Construção (canção)
| "Construção" | ||||
|---|---|---|---|---|
![]() Capa do compacto português. | ||||
| Canção de Chico Buarque do álbum Construção | ||||
| Gravação | 1971 | |||
| Gênero(s) | MPB, pop barroco, música progressiva, música psicodélica | |||
| Duração | 6:24 | |||
| Gravadora(s) | Phonogram/Philips | |||
| Composição | Chico Buarque | |||
| Produção | Roberto Menescal | |||
| Faixas de Construção | ||||
| ||||
"Construção" é uma canção do cantor e compositor brasileiro Chico Buarque, lançada em 1971 para seu álbum homônimo. Junto com Pedro Pedreiro, é considerada uma das canções mais emblemáticas da vertente crítica do compositor, "podendo-se enquadrar como um testemunho doloroso das relações aviltantes entre o capital e o trabalho".[1]
A letra foi composta em versos dodecassílabos, que sempre terminam numa palavra proparoxítona. Os 17 versos da primeira parte (quatro quartetos, acrescidos de um verso-desfecho) são praticamente os mesmos dezessete que compõem a segunda parte, mudando apenas a última palavra.[2] Os arranjos são do maestro Rogério Duprat, em uma melodia repetitiva, desenvolvida inicialmente sobre dois acordes.[3] A música, entretanto, tem harmonia bem mais complexa. [4]
A canção foi feita em um dos períodos mais severos da ditadura militar no Brasil, em meio à censura e às perseguições políticas. Chico Buarque havia retornado da Itália em março de 1970, país onde vivia desde o início de 1969, ao tomar distância voluntária da repressão política brasileira. A canção já foi eleita em enquete da Folha de S. Paulo como a segunda melhor canção brasileira de todos os tempos e, por eleição na revista Rolling Stone, a "maior canção brasileira de todos os tempos" [5]. Recebeu também grande destaque durante a Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016, tocada ao fundo de um dos segmentos artísticos.[6]
Letra e música
Em um formato tipicamente épico,[7] Construção narra a história de um trabalhador da construção civil morto no exercício de sua profissão, em seu último dia de vida, desde a saída de casa para o trabalho ("Beijou sua mulher como se fosse a última") até o momento da queda mortal ("E se acabou no chão feito um pacote flácido"). O narrador observa, organiza e comunica os acontecimentos, ocorridos numa história circular, cantada em melodia reiterativa e que modifica o ângulo de observação a cada repetição da letra com a troca de comparações ("Ergueu no patamar quatro paredes sólidas/mágicas/flácidas"), mas que no final encaminha para o mesmo fim, uma morte.[8]
A letra contém uma forte crítica à alienação do trabalhador na sociedade capitalista moderna e urbana, reduzido a condição mecânica - intensificado especialmente por seus atos no terceiro bloco da canção ("máquina", "lógico").[1] Quando esse trabalhador ("um pacote flácido/tímido/bêbado") morre, a constatação é de que sua morte apenas atrapalha o "tráfego", o "público" ou o "sábado". Ainda assim, Chico declarou, em entrevista concedida à revista Status, em 1973, que Construção não era para ele uma música de denúncia ou protesto. "(...) Em Construção, a emoção estava no jogo de palavras. Agora, se você coloca um ser humano dentro de um jogo de palavras, como se fosse... um tijolo - acaba mexendo com a emoção das pessoas."[9]
O autor emprega ousados processos de construção poética como, por exemplo, a alternância das proparoxítonas finais, "como se fossem peças de um jogo num tabuleiro", segundo o próprio Chico.[10] A letra é dividida em três blocos. Nos dois primeiros, compostos por 17 versos, e mais seis no último bloco. Nos dois primeiros blocos é possível perceber o nítido jogo de palavras proparoxítonas criado por Chico.[2]
| Corpo fixo | Palavras intercambiáveis | ||
|---|---|---|---|
| 1º Bloco | 2º Bloco | 3º Bloco | |
| 1. Amou daquela vez como se fosse | a última | o último | máquina |
| 2. Beijou sua mulher como se fosse | a última | a única | lógico |
| 3. E cada filho seu como se fosse | o único | o pródigo | -/- |
| 4. E atravessou a rua com seu passo | tímido | bêbado | -/- |
| 5. Subiu a construção como se fosse | máquina | sólido | -/- |
| 6. Ergueu no patamar quatro paredes | sólidas | mágicas | flácidas |
| 7. Tijolo com tijolo num desenho | mágico | lógico | -/- |
| 8. Seus olhos embotados de cimento e | lágrima | tráfego | -/- |
| 9. Sentou pra descansar como se fosse | sábado | um príncipe | um pássaro |
| 10. Comeu feijão com arroz como se fosse | um príncipe | o máximo | -/- |
| 11. Bebeu e soluçou como se fosse | um náufrago | máquina | -/- |
| 12. Dançou e gargalhou como se | ouvisse música | fosse o próximo | -/- |
| 13. E tropeçou no céu como se | fosse um bêbado | ouvisse música | -/- |
| 14. E flutuou no ar como se fosse | um pássaro | sábado | um príncipe |
| 15. E se acabou no chão feito um pacote | flácido | tímido | bêbado |
| 16. Agonizou no meio do passeio | público | náufrago | -/- |
