Foro Penal

Foro Penal (trad. Fórum Penal) é uma organização venezuelana de direitos humanos que presta assistência jurídica pro bono a pessoas sujeitas a detenções arbitrárias e a seus familiares. A organização é composta por coordenadores regionais para cada estado da Venezuela, advogados pro bono em nível nacional e uma rede de mais de cinco mil voluntários, ativistas não advogados, conhecidos como "defensores ativos".[1][2]

Estrutura

Foro Penal está constituída como uma associação civil composta por coordenadores regionais para cada estado da Venezuela, advogados pro bono em nível nacional e uma rede de mais de cinco mil voluntários, ativistas não advogados, conhecidos como "defensores ativos". A diretoria é formada por Alfredo Romero, diretor-presidente, e Gonzalo Himiob, diretor-vice-presidente.[3]

A organização publica relatórios documentando o número de detenções arbitrárias e de presos políticos na Venezuela, cifras que são certificadas pela Organização dos Estados Americanos.[4][5][6]

História

Alfredo Romero, diretor-presidente
Gonzalo Himiob, diretor-vice-presidente

Os advogados Alfredo Romero e Gonzalo Himiob fundaram a organização não governamental Víctimas Venezolanas de Violaciones a los Derechos Humanos (VIVE) como resposta às violações de direitos humanos ocorridas após os eventos do viaduto Llaguno em Caracas, em 11 de abril de 2002. Os advogados Carlos Bastidas Espinoza e es, entre outros, fundaram a ONG Foro Penal Venezolano,[7][8] e ambas as organizações mais tarde se fundiriam para criar o Foro Penal.[9] O Foro Penal foi a primeira organização a recorrer ao recém-criado Tribunal Penal Internacional para denunciar que crimes contra a humanidade estavam sendo cometidos na Venezuela.[10]

Em 2008, a organização solicitou ao Tribunal Supremo de Justiça a anulação da Lei de Inteligência e Contrainteligência Militar, conhecida popularmente como Lei Sapo, que estabelecia como obrigatório para qualquer pessoa cumprir tarefas de inteligência se solicitado pelas autoridades.[11][12]

Durante a es, o Foro Penal assumiu a defesa dos 47 presos políticos daquele ano e solicitou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que "verificasse a situação de abusos e ilegalidades nos casos dos detidos, processados e perseguidos por sua posição política". Alfredo Romero, porta-voz da organização, informou que a Venezuela era o único país latino-americano que se recusava a receber a CIDH, junto com Cuba.[13][14] O Foro Penal estimou que, naquela época, 2.200 pessoas haviam sido acusadas por participar de protestos, incluindo 500 estudantes.[13]

O Foro Penal estimou que, entre 4 de fevereiro e 22 de outubro de 2014, houve 3.383 detenções arbitrárias relacionadas a protestos no país.[15] A organização também denunciou e documentou casos de tortura durante os protestos, incluindo espancamentos e choques elétricos.[16][17][18] Ao final de abril daquele ano, a organização havia documentado 70 casos de abuso contra detidos; Gonzalo Himiob afirmou que os abusos eram contínuos e sistemáticos, e que o tratamento dispensado aos presos era muito semelhante em todas as partes do país.[19] Devido à documentação "meticulosa" das violações de direitos humanos cometidas durante os protestos de 2014 e por apresentá-las à comunidade internacional, o Departamento de Estado dos Estados Unidos concedeu ao Foro Penal seu prêmio anual de Defensor de Direitos Humanos.[20] Nessa data, a ONG contava com uma rede nacional de mais de 200 advogados pro bono e 1.000 ativistas de direitos humanos.[21] O Foro Penal também representou Marvinia Jiménez, que foi agredida por oficiais da Guarda Nacional Bolivariana naquele ano.[22]

A ONG solicitou medidas cautelares de proteção perante a CIDH em favor de Lorent Saleh e Gerardo Carrero, presos em La Tumba, centro de reclusão do Serviço Bolivariano de Inteligência (SEBIN), pedindo que a organização exigisse do governo venezuelano a proteção de suas vidas e integridade pessoal. A CIDH concedeu essas medidas em 2 de março de 2015.[23][24]

Detenções arbitrárias na Venezuela entre 2014 e 2019, segundo o Foro Penal. Prisões por ano em azul e total de prisões em vermelho.

