Henrique I do Haiti

Henrique I
Defensor da Fé
Retrato por Richard Evans, c. 1816
Rei do Haiti
Reinado28 de março de 1811
a 8 de outubro de 1820
Coroação2 de junho de 1811
Antecessor(a)Jaime I
Sucessor(a)Henrique II
Presidente do Estado do Haiti
Mandato17 de fevereiro de 1807
a 28 de março de 1811
Predecessor(a)Jaime I (como Imperador)
Sucessor(a)Ele mesmo, como rei
Dados pessoais
Nascimento6 de outubro de 1767
São Cristóvão
Morte8 de outubro de 1820 (53 anos)
Cap-Henri, Haiti
Sepultado emCidadela Laferrière, Haiti
Nome completo
nome pessoal em francês: Henri Christophe
EsposaMaria Luísa Coidavid
Descendência
Francisco Fernando Cristóvão
Francisca Ametista do Haiti
Ana Atenas do Haiti
Henrique II do Haiti
ReligiãoCatolicismo
Brasão

Henrique I (São Cristóvão, 6 de outubro de 1767Cap-Henri, 8 de outubro de 1820), nascido Henrique Cristóvão[1] (em francês: Henri Christophe) foi um autoproclamado rei do Haiti. Militar de carreira, detinha a patente de general do exército haitiano quando tornou-se presidente, em 17 de fevereiro de 1807. Proclamou-se rei em 26 de março de 1811. Cometeu suicídio em 8 de outubro de 1820.

Participou ativamente do processo de independência do país, unindo-se aos líderes Alexandre Pétion e Jean-Jacques Dessalines contra o então Império Francês. Quando do êxito da Revolução Haitiana, em 1804, os escravos foram libertos.

Antecedentes

Nascido Henrique Cristóvão (em francês: Henri Christophe) em São Cristóvão, ele foi levado para São Domingos como escravo. Possivelmente tinha ascendência senegambiana.[2] Trabalhou no restaurante dum hotel, por meio do que é dito que comprou sua liberdade.[3] Acredita-se que em 1779 ele tenha servido às forças francesas na Revolução Americana como percussionista, no Chasseurs-Volontaires de Saint-Domingue, um regimento composto por negros e mestiços livres, durante o cerco a Savannah.[4]

Henrique se destacou na Revolução Haitiana de 1791, ascendendo ao posto de general em 1802. Em 1806, ele estava ciente dum plano para matar Jean-Jacques Dessalines, o primeiro governante haitiano sob o nome de "Jaime I"; percebendo aí uma oportunidade para tomar o poder. O plano foi executado por Alexandre Pétion, movido igualmente pelo desejo de poder.[5]

Após o regicídio, Henrique foi eleito presidente mas sem poderes de facto. Sentindo-se insultado, retirou-se ao norte, onde angariou forças para fundar um estado próprio. Em 1807, Henrique tornou-se presidente do Estado do Haiti (presidente e generalíssimo das forças de terra e mar do Estado do Haiti),[6] ao norte, enquanto Pétion tornava-se presidente da República do Haiti, ao sul.

Em 1811, Henrique elevou a parcela norte do país a condição de reino (Reino do Haiti). Um edital de 1 de abril de 1811 determina seu título completo como

Henrique, pela graça de Deus e pela Lei constitucional do Estado Real do Haiti, Soberano das Ilhas de Tortuga, Gônave, e outras ilhas adjacentes, Destruidor da tirania, Regenerador e benfeitor da nação haitiana, Criador das instituições morais, políticas e guerreiras, Primeiro monarca coroado do Novo Mundo, Defensor da fé, Fundador da ordem real e militar de Santo Henrique.[6]

Reinado

Retrato dos filhos do rei Henrique: o príncipe real Jaime Vítor Henrique e as princesas Francisca Ametista e Ana Atenas, por pintor deconhecido, c. 1811.

Um de seus primeiros atos como rei foi a instituição da nobreza haitiana, criando quatro títulos de príncipe, sete de duque, vinte e dois de conde, quarenta de barão e catorze de cavaleiro. Fundou também um colégio de armas a fim de prover brasões aos novos nobres. Nove anos depois, no ocaso de seu reinado, haviam sido criados mais quarenta e sete títulos.[7]

Seu único filho varão ainda vivo, Jaime Vítor Henrique, foi intitulado "Príncipe Real do Haiti"[8] (seu filho mais velho, Francisco Fernando, nasceu e morreu antes da ascensão de seu pai ao trono).[9] Do seu casamento com Maria Luísa Coidavid, ainda tinha duas filhas: Francisca Ametista (1798-1831) e Ana Atenas (1800-1839).

Alguns europeus zombaram de sua criação. Os títulos de Duque de Limonade (Julien Prévost, secretário de Estado de Henrique) e Duque de Marmelade (Jean-Pierre Richard, governador de Cap-Heri) foram considerados particularmente cômicos por aqueles que não sabiam que, na verdade, derivavam de nomes de localidades atribuídos anteriormente pelos colonizadores franceses.[6]

Henrique construiu para si seis castelos, oito palácios e a gigantesca Cidadela Laferrière.[10]

Estátua equestre de Henrique na capital haitiana, Porto Príncipe.

