Francisca Ametista do Haiti

Francisca Ametista
Princesa Real do Haiti
A Princesa Real em detalhe do retrato dos filhos do rei Henrique I do Haiti, por pintor desconhecido, c. 1811
Dados pessoais
Nascimento9 de maio de 1798
Cap-Français, São Domingos
Morte15 de outubro de 1831 (33 anos)
Pisa, Grão-Ducado da Toscana
Nome completo
nome pessoal em francês: Françoise-Améthyste Christophe
PaiHenrique I do Haiti
MãeMaria Luísa Coidavid

Francisca Ametista Cristóvão (em francês: Françoise-Améthyste Christophe; Cap-Français, 9 de maio de 1798Pisa, 15 de outubro de 1831) foi uma Princesa Real do Haiti, filha do rei Henrique I e de sua consorte, Maria Luísa Coidavid.

Biografia

Francisca Ametista Cristóvão (em francês: Françoise-Améthyste-Christophe) nasceu no dia 9 de maio de 1798 em Cap-Français, São Domingos, durante um período de turbulência política e militar. Seu pai, Henrique Cristovão, atuava como general e líder na luta pela independência do Haiti, enquanto sua mãe, Maria Luísa, administrava sua propriedade em Saint-Michel.[1]

Em 1811, seu pai foi oficialmente elevado ao título de rei do Haiti, com o estabelecimento do Reino do Haiti. No dia 2 de junho daquele ano, Henrique, sua esposa Maria Luísa, e seu filho Jaime Vítor Henrique, de sete anos, participaram de sua magnífica cerimônia de coroação, conduzidos em uma carruagem puxada por oito cavalos. Suas filhas adolescentes, as futuras princesas Ametista e Ana Atenas, seguiram em uma carruagem separada, puxada por seis cavalos. A coroação ocorreu durante uma missa dominical longa e opulenta, presidida pelo Padre Cornélie Brelle, da Bretanha, que anteriormente havia servido como Prefeito Apostólico do Estado do Haiti sob o governo do outrora presidente Henrique Cristovão.[2]

Retrato dos filhos do rei Henrique: o príncipe real Jaime Vítor Henrique e as princesas Francisca Ametista e Ana Atenas, por pintor deconhecido, c. 1811.

Com a elevação do seu pai ao estatuto de rei, Ametista foi intitulada "Princesa Real" e, como primogênita, era a conhecida na corte omo Madame Première.[2] A Condessa d'Ouanaminthe foi designada governanta de Ametista e foi responsável por sua educação formal.[3]

Em 1812, a situação política e militar do Haiti permanecia instável. O Princess Royal (ou Royal Améthyste), um dos navios mais valiosos do rei (nomeado em homenagem à Ametista) foi enviado juntamente com outros dois para patrulhar as águas do sul do país. Essa ação reacendeu as tensões entre a monarquia do norte e a república do sul. O navio foi capturado e entregue à República, supostamente em um ato de conspiração e traição envolvendo um homem chamado Paparelli, que o rei mais tarde mandou executar. A fragata inglesa Southampton, após consulta com o presidente Pétion, atacou a embarcação em Miragoâne, mas esta foi posteriormente tomada pelas forças de Henrique I e levada para Porto Príncipe. Esses acontecimentos alimentaram rumores sobre uma expedição do norte contra o sul e provocaram agitação generalizada, com o tratamento severo dispensado às tripulações dos navios aprofundando ainda mais a desconfiança e o conflito.[4]

Circulavam rumores na Europa de que Francisca Ametista, ou sua irmã Ana Atenas, poderia se casar com o príncipe Pedro de Bragança. O jornal monarquista Le Drapeau Blanc, de Paris, teria omitido uma notícia sobre ele casar-se com uma princesa filha do negro Cristóvão do Haiti:

D. Pedro estava vingado de todas as recusas e de todos os insultos. Le Drapeau Blanc, de Paris, não noticiara que ele iria casar-se com uma princesa filha do negro Cristóvão do Haiti, para não desdizer da cor das damas da corte do Brasil? A despeito da fama nada favorável que ganhara na Europa, poderia ufanar-se de ter feito um bom casamento, preenchidas inteiramente pelo menos três das quatro condições impostas para a obtenção de uma noiva na Europa e não no Haiti.[5]

