Conselho participativo (políticas públicas)

Conselho participativo ou conselhos gestores de políticas públicas representam uma das mais significativas expressões da democracia participativa no Brasil contemporâneo. Presentes na maioria dos municípios do país e articulados em diferentes níveis federativos, esses conselhos abrangem diversas áreas – como saúde,[1][2] educação, moradia, meio ambiente, transporte e cultura – e configuram um marco na construção de uma institucionalidade democrática. Sua principal inovação está na institucionalização do diálogo entre governo e sociedade, criando espaços públicos e plurais de deliberação que visam promover uma alocação mais justa e eficiente dos recursos públicos. Os conselhos visam aproximar o Estado da população, de moda a permitir que diferentes vozes participem das decisões sobre políticas públicas.[3]
Frutos das lutas dos movimentos populares e da sociedade civil organizada pela democratização do Estado, os conselhos se consolidaram como instrumentos de representação e participação social, ao mesmo tempo em que refletem um novo modelo de gestão pública reivindicado desde os anos 1980 e incorporado ao processo de reforma do Estado na década de 1990.[4]
Histórico
A presença dos conselhos como instrumentos de participação e gestão coletiva remonta a períodos muito anteriores à formação do Estado moderno. Diversos autores associam suas origens às primeiras experiências de democracia participativa. Em Portugal, entre os séculos XII e XV, já existiam os chamados “concelhos” municipais, que funcionavam como unidades político-administrativas locais e exerceram forte influência sobre a forma como se estruturaram as câmaras municipais e prefeituras do Brasil colonial.[4][5]
Ao longo do tempo, diversas experiências históricas consolidaram a relevância dos conselhos como espaços de poder e decisão. A Comuna de Paris, os sovietes russos, os conselhos operários de Turim estudados por Gramsci, os conselhos formados na Alemanha da década de 1920, as experiências da Iugoslávia nos anos 1950 e os modelos participativos das democracias norte-americanas são exemplos desses conselhos. Em geral, tais experiências representavam tentativas de romper com o modelo tradicional de organização política, apostando em formas de poder autogeridas, descentralizadas e autônomas.[4]
No contexto brasileiro, a trajetória dos conselhos assume características próprias, associadas à redemocratização e à reorganização da sociedade civil. Ainda no final dos anos 1970, emergiram os conselhos comunitários, criados para atuar em parceria com administrações municipais.[6] Em seguida, surgiram os conselhos populares, vinculados a setores da esquerda e a movimentos de oposição ao regime militar. Essas iniciativas apresentavam grande diversidade: algumas funcionavam como instâncias de poder popular paralelo, outras buscavam participar de decisões governamentais, e havia também aquelas concebidas pelos próprios governos locais, com funções de aconselhamento, deliberação e execução de políticas públicas.[4]
Durante os anos 1980, o debate em torno desses conselhos estava fortemente ligado à defesa da participação popular, uma bandeira central nas lutas pela redemocratização. Nessa época, o termo “participação popular” passou a designar o esforço coletivo da sociedade civil para ampliar seu controle sobre os recursos públicos e sobre as instituições que interferem diretamente na vida social. Movimentos e associações comunitárias desempenharam papel fundamental nesse processo, propondo novas formas de intervenção e organização social.[4]
Já nos anos 1990, o conceito de participação ganhou novas dimensões, sendo reinterpretado sob a ótica da participação cidadã. Essa noção se vinculava à ampliação dos direitos sociais, à valorização da cidadania e à redefinição do papel do Estado. A participação passou a ser compreendida como uma prática planejada e contínua, que se estende por todo o ciclo de formulação e implementação das políticas públicas. Esse novo paradigma resultou na institucionalização da participação, incorporando-a ao ordenamento jurídico por meio da criação de conselhos com caráter misto – formados por representantes do poder público e da sociedade civil.[4]
Os conselhos gestores de políticas públicas, portanto, representam uma inovação em relação aos conselhos comunitários ou populares, pois contam com assento institucional junto ao Estado e poder de deliberação sobre políticas específicas. Ou seja, não se trata mais dos antigos “conselhos de notáveis”, compostos apenas por especialistas e com funções estritamente consultivas.[4] A consolidação desse modelo participativo se tornou expressiva nas décadas seguintes. De acordo com estudos, em 2016 havia cerca de 30 mil conselhos gestores espalhados pelos 5.570 municípios brasileiros, envolvendo diversos representantes da sociedade civil em processos de formulação, monitoramento e avaliação de políticas públicas.[7][8][9]