Durante seu curto reinado, as duas regiões do Haiti enfrentavam o desafio de reconstruir suas economias devastadas pelas guerras longas e dispendiosas, buscando formas de aumentar a produção agrícola. Os Estados Unidos haviam encerrado recentemente seu embargo de armas e mercadorias contra o Haiti, ao mesmo tempo em que entravam em guerra com o Reino Unido em 1812. Diante desse cenário, o rei Henrique viu-se diante de uma escolha crucial: restaurar uma forma adaptada do sistema de plantações escravistas para impulsionar a produção agrícola ou dividir as terras em pequenas propriedades voltadas à agricultura de subsistência, modelo adotado pelo presidente Pétion no sul do país. Henrique optou por implementar o sistema de corvéia, um regime de trabalho forçado em substituição aos impostos, visando retomar a produtividade agrícola, especialmente nas plantações de cana-de-açúcar. Paralelamente, deu início a ambiciosos projetos de construção, que buscavam reforçar sua autoridade e infraestrutura estatal. Embora o regime no norte fosse despótico, a economia açucareira conseguiu gerar receitas significativas para o governo e para os funcionários da administração real. Henrique firmou um acordo com o Reino Unido no qual o Haiti se comprometia a não ameaçar as colônias britânicas no Caribe; em contrapartida, a Marinha Real Britânica passaria a avisar o Haiti sobre eventuais ataques iminentes das tropas francesas. Em 1807, o Parlamento do Reino Unido aprovou a Lei de Comércio de Escravos, que aboliu a importação de escravos para todo o Império Britânico. Com o aumento do comércio bilateral entre o Haiti e a Grã-Bretanha, o governo de Henrique arrecadou uma significativa quantia em libras esterlinas para os cofres do país. Por outro lado, o Haiti do sul, governado por Pétion, enfrentou uma situação econômica muito mais difícil, pois o sistema de divisão de terras adotado naquela região reduziu a produtividade agrícola, resultando em uma queda nas exportações.[11]

Moeda haitiana de gourde com o retrato de Henrique I no estilo de um soldo romano, cunhada por volta de 1820. A moeda traz a inscrição em latim: HENRICUS DEI GRATIA HAITI REX, que significa em português: "Henrique, pela Graça de Deus, Rei do Haiti".

Após a abdicação de Napoleão, em abril de 1814, o rei Luís XVIII tentou retomar o controle do Haiti.[12] O Tratado de Paris, ratificado em 30 de maio, devolveu o vizinho São Domingos à Espanha e concedeu um prazo adicional de cinco anos para o comércio de escravos, visando compensar as perdas causadas pela abolição da escravidão. Em outubro de 1814, ministros do rei Henrique I tornaram públicas evidências de planos franceses para tentar recuperar a antiga colônia, por meio de cartas transportadas por agentes franceses capturados na ilha.[13] Diante da comoção gerada, a nação mobilizou-se para a esperada invasão francesa e iniciou uma campanha internacional de relações públicas. A partir de novembro, panfletos, jornais e cartas abertas haitianas começaram a ser reproduzidos na imprensa de diversas regiões do Atlântico.[14] Esses impressos e intervenções editoriais foram acompanhados por textos teóricos críticos sobre raça e colonialismo, como O Sistema Colonial Desvelado (em francês: Le Système colonial dévoilé), de Pompée Valentin Vastey.[15] Simultaneamente, Henrique iniciou comunicação com os mais destacados abolicionistas ingleses: sua carta a William Wilberforce chegou em 5 de janeiro de 1815 e marcou um novo patamar nas relações entre o Reino Unido e o Reino do Haiti.[14]

Apesar de seus esforços para promover a educação e estabelecer um sistema legal, o Código Henriquiano,[16] o rei se tornou um monarca autocrático e impopular, cujo reino estava em constante beligerância com o sul. A opinião pública tornou-se cada vez mais contrária ao que considerou "políticas feudais".[17] Doente e fraco, apesar de ter apenas cinquenta e três anos de idade, Henrique preferiu atirar em si com uma bala de prata à possibilidade de golpe.[8] Seu filho, o príncipe real, então com dezesseis anos, não teve oportunidade de suceder ao pai, sendo preso e executado a estocadas de baioneta por revolucionários no Palácio de Sans-Souci. Foi enterrado na Cidadela Laferrière.[18]

Legado

A pistola usada no suicídio de Henrique. No Museu do Panteão Nacional Haitiano.

