Teótoco
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Teótoco[1] (em grego: Θεοτόκος; romaniz.: Theotókos) é um dos mais antigos títulos da Virgem Maria, utilizado principalmente pelas Igrejas Católica e Ortodoxa, bem como reconhecido, em graus diversos, por comunidades anglicanas e por algumas denominações protestantes de tradição histórica.
A palavra compõe-se de dois elementos do grego clássico e bíblico: Θεο- (Theo-) vem de Θεός (Theós), que significa "Deus", e em -τόκος (-tokos) que vem de τίκτω (tíktō), que significa "dar à luz", "parir", "gerar". Assim, a tradução literal do termo é “Aquela que dá à luz a Deus”, donde derivam expressões consagradas na tradição cristã como “Mãe de Deus” e “Portadora de Deus”. No uso pastoral e litúrgico, católicos, anglicanos e diversos cristãos ocidentais empregam com maior frequência a expressão Mãe de Deus, enquanto o termo Teótoco permanece especialmente caro à teologia e à liturgia oriental.
Desde os primeiros séculos do cristianismo, muitos Padres da Igreja defenderam a legitimidade e a necessidade deste título mariano, não como um privilégio isolado de Maria, mas como uma afirmação essencial da fé cristológica. Entre esses testemunhos destacam-se Orígenes (†253), Santo Atanásio de Alexandria (†373) e São João Crisóstomo (†407).
A doutrina foi definida dogmaticamente pelo Concílio de Éfeso, em 431, que proclamou solenemente Maria como Teótoco, em oposição às teses de Nestório, que pretendia separar em Cristo duas pessoas distintas. O Concílio afirmou, assim, que Jesus Cristo é uma única Pessoa divina, o Verbo eterno, que assumiu plenamente a natureza humana no seio da Virgem Maria.[2]
O título Teótoco não sugere que Maria seja anterior a Deus ou origem da divindade. Ele afirma, antes, que aquele que ela concebeu, gerou e deu à luz é verdadeiramente Deus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, feito homem pela ação do Espírito Santo. Sendo Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, com duas naturezas inseparáveis numa única Pessoa divina, Maria é legitimamente chamada Mãe de Deus, não da natureza divina em abstrato, mas da Pessoa divina do Filho.[3]
Etimologia e tradução
Teótoco é composta de duas palavras gregas, Θεός (Deus) e τόκος (parto). Literalmente, isso se traduz como portadora de Deus ou a que dá à luz Deus. No entanto, na Igreja Ortodoxa muitos consideram essa tradução literal desajeitada no uso litúrgico, e Teótoco é traduzida como Mãe de Deus. O último título é composto de uma palavra distinta em grego, Μήτηρ του Θεού (transliterado Mētēr tou Theou). Outras palavras gregas poderiam ser usadas para descrever "Mãe de Deus", como Θεομήτωρ (transliterado Theomētor; também escrito Θεομήτηρ, transliterado como Theomētēr) e Μητρόθεος (transliterado Mētrotheos), que são encontradas em textos patrísticos e litúrgicos. As letras gregas ΜΡ e ΘΥ são abreviaturas utilizadas para os termos gregos de "Mãe de Deus", consistindo das letras inicial e final de cada palavra, a sua utilização é uma prática comum na iconografia ortodoxa para referir-se à Maria.
Em muitas tradições, Teótoco foi traduzida do grego para a língua local litúrgica. A mais proeminente delas é a tradução para o latim (Deipara, Genetrix Dei, como também, Mater Dei), em árabe (والدة الله. transliteração: Wālidat Deus), em georgiano (ღვთისმშობელი. transliteração: Ghvtismshobeli), em armênio: (Աստուածածին. transliteração: Astvadzatzin) e o romeno (Născătoare de Dumnezeu ou Maica Domnului).
