Coque (cidade)
Coque
Koχe | |
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| Localização atual | |
![]() Coque |
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| Coordenadas | 🌍 |
| País | Iraque |
| Província | Bagdá |
Coque (em latim: Coche; em persa médio: Koχe) foi uma cidade do Império Sassânida, fundada em frente à capital de Ctesifonte, na margem ocidental do Tigre.
Nome
Coque (Coche; Koχe), também registrado em sabaico como Cuque (Kuk) pode ter derivado do aramaico kōkā, "cabana de junco".[1]
História
O sítio onde Coque foi fundada era ocupado desde o tempo do Império Arsácida. Ficava em frente à capital de Ctesifonte, na margem ocidental do Tigre, a leste da cidade morta de Selêucia do Tigre e além do antigo curso do Tigre.[1] Foi mencionada por Arriano durante a campanha do imperador Trajano (r. 98–117) contra os partas.[2] Sob o xainxá Artaxer I (r. 224–242), fundador do Império Sassânida, foi ampliada, fortificada e refundada como Ve-Ardaxir (Weh-Ardašir, lit. "cidade boa/nobre de Ardaxir") nos anos 230 e foi referida no talmúdico como Be-Ardaxir e no árabe como Berassir (Behrasir).[1] Nas fontes clássicas, a cidade nunca é mencionada por seu nome oficial persa. Ela é sempre chamada de Coque ou confundida com a antiga Selêucia, situada mais a oeste e então em ruínas. Nas fontes judaicas, é conhecida pelo nome de Maoza (Maḥoza), que vem do acadiano maḫāzu e significa "a cidade".[3]
É possível que Coque seja a cidade capturada por Caro (r. 283–285) em 283, como registrado por Eutrópio e Festo. Gregório de Nazianzo, em seu psogos contra Juliano, refere-se à "fortaleza" em Coque, situada em frente à "fortaleza de Ctesifonte", que "torna Ctesifonte ainda mais forte" (Oração, 5.10).[1] Matthew P. Canepa e Marguerite Rassart-Debergh sugeriram que seja o local onde estava localizada o Castelo do Esquecimento, onde figuras políticas relevantes foram aprisionadas, enquanto outros preferem uma localização mais a leste, no Cuzestão.[4] A igreja de Coque era a sede do metropolita de Selêucia-Ctesifonte, cuja catedral possivelmente era a mesma igreja descoberta em Casre Binte Alcadi. Um importante seminário foi fundado na cidade no século V. As fontes siríacas orientais sassânidas — particularmente quando se referem aos concílios da Igreja do Oriente ali realizados — frequentemente chamam Coque de Seloque (de Selêucia), o nome da primeira (mas então já extinta) cidade da conurbação de Selêucia-Ctesifonte.[1]
A cidade abrigava uma importante comunidade judaica, bem conhecida pelas fontes rabínicas, cuja presença é atestada arqueologicamente pelos bacias de encantamento descobertas no local. Ela foi sede de uma importante academia talmúdica, a mais recente das academias judaicas da Babilônia. Ela ganhou importância após a destruição de Neardeia e de sua academia judaica em 261 pelos romanos, com os mestres da primeira deslocando-se para Maoza. Ao longo do século IV, ela foi dirigida pelo doutor do Talmude Rabá, cujo pai, José bar Hama, vivia em Maoza. Ela atraiu membros da Academia de Pumbedita, que ali se instalaram após a morte de Abaié (338). No final do século V, o exilarca Mar Zutra II liderou uma revolta a partir de Maoza. Essa revolta ocorreu durante um período de distúrbios no início do reinado de Cavades I. Segundo a crônica judaica do Seder Olam Zutta, Mar Zutra dirigiu um Estado independente durante sete anos, de 495 a 502, antes de ser derrotado e executado.[5]
Igreja do Oriente
De acordo com a tradição relatada nos Atos de Mar Mari, uma obra do século VII escrita entre 600 e 650, a Igreja de Coque foi fundada por Mari de Edessa, discípulo do apóstolo Tadeu de Edessa. Diz-se que Mari e seus discípulos chegaram à região de Almadaim (nome árabe que engloba a zona metropolitana da capital do Império Sassânida), onde a população alertou certo xainxá de nome Artabano de sua presença. Artabano exigiu que os viajantes comprovassem suas intenções missionárias, e Mari teria curado a filha do rei da lepra e realizou outros milagres. O xainxá lhe concedeu um terreno a oeste da capital Ctesifonte e seu palácio para que pudesse construir uma igreja. O edifício original foi fundado sobre um pequeno templo já existente.[6] A data exata da fundação é desconhecida, mas evidências arqueológicas sugerem que ocorreu na segunda metade do século I. A igreja foi reconstruída em 341 e ampliada várias vezes, como em 363[7] e durante os anos 540, sob supervisão do católico Aba I (r. 540–552).[6]