Em 2017, o Foro Penal publicou um relatório conjunto com a Human Rights Watch documentando detenções arbitrárias, tortura e uso excessivo da força durante os protestos venezuelanos de 2017.[25] Entre 1.º de janeiro e 31 de outubro, a organização documentou 5.511 detenções por motivos políticos, o maior número de detidos em um único ano.[26] Um relatório elaborado pela organização em conjunto com o Centro de Direitos Humanos Robert F. Kennedy documentou que 200 casos de desaparecimentos forçados em 2018 aumentaram para 524 em 2019, atribuídos a um aumento dos protestos. A análise concluiu que o desaparecimento médio durava cinco dias, sugerindo que o governo buscava evitar o escrutínio que poderia acompanhar detenções em grande escala e de longa duração.[27][28]

Entre os presos políticos representados pelo Foro Penal estão Alejandro Peña Esclusa,[29] Lorent Saleh,[23][24] Karen Palacios[30] e Salvador Franco,[31][32] entre outros. Em 2018, o Foro Penal lançou um documentário sobre a história da organização, "Que se haga justicia. La historia del Foro Penal en Venezuela".[33]

Em 2021, tanto Alfredo Romero quanto Gonzalo Himiob foram credenciados como advogados junto ao Tribunal Penal Internacional.[34]

Ataques

Em 2008, Mónica Fernández sofreu um atentado em que foi baleada nas costas. Apesar de ter levado um tiro muito perto da coluna, ela não sofreu ferimentos graves.[35]

Alfredo Romero foi criminalizado várias vezes por funcionários do Estado e em programas de mídia, particularmente em Con El Mazo Dando, apresentado por Diosdado Cabello, recebeu ameaças de morte, foi assediado em aeroportos nacionais e denunciou a interceptação das comunicações do Foro Penal sem ordem judicial. Romero conta com uma medida cautelar de proteção emitida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos em 17 de março de 2015.[36]

Durante uma entrevista em 2017 concedida ao jornalista espanhol es no programa Salvados, Nicolás Maduro acusou o Foro Penal de ser financiado pelos Estados Unidos, assim como outras organizações, como a Transparência Internacional e a Caritas, e de ser "dirigido por delinquentes".[37][38]

Prêmios

O Foro Penal recebeu diversos prêmios, tanto na Venezuela quanto no exterior, incluindo o prêmio concedido pelo governo dos Estados Unidos em julho de 2015, a condecoração ao Foro Penal no estado de Zulia pela Associação de Advogados do Estado, em agosto de 2015, e o prêmio concedido pelo Colégio de Advogados de Barcelona, Espanha, em fevereiro de 2016. O diretor da organização, Alfredo Romero, recebeu o Prêmio Robert F. Kennedy de Direitos Humanos em 2017.[8] A organização foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 2015, 2016 e 2019.[39][40][41] Em 2023, a organização recebeu o prêmio Defender of the Year da Civil Rights Defenders.[42]

