Cloacina
| Cloacina | |
|---|---|
| Deusa da Cloaca Máxima | |
![]() Denário de L. Mussídio Longo (42 a.C.) mostrando a Concórdia no anverso e duas estátuas dentro da balaustrada do santuário de Vênus Cloacina no reverso. | |
| Outro(s) nome(s) | Vênus Cloacina |
| Local de culto | Santuário da Vênus Cloacina |
| Símbolo | Cloaca Máxima |
| Região | Roma |
Na mitologia e cultura romana, Cloacina, também grafada como Cluacina, foi uma deusa que presidia a antiga Cloaca Máxima ('Grande Drenagem'): o principal sistema de esgoto e drenagem de Roma.[1]
Cloacina era associada a Vênus, a deusa romana do amor e da sexualidade. Vênus recebeu o epíteto de Venus Cloacina ("Vênus, a Purificadora"), uma entidade que personificava o aspecto purificador de suas funções. Um santuário dedicado a Vênus Cloacina ficava no Fórum Romano, ao longo da Via Sacra.[2]
Nome
O teônimo Cloācīna é um derivado do substantivo cloāca ('esgoto, drenagem subterrânea'; cf. cluere 'purificar'),[3] que vem do proto-itálico *klowā-, em última análise do proto-indo-europeu *ḱleuH-o- ('limpo'). Como Venus Cloacina — um epíteto ou título cultual de Vênus — Cloācīna pode ser interpretado como significando 'A Purificadora'.[4]
Cloaca Máxima
A construção da Cloaca Máxima foi atribuída a Tarquínio Prisco, o lendário quinto rei de Roma, que iniciou sua construção em 600 a.C.[5][6] Como Tarquínio era considerado originário da Etrúria, Cloacina pode ter sido originalmente uma divindade etrusca.[7] A estrutura foi originalmente criada para drenar os pântanos circundantes e canalizar um riacho — um afluente do Tibre conhecido como Spinon — que fluía pelas áreas que se tornariam o Fórum Romano, o Velabro, e o Fórum Boário.[8]

Ao longo dos 700 anos seguintes, o canal foi significativamente ampliado, com o sistema completo transportando água do Fórum de Augusto até o Tibre. Ele também foi conectado aos onze aquedutos da cidade e coberto com um telhado.[9] O sistema era usado para transportar água potável pela cidade, limpar lixo e detritos das ruas e drenar águas poluídas de enchentes;[6][10] consequentemente, a importância da Cloaca Máxima para a higiene da cidade era bem reconhecida pelos romanos.[11] Diferentemente dos sistemas de esgoto modernos, é muito provável que esse sistema não recebesse dejetos humanos de latrinas privadas ou públicas.[12]
Funções
O culto a Cloacina é atestado já nos tempos de Plauto (254–184 a.C.) em sua peça Curculio, que provavelmente foi escrita por volta de 197–194 a.C.[13][14] Os antigos romanos acreditavam que a água em movimento — que Varrão e Sérvio chamavam de "água viva" — era sagrada. Como a Cloaca Máxima era originalmente um riacho, o próprio sistema de drenagem também pode ter sido considerado sagrado.[10] Isso pode explicar por que os romanos preservaram o curso sinuoso original do riacho, embora as curvas e meandros do sistema tornassem a Cloaca Máxima menos eficaz do que os outros sistemas de drenagem mais retos da cidade.[12]
Portanto, como uma deusa, Cloacina pode ter presidido o sistema e incorporado suas propriedades sagradas e purificadoras. No entanto, outros estudiosos afirmam que Cloacina não estava associada à Cloaca Máxima como fonte de purificação; o próprio sistema não era limpo e, ao contrário, acabou poluindo a água potável da cidade. Alternativamente, ela pode ter presidido especificamente o antigo Velabro e o riacho que o atravessava, o Spinon, e personificado as propriedades purificadoras de suas águas.[15][16]
Como Vênus Cloacina

Não se sabe quando Vênus e Cloacina foram associadas e assimiladas pela primeira vez em Venus Cloacina.[14] Segundo o mito fundador romano, após uma guerra entre romanos e sabinos, em decorrência do rapto das mulheres sabinas, o rei sabino Tito Tácio e o rei romano Rômulo depuseram suas armas no local do santuário da Vênus Cloacina, e negociaram a paz.[17][18] Os sabinos e os romanos estavam, portanto, unidos como um só povo, e a cerimônia era marcada por um ritual de purificação com ramos de murta: um símbolo da deusa Vênus.[19][20] Como a guerra começou devido à questão do casamento, e Tácio era considerado o fundador do casamento entre os sabinos e os romanos, Vênus Cloacina pode ter sido vista como uma deusa que purificava as relações sexuais dentro do casamento.[20]
Além disso, o santuário da deusa é mencionado por Lívio como o local onde Vergínio matou sua filha Virgínia para impedi-la de ser forçada à escravidão sexual pelo decênviro Ápio Cláudio.[21] Ao matar sua filha, Vergínio declara: "Desta é a única maneira que posso, eu vindico, minha filha, a tua liberdade."[22] A morte de Virgínia garante que ela permaneça imaculada, e o fato de o local ser o santuário de Vênus Cloacina reforça a ideia de que a deusa era vista como uma força purificadora.
Vênus também era associada à água.[6] Vários ritos e festivais dedicados à deusa envolviam a purificação; um exemplo é a Venerália, onde as atendentes femininas banhavam tanto a estátua de culto de Vênus quanto a si mesmas, decoradas com guirlandas de murta.[17] Vênus e sua contraparte grega, Afrodite, também eram associadas a banhos: estátuas da deusa apareciam em instalações termais em Bostra e Akko.[23] Portanto, alguns estudiosos acreditam que Vênus Cloacina era uma deusa da fertilidade e da purificação, cujos poderes estavam diretamente ligados ao uso da água sagrada em movimento.[6]
Adoração

