Willem Usselincx
| Willem Usselincx | |
|---|---|
![]() Retrato de Willem Usselincx, 1637. | |
| Nascimento | |
| Morte | |
| Nacionalidade | Neerlandês |
| Ocupação | Comerciante, escritor, investidor, diplomata |
| Religião | Calvinismo |
| Assinatura | |
Willem Usselincx (Antuérpia, junho de 1567 – 1647) foi um comerciante, escritor, investidor e diplomata flamengo que desempenhou papel fundamental ao chamar a atenção tanto dos neerlandeses quanto dos suecos para a importância do Novo Mundo. É reconhecido como um dos principais fundadores da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais.[1]
Biografia
Contexto Histórico e Nascimento
No século XVI, os territórios dos Países Baixos estavam sob domínio espanhol e viviam intensas tensões religiosas. Antuérpia, sua cidade natal, era então o porto mais importante da Europa Ocidental e a segunda maior cidade ao norte dos Alpes.[2] A repressão contra os cristãos protestantes, promovida por Fernando Álvarez de Toledo, terceiro duque de Alba, a mando do rei Filipe II de Espanha, levou à perseguição de comunidades flamengas e valonas. Como consequência, muitos migraram para outras regiões do norte da Europa, como Suécia, Inglaterra e Alemanha, bem como para as províncias do norte da Holanda.
Esses conflitos culminaram na revolta dos Gueux e, posteriormente, na formação da República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, que se separaram do domínio espanhol, enquanto as províncias do sul permaneceram sob o controle da monarquia Habsburgo. No Cerco de Antuérpia (1585), a população caiu de 100 mil para cerca de 40 mil pessoas, o que marcou o êxodo de milhares de habitantes rumo ao norte, fortalecendo a posição de Amsterdã como um dos principais centros comerciais da Europa.[3]
Em meio a esse contexto de instabilidade e migração, Willem Usselincx nasceu em Antuérpia, em junho de 1567, numa família flamenga diretamente afetada pelas mudanças políticas e econômicas da região.
Fundação da Companhia das Índias Ocidentais
Usselincx recebeu da família uma formação voltada ao comércio de especiarias, experiência que o levou a viajar pela Espanha, Portugal e Açores, onde observou a riqueza gerada pelas colônias ibéricas.[4]
Após a queda de Antuérpia em 1585, Usselincx mudou-se para a República das Sete Províncias, estabelecendo-se primeiro em Midelburgo e, posteriormente, em Amsterdã. Convencido de que os Países Baixos deveriam conquistar colônias para reduzir a influência espanhola, passou a defender essa ideia junto aos seus compatriotas.[5]
Em 1608, publicou o tratado Naerder Bedenckingen, Over de zee-vaerdt, Coophandel ende Neeringhe, als mede de versekeringhe vanden Staet, no qual apresentava seus argumentos para a criação de uma companhia de comércio no Novo Mundo e discutia o poder espanhol e suas fontes de riqueza nas Índias Ocidentais.[6]
Após quase trinta anos de esforços, Usselincx fundou a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais em 1621. Seu propósito ia além da dimensão comercial: ele desejava criar nos Novos Países Baixos uma sociedade renovada, que não fosse apenas uma colônia de exploração, mas que fosse capaz de acolher milhares de colonos neerlandeses. Para isso, fretou o navio Nieu Nederlandt, que levou os primeiros colonos à região do atual estado de Nova Iorque, e organizou a instalação de famílias judias e valonas na Guiana, às margens do rio Oiapoque, sob a direção do capitão Jan de Moor. No entanto, apesar de seus esforços, sua visão social recebeu pouco apoio dos Estados Gerais.[7][8]
A companhia destacou-se pela ocupação neerlandesa de parte do Nordeste brasileiro, região que passou a ser conhecida como Nova Holanda. Diferentemente de muitos contemporâneos, Usselincx enxergava na América não apenas a exploração mineral, mas sobretudo as possibilidades agrícolas, inspirando-se em seu conhecimento prévio dos empreendimentos coloniais portugueses. Essa percepção levou à centralidade da produção açucareira durante a presença neerlandesa no Brasil.[9]
Ao lado de Dierick Ruiter, seu sócio na criação da companhia, Usselincx posicionou-se contra a participação da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais no Comércio de escravos no Atlântico.[10]
Atuação na Suécia e projetos coloniais (1624–1635)
No outono de 1624, durante uma viagem a Danzigue, Usselincx visitou Gotemburgo, onde foi convidado pelo rei Gustavo II Adolfo da Suécia a se estabelecer na cidade, convite que aceitou prontamente.[11] Dois anos depois, em 1626, ele apresentou à Suécia os benefícios da colonização e elaborou os primeiros planos para o estabelecimento da primeira colônia sueca.[11]
Em 6 de junho de 1626, obteve o alvará de uma nova empresa, a Companhia da Nova Suécia, que em 1º de maio de 1627 recebeu o monopólio sobre o comércio e a colonização em territórios ultramarinos.[12] O entusiasmo inicial foi grande; o rei contribuiu com vultosas quantias, enquanto membros do Riksdag, magistrados, bispos e nobres se engajaram ativamente na proposta.[13] Tanto o rei Gustavo II Adolfo quanto o chanceler Axel Oxenstierna figuraram entre os principais defensores do projeto.
