Captura da Bahia

Captura da Bahia
Data1624
Beligerantes
 Holanda  Império Espanhol


A Captura da Bahia corresponde ao conflito em que a cidade de Salvador, na Bahia, foi capturada pelas forças holandesas em 1624, como parte do plano da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais de obter o monopólio do negócio açucareiro no Brasil e enfraquecer o Império Espanhol.

Contexto

Desde 1580, com a ascensão de Filipe II de Espanha ao trono português, os vastos domínios lusitanos, incluindo o Brasil, Angola e as feitorias asiáticas, estavam sob a coroa dos Habsburgos espanhóis. Denominada de União Ibérica, embora mantendo estruturas administrativas separadas para os reinos de Portugal e Espanha, tornou todos os territórios portugueses alvos legítimos para os inimigos da Espanha. E o principal inimigo eram as Províncias Unidas dos Países Baixos, empenhadas numa longa guerra de independência (Guerra dos Oitenta Anos, 1568-1648) contra o domínio espanhol.

No ano de 1609, após quatro décadas de um conflito sangrento e exaustivo, a Coroa Espanhola e as Províncias Unidas celebraram um acordo de paz. Conhecida como a Trégua dos Doze Anos, essa suspensão das hostilidades no teatro europeu da Guerra dos Oitenta Anos foi, acima de tudo, um reconhecimento de uma realidade geopolítica incontornável: a Espanha, a maior potência da época, havia falhado em sua missão de reconquistar e subjugar suas províncias nortenhas.[1]

A iniciativa intelectual para a criação da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) partiu do pensador mercantilista Willem Usselincx.[2] Movido por fervor calvinista e por uma visão econômica original para sua época, ele defendia a fundação de colônias agrícolas holandesas no Novo Mundo, argumentando que a verdadeira riqueza colonial estava nos produtos da terra (como açúcar, madeiras e couros), e não apenas nos metais preciosos.[3] Ele apontava o Brasil como o exemplo perfeito dessa riqueza agrícola. Seu projeto inicial, no entanto, era mais pacifico e diplomático: durante a Trégua dos Doze Anos (1609-1621), ele pedia que a Holanda negociasse com a Espanha permissão para comércio e estabelecimento em áreas não ocupadas da América, como a Guiana.[4]

No entanto, suas ideias encontraram forte oposição pela facção política liderada por Johan van Oldenbarnevelt, favorável à trégua. A oligarquia mercantil holandesa, concentrada no lucrativo comércio com o Oriente através da VOC, via pouco interesse no arriscado empreendimento que Usselincx propunha.[5]

Embora inicialmente preferisse uma expansão pacífica em áreas não ocupadas, ele já previa que, se necessário, a trégua com a Espanha deveria valer apenas na Europa, permitindo que a Holanda prosseguisse a luta "além da linha equinocial" e, "à ponta de espada", povoasse suas colônias americanas.[6] Com o fim da Trégua dos Doze Anos em 1621 e a retomada da guerra aberta, essa premissa militarista tornou-se realidade. Assim, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (WIC) não nasceu como o projeto de colônias agrícolas idealizado por seu precursor, mas sim como uma empresa militar-mercantil criada para conquistar à força as possessões ibéricas,[7] tendo a cobiçada riqueza do Brasil, tão elogiada por Usselincx, como seu alvo principal.

Captura de Salvador

A expedição holandesa que conquistou Salvador em 1624 foi composta por 26 navios, 3.300 homens e 450 bocas-de-fogo, partindo da Holanda em dois esquadrões entre dezembro de 1623 e janeiro de 1624, com reunião no Cabo Verde em março. O comando naval era do almirante Jacob Willekens, enquanto as tropas de desembarque eram lideradas por Jan Van Dorth. O vice-almirante Piet Heyn, ex-marinheiro da Companhia das Índias Orientais, completava o comando.[8]

Ataque à São Salvador, Bahia. Pintura de Andries van Eertvelt, c. 1624.

Do lado luso-brasileiro, o governador Diogo de Mendonça Furtado recebera alertas de Madrid sobre a ameaça, confirmada pela chegada do navio Hollandia, mas suas tentativas de preparação foram desconsideradas pelo bispo Dom Marcos Teixeira e pelos senhores de engenho do Recôncavo, que julgaram seus alertas desnecessários.[9] Em 9 de maio, enquanto a frota holandesa bombardeava o porto, as tropas desembarcaram sem oposição a poucas milhas da cidade. O avanço através da vegetação, que poderia ter sido barrado, encontrou apenas pânico generalizado. Um jesuíta testemunhou: “Tal foi o pânico, e tão generalizado foi ele, que nem os brancos nem os índios serviram para alguma coisa, cada qual procurando lugar seguro, sem pensar em dar combate”.[10] À tarde, Piet Heyn liderou uma ação decisiva com botes, incendiando as embarcações no porto e atacando a fortaleza da baía. Com a defesa desmoralizada, a população fugiu durante a noite. Na manhã de 10 de maio, os holandeses encontraram a cidade praticamente deserta, exceto por alguns cristãos-novos, escravizados africanos e o governador com cerca de quinze homens no convento do Carmo.[11]