Um pequeno santuário circular dedicado a Vênus Cloacina estava situado em frente à Basílica Emília, no Fórum Romano, e ficava diretamente acima da Cloaca Máxima.[3][24] A estrutura remanescente consiste em uma base de mármore situada sobre uma laje de travertino, circular exceto por uma projeção retangular em sua borda oeste: os restos de uma escada.[25] A estrutura muito provavelmente data do reinado de Sula, por volta de 80 a.C.[12]
Imagens
Algumas moedas romanas retratam imagens do santuário. Um denário cunhado em 39 a.C. mostra o templo com uma balaustrada e duas figuras femininas, identificadas por Plínio como estátuas de Vênus.[6] Outras versões da imagem são semelhantes, mas retratam uma das figuras segurando uma flor.[25] Essas duas mulheres podem ter representado ambos os aspectos da deusa: Vênus e Cloacina. Uma moeda de 42 a.C. exibe a cabeça da deusa Concórdia no anverso e o santuário de Vênus Cloacina com duas figuras femininas no reverso. Esta moeda pode ter comemorado um acordo ou reconciliação entre partes, provavelmente fazendo referência à reconciliação entre os sabinos e os romanos após o rapto das mulheres sabinas.[26]
Na literatura
Em obras inglesas posteriores, particularmente durante os séculos XVIII e XIX, Cloacina foi utilizada como figura satírica, e o "templo de Cloacina" passou a ser usado como eufemismo para o banheiro.[10][27] Essa compreensão de Cloacina pode ser atribuída ao ridículo que Agostinho de Hipona fez dela, considerando-a uma deusa dos esgotos sem respeito.[28][14][29] Em The Dunciad, Alexander Pope descreve Cloacina como uma figura imunda e malcheirosa que aprecia piadas grosseiras e cujas favoritas são cobertas de fezes.[30] Além disso, ao discutir o Sober Advice from Horace de Pope, Philip Stanhope recomenda que seu filho arranque uma página do texto toda vez que precisar usar o banheiro, como um "sacrifício a Cloacina".[31]
Cloacina era associada à vulgaridade e à obscenidade. Em 1782, após a estreia do oratório de Francis Hopkinson, The Temple of Minerva, uma paródia obscena, escrita anonimamente e intitulada "The Temple of Cloacina: An Oral-whig-ial Entertainment", apareceu no jornal de James Rivington, o Royal Gazette.[32] A paródia foi escandalosa, descrita como "mais espirituosa que Rabillais [sic]; mais desagradável que Swift; mais vulgar que Tom Brown" e "repleta de sujeira e maldade".[33]
Ver também
Referências
- ↑ Rogić, Neven. «Venus Cloacina: Meet the Roman Sewer Goddess». The Collector. Consultado em 6 de fevereiro de 2026
- ↑ Barr, Jennifer (10 de março de 2025). «Cloaca Maxima: Ancient Rome's Sewer». Flush. Consultado em 6 de fevereiro de 2026
- ↑ a b Van Essen, Carel Claudius. "Venus Cloacina*." Mnemosyne 9.1 (1956): 137-144.
- ↑ de Vaan 2008, p. 122.
- ↑ Livy, History of Rome, 1.56
- ↑ a b c d e Hopkins J, Stow K. The ‘sacred sewer’: tradition and religion in the Cloaca Maxima. In: Bradley M, ed. Rome, Pollution and Propriety: Dirt, Disease and Hygiene in the Eternal City from Antiquity to Modernity. British School at Rome Studies. Cambridge University Press; 2012:81-102.
- ↑ «Tarquin | Etruscan Ruler, Last King, Tyrant | Britannica». Encyclopedia Britannica (em inglês). Consultado em 27 de janeiro de 2026. Cópia arquivada em 11 de agosto de 2025
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Bibliografia
- de Vaan, Michiel (2008). Etymological Dictionary of Latin and the other Italic Languages (em inglês). [S.l.]: Brill. ISBN 9789004167971

