Adolfo Maria
| Adolfo Maria | |
|---|---|
| Nascimento | 2 de outubro de 1935 (90 anos) Luanda |
| Cidadania | Angola |
| Ocupação | jornalista, político, locutor de rádio, escritor, militar, docente |
Adolfo Rodrigues Maria (Luanda, 2 de outubro de 1935)[1] é um escritor, radialista, jornalista, professor e militar reformado angolano.[2]
É, ainda, um notório pensador marxista,[3] importante na construção do conceito de angolanidade.[4]
Biografia
Filho de pais oriundos da região portuguesa de Trás-os-Montes,[5] Adolfo Rodrigues Maria nasceu em Luanda, em 2 de outubro de 1935.[6] Seu pai era operário da Companhia do Caminho de Ferro de Luanda e sua mãe trabalhava como modista.[4] Na capital angolana, fez os estudos secundários no Liceu Salvador Correia,[6] tendo como colega de classe a Luandino Vieira.[4] Concluiu o curso médio de topografia na Escola Industrial de Luanda.[2]
Na década de 1950, passa a ter interesse pelos ideais nacionalistas, particularmente aqueles que circulavam na periferia de Luanda.[4][7] Aproxima-se e filia-se ao Partido Comunista Angolano, fundado em 1955.[6] Neste mesmo período, ingressa na Sociedade Cultural de Angola e passa a trabalhar como jornalista do periódico "A Cultura".[6] Em função da sua atividade político-literária, foi preso em 15 de outubro de 1959[4] pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE),[8][9][10] enquanto deixava seu turno como topógrafo no Instituto de Geodesia, Cartografia e Cadastro (IGCC) onde trabalhava.[4]
Após solto, e para despistar da vigilância da PIDE, passa a trabalhar em 1961 como redator do jornal ABC – Diário de Angola.[4] Em 1962 deixa Angola, primeiramente para Portugal, seguindo para Paris, na França.[6] Neste país, articula a refundação da Frente de Unidade Angolana (FUA) com vários militantes e simpatizantes do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).[3][5][6] A FUA, que se definia como uma organização política nacionalista, interracial e independentista, estava sob comando do escritor Sócrates Dáskalos.[3][4]
Em 1963 muda-se para Argel,[3] onde trabalhou na fundação do Centro de Estudos Angolanos (CEA), entidade que serviu para a formação e difusão cultural e acadêmica sobre a luta anticolonial angolana.[6] Além de Adolfo Maria, colaboraram também na fundação do CEA os nomes de Pepetela, Henrique Abranches, Helena Maria, Maria do Céu Carmo Reis, Edmundo Melo Rocha, Ernesto Lara Filho, João Vieira Lopes e Mário de Almeida Kasesa.[4][11] Por influência de Adolfo Maria, o CEA torna-se uma entidade vinculada principalmente ao MPLA.[6] A partir deste momento, Adolfo Maria torna-se um importante apoiador do MPLA, mesmo ainda não filiado, servindo como elo diplomático e de propaganda para o partido na Argélia e na Europa,[6] além de tradutor e nome intelectual de relevo nas temáticas marxistas da cultura, da revolução e do anti-imperialismo.[10] Enquanto na Argélia, matriculou-se no curso superior de engenharia agronômica na Escola Politécnica Nacional de Argel, mas não o concluiu dado a necessidade de mudar-se para o Congo-Brazavile.[12]
Em 1966 o partido o convida formalmente a se filiar e a mudar-se para Brazavile para trabalhar inicialmente na reorganização dos Centros de Instrução Revolucionária (CIR's), na montagem de um CEA na capital brazavile-congolesa e na reorganização das campanhas de alfabetização do partido iniciadas por Rocha Dilolwa três anos antes.[10]