Henrique foi objeto da La Tragédie du Roi Christophe, uma peça de 1963 escrita pelo autor martinicano Aimé Césaire. Foi representado também na novela El Reino del Este Mundo de Alejo Carpentier.[19][20]

O grupo escoteiro Boy Scouts Troupe Henri Christophe, associado ao colégio Notre Dame Du Perpetuel Secours, em Cabo Haitiano, foi assim nomeado em sua homenagem.[21]

Seus descendentes continuaram entre os grupos mais influentes do Haiti. Pierre Nord Alexis, presidente do Haiti de 1902 a 1908, era neto de Henrique.[22] Michèle Bennett, que se casou com Jean-Claude Duvalier e foi primeira-dama do Haiti durante seu governo (de 1980 a 1986), é trineta de Henrique.[23][24]

Mais recentemente, após a morte de George Floyd em 2020, e as subsequentes manifestações e protestos antirracismo, a figura de Henrique ganhou novo destaque como símbolo da resistência negra e da luta contra o colonialismo no Haiti. Em meio a debates sobre racismo e justiça histórica, sua memória passou a ser valorizada especialmente no contexto da denúncia sobre a indenização extorsiva que o Haiti foi forçado a pagar à França após a independência.[25]

Referências

  1. França, Wanderson Édipo de (2014). O serviço das armas, as gentes do povo e os escravizados: Pernambuco na época da independência (1817-1824) (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal de Pernambuco. p. 122-123. Consultado em 8 de fevereiro de 2021 
  2. Clammer, Paul (2023). Black Crown Henry Christophe, the Haitian Revolution and the Caribbean's Forgotten Kingdom. [S.l.]: Hurst Publishers. p. 18. ISBN 9781787387799 
  3. Cheesman, Clive (2007). The Armorial of Haiti. Londres: The College of Arms. ISBN 978-0-9506980-2-1  Segundo alguns, ele nasceu em Santo Domingo, enquanto, para Henri D'Alméras, ele teria nascido na ilha de São Cristóvão, da qual também teria derivado seu nome; cfr. H. D'Alméras, Paolina Bonaparte, Milano, Dall'Oglio, 1964, p. 108.
  4. Evins Toni, A King in Haiti: the story of Henri Christophe, Farrar Straus Giroux, 1972, p. 17
  5. J. Saint-Remy, Essai sur Henri-Christophe General haitien, Hascette BNF, 2018, p. 20.
  6. a b c Cheesman, 2007.
  7. Evins Toni, A King in Haiti: the story of Henri Christophe, Farrar Straus Giroux, 1972, p. 57
  8. a b Monfried, Walter, "The Slave Who Became King: Henri Christophe", Negro Digest, Volume XII, Number 12, October, 1963.
  9. Girard, Philippe R. (2011). The Slaves who Defeated Napoléon illustrated ed. Alabama: University of Alabama Press. p. 215. ISBN 978-0-8173-1732-4 
  10. J. Saint-Remy, Essai sur Henri-Christophe General haitien, Hascette BNF, 2018, p. 15.
  11. Griggs, E.L.; Prator, C.H., eds. (1968). Henry Christophe and Thomas Clarkson: A Correspondence. [S.l.: s.n.] 
  12. Araujo, Ana Lucia (2017). Reparations for Slavery and the Slave Trade: A Transnational and Comparative History. London & New York: Bloomsbury Academic. ISBN 978-1350010604 
  13. Procès verbal d'interrogatoires de Agoustine Franco, dit Medina, espion français. Royaume d'Hayti. Commission militaire spéciale. Cap-Henri, Haiti: chez P. Roux, imprimeur du Roi. 1814 
  14. a b McIntosh & Pierrot, Tabitha & Grégory (julho de 2016). «Capturing the likeness of Henry I of Haiti (1805–1822)». Atlantic Studies. 14, 2017 (2). pp. 127–151. doi:10.1080/14788810.2016.1203214 
  15. Vastey, Pompée Valentin (1814). Le Système colonial dévoilé. Cap-Henri, Haiti: P Roux 
  16. Henri Christophe, King of Haiti, 1767–1820. Code Henry, Roux, P. (Pierre), printer, Au Cap-Henry [Cap-Haïtien, Haiti], 1812, ISBN 0548822247
  17. Smucker, Glenn R. "Social Structure", A Country Study: Haiti (Chapter 6 – Haiti: Historical Setting (Anne Greene, editor), Library of Congress, December 1989
  18. "The Black Hitler", Pittsburgh Post-Gazette, 26 August 1942
  19. Pontiero, Giovanni (1970), ""The Human Comedy" in El Reino de Este Mundo", Journal of Interamerican Studies and World Affairs, 12 (4): 528–538, doi:10.2307/174826, JSTOR 174826
  20. Williams, Lorna V (1977), "The Image of King Christophe", CLA Journal, 20: 333–340
  21. College Notre Dame Du Perpetuel Secours, Cap-Haitian Updated July 1, 2013 4:07 PM
  22. «Blézine Alexis née Georges» 
  23. «Ernest Bennett» 
  24. «Georgie Bennett» 
  25. Marlene Daut (30 de junho de 2020). «Quando a França extorquiu o Haiti – o maior assalto da história». The Haitian Times. Consultado em 18 de outubro de 2025 

Ligações externas

Precedido por
Jaime I (Imperador do Haiti)

Chefe de Governo provisório e Presidente (após 1807) do Estado do Haiti

1806 - 1811
Sucedido por
Ele mesmo (como Rei do Haiti)
Precedido por
Título criado

Rei do Haiti

1811 - 1820
Sucedido por
Henrique II do Haiti