Atos de Mar Mari

Os Atos de Mar Mari (em siríaco: ܦܪܲܟܣܝ̣ܣ ܕܡܳܪܝ ܡܳܐܪܝ̣) são uns atos apócrifos cristãos siríacos do Novo Testamento.[1] Eles tratam da introdução do Cristianismo no norte e no sul da Mesopotâmia por Tadeu e por seu discípulo São Mari, no século I e no início do II.[2]

História dos manuscritos

Fotografia de Jean Baptiste Abbeloos em L'Université de Louvain. Coup d'oeil sur son histoire et ses institutions, 1425–1900, Bruxelas, Bulens, 1900, p. 91

Os Atos de Mar Mari são preservados em múltiplos manuscritos. Seis manuscritos, redigidos em siríaco ou em garxuni, datam do século XIX e encontram-se guardados na biblioteca do Mosteiro do Rabã Hormisda. Esses manuscritos foram copiados em Tel Quepe ou em Alcoxe a partir de uma coletânea intitulada Histórias de Santos e Mártires. Sabe-se que um dos manuscritos foi copiado em Alcoxe, em 1881, por um homem chamado Abraão, da família Caxa (Sacerdote). Sua cópia baseou-se num manuscrito do século XIX escrito pelo mestre copista Issa Acruraia. Jean Baptiste Abbeloos comparou esse manuscrito com outro mais antigo que recebera do bispo G. Quiate de Amida. Abbeloos publicou o texto juntamente com sua tradução para o latim em seu Acta Sancta Maris (1885), acompanhado de uma lista de variantes entre os manuscritos.[3]

R. Raabe comparou um manuscrito conhecido, doravante, como CB com o de Abbeloos. Publicou sua tradução para o alemão, juntamente com as variantes, em Die Geschichte des Dominus Mari, eines Apostels des Orients (Leipzig: Hinrichs, 1893).[4] Paul Bedjan editou seu manuscrito com base em Abbeloos em Acta Martyrum et Sanctorum Syriace (1890). O manuscrito de Bedjan era menos descritivo do que os de Abbeloos e Raabe.[5] Existem ainda duas traduções para o árabe dos Atos de Mar Mari. A primeira é do bispo Addai Scher, de Seert (Turquia), em seu Kitāb sītar ašher šuhadā al-mašriq al-qiddīsīn (1900). A outra é uma tradução abreviada, com a omissão de seções do início e do fim. Foi publicada pelo Pe. Albert Abūjā em Šuhadā al-mašriq (1985).[6] Os Atos de Mar Mari foram traduzidos pela primeira vez do siríaco para o inglês por Amir Harrak em The Acts of Mār Mārī the Apostle (2005).[3]

Semelhanças textuais

Os Atos de Mar Mari derivam da Doutrina de Tadeu, mas incluem algumas inserções da Bíblia (principalmente do Livro de Daniel), de Eusébio de Cesareia e de conteúdos literários antigos da Mesopotâmia. O autor dos Atos de Mar Mari afirma ter registrado tradições transmitidas por livros, mas nunca os identifica. Segundo Amir Harrak, o autor provavelmente inseriu informações fragmentárias provenientes de fontes antigas, incorporando-as aos Atos de tal modo que essas inserções se tornaram indistinguíveis da própria redação autoral dos Atos.[7]

A introdução dos Atos começa com a correspondência entre Abgar V e Jesus e com a cura de Abgar por Tadeu, conforme a Doutrina de Tadeu. O uso posterior da Doutrina de Tadeu nos Atos prossegue com um episódio semelhante referente à cura do rei que governava Arzen; o rei de Arzen sofria exatamente da mesma doença, a gota, que Abgar, mas é curado por Mar Mari, assim como Abgar fora curado por Tadeu. O rei então dialoga com Mar Mari do mesmo modo que o rei Abgar dialogara com Tadeu na Doutrina de Tadeu. Pouco antes de sua morte, Mar Mari dirige-se a seus discípulos com as mesmas palavras exatas que Tadeu usara quando estava em seu leito de enfermidade.[8]