É enviado em 1968 para Frente Norte (2ª Região Político-Militar), fundando e fazendo trabalho de formação política marxista no Instituto 4 de Fevereiro (também chamado de Externato 4 de Fevereiro) em Dolisie, além de outras bases do partido em Maiombe (Cabinda).[6] Em 1969 suas atribuições na Frente Norte passam a ser mais ligadas às atividades culturais e na chefia do Departamento de Informação e Propaganda (DIP), passando a trabalhar como radialista da rádio revolucionária Angola Combatente,[6] bem como na formação de jornalistas para o partido.[4] Neste período, envolve-se na construção do conceito de angolanidade a partir da visão marxista, registrados principalmente em sua obra inicial como comunicador denominada "Textos de Angola Combatente" (finalizada em 1972).[4]
No período de 1972-1974, porém, o MPLA passava por uma intensa disputa política interna.[13] As discussões eram instigadas por puristas anticoloniais em Brazavile, no ano de 1972, e giravam em torno da temática racista,[6] que dominava os rumos do partido naquela altura.[13] Grandes porções do partido identificavam as recentes e constantes derrotas militares no Leste angolano como emanadas de uma liderança branco-mestiça, a qual identificavam como maiores representantes Lúcio Lara, sua esposa Ruth Lara, Iko Carreira, Adolfo Maria e a esposa de Agostinho Neto, Maria Eugénia Neto.[13] Adolfo Maria perdeu todos os seus cargos e atribuições partidárias em 1972.[6][14] Em 1973 foi reabilitado para funções comunicativas e ideológicas no partido, passando a dirigir o Centro de Documentação dos Serviços de Planeamento e a trabalhar novamente como radialista.[4]
Como as discussões racistas permaneceram ao ponto de perder novamente seus cargos e funções, Agostinho Neto tentou contornar a situação ao o indicar em 1973 para coordenar o Movimento de Reajustamento da Frente Leste e depois da Frante Norte, mas, diante do que considerou um fracasso no aspecto político, Adolfo Maria abandonou as suas atribuições.[6] A desilusão do que considerava uma posição demasiado "presidencialista absoluta" do centralismo democrático instituído por Neto no MPLA o fez, a partir de 1974, iniciar a organização, juntamente com Gentil Ferreira Viana e Filipe Felisberto Monimambo "Spartacus", de uma tendência de oposição clandestina à chamada "Ala Presidencial" (que dominava o Comité Director do MPLA).[6] Essa tendência resultou na redação e publicação do "Manifesto dos Dezanove" e no surgimento oficial da "Revolta Activa".[6] As divisões foram superadas num complicado processo de discussão e negociação no Congresso de Lusaca e na Conferência Inter-regional no Lundoji, terminando com a reafirmação da autoridade de Agostinho Neto.[6] Porém, Adolfo Maria e nomes de Viana, Daniel Chipenda, Joaquim Pinto de Andrade e Mário Pinto de Andrade, foram desfiliados do MPLA em 1974.[6]
Em 1975, todas as tentativas de reconciliação da Revolta Activa com o MPLA acabaram por ser travadas por Nito Alves, nome que, à altura, era o Comandante-Chefe da 1ª Região Político-Militar das FAPLA e controlava uma extensa rede de organizações de massa vinculadas ao partido na zona luandina e do centro-norte do país.[11] Mesmo expulso do MPLA, Adolfo Maria permaneceu em Luanda durante todo o processo de independência angolano, voltando ao seu antigo emprego como topógrafo no IGCC (actual Instituto Geográfico e Cadastral de Angola-IGCA).[2]
Em 13 de abril de 1976,[10] diante da prisão de muitos membros da Revolta Activa pelo Ministro Nito Alves,[15] e de um mandato de captura, Adolfo Maria passou a viver escondido em Luanda e na total clandestinidade.[10] Enquanto estava escondido, elaborou uma lista de presos que foi entregue à Anistia Internacional, fato que pressionou o governo angolano a reconhecer as prisões políticas de membros da Revolta Activa.[6] No tempo em que esteve escondido conseguiu escrever biografias sobre os presos políticos angolanos e enviá-los à publicação em Portugal,[4] além de poemas e romances.[15]
