Agência (sociologia)
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Agência, na acepção utilizada em ciências sociais, é a capacidade de indivíduos ou coletividades de agir, fazer escolhas e produzir efeitos no mundo social. A ideia expressa a possibilidade de iniciar cursos de ação, influenciar circunstâncias e, em alguma medida, transformar as estruturas sociais em que os atores estão inseridos.[1] O conceito tem sua a origem na resposta a uma questão fundamental: até que ponto os seres humanos são livres para agir, e até que ponto seus comportamentos são moldados, dirigidos ou limitados pela sociedade?
Esse questionamento situa a agência em relação à estrutura social, entendida como os padrões duradouros de instituições, normas, papeis e recursos que orientam e limitam a ação humana.[2] Enquanto a estrutura representa forças que moldam e constrangem o comportamento, a agência destaca a capacidade dos atores de responder criativamente a essas forças, reproduzindo-as, modificando-as ou resistindo a elas por meio de suas ações cotidianas e coletivas.[3]
História do conceito
As origens da noção de agência remontam à filosofia clássica. Em Aristóteles, a agência aparece associada à phronesis, a sabedoria prática necessária para deliberar sobre ações e conduzir a vida de forma virtuosa. Durante o Iluminismo, filósofos como Immanuel Kant aprofundaram o tema ao defender que os indivíduos possuem autonomia e capacidade de autogoverno moral, tornando-se fontes racionais de sua própria ação.[3][4]
Com a consolidação da sociologia no século XIX, a problemática adquire nova formulação. Para Émile Durkheim, os indivíduos não agem em um vazio social; suas ações são moldadas por maneiras coletivas de agir, pensar e sentir que se impõem como fatos sociais externos, coercitivos e independentes das vontades individuais. Essa perspectiva enfatiza os limites da agência humana diante da força das instituições sociais.[5][6][7]
Karl Marx introduziu uma leitura que reconhece a tensão entre condicionamento estrutural e transformação social. Para ele, os seres humanos produzem sua própria história, mas sob condições dadas e herdadas. O trabalho humano — a práxis — é uma forma privilegiada de agência, uma vez que ao transformar o mundo material, os seres humanos transformam também suas próprias relações sociais.[8]
Para Max Weber, compreender a agência requer identificar os significados subjetivos que orientam a ação social. A ação só pode ser explicada plenamente quando se considera o sentido que os indivíduos atribuem às suas condutas, sejam elas racionais, afetivas ou tradicionais.[8][2]
Abordagens
Fenomenologia e interacionismo
A partir da fenomenologia social de Alfred Schütz e das contribuições de Peter Berger, Thomas Luckmann e Harold Garfinkel, a agência é vista como emergente das interações cotidianas. Nessas abordagens, os indivíduos mobilizam conhecimentos práticos acumulados ao longo da vida para lidar com situações recorrentes, como os modos de cumprimentar um colega, a rotina de utilizar transportes públicos ou o comportamento adequado ao participar de reuniões de trabalho. Essas situações, embora previsíveis, não são meramente mecânicas: os atores podem adaptá-las, improvisá-las ou subvertê-las conforme seus objetivos, revelando a dimensão criativa da agência mesmo dentro de contextos altamente estruturados.[9]
Pragmatismo

A tradição pragmatista, que inclui autores como George Herbert Mead e Herbert Blumer, enfatiza que a ação humana é fundamentalmente interpretativa e criativa. Ao interagir socialmente, os indivíduos atribuem significados às situações, ajustam suas condutas e, com isso, produzem novas formas de ação. Hans Joas aprofunda esse argumento ao destacar que a criatividade não é atributo excepcional, mas traço rotineiro da ação humana; Margaret Archer introduz a ideia de reflexividade, sugerindo que os indivíduos realizam “conversas internas” —diálogos mentais — para deliberar sobre suas ações e objetivos.[10]
Construtivismo
Abordagens construtivistas criticam a ideia de que a agência seria um atributo inato e igualitário entre os indivíduos. Em vez disso, tratam a agência como uma propriedade socialmente atribuída — reconhecida, negada ou distribuída de maneira desigual. Historicamente, mulheres, crianças, povos colonizados e grupos racializados tiveram sua capacidade de agir sistematicamente limitada ou negada por regras jurídicas, normas culturais e classificações sociais. Essa perspectiva permite examinar como diferentes sociedades atribuem ou retiram agência de determinados grupos, transformando o conceito em objeto empírico de investigação.[8]
Materialismo cultural