Um motivo semelhante, proveniente de uma tradução siríaca da História Eclesiástica de Eusébio (7:17), pode ser encontrado nos Atos de Mar Mari (cap. 1), que descrevem uma estátua de cobre de uma mulher que havia sangrado por doze anos; a estátua faz referência à mulher que sofrera hemorragia por doze anos no Evangelho de Marcos (5:25–34). A posição da estátua é descrita como estando sobre uma rocha, com os braços estendidos e os joelhos dobrados, voltada para o lado oposto da casa da mulher real mencionada em Marcos; ao lado dela, há uma estátua de cobre de Jesus, vestida com um manto e com os braços estendidos em direção à estátua da mulher.[9]

Muitos episódios nos Atos de Mar Mari foram inspirados na Bíblia. No Livro de Daniel (cap. 3), Nabucodonosor II ameaça lançar Sadraque, Mesaque e Abede-Nego numa fornalha ardente caso se recusassem a adorar uma estátua de ouro que ele erguera. Uma ameaça semelhante é feita (Mar Mari, cap. 12) àqueles que violassem uma proibição de três dias do uso do fogo durante um culto cerimonial aos deuses.[9] O motivo dos três dias também é aludido em Dario, o Medo, que institui um decreto exigindo que todos lhe prestem homenagem exclusivamente durante um período de trinta dias (Dan 6:7, 12).[10] Sadraque, Mesaque e Abede-Nego são finalmente lançados na fornalha ardente, mas, por intervenção divina em razão de sua fé em Deus, permanecem milagrosamente ilesos pelo fogo (Dan 3:19–23). Esse episódio encontra paralelo nos Atos (cap. 23), quando Mar Mari entra no fogo e não sofre dano algum.[11]

Data

A data dos Atos de Mar Mari não é universalmente aceita.[12] Jean Baptiste Abbeloos, que foi o primeiro a editar o texto, datou os Atos do século VI ou, possivelmente, do VII[12] Josef Markwart optou por uma data tardia em razão de dois topônimos mencionados, Gavar e Zavezã, que não são atestados nos períodos iniciais.[12] Harrak afirma que esses nomes não soam árabes e, embora Zavezã ocorra apenas em fontes árabes, isso não significa que o nome tenha sido cunhado no período árabe. Ele explica ainda que a maioria dos lugares geográficos mencionados nos Atos está claramente presente em fontes siríacas da era pré-islâmica.[13] Vários estudiosos dataram os Atos de meados do século VII, após a queda do Império Sassânida diante dos árabes,[12] porém Amir Harrak considera isso improvável, uma vez que os Atos nunca mencionam o fim do Império Sassânida nem eventos próximos a ele.[12] Harrak sugere que os Atos podem ter sido compostos durante os séculos V ou VI, sendo esta última data a mais provável, por se tratar de um período de prosperidade da Igreja do Oriente no sul da Mesopotâmia.[14]

Referências

  1. Grubbs, Parkin & Bell 2013, p. 132.
  2. Harrak 2005, p. xi.
  3. a b Harrak 2005, p. xii.
  4. Harrak 2005, pp. xii & xiii.
  5. Harrak 2005, p. xiii.
  6. Harrak 2005, pp. xiii & xiv.
  7. Harrak 2005, p. xix.
  8. Harrak 2005, p. xx.
  9. a b Harrak 2005, p. xxi.
  10. Harrak 2005, p. xxi & xxii.
  11. Harrak 2005, p. xxii.
  12. a b c d e Harrak 2005, p. xiv.
  13. Harrak 2005, p. xv.
  14. Harrak 2005, p. xvii.

Bibliografia

  • Grubbs, Judith Evans; Parkin, Tim; Bell, Roslynne (2013). The Oxford Handbook of Childhood and Education in the Classical World. [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 9780199781607 
  • Harrak, Amir (2005). The Acts of Mār Mārī the Apostle. [S.l.]: Society of Biblical Lit. ISBN 9781589830936