Mendonça Furtado inicialmente recusou-se a render-se, mas capitulou após negociação direta com Piet Heyn. Após a queda da cidade, os que haviam fugido tentaram justificar sua fuga culpando os cristãos-novos por traição e o governador por covardia – alegações que, no entanto, não encontram apoio nas fontes primárias. O próprio Piet Heyn testemunhou mais tarde perante o provincial jesuíta Domingos Coelho que o governador “se houvera valorosamente e cumprira muito bem com sua obrigação”, acrescentando que quem afirmasse o contrário tentava apenas encobrir o próprio medo que os levou a abandonar Salvador.[12]

Consequências

Para os espanhóis, o perigo ia além da perda de um importante produtor de açúcar. Suspeitava-se, com forte fundamento estratégico, que o objetivo final dos holandeses "era não tanto o açúcar do Brasil, mas a prata do Peru". Salvador poderia servir como uma base naval avançada no Atlântico Sul, a partir da qual a frota da prata que saía de Callao e a rota comercial do Rio da Prata poderiam ser interceptadas, golpeando o coração financeiro do império. Para os portugueses, o temor era mais imediato e existencial. Compreendiam claramente que, se os holandeses consolidassem sua posição na Bahia, "a perda do resto do Brasil seria disso a inevitável consequência". A colônia mais rica do império português estava em risco de desintegração.[13]

Arraial do Rio Vermelho

Após a fuga de Salvador, as autoridades civis, militares e eclesiásticas refugiaram-se na aldeia jesuíta do Espírito Santo, no Recôncavo. Considerando o governador Diogo de Mendonça Furtado como morto ou desaparecido, abriram as vias de sucessão, as quais indicavam Matias de Albuquerque, governador de Pernambuco, como sucessor. Enquanto aguardavam sua chegada, o comando interino foi, após algumas tentativas frustradas com outros nomes, conferido ao Bispo D. Marcos Teixeira.[14]

O bispo assumiu o comando de forma solene. Sua primeira medida foi proibir o cultivo de açúcar e tabaco para cortar o tráfico com os holandeses. Reuniu uma força de cerca de 1.400 portugueses e 250 índios, posicionando-se fortificadamente no rio Vermelho, a uma légua de Salvador. Sob sua liderança, o ânimo das tropas se reergueu.[15] Os primeiros confrontos foram favoráveis aos luso-brasileiros, culminando com a morte do comandante holandês Johan van Dorth em uma emboscada. O sucessor de Van Dorth, Albert Schoutens, também foi morto pouco depois.[16] Apesar desses reveses, a confiança holandesa permaneceu alta a ponto de o almirante Jacob Willekens zarpar para a Holanda com onze navios carregados de despojos, deixando o comando naval a Piet Heyn. Heyn, por sua vez, partiu em uma expedição malsucedida contra Angola (cujo objetivo era assegurar o fornecimento de escravos) e, na volta, fracassou em um ataque à vila do Espírito Santo.[17]

A notícia da queda da Bahia causou grande alvoroço na corte espanhola em Madrid. Organizou a maior armada já vista no Atlântico, a "Grande Armada do Oceano", sob o comando do espanhol D. Fradique de Toledo. A mobilização em Portugal foi igualmente significativa: Lisboa doou vultosa soma, a nobreza ofereceu homens e recursos com entusiasmo, e uma frota portuguesa de 26 navios e 4.000 homens, comandada por D. Manuel de Meneses, foi reunida para se juntar aos espanhóis em Cabo Verde. A expedição conjunta, porém, sofreu atrasos, especialmente a espanhola, obrigando a frota portuguesa a uma espera de nove semanas no clima insalubre de Cabo Verde, com muitas perdas por doença.[18]

Na Bahia, com a confirmação oficial de sua nomeação, Matias de Albuquerque optou por não assumir pessoalmente o comando no campo, mantendo a estratégia de hostilizar os holandeses com guerrilhas. Enviou Francisco Nunes Marinho de Sá para substituir o Bispo D. Marcos Teixeira no comando militar, permitindo que o prelado se dedicasse à esfera espiritual e ao combate à propagação da doutrina protestante. Exausto pelos esforços de três meses de campanha, o bispo faleceu pouco após ser substituído, sendo enterrado sem grandes cerimônias em Tapagipe.[19]

A Jornada dos Vassalos

A chegada das armadas combinadas de Portugal e Espanha à Baía de Todos-os-Santos em 28 de março de 1625 marcou o início do fim da ocupação holandesa de Salvador. A colossal frota luso-espanhola, sob o comando do almirante espanhol D. Fradique de Toledo e do português D. Manuel de Meneses, representava a resposta da Monarquia Hispânica à afronta sofrida um ano antes. No entanto, os sitiantes encontraram uma cidade transformada em uma fortaleza impressionante. Os holandeses haviam reforçado as defesas com noventa e duas peças de artilharia, incluindo o "Forte Novo", que disparava balas incendiárias.[20] O porto estava protegido por dez navios de guerra e dezoito mercantes. O comandante da praça, Willem Schoutens, mantinha uma confiança quase arrogante, acreditando que os reforços da Companhia das Índias Ocidentais chegariam antes de qualquer contra-ataque ibérico significativo. A visão da frota inimiga foi, inicialmente, interpretada por ele como a chegada da tão aguardada esquadra holandesa.[21]

