Batalha de Cervera

Batalha de Cervera
Data30 de julho de 1000
LocalPeña Cervera, Condado de Castela, Reino de Leão
Beligerantes
Reino de Pamplona
Reino de Leão
Condado de Castela
Califado de Córdova
Comandantes
Sancho Garcia
Garcia Gomes
Almançor
Forças
Desconhecido 20 mil (estimativa moderna)[1]
Baixas
Desconhecido 700[1][2]

A batalha de Cervera, também conhecida como arrancada de Cervera, ocorreu na Peña Cervera na segunda-feira, 30 de julho do ano 1000, e opôs a coalizão cristã formada por tropas navarras, castelhanas e leonesas, sob o comando de Sancho Garcia (conde de Castela) e de Garcia Gomes (conde de Saldanha), às hostes do líder muçulmano Almançor, que obteve a vitória. Nas palavras de Víctor Saornil, foi «a única batalha em que os exércitos cristãos roçaram a vitória».[3]

Antecedentes

O exército andalusino não combatia em campo aberto desde a batalha de Rueda em 981 e desde o saque de Santiago de Compostela em 997. Todos os reis, príncipes e condes cristãos viviam sob uma paz imposta por Almançor que não o impediu de lançar novas aceifas[4] (particularmente desde a morte do conde castelhano García Fernández em 995). As razias recomeçaram com um ataque contra Pallars e Pamplona,[5] a qual foi socorrida por Sancho García (999).[6] Um ano depois, Almançor lançou uma campanha contra os castelhanos. O hájibe muçulmano precisava dessas expedições para financiar com o saque o seu numeroso exército e manter os seus oficiais ocupados. O exército califal havia aumentado de 30 mil homens nos tempos de Abderramão III para 50 mil,[7] graças a contingentes de mercenários berberes trazidos do Magrebe pelo próprio hájibe e leais somente a ele. Apenas uma parte desse exército acompanhava Almançor em suas expedições; o restante permanecia guarnecendo as cidades do Califado de Córdova. Por razões desconhecidas (talvez o auxílio do conde castelhano aos navarros, talvez o abandono do tributo ou o incentivo de Sancho à rebeldia dos condes leoneses frente a Córdova), Almançor decidiu lançar uma ofensiva contra Castela.[8]

Batalha

Monumento a Almanzor na província de Soria

Em 21 de junho do ano 1000,[9] Almançor partiu de Córdova pronto para punir o desafio do conde com uma numerosa hoste.[6] Durante sua marcha, destruiu a vila de Canales de la Sierra, no limite oriental do condado de Castela, nas estribações meridionais da Serra da Demanda.[10] Sancho Garcia reuniu suas forças e recebeu contingentes de outros nobres cristãos,[8] como o rei de Pamplona, o de Leão ou o conde de Saldanha,[11] de forma que se reuniu uma tropa numerosa de leoneses, castelhanos e navarros.[3] O encontro teve lugar em Jarbaira[8] ou Peña Cervera, ao sul de Silos, entre esses altos e a localidade de Espinosa de Cervera.[12] Os dirigentes cristãos declararam ilícita a fuga,[13] e seus homens estavam dispostos a não retroceder em defesa de Castela. Estavam acampados numa sólida posição defensiva no alto[12] de um penedo que controlava a passagem de numerosos caminhos.[8] Os dois exércitos travaram contato em 29 de julho e prepararam-se para combater ao amanhecer do dia seguinte.[12] Almançor, sem saber bem o que fazer ao perceber o tamanho da hoste cristã e sua vantajosa posição, decidiu reunir-se com seus oficiais para decidir a estratégia.[13]

Na manhã do dia 30, enquanto os cordoveses ainda não haviam decidido um plano de ação, o conde castelhano lançou um ataque inesperado[13] descendo pelas encostas da penha contra os flancos do exército cordovês.[12] Os cristãos pressionaram com sua cavalaria ambos os flancos dos muçulmanos, que mal se mantinham,[3][13] surpreendidos pelo embate inimigo. Justo no momento em que seu flanco direito estava prestes a desmoronar por completo, Almançor enviou seu filho favorito, Abedal Maleque Almuzafar, para sustentá-lo, enquanto seu outro filho, Abderramão Sanchuelo, iria auxiliar outro ponto na linha de batalha. Esses reforços equilibraram o combate, que se intensificou.[12] Um dos chefes berberes que acompanhavam Almuzafar matou um dos condes Banu Gomes.[14] Então, Almançor realizou a manobra que lhe valeu a vitória nesse renhido confronto: ordenou transferir o acampamento da depressão onde se encontrava para um outeiro próximo.[12][2] O conde castelhano acreditou que as forças que apareceram no alto eram novos reforços que acudiam à batalha e ordenou a retirada,[10][3] que se converteu em debandada.[12] A cavalaria islâmica encarregou-se de perseguir o inimigo. Almançor conseguiu capturar o acampamento inimigo.[2]

Consequências

Era a primeira vez que a união dos cristãos enfrentava o exército de Almançor e quase lhe causava a derrota.[15][9] As baixas do exército califal foram estimadas em setecentos mortos pelos cronistas muçulmanos.[2] Almançor conseguiu capturar o acampamento inimigo, com numerosas armas e objetos de valor.[2] Almançor morreria em 1002, quando estava em campanha em terras riojanas. Sua morte repentina, aos 62 anos, inspirou vários mitos. Segundo algumas versões, ele sofria de uma doença desconhecida desde o saque de Santiago de Compostela (997) e após ter dado de beber ao seu cavalo a água da pia batismal.[16] O animal morreu imediatamente e ele contraiu o mal; mas mais conhecida é a lenda de sua derrota em Calatanhaçor, considerada pelos historiadores modernos um eco adornado pelas crônicas posteriores de sua vitória pírrica em Cervera.[3]

Referências

  1. a b del Pozo 1999, p. 53.
  2. a b c d e Díez 2005, p. 567.
  3. a b c d e González 2007, p. 125.
  4. Díez 2005, p. 563.
  5. Gómez 2002, p. 133.
  6. a b Díez 2005, p. 564.
  7. Fletcher 1991, p. 23.
  8. a b c d Díez 2005, p. 568.
  9. a b Gómez 2002, p. 134.
  10. a b del Pozo 1999, p. 53.
  11. Gómez 2002, p. 135.
  12. a b c d e f g Gómez 2002, p. 136.
  13. a b c d Díez 2005, p. 565.
  14. Díez 2005, p. 566.
  15. Díez 2005, p. 569.
  16. González 2007, p. 124.

Bibliografia

  • González, Juan Bautista (2007). España estratégica: guerra y diplomacia en la historia de España. Madri: Silex Ediciones. ISBN 9788477371830 
  • del Pozo, José María Fernández (1999). Reyes de León: Alfonso V (999-1028) - Vermudo III (1028-1037) (em espanhol). Burgos: La Olmeda, S.L. ISBN 84-89915-07-5 
  • Díez, Gonzalo Martínez (2005). El condado de Castilla, 711-1038. Madri: Marcial Pons Historia. ISBN 978-84-95379-94-8 
  • Gómez, Juan Castellanos (2002). Geoestrategia en la España musulmana: las campañas militares de Almanzor. Madri: Ministerio de Defensa. ISBN 9788478239672