Ver também

Referências

  1. «Antecedentes | Foro Penal Venezolano». Foro Penal (em espanhol). Consultado em 9 de maio de 2017 
  2. «¿Qué es el Foro Penal?». Consultado em 28 de junho de 2019 
  3. «¿Qué es el Foro Penal?». Foro Penal. Consultado em 28 de junho de 2019 
  4. Llamas, M. (9 de agosto de 2017). «Los asesinatos, violaciones y torturas de la dictadura chavista en Venezuela». Libertad Digital (em espanhol). Consultado em 31 de outubro de 2021 
  5. «Los detenidos en Venezuela desde que empezaron las protestas superan los 5.000». Diario de Navarra. 1 de agosto de 2017. Consultado em 31 de outubro de 2021 
  6. «Daniel Ortega tiene el doble de presos políticos que Nicolás Maduro». La Prensa Panamá. 17 de novembro de 2018. Consultado em 31 de outubro de 2021 
  7. «La juez forzada a renunciar». Semana. 16 de abril de 2011. Consultado em 30 de junho de 2019. Arquivado do original em 1 de janeiro de 2016 
  8. a b Damiano, Daniela (23 de janeiro de 2018). «FORO PENAL BRINDA APOYO JURÍDICO A PERSONAS DETENIDAS ARBITRARIAMENTE». Amnesty International. Consultado em 30 de junho de 2019 
  9. «Antecedentes | Foro Penal Venezolano». Foro Penal (em espanhol). Consultado em 16 de outubro de 2021. Cópia arquivada em 3 de setembro de 2017 
  10. Foro Penal (14 de dezembro de 2018). «Que Se Haga Justicia (documental corto)». YouTube 
  11. «Hugo Chávez deroga polémica "ley sapo" en Venezuela». Emol (em espanhol). 10 de junho de 2008. Consultado em 16 de outubro de 2021 
  12. «Chávez deroga la "ley espía"». 11 de junho de 2008. Consultado em 16 de outubro de 2021 
  13. a b «Huelga de hambre en Venezuela para que permitan evaluar el respeto de los derechos humanos». La Voz de Galicia. 30 de setembro de 2009. Consultado em 16 de junho de 2021 
  14. «Estudiantes en huelga de hambre por los presos políticos en Venezuela». ABC. 25 de setembro de 2009. Consultado em 16 de junho de 2021 
  15. «Detenciones arbitrarias, torturas y otros tratos crueles, inhumanos y degradantes ( febrero/octubre 2014)». Foro Penal (em espanhol). 30 de novembro de 2014. Consultado em 28 de outubro de 2021 
  16. «Estudiantes venezolanos detenidos habrían sufrido torturas, según abogada del Foro Penal Venezolano». NTN24. 16 de fevereiro de 2014. Consultado em 13 de abril de 2014. Cópia arquivada em 14 de abril de 2014 
  17. «Foro Penal denuncia torturas con descargas eléctricas a mujeres en los senos». Carota Digital. 12 de abril de 2014. Consultado em 13 de abril de 2014. Cópia arquivada em 13 de abril de 2014 
  18. «En video: Foro Penal denuncia en CNN torturas con descargas eléctricas en Táchira». YoYo Press. 13 de abril de 2014. Consultado em 13 de abril de 2014. Cópia arquivada em 14 de abril de 2014 
  19. Neuman, William (27 de abril de 2014). «In Venezuela, Protesters Point to Their Scars». The New York Times. Consultado em 28 de abril de 2014 
  20. «EEUU premia a Foro Penal por "mostrar violaciones" de derechos en Venezuela». Foro Penal (em espanhol). 16 de julho de 2015. Consultado em 31 de outubro de 2021 
  21. «Winners of the 2014 Human Rights Awards». United States Department of State. Consultado em 31 de outubro de 2021 
  22. «Marvinia Jiménez: "Después de tres años la represión volvió a mi vida"» (em espanhol). 30 de maio de 2017. Consultado em 1 de junho de 2018 
  23. a b «CIDH dictó medidas cautelares de protección a favor de estudiantes Saleh y Carrero». El Nacional. 3 de março de 2015. Consultado em 3 de janeiro de 2018 
  24. a b «CIDH concede medidas cautelares a Lorent Saleh y Gerardo Carrero». El Impulso. 3 de março de 2015. Consultado em 3 de janeiro de 2018 
  25. Human Rights Watch; Foro Penal (2017). «5» (PDF). Crackdown on Dissent. Brutality, Torture, and Political Persecution in Venezuela (em inglês). [S.l.]: Human Rights Watch. p. 61. ISBN 978-1-62313-549-2 
  26. «Foro Penal: 2017 año récord de represión en Venezuela». Foro Penal (em espanhol). 11 de janeiro de 2018. Consultado em 28 de outubro de 2021 
  27. Turkewitz, Julie; Kurmanaev, Anatoly (19 de junho de 2020). «A Knock, Then Gone: Venezuela Secretly Detains Hundreds to Silence Critics». The New York Times (em inglês). ISSN 0362-4331. Consultado em 20 de junho de 2020 
  28. Foro Penal (23 de janeiro de 2020). Reporte Sobre La Represión En Venezuela. Año 2019 (Relatório) (em espanhol). p. 13. Consultado em 1 de fevereiro de 2020 
  29. «Dictan medida privativa de libertad a Peña Esclusa». La Verdad. 16 de julho de 2011. Consultado em 31 de outubro de 2021. Cópia arquivada em 16 de julho de 2011 
  30. Noriega, Nadeska (13 de julho de 2019). «Clarinetista cumple 43 días detenida en la Dgcim por su postura política». El Pitazo. Consultado em 14 de julho de 2019 
  31. «El preso político indígena Salvador Franco murió por falta de atención médica en una cárcel del régimen de Maduro». infobae. 3 de janeiro de 2021. Consultado em 31 de outubro de 2021 
  32. «Foro Penal: Falleció en El Rodeo II el preso político pemón Salvador Franco». El Nacional. 3 de janeiro de 2021. Consultado em 31 de outubro de 2021 
  33. D'Ambrosio, Linda. «Venezuelan Press » La historia del Foro Penal en Madrid». Venezuelan Press (em espanhol). Consultado em 31 de outubro de 2021 
  34. «Registry». Corte Penal Internacional. Consultado em 30 de outubro de 2021. Arquivado do original em 12 de agosto de 2016 
  35. «Monica Fernández abogada del Foro Penal Venezolano sufre atentado.». Foro Penal. 5 de janeiro de 2008. Consultado em 30 de junho de 2019 
  36. «ALFREDO ROMERO». Defiendo DDHH. 26 de maio de 2016. Consultado em 30 de junho de 2019 
  37. Lozano, Daniel (13 de novembro de 2017). «Salvados: la entrevista más perseguida de Jordi Évole no atrapó a Nicolás Maduro». El Mundo. Consultado em 30 de junho de 2019 
  38. «Maduro responde a las acusaciones de tener presos políticos: "En Venezuela hay políticos que han cometido delitos"». La Sexta. Consultado em 30 de junho de 2019 
  39. «Foro Penal Venezolano, nominado al Premio Nobel de la Paz». La Patilla. 22 de fevereiro de 2015. Consultado em 5 de abril de 2018 
  40. «Foro Penal Venezolano nominado al Premio Nobel de la Paz - El Carabobeño». El Carabobeño (em espanhol). 4 de outubro de 2016. Consultado em 5 de abril de 2018 
  41. «Foro Penal fue nominado al Premio Nobel de la Paz». VPItv (em espanhol). 24 de setembro de 2019. Consultado em 4 de outubro de 2023 
  42. «Foro Penal gana prestigioso premio sueco Civil Rights Defenders por su labor en DDHH». El Estímulo (em espanhol). 26 de abril de 2023. Consultado em 4 de outubro de 2023 

Ligações externas