Tomada de Oviedo (795)

Tomada de Oviedo (795)

A Península Ibérica por volta de 814
DataSetembro de 795
LocalOviedo, atual Astúrias, Espanha
DesfechoVitória omíada
Beligerantes
Emirado de Córdova Reino das Astúrias
Comandantes
Abdelcarim ibne Abede Alualide ibne Muguite
Faraje ibne Quinana
Afonso II das Astúrias
Baixas
Desconhecidas Elevadas

A Tomada de Oviedo (795) foi a ocupação e saque da capital do Reino das Astúrias por forças do Emirado de Córdova durante a grande campanha muçulmana contra os territórios cristãos do norte da Península Ibérica no final do século VIII. Lideradas por Abdelcarim ibne Abede Alualide ibne Muguite, as tropas omíadas conseguiram entrar na cidade, saqueá-la e destruir parte de suas estruturas, mas não lograram capturar o rei asturiano, Afonso II, que conseguiu escapar para as regiões montanhosas.[1][2]

O episódio ocorreu na fase final da campanha de 795, que incluiu ainda as derrotas asturianas nas batalhas de Las Babias, Quirós e Nalón. Embora os omíadas tenham obtido sucessos militares significativos, não conseguiram destruir o núcleo político do reino cristão, permitindo a sua continuidade histórica.[3]

Contexto histórico

Desde a Conquista muçulmana da Península Ibérica no início do século VIII, os reinos cristãos do norte mantiveram um estado quase contínuo de conflito com os poderes islâmicos estabelecidos em Alandalus. O Reino das Astúrias, fundado nas regiões montanhosas do noroeste peninsular, destacou-se como o principal foco de resistência cristã, especialmente durante o reinado de Afonso II.[4]

Na década de 790, esses confrontos intensificaram-se. Em 794, os asturianos infligiram uma derrota significativa às forças muçulmanas na Batalha de Lutos. Em resposta, o emir de Córdova, Hixeme I, organizou no ano seguinte uma grande expedição punitiva com o objetivo de enfraquecer decisivamente o reino cristão e, se possível, capturar o seu monarca.[5][6]

A campanha foi estruturada em duas colunas: uma avançou pela Galiza, enquanto a principal, comandada por Abdelcarim, dirigiu-se às regiões centrais das Astúrias. Diante da superioridade numérica inimiga, Afonso II adotou uma estratégia de retirada progressiva, buscando atrasar o avanço muçulmano e transferir os combates para áreas mais favoráveis à defesa.[7]

Antecedentes

A Tomada de Oviedo foi o desfecho da grande campanha omíada de 795 contra o Reino das Astúrias. Essa expedição foi concebida como uma resposta direta à derrota sofrida pelas forças muçulmanas na Batalha de Lutos (794), na qual os asturianos obtiveram uma vitória considerada humilhante para o Emirado de Córdova.[5]

Com o objetivo de enfraquecer decisivamente o poder de Afonso II, o emir Hixeme I ordenou uma ofensiva em duas frentes. Enquanto uma coluna avançava pela Galiza, a principal, comandada por Abdelcarim ibne Abede Alualide ibne Muguite, penetrou nas regiões centrais das Astúrias.[6]

Inicialmente, Afonso II tentou deter os invasores nas proximidades do passo de Puerto de la Mesa, uma rota estratégica de acesso ao interior do reino. No entanto, ao constatar a clara superioridade numérica das forças muçulmanas, o rei decidiu evitar uma batalha campal naquele ponto e iniciou uma retirada controlada, procurando ganhar tempo e deslocar o confronto para áreas mais favoráveis.[5]

Durante essa retirada, os asturianos foram sucessivamente atacados pela cavalaria omíada. O primeiro grande choque ocorreu na Batalha de Las Babias, na qual a retaguarda cristã sofreu pesadas perdas.[7] Pouco depois, na Batalha do rio Quirós, um contingente de cerca de 3 000 cavaleiros comandados por Gadaxara foi derrotado ao tentar atrasar o avanço inimigo, permitindo que o grosso do exército se afastasse em direção a Oviedo.[8]

A última tentativa de resistência antes da capital ocorreu na Batalha do rio Nalón, travada nas proximidades da cidade. Mais uma vez, os omíadas obtiveram vitória, obrigando Afonso II a abandonar posições defensivas sucessivas e a retirar-se para áreas montanhosas.[9]

Essas derrotas sucessivas abriram caminho para o avanço direto das forças muçulmanas em direção a Oviedo, que se encontrava com suas fortificações ainda em processo de reconstrução após os ataques sofridos nos anos anteriores. Foi nesse contexto que ocorreu a ocupação e o saque da capital asturiana.