Após um conselho de guerra, D. Fradique decidiu por uma estratégia de cerco combinado. Metade do exército, composto por soldados espanhóis, portugueses e italianos, desembarcou sem oposição para isolar a cidade por terra, enquanto a armada bloqueava o acesso marítimo, estendendo-se de Tapagipe até Santo Antônio. O desembarque foi facilitado pela desunião e falta de liderança decisiva dentro da guarnição holandesa, que incluía franceses e ingleses, além de um grande número de africanos trazidos de navios angolanos apreendidos. Os sitiantes descobriram uma falha crítica nas defesas: um lanço das fortificações permanecia incompleto, pois Schoutens confiava excessivamente na profundidade de um fosso e na suposta incapacidade espanhola de agir rapidamente.[22]

Apesar da força demonstrada, o campo luso-espanhol mostrou-se inicialmente desorganizado e pouco vigilante. Aproveitando-se dessa negligência, o comandante holandês Hans Ernst Kijff liderou uma investida bem-sucedida com seiscentos homens, surpreendendo o arraial e causando grande matança, incluindo a morte do mestre-de-campo espanhol D. Pedro Osório. Porém, essa foi a única grande ação ofensiva holandesa. A disciplina dentro da cidade desintegrou-se rapidamente. Schoutens, acusado de incompetência e devassidão, foi deposto por um motim de suas próprias tropas e substituído por Kijff. O espírito faccioso e o descontentamento se espalharam, especialmente entre os mercenários estrangeiros, que, sem honra nacional a defender e cansados do cerco, se recusaram a continuar lutando.[23]

Sem qualquer esperança de resgate, Kijff foi forçado a enviar emissários para negociar a rendição. Os termos, acordados em 30 de abril, foram relativamente honrosos: os holandeses receberiam navios, mantimentos e um salvo-conduto para retornar à Europa com suas armas pessoais, em troca da entrega intacta da cidade, suas fortificações e artilharia pesada. Eles também protegeram seus companheiros, escondendo ou destruindo um registro dos "conquistadores" que poderia ser usado para punições. Abandonaram, no entanto, à sua sorte os africanos escravizados e os cristãos-novos (judeus convertidos) que haviam confiado no governo protestante.[24]

A capitulação formal ocorreu em 1º de maio de 1625, dia de São Filipe, patrono do rei espanhol, o que foi celebrado como um auspicioso sinal divino. As portas da cidade foram abertas e os estandartes ibéricos, incluindo as bandeiras da Imaculada Conceição e de Santa Teresa, foram hasteadas na catedral. Seguiu-se uma intensa "reconquista espiritual": padres realizaram cerimônias para reconsagrar igrejas profanadas, açoitaram púlpitos usados por capelães calvinistas e exumaram os corpos de soldados protestantes para reenterrá-los em solo não sagrado fora dos muros. Apenas o túmulo de Johan van Dorth, o primeiro comandante holandês, foi poupado por respeito à sua memória.[25]

Bibliografia

BOXER, Charles R. Os holandeses no Brasil, 1624‑1654. Tradução de Olivério Mário de Oliveira Pinto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1961. (Brasiliana, v. 312)

SOUTHEY, Robert. História do Brasil. Volume I. Tradução do inglês por Luís Joaquim de Oliveira e Castro; anotada por J. C. Fernandes Pinheiro, Brasil Bandecchi e Leonardo Arroyo. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2010. Edições do Senado Federal, v. 133-A.

Referências

  1. BOXER, p. 1-3.
  2. BOXER, p. 2.
  3. BOXER, p. 3.
  4. BOXER, p. 4.
  5. BOXER, p. 6.
  6. BOXER, p. 6.
  7. BOXER, p. 9.
  8. BOXER, p. 29.
  9. SOUTHEY, p. 422.
  10. BOXER, p. 30-31.
  11. BOXER, p. 29-31.
  12. BOXER, p. 31-32.
  13. BOXER, p. 32-33.
  14. SOUTHEY, p. 426.
  15. SOUTHEY, p. 426.
  16. SOUTHEY, p. 427.
  17. SOUTHEY, p. 427.
  18. SOUTHEY, p. 428-429.
  19. SOUTHEY, p. 429-430.
  20. SOUTHEY, p. 430-431.
  21. SOUTHEY, p. 431.
  22. SOUTHEY, p. 431-432.
  23. SOUTHEY, p. 432-433.
  24. SOUTHEY, p. 433.
  25. SOUTHEY, p. 433-434.