Ao longo das décadas seguintes, a igreja de Coque cresceu em importância para a Igreja do Oriente. De lá, muitos missionários partiram para difundir a religião por todo o Império Sassânida, bem como na Ásia Central e na China. Durante séculos, serviu como residência dos católicos da Igreja do Oriente. Mesmo quando sua residência oficial foi transferida para Baguedade em 780, Coque permaneceu o local onde os patriarcas eram consagrados. Pelo menos 24 de seus túmulos ainda podem ser encontrados lá, tornando-o um sítio significativo tanto para fins espirituais quanto culturais. No entanto, as visitas públicas foram proibidas por cerca de vinte anos devido às atividades do Estado Islâmico na região.[6]
Escavações
Coque continuou a ser ocupada até os séculos V ou VI. Parte da cidade foi então inundada pelo Tigre, cujo curso se deslocou para oeste. Apenas a colina de Tel Baruda continuou a ser ocupada. O sítio foi escavado por equipes alemãs entre 1928 e 1931 e, depois, por equipes italianas da Universidade de Milão em 1966 e 1976.[8] A cidade ocupava uma superfície de 700 hectares. Seu traçado é mais ou menos circular; esse tipo de plano é análogo ao de outras fundações sassânidas, como a cidade de Ardaxir-Cuarra ("Glória divina de Ardaxir"), nas proximidades de Firuzabade, no Irã. Ela incluía a antiga cidadela chamada em aramaico Acra de Coque e Garondagã em persa médio. A cidadela corresponde talvez a Tel Baruda, no centro do sítio.[9] A cidade possuía outros edifícios públicos, entre os quais um templo do fogo zoroastrista e uma academia rabínica.[8] A cidade era fortificada por uma muralha de tijolos que media cerca de 10 metros de espessura na base. A muralha era equipada com torres defensivas a cada 30–35 metros. A cidade parece ter sido dividida em diferentes bairros mais ou menos retangulares. Uma grande via de sete metros de largura separa dois dos setores que foram escavados. Diferentes atividades econômicas se misturavam dentro de um mesmo bairro. Foram encontrados ateliês de vidro e de metal no mesmo setor.[9]
Referências
- ↑ a b c d e Canepa & Rassart-Debergh 2018, p. 867.
- ↑ Oppenheimer, Isaac & Lecker 1983, p. 226–227.
- ↑ Oppenheimer, Isaac & Lecker 1983, p. 186.
- ↑ Daryaee 2009.
- ↑ Oppenheimer, Isaac & Lecker 1983, p. 191.
- ↑ a b c Traverso 2018.
- ↑ Gré-Beauvais 1997, p. 630.
- ↑ a b Simpson 1997, p. 78-79.
- ↑ a b Simpson 2017.
Bibliografia
- Canepa, Matthew P.; Rassart-Debergh, Marguerite (2018). «Koχe». In: Nicholson, Oliver. The Oxford Dictionary of Late Antiquity. Oxônia: Imprensa da Universidade de Oxônia. ISBN 978-0-19-866277-8
- Daryaee, Touraj (2009). «Šāpur II». In: Yarshater, Ehsan. Enciclopédia Irânica. Nova Iorque: Imprensa da Universidade de Colúmbia
- Gré-Beauvais, Laurence (junho de 1997). «Sur les traces de la Syrie Chrétienne». Paris. Œuvre d'Orient (706)
- Oppenheimer, Aharon; Isaac, Benjamin H.; Lecker, Michael (1983). Babylonia Judaica in the Talmudic Period. Nova Iorque: L. Reichert
- Simpson, St John (1997). «Ctesiphon». In: Meyers, Eric M. Oxford Encyclopaedia of Archaeology in the Ancient Near East, vol. 2. Oxônia e Nova Iorque: Editora da Universidade de Oxford
- Simpson, St John (2017). «Sasanian Cities: Archaeological Perspectives on the Urban Economy and Built Environment of an Empire». In: Sauer, Eberhard W. Sasanian Persia: Between Rome and the Steppes of Eurasia. Edimburgo: Editora da Universidade de Edimburgo
- Traverso, Vittoria (5 de setembro de 2018). «Irak : chrétiens et musulmans au chevet de l'une des plus anciennes églises du monde». Aleteia. Consultado em 23 de dezembro de 2025

