Chute escorpião (capoeira)
Chute escorpião (capoeira)
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|---|---|
![]() Desenho de Raul Pederneiras Revista da Semana (1926) | |
| Informações gerais | |
| Tradução literal | Cauda de arraia |
| Outros nomes | Rabo de arraia |
| Arte marcial | Capoeira Angola, Capoeira carioca |
| Local(is) de origem | Angola, Brasil |
| Escopo | Combate, evasão, contra-ataque |
| Técnica base | Chute |
| Cronologia das artes marciais • Lista de artes marciais • Projeto Artes Marciais | |
No contexto da capoeira, o escorpião (ou rabo de arraia), originalmente conhecido como "cauda de arraia", é um chute invertido distinto, lançado por cima da cabeça, que lembra o golpe de uma arraia ou de um escorpião.[1]
O rabo de arraia com as duas pernas é uma das técnicas mais perigosas da capoeira, tanto para quem a executa quanto para quem a recebe.[2] Quando realizado corretamente, pode ter consequências fatais para o oponente.[2] Hoje em dia, os capoeiristas raramente utilizam esse golpe, exceto como último recurso, já que ele contraria um dos princípios fundamentais da capoeira: evitar o combate direto.[3] O golpe foi usado com sucesso em uma luta famosa contra um campeão de jujutsu em 1909.[2]
O rabo de arraia é uma técnica muito antiga da capoeira, que era bastante popular na capoeira carioca[4] e na capoeira Angola.[5] A mesma técnica é encontrada na arte marcial africana engolo, considerada a ancestral da capoeira.
A posição corporal lembra a postura do escorpião do yoga, porém na capoeira, ela é usada principalmente como chute.
Nomes
Rabo de arraia (cauda de arraia) é o nome mais antigo para esta técnica,[4] ainda utilizado na literatura.[5][6] Contudo, rabo de arraia também é um termo genérico na capoeira para chutes invertidos por cima da cabeça, incluindo a meia lua de compasso e todas as suas variações.
Outros nomes para esse chute incluem pantana (pântano),[7] que não é mais usado com frequência, e escorpião (escorpião), que é o nome atual para algumas variações da técnica.[8]
Origem
O chute escorpião é um dos chutes distintos do engolo, documentado pela primeira vez em desenhos da década de 1950.[9] Não é comum entre os praticantes mais antigos atuais, mas alguns deles sabem executá-lo quando solicitados.[10]
Muitas posições invertidas do engolo e da capoeira são acreditadas como originárias do uso do handstand pelos nganga, que imitavam seus ancestrais que andavam sobre as mãos no mundo espiritual.[11]
História
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No século XIX, o rabo de arraia era um chute popular na capoeira carioca do Rio de Janeiro.[12] Também era conhecido como pantana no Rio.[7]
Em 1909, houve uma luta famosa quando o capoeirista Francisco da Silva Ciríaco derrotou o campeão japonês de jujitsu Sado Miyako com o chute rabo de arraia de duas pernas.[13] Campeões de artes marciais japonesas que visitavam o Brasil frequentemente desafiavam locais para lutas de estilo livre. Sado Miyako foi desafiado por Ciríaco. A luta atraiu um grande público em um pavilhão especialmente montado na Avenida Central.[14] Após a vitória, Ciríaco foi carregado nos ombros e aclamado como herói nacional no Rio.[15]
Técnica
O capoeirista inicia o rabo de arraia apoiando as palmas das mãos no chão. Em seguida, ele chuta para trás por cima da cabeça, mirando um alvo à sua frente.[5] Ao contrário do handstand comum, em que se olha para frente, o jogador estende o pescoço e impulsiona uma das pernas em um chute giratório para trás.[6]
A altura do chute depende do alvo.[6] O escorpião é muito difícil de ser visto e extremamente perigoso nas mãos de um mestre.
Aplicação
Para quem não conhece a capoeira, este golpe pode parecer absurdo. O jogador fica de mãos no chão, de frente para o adversário, e acerta a cabeça dele com o calcanhar. Mas quem já teve a oportunidade de usá-lo na ocasião certa sabe de sua eficácia e poder destrutivo, dado o elemento surpresa, bem como a enorme força do chute.[16]
Esta técnica permite ao jogador se esquivar do chute do adversário, como armada, queixada, meia-lua de compasso, etc., e então atacar inesperadamente com um golpe extremamente poderoso e devastador.[17]
O valor do chute escorpião está no ângulo inesperado de ataque. Quando alguém está agachado, apoiado nas quatro patas e de frente para o adversário, semelhante a um gato, o oponente não espera um chute vindo diretamente por cima da cabeça.[6]
Variações
Existem diferentes versões desta técnica de chute invertido na capoeira. As variações incluem:
- escorpião em pé, onde um pé permanece no chão enquanto o outro chuta.
- escorpião na queda de rins, versão no chão do chute, a partir da posição de queda de rins.
- escorpião de cotovelo, com o cotovelo como apoio.
Com os dois pés chutando

