Dorothy Hodgkin

Dorothy Crowfoot Hodgkin
Conhecido(a) porDeterminação da estrutura da insulina, cristalografia de raios X
Nascimento
Morte
29 de junho de 1994 (84 anos)

Nacionalidadebritânica
CônjugeThomas Lionel Hodgkin
Alma materColégio Somerville, Universidade de Oxford Universidade de Cambridge
PrêmiosMedalha Real (1956), Tercentenary Lectures (1960), Nobel de Química (1964), Medalha Banting (1972), Medalha Copley (1976), Medalha de Ouro Lomonossov (1982)
Carreira científica
Orientador(es)(as)John Desmond Bernal
Orientado(a)(s)Tom Blundell,[1] Judith Howard
InstituiçõesUniversidade de Oxford
Campo(s)bioquímica

Dorothy Mary Crowfoot Hodgkin (Cairo, Egito, 12 de maio de 1910 — Ilmington, Inglaterra, 29 de julho de 1994), conhecida profissionalmente como Dorothy Hodgkin, foi uma química britânica que desenvolveu a aplicabilidade da cristalografia de raios X, pela qual ela ganhou o Prêmio Nobel de Química, em 1964.[2][3][4][5][6][7]

Dorothy Hodgkin

Dorothy desenvolveu a técnica cristalografia de raios X, método utilizado para determinar estruturas tridimensionais de diferentes tipos de moléculas. Entre suas mais importantes realizações está a estrutura da penicilina, que Ernst Boris Chain e Edward Abraham tinham presumido anteriormente e a estrutura da vitamina B12, pela qual ela se tornou a terceira mulher a ganhar o Nobel em Química.

Embora já seja amplamente lembrada pela determinação das estruturas da penicilina, da vitamina B12 e da insulina, Hodgkin também investigou outras moléculas de importância biológica e médica. Em seu laboratório, aplicou a cristalografia de raios-X a substâncias como ferridoxinas, pepsina e colesteróis, abrindo caminho para pesquisas posteriores em bioquímica estrutural[8]

Foi uma das primeiras cientistas a insistir que a técnica deveria ser aplicada sistematicamente não apenas a compostos inorgânicos simples, mas também a macromoléculas de interesse biomédico, algo considerado ousado na década de 1930.[9]

Sua colaboração com laboratórios internacionais, sobretudo na Índia e na União Soviética, ampliou o alcance da cristalografia para além do eixo Europa–Estados Unidos, em um período em que a Guerra Fria dificultava intercâmbios científicos.[10] Hodgkin acreditava que a ciência deveria ser construída de forma coletiva e internacionalista, e frequentemente recebia jovens cientistas estrangeiros em Oxford, fornecendo orientação prática e acesso a instrumentos que não existiam em seus países de origem.[11]

Em 1969, após 35 anos de trabalho, cinco anos após ganhar o Nobel, Dorothy resolveu a estrutura da insulina. A cristalografia por raios-X se tornou uma ferramenta largamente utilizada e foi de grande importância para determinar as estruturas de muitas outras moléculas, inclusive biomoléculas. Conhecer a estrutura é importante para entendermos melhor a sua atividade. Ela é lembrada como uma das pioneiras no ramo. Em 20 de março de 1947 membro da Royal Society.[12]

Dorothy dedicou a adolescência ao estudo de química e a aulas particulares para a aprovação no exame de admissão da Somerville College, Universidade de Oxford. E conseguiu. Aos 18 anos (1928) ela ingressou numa unidade de Oxford só para mulheres. Em 1937 concluiu o doutoramento na Universidade de Cambridge onde começou a estudar a estrutura das proteínas e determinou a estrutura da vitamina B12 que lhe valeu o Nobel de Química de 1964. Também em 1937 ela se casou com o historiador Thomas Lionel Hodgkin.

Dorothy aperfeiçoou a cristalografia de raios X,[13][14][15][16] um método usado para determinar a estrutura tridimensional de biomoléculas.

Modelo da estrutura molecular da penicilina feito por Dorothy Hodgkin

Estudou por 35 anos a estrutura da insulina, pois a mesma tinha moléculas grandes e extremamente complexas. Em 1969 a estrutura foi resolvida. Então Dorothy passou a viajar pelo mundo dando palestras sobre a insulina e a sua importância na diabetes.

