Caso ergativo

Caso ergativo é o caso gramatical que ocorre em línguas do mundo que tipicamente se alinham em um Sistema Ergativo-Absolutivo. O Caso Ergativo identifica o sujeito de um verbo transitivo, nas línguas ergativas-absolutivas ― em oposição ao caso absolutivo, que identifica o sujeito de verbos intransitivos ou o objeto direto de verbos transitivos. Entre as línguas ergativas-absolutivas (ou simplesmente ergativas) podemos citar o Maxakalí, o Dyirbal, o basco, o georgiano, o groenlandês ou kalaallisut, o hindi, o kurmanji (dialeto curdo), entre outras.

Características

Segundo a tipologia de argumentos proposta por linguistas com Comrie (1981)[1] e Dixon (1979,[2] 1994[3]) os argumentos de um verbo podem ser dividos em três argumentos nucleares, expressando funções sintáticas e semânticas específicas:

S = sujeito de verbos intransitivos (Single => único argumento)

A = sujeito de verbos transitvos (Agent => argumento agente)

O (ou P) = objeto de verbos transitivos. (Object;Patience => argumento paciente)

O sistema Ergativo-Absolutivo se diferencia tipologicamente do sistema Nominativo-Acusativo por apresentar uma relação de classe natural entre os sujeitos de verbos intransitivos (S) e os objetos de verbos transitivos (O), e tem uma distinção natural entre o sujeito dos verbos transitivos (A), ou seja, apresenta uma relação S = O ≠ A. O sistema Nominativo-Acusativo, por sua vez, apresenta uma relação de classe natural entre o sujeito dos verbos intransitivos (S) com o sujeito dos verbos transitivos (A) e uma distinção com o objeto dos verbos transitivos (O). Apresenta uma relação do tipo S = A ≠ O.[4]

De modo geral, nas línguas conhecidas como ergativa-absolutivas, o caso ergativo é tipicamente marcado, enquanto o caso absolutivo não é marcado. Porém, as línguas com o Sistema ergativo-absolutivo não se comportam sintaticamente de maneira regular, podendo apresentar também marcações de Caso nominativo-acusativo, motivadas por questões de ordem oracional, tempo, aspecto, pessoa, elementos discursivo-pragmáticos, etc.

Segundo Duarte (2022), os dispositivos gramaticais para indicar os sistemas de alinhamento ergativo são bastante irregulares e variam de modo significativo de língua para língua, podendo ser expressos em basicamente quatro estratégias:[5]

a) pelo sistema de flexão de Caso nos nomes;

b) por meio do uso de partículas ou adposições encíclicas ou proclíticas aos nomes;[5]

c) por meio de sistema de concordância de pessoa nos verbos;[5]

d) por meio da ordem dos constituintes nucleares, combinado com as estratégias acima.[5]

Além disso, a ergatividade nas línguas pode ser classificada como sintática ou morfológica. Isto significa que em línguas com ergatividade sintática, pode ocorrer, para além da marcação de morfemas de caso ergativo, um comportamento sintático característico desse alinhamento: os sujeitos de verbos intransitivos se alinham com os objetos de verbos transitivos em testes em sentenças subordinadas, coordenadas, relativizadas, dentre outros. Línguas como Dyirbal são prototipicamente línguas ergativas sintáticas. A ergatividade morfológica, por sua vez, apresenta a marcação de caso ergativo apenas no nível morfológico, porém seu comportamento sintático se assemelha às línguas nominativo-acusativas.[3]

Trabalhos recentes na teoria do Caso, especialmente dentro de um panorama da Gramática Gerativa, têm apoiado fortemente a ideia de que o caso ergativo é identificado como agente lógico de um verbo de ação. Este tipo de Caso é chamado de Caso Inerente, contrapondo-se com o Caso Estrutural, ou seja, Caso dissociado do papel temático do sujeito ao qual ele é marcado.[6]

Exemplos

Língua brasileiras como o Maxacali (Tronco Macro-jê) evidenciam a marcação do Caso Ergativo como Caso inerente, devido a sua presença em sujeitos de verbos de ação, independente de ser verbo transitivo ou intransitivo:

1) kakxop te kuxxamuk paha (verbo transitivo de ação)

menino erg lambari pegar

“O menino pegou lambari"


2) Yoãm te hãmyãg (verbo intransitivo de ação)

João erg dançar

'João dançou'.[7]

Em georgiano vemos um comportamento similar:[8]

3) Vano-m gamozarda dzma (verbo transitivo de ação)

Vano-ERG levantar irmão

'Vano levantou o irmão'.

