oportunidade de advertir a Nação, sobre a situação anômala que se criara no Estado de Goiás, reveladora de graves riscos para a paz pública e a integridade nacional.
Sentindo que era necessário dar remédio a tal anormalidade, resolvi lançar mão, não tanto no USO de uma faculdade, mas sobretudo no cumprimento de um dever, da medida constitucional de intervenção federal naquele Estado; e o fiz por meio do decreto junto que ora venho, nos termos do art. 10 da Constituição, submeter à aprovação do Congresso Nacional.

 
Avião do governo estadual interditado pela Aeronáutica.

O ato foi aprovado no dia seguinte pelo Congresso Nacional do Brasil, sendo designado para o posto de interventor, o então coronel Carlos de Meira Mattos que permaneceu na função por 45 dias até a eleição indireta de seu sucessor.

Por sua vez, Meira Mattos estabeleceu um processo criminal contra Mauro Borges, atendendo solicitações da oposição udenista.[1]Pedro Ludovico Teixeira tentou, sem sucesso, uma ação militar para a manutenção do mandato do filho.[17]

Em 7 de janeiro de 1965, a Assembleia Legislativa de Goiás decreta vacância no Governo do Estado de Goiás, no entanto, determina o arquivamento dos processos contra Mauro Borges. Em 10 de janeiro, foi eleito com 32 votos, o candidato do Governo Castelo Branco, coronel Emílio Rodrigues Ribas Júnior; contra 2 votos de Mauro Borges; 1 voto para o deputado Benedito Vaz, e 4 votos brancos, liderados como protesto, pelo deputado estadual João Neto, do PSD, que declarou:[1]

“Quando chegarmos ao nosso município irão perguntar: que tal é o candidato? É gordo, é magro, é claro, é moreno? Não. Votamos porque a espada apontou lá e votamos”.

A assunção de Emílio estabeleceu um novo governo indireto, tendo sua permanência no cargo até a posse de Otávio Lage de Siqueira, udenista e aliado da ditadura; em 31 de janeiro de 1966, conforme ditava a Constituição vigente.[18] Otávio Lage foi eleito nas eleições estaduais em Goiás em 1965, que foram as últimas eleições diretas para Governador de Goiás que nos próximos 17 anos.[1]

O Decreto Legislativo n.º 112 de 27 de novembro de 1964, advindo do Senado Federal do Brasil, que ratifica a decisão do então presidente, Humberto Castelo Branco, em efetivar a intervenção federal em Goiás.

Referências

  1. a b c d e f «Regime ditatorial». Portal da Alego. Consultado em 27 de abril de 2024. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  2. «Intervenção Federal no Estado de Goiás». Revista de informação legislativa (5): 76–111. Março de 1965. Consultado em 27 de abril de 2024. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  3. a b «Entenda o que é intervenção Federal e quando foi usada no Brasil». Migalhas. 11 de janeiro de 2023. Consultado em 27 de abril de 2024. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  4. Favaro, Tereza Cristina Pires (2011). «Movimento da Legalidade (1961): Resgatando o protagonismo de Mauro Borges». Anos 90 (33): 41–65. ISSN 1983-201X. doi:10.22456/1983-201X.25398. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  5. a b Filho, Medeiros; De, Adovaldo Dias (12 de fevereiro de 2025). «Mauro Borges: de "legalista" a deposto - uma análise das razões pelas quais um apoiador do Golpe veio a ser apeado do cargo em 1964» (PDF). Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 31 de outubro de 2025. Resumo divulgativo 
  6. «Mauro Borges e a crise político-militar de 1961 em Goiás: movimento da legalidade. - Portal de Acervos Arquivísticos». memoria.cidarq.ufg.br. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  7. «Ex-funcionário conta em livro a história da companhia aérea Varig». GZH. 18 de abril de 2017. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  8. Silva, Estevam (25 de agosto de 2025). «64 anos da Campanha da Legalidade: o povo em luta para defender a democracia». Opera Mundi. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  9. «Acontecimentos do dia 28 de agosto de 1961». Portal da Câmara dos Deputados do Brasil. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  10. «METAIS DE GOIÁS S/A EM LIQUIDAÇÃO – Sead». goias.gov.br. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  11. a b «Histórias do Moreno: O último herói da Legalidade». O Globo. 6 de abril de 2013. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  12. Buonicore, Augusto (17 de novembro de 2014). «50 anos do assalto ao Tiro de Guerra de Anápolis – a primeira ação militar da esquerda brasileira contra a ditadura». Mauricio Grabois. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  13. «Há 50 anos, Mauro era deposto». O Popular. 26 de novembro de 2014. Consultado em 27 de abril de 2024. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  14. BORGES, José Crispim; SOBRAL PINTO, Heráclito Fontoura (23 de novembro de 1964). «HABEAS CORPUS Nº 41.296 - DISTRITO FEDERAL» (PDF). Migalhas. Brasília, Distrito Federal. Cópia arquivada (PDF) em 31 de outubro de 2025 
  15. «Portal da Câmara dos Deputados». www2.camara.leg.br. Consultado em 27 de abril de 2024 
  16. «| Atlas Histórico do Brasil - FGV». Fundação Getúlio Vargas. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  17. «PEDRO LUDOVICO TEIXEIRA - GRANDES VULTOS DA MAÇONARIA GOIANA». masonic.com.br. Consultado em 27 de abril de 2024. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025 
  18. «Constituição brasileira de 1946» 🔗. Presidência do Brasil. 18 de setembro de 1946. Consultado em 31 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 31 de outubro de 2025. Resumo divulgativo