Contribuições sociais e políticas

Além de suas realizações científicas, Hodgkin destacou-se pelo engajamento político e humanitário. Pacifista convicta, participou ativamente do Conselho Mundial da Paz e da Pugwash Conferences on Science and World Affairs, organizações voltadas à cooperação internacional e ao desarmamento nuclear.[17][18] Ela defendia que a ciência deveria ser utilizada em benefício da humanidade e lutou para que descobertas biomédicas fossem acessíveis a países em desenvolvimento, incluindo a insulina.[19]

Um dos aspectos menos conhecidos da carreira de Hodgkin foi seu empenho em democratizar o acesso à insulina. Após décadas de trabalho na determinação de sua estrutura, ela acompanhou de perto os impactos sociais do hormônio no tratamento da diabetes. Convencida de que a insulina deveria estar disponível a pacientes em todos os contextos, pressionou autoridades médicas e farmacêuticas para que reduzissem o preço do medicamento e compartilhassem tecnologias de produção com países de baixa renda.[20] Nos anos 1970 e 1980, quando surgiram os primeiros debates sobre a insulina sintética produzida por engenharia genética, Hodgkin defendeu que esses avanços não se restringissem ao mundo desenvolvido. Em conferências da Organização Mundial da Saúde e em fóruns ligados ao Conselho Mundial da Paz, ela ressaltava a importância de programas de transferência tecnológica que permitissem a produção local do hormônio em países africanos e asiáticos.[21]

Hodgkin também estabeleceu contato direto com médicos e cientistas da Índia, de onde recebeu pedidos para colaborar na melhoria da disponibilidade de insulina no sistema público de saúde. Sua defesa do acesso equitativo ao medicamento foi coerente com sua visão política mais ampla: a convicção de que a ciência só cumpria sua função social se atendesse às necessidades das populações mais vulneráveis.[22][23]

Devido a um grau avançado de artrite reumatóide que deformou as suas mãos e pés, ela fez uso de uma cadeira de rodas por muitos anos.

Ordem ao Mérito

Faleceu em 29 de julho de 1994, com 84 anos, devido a um AVC.

Legado

Hodgkin foi mentora de inúmeras cientistas e um exemplo de perseverança em um ambiente predominantemente masculino. Em Oxford, orientou jovens pesquisadoras que, mais tarde, desempenharam papéis centrais na cristalografia e na bioquímica.[24]

Em 1976, foi eleita Chanceler da Universidade de Bristol, cargo no qual defendeu a educação científica como instrumento de transformação social.[25]Ao longo de sua vida, recebeu diversos títulos honoríficos e distinções. Foi membro da Royal Society, tornou-se a segunda mulher a ingressar na Ordem de Mérito (após Florence Nightingale) e recebeu doutorados honoris causa em universidades de diferentes continentes.[26]Seu legado científico e político continua a inspirar gerações, especialmente no movimento pela equidade de gênero na ciência.[27]