4) Bavʃv-ma itira (verbo intransitivo de ação)

criança-ERG gritar

'A criança gritou'.

O Nez Perce possui um sistema de caso chamado de tripartido, com ergativo ( -nim ) e acusativo ( -ne ), além de um caso absoluto (não marcado) para sujeitos intransitivos:

5) hipáayna qíiwn : 'o velho chegou';

6) hipáayna wewúkiye 'o alce chegou';

7) wewúkiyene péexne qíiwnim 'o velho viu um alce'.

Em Sahaptin há um caso ergativo (com marcação -nɨm ) que se limita a construções transitivas apenas quando o objeto direto é de 1ª ou 2ª pessoas:

8) iwapáatayaaš łmámanɨm: 'a velha me ajudou';

9) paanáy iwapáataya łmáma: 'a velha o/a ajudou' (direto);

10) páwapaataya łmámayin: 'a velha o/a ajudou' (inverso).

Em línguas com ergativo opcional, a escolha entre marcar ou não o caso ergativo depende de aspectos semânticos ou pragmáticos, como a marcação do foco no argumento.[9]

Outras línguas que usam o caso ergativo são o checheno e outras línguas caucasianas, as línguas maias, as línguas mixe-zoque, o wagiman e outras línguas aborígenes australianas, bem como outras línguas como o basco, o burushaski e o tibetano . Entre todas as línguas indo-europeias, apenas o yaghnobi, as variedades das línguas curdas[10](incluindo o kurmanji, o zazaki e o sorani ) e o pashto das línguas iranianas e o hindi / urdu, juntamente com algumas outras línguas indo-arianas, são ergativos.

O caso ergativo também é uma característica de algumas línguas construídas, como o Na'vi, o Ithkuil.

  1. Comrie, Bernard (1981). Language Universals and Linguistic Typolopgy. [S.l.]: Chicago Press 
  2. Dixon, R. M. W. (1979). «Ergativity». Language. Ergativity (55): 55-138 
  3. a b Dixon, R. M. (1994). Ergativity. Cambridge, MA: Cambridge University Press. ISBN 9780521444460 
  4. Velupillai, Viveka (2012). An Introduction to Linguistic Typology. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins Publishing Company. ISBN 978-9027211996 
  5. a b c d Duarte, Fábio Bonfim (2022). Ergatividade e Sistemas de alinhamento em Línguas Indígenas. Campinas - SP: Mercado de Letras. 203 páginas. ISBN 978-85-7591-616-2 
  6. Woolford, Ellen (2006). «people.umass.edu/ellenw/Woolford%20Lexical%20Case,%20Inherent%20Case,%20and%20Argument%20Structure.pdf». Linguistic Inquiry. Lexical Case, Inherent Case, and Argument Structure. 37 
  7. Campos, Carlo Sandro de Oliveira (2009). «Morfofonêmica e morfossintaxe do Maxakalí». UFMG. Morfofonêmica e morfossintaxe do Maxacali.: 143 
  8. Duarte, Fábio Bonfim (2010). «O que difere uma língua ergativa de uma língua nominativa?» (PDF). UFMG. Rev. Est. Ling. 20 (2): 269-308 
  9. William B. McGregor (1 de julho de 2010), «Optional ergative case marking systems in a typological-semiotic perspective», Lingua, ISSN 0024-3841 (em inglês), 120: 1610-1636, doi:10.1016/J.LINGUA.2009.05.010, Wikidata Q122816430 
  10. Bynon, Theodora (1979). «The Ergative Construction in Kurdish». Bulletin of the School of Oriental and African Studies. The Ergative Construction in Kurdish. 42