A fortaleza do Nalón e a perseguição do rei

Após a derrota das forças asturianas na Batalha do rio Nalón, Afonso II retirou-se para uma fortificação situada nas proximidades do rio, cuja função era proteger os acessos à capital, Oviedo. Essa posição defensiva constituía uma última tentativa de retardar o avanço das tropas omíadas e ganhar tempo para reorganizar suas forças.[1]

O exército muçulmano, sob o comando de Abdelcarim ibne Abede Alualide ibne Muguite, prosseguiu sua marcha sem interrupções significativas. A fortaleza do Nalón foi rapidamente tomada, e seus depósitos de víveres, armas e bens valiosos foram saqueados. Segundo as fontes, o rei asturiano não teve tempo de recolher muitos de seus pertences pessoais antes de abandonar o local.[1][2]

Contudo, mais uma vez, os omíadas não conseguiram capturar Afonso II. Ao perceber a aproximação do inimigo, o monarca retirou-se apressadamente em direção a Oviedo e, posteriormente, para regiões ainda mais afastadas e montanhosas.[1]

Durante a noite, a perseguição foi temporariamente suspensa, e as tropas muçulmanas acamparam para descansar. No dia seguinte, Abdelcarim decidiu intensificar a pressão sobre o inimigo. Para isso, enviou um destacamento de cavalaria sob o comando de Faraje ibne Quinana com a missão de avançar rapidamente sobre Oviedo e tomar a cidade antes que o rei pudesse organizar qualquer resistência efetiva.[1][2]

Essa decisão marcou a transição da campanha de um conjunto de confrontos campais para um episódio de caráter eminentemente urbano-militar, culminando na ocupação e no saque da capital do Reino das Astúrias.

A tomada e o saque de Oviedo

O destacamento enviado por Abdelcarim, comandado por Faraje ibne Quinana, alcançou rapidamente Oviedo. As fortificações da cidade encontravam-se em estado precário, ainda em processo de reconstrução após os danos sofridos em campanhas anteriores, o que dificultou qualquer tentativa de resistência eficaz.[1]

Diante da aproximação das forças muçulmanas, Afonso II decidiu abandonar novamente a cidade, evitando o risco de captura. Assim, quando os omíadas penetraram em Oviedo, não encontraram o monarca, mas tomaram posse da capital sem grande oposição.[2]

Uma vez no interior da cidade, as tropas iniciaram o saque sistemático. Foram confiscados víveres, objetos de valor e bens pertencentes à casa real e às elites locais. O palácio do rei foi invadido, e seus tesouros foram apropriados pelos vencedores.[1][2]

As fontes também registram a destruição de edifícios religiosos e civis. Segundo a historiadora Jerrilynn D. Dodds, a antiga catedral de Oviedo foi severamente danificada ou destruída durante a ocupação, o que reforça o caráter não apenas militar, mas também simbólico da ação, voltada para a humilhação do poder cristão local.[10]

Apesar da extensão dos danos e da pilhagem, o objetivo central da expedição — a captura de Afonso II — não foi alcançado. O rei conseguiu refugiar-se nas regiões montanhosas, onde permaneceu fora do alcance imediato das tropas omíadas.[1]

Com a aproximação do inverno e já satisfeitos com o volume de despojos obtidos, os comandantes muçulmanos decidiram encerrar a campanha e preparar o retorno a Alandalus, levando consigo numerosos prisioneiros e riquezas acumuladas durante a expedição.[1][2]

Consequências

A retirada das forças omíadas marcou o fim da fase mais destrutiva da campanha de 795. Embora tenham obtido sucessos militares significativos, incluindo a ocupação e o saque de Oviedo, os muçulmanos não conseguiram alcançar seus objetivos estratégicos centrais: a captura de Afonso II e a eliminação definitiva do poder político asturiano.[3]