No entanto, sugere-se que a suposta união com uma princesa do Haiti nunca foi discutida seriamente e funcionava apenas como uma forma de ridicularizar tanto o Haiti, o primeiro país ocidental moderno a ter um chefe de Estado negro, quanto o Brasil, por sua composição étnica miscigenada e por ter recebido a família real portuguesa em seu território após a transferência da corte para o Rio de Janeiro, em retirada das tropas de Napoleão.[5]

Em 1820, após anos em que o rei Henrique se tornara um monarca autocrático e impopular, e cujo reino vivia em constante beligerância com o sul, ele preferiu tirar a própria vida com uma bala de prata a enfrentar a possibilidade de um golpe. Segundo relatos, ajoelhados silenciosamente ao seu lado, chorando, estavam seus filhos adolescentes, as princesas Ametista e Atenas e o príncipe Jaime Vítor Henrique. Diante do corpo sem vida do rei, a rainha orava, tomada pela dor e pelo luto.[6] Seu irmão de Ametista, o príncipe real, então com dezesseis anos, não teve oportunidade de suceder ao pai, sendo preso e executado a estocadas de baioneta por revolucionários no Palácio de Sans-Souci.[7]

Em agosto de 1821, Ametista deixou o Haiti acompanhada de sua mãe e irmã, sob a proteção da Marinha Real Britânica, com destino a Londres. No entanto, o clima inglês e a poluição decorrente da Revolução Industrial prejudicaram a saúde de Ametista, o que levou a família a buscar outro local para se estabelecer.[8] Em 1824, a família mudou-se para Pisa, no Grão-Ducado da Toscana (atualmente parte da Itália), onde Ametista faleceu pouco tempo após a chegada, em 15 de outubro de 1831, em decorrência de complicações associadas a um coração aumentado.[9]

Referências

  1. Daut, Marlene. L (2025). «Tracing Genealogy To The Future King». The First and Last King of Haiti: The Rise and Fall of Henry Christophe (ebook) (em inglês). New York: Knopf. p. 127 
  2. a b Daut, Marlene. L (2025). «A King Is Crowned». The First and Last King of Haiti: The Rise and Fall of Henry Christophe (ebook) (em inglês). New York: Knopf. p. 494 
  3. Daut, Marlene. L (2025). «The Age Of Christophean Crosperity». The First and Last King of Haiti: The Rise and Fall of Henry Christophe (ebook) (em inglês). New York: Knopf. p. 596 
  4. Daut, Marlene. L (2025). «Cracks In Kingly Authority». The First and Last King of Haiti: The Rise and Fall of Henry Christophe (ebook) (em inglês). New York: Knopf. pp. 603–604 
  5. a b Sousa, Otávio Tarquínio de (2024). A vida de D. Pedro I (PDF). Col: História dos fundadores do império do Brasil. 2. Brasília: Senado Federal do Brasil. p. 954. ISBN 978-65-5676-466-5 
  6. Daut, Marlene. L (2025). «A King Is Gone, But Not Forgotten». The First and Last King of Haiti: The Rise and Fall of Henry Christophe (ebook) (em inglês). New York: Knopf. p. 624 
  7. «Malgré ses efforts à promouvoir l'éducation...». Haiti - Rene Preval Presidency (em inglês). Consultado em 23 de maio de 2021 
  8. LeGrace, Benson (1 de outubro de 2014). «A Queen in Diaspora: The Sorrowful Exile of Queen Marie-Louise Christophe (1778, Ouanaminth, Haiti-March 11, 1851, Pisa, Italy)». Journal of Haitian Studies (em inglês). 20 (2). pp. 90–101. ISSN 1090-3488. JSTOR 24340368 
  9. Daut, Marlene. L (2025). «King Of The Next World». The First and Last King of Haiti: The Rise and Fall of Henry Christophe (ebook) (em inglês). New York: Knopf. p. 657