| 17. Morreu na contramão atrapalhando o | tráfego | público | sábado |
No rascunho de Construção, os versos estavam soltos, mas já dentro de uma métrica e ritmo final. Alguns desses versos foram abandonados: "Pôs pedra sobre pedra até perder o fôlego" / "E o máximo suor por um salário mínimo". Em um rascunho posterior, a melodia sugere o agrupamento dos versos em quadro. E só depois de concluída a primeira parte é que apareceram as alternativas: ("Tijolo com tijolo num desenho mágico/lógico", "E flutuou no ar como se fosse um pássaro/sábado", etc).[10]
À complexidade da letra de Construção, corresponde uma linha de apenas dois acordes, composta pelo maestro Rogério Duprat, que são repetidos à medida que se sucedem as imagens "como se ele tivesse realmente colocando laje sobre laje num edifício."[10] O grupo MPB-4 participa do coro musical. Após o último verso do terceiro bloco, surge uma reprise com três estrofes de "Deus lhe pague", canção que abre o disco Construção.[11]
Crítica
O músico brasileiro Tom Jobim adorava a canção. Segundo seu filho Paulo Jobim,[8] o pai chegou a recortar a letra da canção, publicada em um jornal da época, e a colou em um caderno. Helena Jobim confirma o entusiasmo do irmão. "Comentava a perfeição da letra, em que Chico [Buarque] usa palavras proparoxítonas, com rara maestria."[12]
Conhecido por sua posições de direita, o jornalista David Nasser pôs-se um dia a louvar a canção — para, num trecho do artigo, a falar da insistência nas proparoxítonas, acrescentar mais uma: "Médici, o nosso presidente".[13]
Para Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, Construção tem "uma letra extraordinária, de qualidade rara numa canção popular".[14]
Em 2001 o jornal Folha de S.Paulo, em uma enquete realizada com 214 votantes (entre jornalistas, músicos e artistas do Brasil), elegeu Construção como a segunda melhor canção brasileira de todos os tempos - atrás de Águas de Março, de Tom Jobim.[15]
Em 2009, a Rolling Stone Brasil celebrou o terceiro aniversário da revista convidando 92 especialistas, entre pesquisadores, produtores e críticos musicais, para elegerem as 100 maiores músicas brasileiras de todos os tempos. Os resultados foram publicados na edição de outubro, com Construção na primeira posição.[16][17][18]
Referências
- ↑ a b de., Meneses, Adélia Bezerra (2000). Desenho mágico : poesia e política em Chico Buarque 2. ed. São Paulo: Æ, Ateliê Editorial. pp. 144 a 154. ISBN 8574800015. OCLC 47958025
- ↑ a b A construção de Construção - Blog do Pasquale, maio de 2010
- ↑ «Cliquemusic : Artista : Rogério Duprat». cliquemusic.uol.com.br. Consultado em 4 de novembro de 2017
- ↑ Pinheiro 2024, pp. 65.
- ↑ Cavalcanti, Paulo (Outubro de 2009). «Nº 1 - Construção». Revista Rolling Stone. Consultado em 6 de Abril de 2014
- ↑ Vinicius Lisboa (5 de agosto de 2016). «Abertura da Rio 2016 exalta diversidade, mistura ritmos e tem voo do 14 Bis». Agência Brasil. Consultado em 6 de agosto de 2016
- ↑ Anatol., Rosenfeld, (2000). O teatro épico 4. ed. São Paulo: Editora Perspectiva. ISBN 9788527301282. OCLC 49960547
- ↑ a b GARCIA, Walter. A construção de "Águas de março". Rivista di Studi Portoghesi e Brasiliani (Testo Stampato), v. XI, p. 39-61, 2010.
- ↑ «Construção - Nota». www.chicobuarque.com.br. Revista Status. 1973. Consultado em 4 de novembro de 2017
- ↑ a b c Chico põe nossa música na linha - Revista Realidade, número 71, fevereiro de 1972
- ↑ «Dia do Compositor: A importância de 'Construção', de Chico Buarque». novabrasilfm. Novabrasil. 7 de outubro de 2022. Consultado em 4 de agosto de 2025
- ↑ JOBIM, Helena: "Tom Jobim um homem iluminado". Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1996. Página 167
- ↑ Humberto., Werneck, (1989). «Chico Buarque, letra e música ; incluindo Carta ao Chico de Tom Jobim e Gol de letras de Humberto Werneck ; edição gráfica Hélio de Almeida.». Companhia das Letras. OCLC 24067652
- ↑ Jairo., Severiano,. A canção no tempo : 85 anos de músicas brasileiras 7a ed. São Paulo, SP, Brasil: [s.n.] ISBN 9788573266139. OCLC 961265549
- ↑ «Folha de S.Paulo - Edição de 18/05/2001». acervo.folha.uol.com.br. Consultado em 4 de novembro de 2017
- ↑ Cavalcanti, Paulo (18 de dezembro de 2009). «N° 1 - Construção». Rolling Stone Brasil. Consultado em 19 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 28 de maio de 2025
- ↑ «As 100 maiores músicas brasileiras. Cadê aquela?». Gazeta do Povo. 26 de outubro de 2009. Consultado em 19 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 16 de outubro de 2023
- ↑ Zeca Camargo (15 de outubro de 2009). «Pimenta na lista dos outros não arde…». g1.globo.com. Consultado em 4 de agosto de 2025
Bibliografia
- Pinheiro, Márcio (2024). O Que Não Tem Censura Nem Nunca Terá: Chico Buarque e a repressão artística na ditadura militar. Porto Alegre: L&PM Editores. ISBN 978-65-566-6481-1
Ligações externas
- Construção no site oficial de Chico Buarque