Na tradição marxista britânica, Raymond Williams propôs uma visão inovadora da agência cultural. Para ele, práticas culturais não são simples reflexos da estrutura econômica (a chamada "superestrutura"); são atividades criativas nas quais indivíduos e grupos produzem significados, visões de mundo e formas de expressão que podem desafiar a ordem existente. Williams distingue práticas dominantes, residuais e emergentes, sendo estas últimas reveladoras de momentos em que a agência coletiva altera orientações culturais estabelecidas.[2][11] Williams observou que em qualquer sociedade coexistem práticas culturais dominantes (as que prevalecem e são aceitas pela maioria), residuais (vindas do passado) e emergentes (novas formas que surgem e podem desafiar o status quo). É justamente nas práticas emergentes que a agência se manifesta com mais força: escritores, artistas e intelectuais podem criar novos significados que contestam as formas de dominação estabelecidas. Por exemplo, movimentos culturais, como o hip hop nas periferias urbanas, representam práticas emergentes em que jovens marginalizados exercem agência, uma capacidade coletiva de criar alternativas históricas concretas que desafiam representações dominantes.[11]
Globalidade da agência
A teoria da sociedade mundial, desenvolvida por John W. Meyer e colaboradores, sustenta que a modernidade global expandiu a agência ao difundir princípios universalistas, como racionalização científica, direitos humanos e modelos organizacionais padronizados. Os atores — indivíduos, organizações e Estados — são concebidos como agentes com competências, responsabilidades e capacidades universalmente reconhecidas.[8]
Segundo essa perspectiva, três mecanismos estruturam a disseminação da agência no plano global. A difusão global ocorre quando unidades sociais observam e imitam umas às outras; a interdependência emerge da crescente conectividade entre atores; e o desacoplamento descreve a diferença entre identidades formais moldadas por modelos universais e práticas locais ajustadas a constrangimentos particulares.[10] As universidades modernas, por exemplo, tornaram-se modelos globais de agência organizacional, responsáveis pela expansão institucional do conhecimento científico em todo o mundo.[11] Além disso, a forma organização se expandiu mundialmente como unidade básica da vida institucional moderna.[12]
Teoria ator-rede
A teoria ator-rede, associada a Bruno Latour, Michel Callon e John Law, propõe que a agência não é monopólio dos seres humanos. Objetos, tecnologias, instrumentos, algoritmos, infraestruturas e artefatos também participam da constituição dos cursos de ação. Um semáforo, um software ou um prontuário médico, por exemplo, orientam e modulam comportamentos, contribuindo para estabilizar rotinas ou tornar possíveis transformações. Nessa abordagem, o “social” não é uma substância, mas o efeito de redes de associação entre actantes humanos e não humanos.[13]
Psicologia da agência
Pesquisas em psicologia cognitiva investigam os processos pelos quais indivíduos percebem estar ou não no controle de suas ações. Estudos clássicos de Janet Metcalfe mostram que julgamentos de agência dependem tanto de previsões sensório-motoras (quando o corpo antecipa o retorno de seus próprios movimentos) quanto de interpretações cognitivas mais amplas, influenciadas por crenças, expectativas e contextos sociais.[14] Pesquisas em neurociência também exploram como o cérebro forma a sensação de autoria e controle sobre ações voluntárias.[15]
Dimensões da agência
A literatura sociológica identifica dimensões centrais que compõem o fenômeno da agência. Uma delas é a intencionalidade, que diz respeito ao fato de que ações humanas são dirigidas a objetivos. A autonomia relativa expressa o grau de independência com que os indivíduos podem agir dentro de limites estruturais, reconhecendo que liberdade plena é impossível, mas que resistência, improvisação e criatividade permanecem possíveis. A reflexividade consiste na capacidade de monitorar e avaliar a própria conduta, ajustando decisões e cursos de ação conforme necessidades e circunstâncias. Já a relação entre agência e poder destaca que ações humanas frequentemente envolvem responder a estruturas de dominação, seja reproduzindo-as, seja resistindo a elas em processos micro ou macro sociais.[9]
Mustafa Emirbayer e Ann Mische propõem uma concepção temporal da agência. Segundo esses autores, toda ação combina três dimensões: a iteração, que consiste na reativação seletiva de padrões anteriores de pensamento e conduta; a projetividade, que envolve imaginar trajetórias futuras possíveis ligadas a esperanças, receios e aspirações; e a avaliação prática, que se refere à capacidade de julgar entre alternativas presentes diante das demandas e imprevistos da situação.[6] Essa formulação destaca que a ação humana articula passado, futuro e presente de modo contínuo, combinando rotinas, imaginação e deliberação.
Estrutura e agência
O debate estrutura-agência constitui um dos eixos analíticos mais importantes da teoria sociológica. Perspectivas estruturalistas, como o funcionalismo de Durkheim e Talcott Parsons, argumentam que instituições, normas e valores são forças determinantes do comportamento individual, moldando preferências, expectativas e limites de ação.[4] Em contraste, abordagens centradas na agência, incluindo perspectivas interacionistas e individualismo metodológico, enfatizam o papel das escolhas individuais, da criatividade e da capacidade humana de transformar o contexto.