Referências

  1. Blundell, T.; Cutfield, J.; Cutfield, S.; Dodson, E.; Dodson, G.; Hodgkin, D.; Mercola, D.; Vijayan, M. (1971). "Atomic positions in rhombohedral 2-zinc insulin crystals". Nature 231 (5304): 506–511.
  2. Dodson, Guy (2002). «Dorothy Mary Crowfoot Hodgkin, O.M. 12 May 1910 - 29 July 1994». London: Royal Society. Biographical Memoirs of Fellows of the Royal Society. 48 (0): 179–219. ISSN 0080-4606. doi:10.1098/rsbm.2002.0011 
  3. Glusker, J. P. (1994). «Dorothy crowfoot hodgkin (1910-1994)». Protein Science. 3 (12): 2465–2469. PMC 2142778Acessível livremente. PMID 7757003. doi:10.1002/pro.5560031233 
  4. Glusker, J. P.; Adams, M. J. (1995). «Dorothy Crowfoot Hodgkin». Physics Today. 48 (5). 80 páginas. Bibcode:1995PhT....48e..80G. doi:10.1063/1.2808036 
  5. Johnson, L. N.; Phillips, D. (1994). «Professor Dorothy Hodgkin, OM, FRS». Nature Structural Biology. 1 (9): 573–576. PMID 7634095. doi:10.1038/nsb0994-573 
  6. Perutz, Max (1994). «Obituary: Dorothy Hodgkin (1910-94)». Nature. 371 (6492): 20–20. Bibcode:1994Natur.371...20P. PMID 7980814. doi:10.1038/371020a0 
  7. Perutz, M. (2009). «Professor Dorothy Hodgkin». Quarterly Reviews of Biophysics. 27 (4): 333–337. PMID 7784539. doi:10.1017/S0033583500003085 
  8. Wolfers, Michael (abril de 1999). «Book reviews : Dorothy Hodgkin: a life By Georgina Ferry (London, Granta Books, 1998). 423pp. £20.00». Race & Class (4): 94–96. ISSN 0306-3968. doi:10.1177/030639689904000412. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  9. CROWFOOT HODGKIN, DOROTHY (1963). «X-RAY CRYSTALLOGRAPHY IN HORMONE RESEARCH». Elsevier: 7–22. ISBN 978-1-4832-2867-9. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  10. WHITAKER, ANDREW (1 de janeiro de 2007). «ANDREW BROWN, J. D. Bernal. The sage of science. Oxford: Oxford University Press, 2005. XIV+562 pp., ISBN 0-19-851544-8.». Nuncius (2): 399–400. ISSN 0394-7394. doi:10.1163/221058707x00891. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  11. Pan, Dorothy; Portlock, Carol S. (2001). «Non-Hodgkin's Lymphoma». London: Current Medicine Group: 310–322. ISBN 978-1-57340-176-0. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  12. "Fellows of the Royal Society", Royal Society. "Fellowship of the Royal Society
  13. Johnson, Louise N.; David (1 de setembro de 1994). «Professor Dorothy Hodgkin, OM, FRS». Nature Structural & Molecular Biology (em inglês). 1 (9): 573-576. doi:10.1038/nsb0994-573 
  14. Glusker, Jenny P.; Margaret J. (11 de janeiro de 2008). «Dorothy Crowfoot Hodgkin». Physics Today (em inglês). 48 (5): 80-81. ISSN 0031-9228. doi:10.1063/1.2808036 
  15. Perutz, Max. «OBITUARY: Dorothy Hodgkin (1910-94)». Nature. 371 (6492): 20-20. doi:10.1038/371020a0 
  16. Perutz, Max (1 de dezembro de 1994). «Professor Dorothy Hodgkin». Quarterly Reviews of Biophysics. 27 (04): 333–337. ISSN 1469-8994. doi:10.1017/S0033583500003085 
  17. «Pugwash Conferences on Science and World Affairs». International Year Book and Statesmen's Who's Who. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  18. Rotblat, Joseph (janeiro de 1985). «The Pugwash conferences on science and world affairs». Medicine and War (1): 51–54. ISSN 0748-8009. doi:10.1080/07488008508408608. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  19. Matta, Christina (dezembro de 2001). «Dorothy Hodgkin: A Life. Georgina Ferry». The Quarterly Review of Biology (4): 476–477. ISSN 0033-5770. doi:10.1086/420552. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  20. «Hold the press: the inside story on newspapers». Choice Reviews Online (04): 34–1981-34-1981. 1 de dezembro de 1996. ISSN 0009-4978. doi:10.5860/choice.34-1981. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  21. «Organization of mental health services in developing countries: Sixteenth Report of the WHO Expert Committee on Mental Health.». PsycEXTRA Dataset. 1975. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  22. Ferry, Georgina (agosto de 2018). «Women making medical history: introducing A Woman's Place». The Lancet (10145). 370 páginas. ISSN 0140-6736. doi:10.1016/s0140-6736(18)31646-5. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  23. «Bristol University Degree Conferment : A Speech at the Close of Conferment 26 November 1954». Cassell & Company Ltd. ISBN 978-1-4725-8187-7. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  24. Shackelford, Jole (janeiro de 2000). «Women in Chemistry: Their Changing Roles from Alchemical Times to the Mid-Twentieth Century (review)». Technology and Culture (1): 134–136. ISSN 1097-3729. doi:10.1353/tech.2000.0035. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  25. «Hodgkin, Prof. Dorothy Mary Crowfoot, (12 May 1910–29 July 1994), Emeritus Professor, University of Oxford; Hon. Fellow: Somerville College, Oxford; Linacre College, Oxford; Girton College, Cambridge; Newnham College, Cambridge; Fellow, Wolfson College, Oxford, 1977–82; Chancellor, Bristol University, 1970–88». Oxford University Press. Who Was Who. 1 de dezembro de 2007. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  26. Smith, Katie J; Gwyer Findlay, Emily (1 de janeiro de 2022). «Expression of antimicrobial host defence peptides in the central nervous system during health and disease». Discovery Immunology (1). ISSN 2754-2483. doi:10.1093/discim/kyac003. Consultado em 19 de setembro de 2025 
  27. Lee, Jane (1 de outubro de 2018). «Anglican Women and Social Service in Hong Kong». Hong Kong University Press: 239–252. ISBN 978-988-8455-92-8. Consultado em 19 de setembro de 2025 

Ligações externas

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