Após o recuo dos invasores, Afonso II regressou gradualmente à capital e iniciou um amplo processo de reconstrução. Segundo as fontes, Oviedo foi transformada em uma cidade residencial fortificada, com especial atenção ao reforço de suas muralhas e à reorganização de seus espaços urbanos e religiosos.[10]

Esse esforço de reconstrução teve não apenas um caráter defensivo, mas também simbólico. Ao restaurar a capital, o monarca reafirmava sua autoridade e demonstrava a continuidade do Reino das Astúrias, apesar das derrotas sofridas. A cidade passou a desempenhar um papel central na administração e na legitimação do poder régio durante o reinado de Afonso II.[11]

No plano mais amplo, a campanha de 795 e seus desdobramentos contribuíram para uma reorientação estratégica do reino. As experiências acumuladas nas derrotas de Las Babias, Quirós, Nalón e na tomada de Oviedo reforçaram a importância do uso do relevo montanhoso como elemento defensivo e da guerra de desgaste contra exércitos numericamente superiores.[12]

Pouco tempo depois, em 796, a morte do emir Hixeme I e as disputas internas que se seguiram no Emirado de Córdova reduziram significativamente a pressão militar sobre as Astúrias. Esse contexto permitiu a Afonso II consolidar seu poder e fortalecer as bases políticas e territoriais do reino ao longo do início do século IX.[13]

Importância histórica

A Tomada de Oviedo (795) constitui um dos episódios mais dramáticos da história inicial do Reino das Astúrias. Embora tenha representado uma vitória tática para as forças omíadas, o evento não resultou na destruição do poder cristão no norte da Península Ibérica. A incapacidade de capturar Afonso II ou de eliminar o núcleo político do reino permitiu a continuidade da monarquia asturiana e sua posterior consolidação.[3]

Do ponto de vista simbólico, o saque da capital teve grande impacto. A destruição de edifícios religiosos e administrativos, como a antiga catedral, visava não apenas a obtenção de riquezas, mas também a humilhação do poder cristão local.[10] Ainda assim, o processo de reconstrução empreendido por Afonso II transformou Oviedo em um centro político e religioso ainda mais relevante no século IX.

Na historiografia, o episódio é frequentemente interpretado como um exemplo da precariedade inicial dos reinos cristãos do norte, mas também como uma demonstração de sua capacidade de adaptação e resistência. A sobrevivência política das Astúrias após sucessivas derrotas militares revela que, nos primeiros séculos da Reconquista, a permanência institucional era muitas vezes mais decisiva do que vitórias isoladas no campo de batalha.[11]

Nesse sentido, a Tomada de Oviedo deve ser compreendida como parte de um processo mais amplo de consolidação do poder asturiano, que, ao longo do século IX, daria origem a uma expansão territorial progressiva e ao fortalecimento das bases do que mais tarde se tornaria o Reino de Leão.

Ver também

Referências

  1. a b c d e f g h i Esparza 2009, p. 157.
  2. a b c d e f Selgas 1908, p. 16.
  3. a b c Collins 2012, pp. 68–69.
  4. Collins 2012, p. 65.
  5. a b c Suárez Fernández 1976, pp. 170–171.
  6. a b Esparza 2009, pp. 149–152.
  7. a b Esparza 2009, pp. 153–155.
  8. Esparza 2009, pp. 156–157.
  9. Esparza 2009, pp. 158–159.
  10. a b c Dodds 1990, p. 113.
  11. a b Esparza 2009, pp. 159–160.
  12. Suárez Fernández 1976, pp. 171–172.
  13. Collins 2012, pp. 69–70.

Bibliografia

  • Esparza, José Javier (2009). La gran aventura del reino de Asturias: Así comenzó la Reconquista. Madrid: La Esfera de los Libros. ISBN 978-84-9970-404-3 
  • Selgas, Fortunato de (1908). Monumentos ovetenses del siglo IX. Oviedo: Imprenta de Vicente Brid 
  • Collins, Roger (2012). Caliphs and Kings: Spain, 796–1031. Oxford: Wiley-Blackwell. ISBN 978-1-118-27399-9 
  • Dodds, Jerrilynn D. (1990). Architecture and Ideology in Early Medieval Spain. University Park: Pennsylvania State University Press