O capoeirista se aproxima do adversário e, de repente, lança o corpo em um cambalhota, apoiando-se com as mãos no chão enquanto chuta com os dois pés em direção à cabeça do oponente.[3]
A posição inicial lembra uma parada de mão, porém com as costas arqueadas, queixo recolhido, cabeça projetada para frente, peito estufado e pernas arqueadas para trás, imitando o rabo do escorpião.[18] O jogador deve descer rapidamente e, apoiando rapidamente as duas mãos no chão, chutar com os dois pés no rosto ou no peito do adversário.[19] O resultado desse movimento é quase sempre, mesmo quando bem-sucedido, cair em cima do adversário.[3]
O nome contemporâneo para esta técnica é escorpião duplo ou simplesmente escorpião.[18] Também era conhecida como patana de frente ou pantana de cócoras na década de 1920.[7]
Na capoeira carioca, existia também uma versão lateral desse chute chamada patana de lado.[7]
Com uma perna chutando

Essa versão de rabo di arraia é executada chutando para cima até uma parada de mão.[6] O chute é feito com o calcanhar direcionado à cabeça do adversário.[20] Após a execução, o capoeirista retorna à posição inicial.[5] É comum primeiro o contato com um calcanhar e depois chutar com o outro, ou alternar as pernas antes de voltar à posição original.[5]
Com uma perna agarrada pelo oponente
Rabo de arraia amarrado (rabo de arraia amarrado) é uma das grandes armadilhas da capoeira para iniciantes.[21] Se o adversário agarrar a perna do capoeirista durante a luta, este pode se lançar de lado ao chão, apoiando-se com as duas mãos. Com três pontos de apoio, o capoeirista consegue mover a perna para trás e desferir um golpe poderoso na cabeça do oponente.[21] Alguns capoeiristas até oferecem a perna de forma astuta para que o adversário a agarre, criando a sustentação necessária para executar a técnica.[21]
Burlamaqui descreve o uso desta técnica para ludibriar o adversário. Primeiro, o capoeirista dá um toque de aviso no oponente.[13] Após o adversário agarrar a perna, o capoeirista gira de modo que as mãos se firmem no chão, enquanto a outra perna chuta violentamente o rosto ou as orelhas do oponente, o que quase sempre traz consequências graves.[13] Segundo Burlamaqui, "este é um golpe bonito pelo estilo, pois depende unicamente da inteligência".[13]
De cabeça
A variação é chamada de escorpião de cabeça ou escorpião cabeça no chão, servindo principalmente como demonstração acrobática.[22]
Nesse movimento, o capoeirista fica em parada de cabeça, equilibrando-se sobre as duas mãos estendidas. A partir da parada de cabeça, ele abaixa as pernas em direção ao chão, formando uma silhueta semelhante a um escorpião ao dobrar-se na base da coluna vertebral.[22]
Versão de esquiva

Pantana de esquiva (escape swamp) é uma saída evasiva para o golpe pantana, usada regularmente quando o capoeirista erra o alvo. Após errar a parte do pantana, o jogador continua para a posição de queda de três.[7]
Referências
- ↑ «Capoeira Escorpião». www.lalaue.com. Consultado em 9 de junho de 2025
- ↑ a b c Burlamaqui 1928, pp. 25–26.
- ↑ a b c Da Costa 1961, pp. 43.
- ↑ a b Burlamaqui 1928, pp. 24.
- ↑ a b c d e Capoeira 2007, pp. 131.
- ↑ a b c d e Taylor 2012, pp. 152.
- ↑ a b c d e Pederneiras, Raul (1926). «O Nosso Jogo». Revista da Semana
- ↑ Taylor 2012, pp. 144,146.
- ↑ Desch-Obi 2008, pp. 222,223.
- ↑ O documentário Jogo de Corpo. Capoeira e Ancestralidade (2013), de Matthias Assunção e Mestre Cobra Mansa, traz informações sobre esse desenvolvimento.
- ↑ Desch-Obi 2008, pp. 39.
- ↑ Desch-Obi 2008, pp. 173.
- ↑ a b c d Burlamaqui 1928, pp. 26.
- ↑ Assunção 2002, pp. 126.
- ↑ Desch-Obi 2008, pp. 43.
- ↑ Capoeira 2002, pp. 213.
- ↑ Capoeira 2002, pp. 280.
- ↑ a b Taylor 2012, pp. 144.
- ↑ Burlamaqui 1928, pp. 25-26.
- ↑ Capoeira 2002, pp. 34.
- ↑ a b c Da Costa 1961, pp. 45.
- ↑ a b Taylor 2012, pp. 146.
Bibliografia
- Burlamaqui, Anibal (1928). Gymnástica nacional (capoeiragem), methodisada e regrada. Rio de Janeiro: [s.n.]
- Da Costa, Lamartine Pereira (1961). Capoeiragem, a arte da defesa pessoal brasileira. Rio de Janeiro: Oficial da Marinha
- Assunção, Matthias Röhrig (2002). Capoeira: The History of an Afro-Brazilian Martial Art. [S.l.]: Routledge. ISBN 978-0-7146-8086-6
- Capoeira, Nestor (2002). Capoeira: Roots of the Dance-Fight-Game. [S.l.]: Blue Snake Books. ISBN 978-1-58394-637-4
- Capoeira, Nestor (2007). The Little Capoeira Book. [S.l.]: Blue Snake Books. ISBN 9781583941980
- Desch-Obi, M. Thomas J. (2008). Fighting for Honor: The History of African Martial Art Traditions in the Atlantic World. Columbia: University of South Carolina Press. ISBN 978-1-57003-718-4
- Taylor, Gerard (2012). Capoeira 100: An Illustrated Guide to the Essential Movements and Techniques. [S.l.]: Blue Snake Books. ISBN 9781583941768