Contudo, a Guerra dos Trinta Anos desviou os recursos suecos para o esforço militar, atrasando contribuições e diminuindo o interesse no projeto. Usselincx tentou reavivar a ideia em diversas ocasiões, inclusive junto aos estados alemães, e em 1632, no acampamento de Nuremberga, obteve do rei uma carta que lhe conferia liderança do empreendimento. Após a morte de Gustavo II Adolfo, o chanceler Axel Oxenstierna assumiu a continuidade do plano, chegando a emiti-lo novamente em Heilbronn, em 1633. Entretanto, a derrota sueca na Batalha de Nördlingen (1634) frustrou definitivamente o projeto inicial, de modo que a companhia nunca fretou navios para o comércio ultramarino.[12] A empresa passou, então, a concentrar-se exclusivamente no comércio europeu.[14]
Últimos Anos
Sem sucesso na Suécia, Usselincx procurou apoio na França e, posteriormente, retornou aos Países Baixos, onde passou a dedicar-se à escrita política e econômica. Suas críticas o colocaram em conflito com os Estados Gerais. Ainda assim, Oxenstierna retomou algumas de suas ideias em negociações de 1635, o que abriu caminho para a fundação da Nova Suécia em 1638.
Nos anos seguintes, Usselincx continuou a propor alianças entre estados europeus contra o monopólio colonial espanhol, mas sem êxito. Em 1641, voltou à Suécia, onde se envolveu em novos projetos, incluindo tentativas de drenagem de terras próximas a Mälaren, em Arboga. Em 1643 solicitou auxílio financeiro ao governo para deixar o país e retornou aos Países Baixos como agente comercial.
Faleceu por volta de 1647, após fracassadas tentativas de drenagem de Beemster, o que o levou à ruína financeira.[15] Nascido nos Países Baixos Espanhóis um ano antes da eclosão da Guerra dos Oitenta Anos, faleceu aos 80 anos, pouco antes da Paz de Vestfália. Apesar de suas iniciativas para criar tanto um "Novos Países Baixos" quanto uma "Nova Suécia", terminou a vida em pobreza, após uma trajetória marcada pela luta contra o domínio espanhol.
Referências
- ↑ Jameson, Franklin J. (1887). Willem Usselincx: Founder of the Dutch and Swedish West India Companies. Nova Iorque: Johns Hopkins University. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «Focus on the Port: Port History». Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ Trevor-Roper, Hugh (2001). The Crisis of the Seventeenth Century: Religion, the Reformation and Social Change. Indianápolis: Liberty Fund. Cópia arquivada em 9 de agosto de 2010
- ↑ Keen, Gregory B.; Odhner, C. T. (1883). «Professor C. T. Odhner's Account of Willem Usselincx and the South, Ship, and West India Companies of Sweden». The Pennsylvania Magazine of History and Biography. 7 (3): 268–270. ISSN 0031-4587. Consultado em 25 de outubro de 2020
- ↑ Martinière, Guy, Coligny, les Protestants et la mer, Presses Paris Sorbonne, 1997, p. 229
- ↑ Martinière, Guy (1997). Coligny, les Protestants et la mer (em francês). [S.l.]: Presses Paris Sorbonne. ISBN 978-2-84050-091-9. Consultado em 25 de outubro de 2020
- ↑ Israel, Jonathan (1998). The Dutch Republic: Its Rise, Greatness, and Fall, 1477–1806. Oxford: Clarendon Press
- ↑ Janvier, Thomas A. (31 de maio de 1903). «Story of the City's Early Days — Chapter II: The Dutch West India Company» (PDF). The New York Times. Cópia arquivada (PDF) em 30 de setembro de 2022
- ↑ Prado, J F de Almeida (1964). A Conquista da Paraíba. [S.l.]: Ed. Nacional. p. 199
- ↑ Emmer, P. C.; Cohendy, Mireille. Les Pays-Bas et la traite des Noirs. [S.l.: s.n.] p. 27
- ↑ a b C. T. Odhner (1879). «The Founding of New Sweden, 1637-1642». The Pennsylvania Magazine of History and Biography (em inglês). 3 (3): 269-284
- ↑ a b Hermansson, Robert (2004). The Great East India Adventure: The Story of the Swedish East India Company (em inglês). [S.l.]: Breakwater Publishing. ISBN 978-91-975200-9-6. OCLC 69677173. Consultado em 30 de agosto de 2021
- ↑ «Ständerna gav sitt samtycke till förslaget». Project Runeberg. Consultado em 21 de setembro de 2025
- ↑ Frängsmyr, Tore (1990). Ostindiska kompaniet : människorna, äventyret och den ekonomiska drömmen (em sueco). [S.l.]: Wiken. ISBN 978-91-7024-653-1. OCLC 185874879. Consultado em 30 de agosto de 2021
- ↑ «BK36». Beemster Buitenplaatsen. Consultado em 21 de setembro de 2025. Cópia arquivada em 22 de março de 2017
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