Conquista de Angoche

Conquista de Angoche
Campanhas de Pacificação e Ocupação
Data13 de Junho – 6 de Agosto 1910
LocalAngoche, Moçambique
DesfechoVitória Portuguesa
Beligerantes
Reino de Portugal Sultanato de Angoche
Comandantes
Pedro Francisco Massano de Amorim Farelay
Sultão Ibrahimo
Guernea-Muno
Forças
2134 homens[1]
1000 carregadores[1]
Desconhecidas.
Baixas
Pelo menos 2 mortos.[2] Desconhecidas.

A conquista definitiva do sultanato de Angoche pelos portugueses deu-se em 1910. Foi uma das Campanhas de Pacificação e Ocupação na formação de Moçambique.

Contexto

Os portugueses entraram em contacto com o actual território de Moçambique aquando da viagem de Vasco da Gama à Índia e instalaram-se na região em 1505, quando fundaram a fortaleza de Sofala.

Após a Independência do Brasil, Portugal procurou desenvolver o seu território em África, expandi-lo e pacificar ou ocupar quaisquer potências que se revelassem hostis à soberania portuguesa. Entre essas potências contava-se o sultanato de Angoche, pequeno reino suahíli e muçulmano que servia de intermediário com o sertão e não só persistia na manutenção do seu tráfico negreiro como submetia os régulos africanos do sertão ou encorajava-os à revolta contra as autoridades portuguesas. Após o sultão Mussa Quanto ter atacado o prazo de Maganja da Costa, Portugal ocupou Angoche em 1861 mas retirou-se pouco tempo depois.[3]

Um membro da família real de Angoche, Omar bin Nacogo Farallahi, conhecido como Farelay pelos portugueses, organizou os ataques, juntamente com o sultão Ibrahimo e os seus aliados, os régulos macuas, de entre os quais se destacava Guernea-Muno.[3] Farelay foi o centro de quase todas a actividade contra os portugueses.[1] Farelay enviou tropas que combateram contra Mouzinho de Albuquerque na Batalha de Mugenga.[1]

Em 1900, chegou ao comando militar de Mogincual, Neutel de Abreu, que consegue impor uma aparente calma na região entre Mogincual e Sancul, criando condições para que os esforços portugueses se virassem para a região de Angoche.[1]

Regressado de férias, em Dezembro de 1909 o governador do distrito de Quelimane Massano de Amorim procurou encorajar os régulos africanos a auxiliarem Portugal na conquista de Angoche. O capitão-mor Dâmaso Augusto Marques desenvolveu intensa actividade diplomática e vários régulos de Mogovola aceitaram ajudar os portugueses, destacando-se de entre eles o régulo Morla-Muno.[4] Ao mesmo tempo, foram fundados novos postos militares, em Macogone a 10 de Abril de 1910 e em Namezeze a 25 de Maio, para além de que o rio Ligonha foi explorado.[4]

O plano de Massano de Amorim passava pela eliminação de Farelay, o sultão Ibrahimo, Guernea-Muno e o régulo Cobula-Muno de Mogovola.

A conquista de Angoche

Localização de Angoche.

As tropas portuguesas contabilizavam 2134 homens, dos quais 420 soldados regulares, 1000 auxiliares e 714 sipaios divididos em quatro ensacas de sipaios.[1] Acompanhavam-nos 1000 carregadores.[1] Estas tropas estavam divididas em duas colunas.

A coluna do norte era comandada pessoalmente por Massano de Amorim e partiu de Liúpo a 13 de Junho de 1910 para Angoche mas os portugueses procuraram poupar os soldados regulares e utilizaram ao máximo as tropas auxiliares africanas fornecidas pelos régulos, nomeadamente Mucapera-Muno de Corrane, comandadas por Neutel de Abreu. Elas atacaram as terras de Farelay pelo norte e rapidamente 122 autoridades africanas de Mogovola, 89 de Imbamela e M'luli e 20 de Ligonha reconheceram a autoridade portuguesa. A 15 de Junho, a coluna norte encontrava-se em Mutucuti debaixo de chuva e realizaram-se novas apresentações. A 16 e 17 de Junho, os auxiliares comandados por Neutel de Abreu atacaram as povoações de Selege, Muianha e combateram contra os guerreiros africanos dissimulados entre as árvores, levando a melhor as tropas associadas aos portugueses, melhor equipadas. Ameaçados com deportação para Timor, à medida que a coluna portuguesa avançava seguiam-se as rendições e a 22 de Junho a coluna encontrava-se em Namazeze.