Tipos de conselho
Os conselhos podem assumir diferentes papéis dentro das estruturas de gestão pública e das práticas democráticas. De modo geral, há duas posições principais sobre sua função central. A primeira compreende os conselhos como instâncias consultivas, cuja atuação deve estar delimitada em relação ao Poder Legislativo, funcionando como órgãos auxiliares e de apoio às suas decisões. Já a segunda perspectiva defende que os conselhos devem exercer um papel mais ativo, atuando como mecanismos de fiscalização do Poder Executivo, se inserindo em um modelo de gestão descentralizada. Nessa concepção, sua ação é parte de um estilo de governo orientado pela participação cidadã, pela transparência como elemento constitutivo da democracia.[4][10]
Além dessas distinções quanto ao papel político e institucional, os conselhos também apresentam diferentes padrões de distribuição territorial no Brasil. Entre 1989 e 2009, é possível identificar três tipos principais de expansão. O primeiro corresponde aos conselhos que alcançaram uma presença praticamente universal no território nacional, impulsionados por fortes mecanismos de indução federal, como os repasses condicionados de recursos. O segundo grupo é formado por conselhos de expansão média, presentes entre 20% e 60% dos municípios, cuja disseminação foi mais expressiva em localidades com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e motivada por incentivos federais moderados. Por fim, há os conselhos de baixa presença territorial – entre 3% e 17% dos municípios –, cuja distribuição é desigual e restrita, em geral, submetidas apenas a formas fracas de indução federal. Em todos os casos, observa-se que o grau de indução federal desempenha papel decisivo na institucionalização da participação social, especialmente por meio da vinculação entre transferências de recursos e criação de conselhos.[11][7]
Do ponto de vista teórico, diferentes correntes de pensamento também atribuem sentidos diversos aos conselhos. Para Hannah Arendt, essas instâncias constituem a forma mais genuína de um governo horizontal, baseado na participação e na cidadania como condições essenciais de existência.[12] Por outro lado, há distinções entre as leituras liberais e as de orientação à esquerda: enquanto os liberais os entendem como mecanismos de colaboração entre Estado e sociedade, os setores de esquerda os veem como instrumentos de transformação social e democratização das relações de poder.[4]
Ver também
- Ativismo
- Conselhos de saúde
- Democracia participativa
- Encaixes socioestatais
- Instituição
- Participação social (participação pública)
Referências
- ↑ COELHO, Vera Schattan P. et al. Mobilização e participação: um jogo de soma zero?: um estudo sobre as dinâmicas de conselhos de saúde da cidade de São Paulo. Novos estudos CEBRAP, p. 121-139, 2010.
- ↑ COELHO, Vera Schattan P. A democratização dos Conselhos de Saúde: o paradoxo de atrair não aliados. Novos estudos CEBRAP, p. 77-92, 2007.
- ↑ TATAGIBA, Luciana. Conselhos gestores de políticas públicas e democracia participativa: aprofundando o debate. Revista de Sociologia e Política, n. 25, p. 247-250, 2006.
- ↑ a b c d e f g h i GOHN, Maria. Conselhos gestores e gestão pública. Ciências Sociais em Revista, v. 42, n. 1, p. 5-11, 2006.
- ↑ VIEIRA, J.L.P. Le cas du Portugal – democracie participative: tradition et modernité. Revue Territoires: Quelles democratie participatives?. 1992
- ↑ GOHN, M.G. Conselhos Populares e participação popular. Serviço Social e Sociedade, IX(26):25-47. 1990
- ↑ a b LAVALLE, Adrian; BARONE, Leonardo Sangali, “Conselhos, Associações e Desigualdade”, in M. Arretche (org.), Trajetórias das Desigualdades: Como o Brasil Mudou nos Últimos Cinquenta Anos? São Paulo, Unesp/CEM. 2015
- ↑ IBGE-Munic. (2009), “Pesquisa de Informações Básicas Municipais”. Rio de Janeiro, IBGE.
- ↑ TEIXEIRA, Ana Claudia Chaves. Estudo sobre Sistemas Nacionais de Políticas Públicas. Brasília, PNUD e Secretaria Geral da Presidência da República. 2014
- ↑ BORJA, J. Gestão democrática e descentralização do governo: a experiência de Barcelona. Seminário da Área Temática: Gestão, Participação e Cidadania, Coordenação Sílvio Caccia Bava, São Paulo, Instituto Florestan Fernandes. 2000
- ↑ LAVALLE, Adrian Gurza; VOIGT, Jessica; SERAFIM, Lizandra. O que fazem os conselhos e quando o fazem? Padrões decisórios e o debate dos efeitos das instituições participativas. Dados, v. 59, p. 609-650, 2016.
- ↑ ARENDT, H. Crises da república. São Paulo, Perspectiva, 1973