A polarização entre estrutura e agência levou diversos autores a propor sínteses. Anthony Giddens desenvolveu a teoria da estruturação, segundo a qual estrutura e ação formam um processo dual: estruturas são ao mesmo tempo meios e resultados da ação. Pierre Bourdieu, por sua vez, desenvolveu o conceito de habitus, que descreve disposições incorporadas que orientam práticas sem determiná-las de forma rígida, articulando agência e condicionamento de modo dinâmico.[9]
Abordagens construtivistas acrescentam que diferentes grupos sociais têm sua agência reconhecida ou negada conforme posições de poder, marcadores identitários e classificações sociais. Assim, o debate estrutura-agência também envolve disputas sobre quem é reconhecido como agente legítimo em diferentes contextos.[7]
Aplicações contemporâneas
O conceito de agência possui aplicações amplas na sociologia contemporânea. Na sociologia da educação, investiga-se como estudantes, professores e famílias interpretam e respondem a normas escolares, orientações curriculares e expectativas institucionais, evidenciando como ações individuais e coletivas transformam ou reforçam dinâmicas educacionais. Nos estudos organizacionais, a agência é empregada para analisar como indivíduos e grupos dentro de organizações — de empresas a órgãos públicos — reproduzem ou modificam estruturas institucionais, práticas de trabalho e relações de autoridade.[16]
Na análise de movimentos sociais, a agência aparece tanto no nível individual, quando pessoas se engajam politicamente, quanto no nível coletivo, quando grupos mobilizam recursos, constroem identidades compartilhadas e desafiam estruturas de dominação. Debates sobre agência por procuração — quando atores agem em nome de outros — também são relevantes nesse campo.[2]
Nos estudos de gênero e sexualidade, examina-se como práticas performativas, discursos e identidades são construídos e transformados por sujeitos que resistem a normas dominantes ou criam alternativas simbólicas e políticas para expressar suas experiências.[2]
Ver também
- Estrutura social
- Ação social
- Habitus
- Teoria da estruturação
- Teoria ator-rede
- Interacionismo simbólico
- Agência (filosofia)
Referências
- ↑ Giddens, A. (2003). A Constituição da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes.
- ↑ a b c d e Barker, C. (2005). Cultural Studies: Theory and Practice. Londres: Sage.
- ↑ a b Hubner, A. (2021). Agência na sociologia: os diferentes usos do conceito de agência em Weber, Giddens e Latour. Caderno Eletrônico de Ciências Sociais, 9(2), pp. 86–103.
- ↑ a b Parsons, T. (1949). The Structure of Social Action. Nova York: Free Press.
- ↑ Durkheim, É. (2007). As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes.
- ↑ a b Emirbayer, M.; Mische, A. (1998). What is Agency?. American Journal of Sociology, 103(4), pp. 962–1023.
- ↑ a b Herwso, M. (2008). Agency. In: Darity, W. A. (ed.). International Encyclopedia of the Social Sciences. 2ª ed. Detroit: Macmillan Reference.
- ↑ a b c d Meyer, J. W. (2010). World Society, Institutional Theories, and the Actor. Annual Review of Sociology, 1, pp. 1–20. doi:10.1146/annurev.soc.012809.102506. Consultado em 28 out. 2025.
- ↑ a b c Fuchs, S. (2011). Agency (and Intention). In: Ritzer, G.; Ryan, J. M. (eds.). The Concise Encyclopedia of Sociology. Oxford: Blackwell Publishing, p. 8.
- ↑ a b Stichweh, R. (2012). En torno a la génesis de la sociedad mundial: Innovaciones y mecanismos. Revista MAD, 26. doi:10.5354/0718-0527.2012.18892. Consultado em 28 out. 2025.
- ↑ a b c Frank, D. J.; Meyer, J. W. (2007). University Expansion and the Knowledge Society. Theory and Society, 4, pp. 287–311. doi:10.1007/s11186-007-9035-z. Consultado em 28 out. 2025.
- ↑ Meyer, J. W.; Bromley, P. (2013). The Worldwide Expansion of ‘Organization’. Sociological Theory, 4, pp. 366–389.
- ↑ Segata, J. (2012). Latour, Bruno. Reagregando o Social: uma introdução à Teoria do Ator-Rede. Ilha – Revista de Antropologia, 14(1–2).
- ↑ Metcalfe, J.; Eich, T. S.; Castel, A. D. (2010). Metacognition of agency across the lifespan. Cognition, pp. 267–282.
- ↑ Carter, R. (2009). The Human Brain Book. [S.l.: s.n.], 189 p.
- ↑ Encyclopedia MDPI (2025). Agency (Sociology). Disponível em: https://encyclopedia.pub/entry/53651. Acesso em: 9 nov. 2025.
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