A 23 de Junho, Cobula-Muno, aliado de Farelay, atacou em Cobula com 3000 guerreiros a coluna portuguesa formada em quadrado em plena floresta, mas os macuas foram repelidos.[5] Também não conseguiu impedir o fornecimento de água.[5] Novos ataques foram repelidos pela artilharia no dia seguinte.[5] O combate mais sério deu-se a 26 de Junho em Nampoto e os combates estenderam-se ao longo de três quilómetros enquanto o quadrado português era violentamente atacado.[5] Os magovolas, porém, sofreram pesadas perdas pelo fogo disciplinado das tropas regulares e a 27 de Junho Nampoto foi ocupada. Novos postos militares foram então fundados em Nametil, no curso médio do rio Meluli, e em Calipo. Cobula-Muno, régulo cruel, achou-se abandonado pelos seus vassalos e aliados e até a sua mãe e irmã recusavam-lhe asilo nas suas terras.[6]

Região em torno da Ilha de Angoche.

Entretanto, a coluna sul era comandada pelo capitão-mor Dâmaso Augusto Marques, com pouco mais de 200 regulares, 1000 auxiliares e 600 carregadores.[6] Dependia, portanto, mais de guerreiros auxiliares, de Sangage, Parapato e Imbamela.[6] A 21 de Junho, em M'luli, terras de Ibrahimo, encontravam-se concentrados alguns régulos hostis aos portugueses com as suas tropas, desorientados, porém, e à espera de reforços de Guernea-Muno. Este régulo não podia dispender de homens quando Massano de Amorim se encontrava em Mogovola, no norte. A 30 de Junho, Augusto Marques enviou os auxiliares a atacar as terras de M'Luli, e do Larde. A 4 de Julho atacou as terras de Ibrahimo em Aube e a 7 de Julho as de Guernea-Muno, tendo 800 auxiliares sido atacados pelos guerreiros de Ibrahimo, Guernea-Muno e Muhogo, régulo imbamela mas estes foram repelidos. A 15 e 16 de Julho, 3 oficiais, 4 soldados europeus, 100 soldados africanos e 600 auxiliares que saíram de Macogone foram duramente atacados pelos guerreiros de Guernea-Muno e Muhogo mas foram novamente repelidos.

Razias e contra-razias terminaram a 18 de Julho com duros combates em que os portugueses levaram a melhor com a ajuda do régulo Morla-Muno. Por então, a maioria dos régulos já pretendia submeter-se aos portugueses ao passo que Farelay, Ibrahimo e Guernea-Muno encontravam-se refugiados em Matadane.[1] A 28 ou 29 de Julho Guernea-Muno entregou-se ao capitão-mor Dâmaso Augusto Marques.[1] Dois dias depois foi fundado o posto de Guerneia, em Imbamela, com 78 soldados. Instalados no coração da resistência macua, os portugueses haviam dominado a região. A 1 de Agosto os portugueses capturaram o sultão Ibrahimo com a ajuda de Etite-muno, que conhecia o esconderijo do sultão.[1]

O sultão Ibrahimo, Farelay e o régulo Cubola-Muno

Após a instalação do posto de Guerneia, a 6 de Agosto o governador Massano de Amorim recebeu em Parapato 87 chefes que assinaram a capitulação perante 6000 guerreiros.

Farelay foi capturado em Moma em meados de Agosto pelo régulo Mamuia, entregue aos portugueses e deportado para a Guiné-Bissau, onde viria a falecer.[1] Em Angoche foram fundados 17 postos e a região ocupada. No decorrer da campanha, as tropas de Massano de Amorim haviam percorrido 450 quilómetros, travado oito combates e instalado 7 postos militares no sertão, 4 em Magovola (Calipo, Nametil, Cobula, Maezeze), 3 em Imbamela (Namaponda, Macogone e Guernea).[2] Os portugueses sofreram um soldado europeu e um soldado africano morto, tendo a maioria dos ataques sido travados por auxiliares aliados.[2]

A seguir à tomada de Angoche, o nome da cidade foi mudado para "António Enes".[7]

Ver também

Referências

  1. a b c d e f g h i j k Liazzat J. K. Bonate, Chapane Mutiua: "Duas Cartas de Farallahi" in Centro de Estudos Africanos, Universidade Eduardo Mondlane, nº1, volume 22, pp. 91-106.
  2. a b c René Pélissier, História de Moçambique: Formação e Oposição, 1854-1918, I, Editorial Estampa, 2000, p. 304.
  3. a b Fernandes, José Manuel. «Angoche [António Enes]». hpip.org. Consultado em 26 de junho de 2025. Cópia arquivada em 24 de janeiro de 2025 
  4. a b Pélissier, 2000, I p. 299.
  5. a b c d Pélissier, 2000, I, p. 301.
  6. a b c Pélissier, 2000, I, p. 302.
  7. Briggs, Philip (2011). Mozambique (em inglês). [S.l.]: Bradt Travel Guides. p. 281. Consultado em 26 de junho de 2025