Quando a amnistia para todos os presos políticos anteriores a 1977 foi decretada pelo Presidente Agostinho Neto em 1978,[6] Helena Maria intercedeu junto ao governo angolano a liberdade do esposo Adolfo Maria.[3][6] Permaneceu escondido até setembro de 1978, quando entregou-se à DISA.[10] Ficou preso por um mês em regime fechado e por dois meses em prisão domiciliar.[6] Atendendo a uma carta de Helena Maria, em seguida Agostinho Neto ordenou a liberdade total e a extinção das acusações contra Adolfo Maria.[10]
Partiu num voo para o exílio em Portugal, juntamente com sua esposa Helena Maria,[6] reencontrando em Lisboa companheiros de luta como Gentil Viana e Mário de Andrade.[8][9] Passou a trabalhar em Portugal como jornalista.[6]
Em meados da década de 1980 criou, com Mário de Andrade e Gentil Viana, o Grupo de Reflexão com o intuito de fomentar discussões sobre a pacificação angolana.[6] Voltou a Angola em 1991, acompanhando Viana, para apresentar à sociedade civil um plano de convivência nacional e pacificação das forças beligerantes.[6] Ambos retornaram a Portugal em 1992 com o reinício da Guerra Civil Angolana.[8]
Na década de 1990 foi contratado como analista político da Radiodifusão Portuguesa (RDP).[6] Reabilitado em Angola, tornou-se militar reformado das Forças Armadas Angolanas na década de 2010, visitando o país com maior periodicidade.[2]
Vida pessoal
Casou-se em 1959 com Helena Maria, tendo dois filhos.[4][6]
Obras
Dentre as várias obras de importância escritas por Adolfo Maria, destacam-se:
- Textos de Angola Combatente (1972);[4]
- Angola. Sonho e Pesadelo. Colibri (2014);[4]
- Na Terra dos TTR. Colibri (2014);[4]
- Angola. Contributos à Reflexão. Colibri (2015);[4]
- Naquele Dia, Naquele Cazenga (2016);[7]
- Angola no tempo da ditadura democrática revolucionária: poética do auto-cárcere (2016).[15]
Referências
- ↑ «Adolfo Maria». Associação Tchiweka de Documentação. 2021
- ↑ a b c d «Angola Fala Só: Bilhete de Identidade de Adolfo Maria». VOA Português. 18 de setembro de 2018. Consultado em 29 de janeiro de 2026
- ↑ a b c d e Sócrates Dáskalos (2000). Um testemunho para a História de Angola: Do Huambo ao Huambo (PDF). Lisboa: Vega. Cópia arquivada (PDF) em 4 de janeiro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r Rogério Santos (dezembro de 2020). A rádio colonial em Angola - Festas e rifas para comprar o emissor. [S.l.]: ECC – Estudos de Comunicação e Cultura / Sersilito – Empresa Gráfica, Lda. ISBN 9789725407448
- ↑ a b Isabel de Souza Lima Barreto (2012). «O Êxodo da minoria branca de Angola - adaptação ao contexto brasileiro». Universidade Estadual do Maranhão. Outros Tempos. 9 (13): 46-65
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab Fátima Salvaterra Peres (2010). A Revolta Activa: Os conflitos identitários no contexto da luta de libertação (em Angola) — dissertação de mestrado. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa
- ↑ a b Fernando Paiva (9 de março de 2021). «Resenha do livro: Naquele Dia, Naquele Cazenga». Mulemba
- ↑ a b c «Adolfo Maria». Buala. 2019
- ↑ a b Cláudio Fortuna (25 de novembro de 2019). «Entrevista com Adolfo Maria». Lisboa: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto
- ↑ a b c d e f g António Rodrigues (21 de abril de 2014). «Adolfo Maria». Rede Angola
- ↑ a b Airton da Silveira Filho (2023). Volta ao Lar: o caminho da utopia para Pepetela (PDF). Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina
- ↑ «Carta aberta aos brancos de Angola» (PDF) VIII ed. São Paulo. Portugal Democrático (68). Janeiro de 1963
- ↑ a b c Inácio Luiz Guimarães Marques (2012). Memórias de um golpe: O 27 de maio de 1977 em Angola (PDF). Niterói: Universidade Federal Fluminense
- ↑ «A vida e o poder de José Eduardo dos Santos, o pai da Corte de Luanda». Observador. 28 de dezembro de 2020
- ↑ a b c João Carlos (27 de outubro de 2016). «Adolfo Maria critica caminho 'errado' do MPLA». Deutsche Welle