Teótoco na Bíblia
Cristãos justificam a utilização da expressão Teótoco ou Mãe de Deus, citando Lucas 1,43, onde Santa Isabel saúda a Virgem Maria como a "mãe do meu Senhor". Na linguagem bíblica, o termo “Senhor” (Kyrios) é um título divino, o que implicaria o reconhecimento da maternidade divina de Maria. Também utiliza-se Isaías 7,14 e Mateus 1,23; que contêm a profecia do Emanuel, que significa 'Deus Conosco', pois quem o dá à luz é uma virgem, no caso, Maria.
História
Primeiras Crenças e Padres da Igreja
Diversos Padres da Igreja nos três primeiros séculos defendem Maria como a Teótoco, dentre eles; Orígenes (254), Dionísio (250), Atanásio (330), Gregório (370), João Crisóstomo (400) e Agostinho de Hipona (430). O hino "À vossa compaixão" (em grego: Ὑπὸ τὴν σὴν εὐσπλαγχνίαν), datado do século III, retrata Maria como «Santíssima Teótoco, salvai-nos.»[4]
Definição dogmática pelo Concílio de Éfeso
O uso do termo Teótoco foi formalmente afirmado como dogma no Terceiro Concílio Ecumênico realizado em Éfeso, em 431. A visão contrária, defendida pelo patriarca de Constantinopla Nestório era que Maria devia ser chamada de Cristótoco (Christotokos), que significa "Mãe de Cristo", para restringir o seu papel como mãe apenas da natureza humana de Cristo e não da sua natureza divina.
Os adversários de Nestório, liderados por Cirilo de Alexandria, consideravam isto inaceitável, pois Nestório estava destruindo a união perfeita e inseparável da natureza divina e humana em Jesus Cristo, uma vez que em Cristo "O Verbo se fez carne" (João 1:14), ou seja o Verbo (que é Deus - João 1:1) é a carne; e a carne é o Verbo, Maria foi a mãe da carne de Cristo e por consequência do Verbo. Cirilo escreveu que "Surpreende-me que há alguns que duvidam que a Virgem santa deve ser chamada ou não de Teótoco. Pois, se Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, e a Virgem santa deu-o à luz, ela não se tornou a [Teótoco]?"[5] A doutrina de Nestório foi considerada uma falsificação da Encarnação de Cristo, e por consequência, da salvação da humanidade. O Concílio aceitou a argumentação de Cirilo, afirmou como dogma o título de Teótoco de Maria, e anatematizou Nestório, considerando sua doutrina (Nestorianismo) como uma heresia.
Hinos
Maria é frequentemente chamada de Teótoco no hinos das Igrejas Ortodoxa, e Católicas Orientais. O mais comum é o Axion Estin, que é usado em quase todos as formas de liturgia. Outros exemplos incluem o Sub tuum praesidium (À vossa proteção) que data do século III, a Ave Maria, e o Magnificat.
Solenidade
Na Igreja Católica, a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus (Teótoco) é celebrada em 1.º de janeiro, encerrando a Oitava do Natal e contemplando Maria intimamente unida ao mistério da Encarnação do Verbo. Desde 1967, esta data coincide também com o Dia Mundial da Paz, criado pelo Papa Paulo VI, sublinhando o vínculo entre a maternidade de Maria e o dom da paz que Cristo traz ao mundo.[6]
Esta solenidade tem origem nas Igrejas Orientais, remontando aproximadamente ao século V,[7] e é considerada dia santo de guarda, o que implica, para os fiéis católicos, a obrigação de participar da Santa Missa.[8]
Ícones
Teótoco de Vladimir
Ícone da Virgem Maria do Mosteiro de Santa Catarina do Monte Sinai
Teótoco do diácono Josafá Atonita
Teótoco de São Teodoro
Teótoco de Cazã
Teótoco da Porta Ibéria
Ver também
Referências
- ↑ Parreira 1985, p. 286.
- ↑ «Dogmas Marianos – A Maternidade Divina». A12. 6 de janeiro de 2013. Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ «Mãe de Deus: a festa e o dogma». Minha Biblioteca Católica. 31 de dezembro de 2024. Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ Matthewes-Green, Frederica (2007). The Lost Gospel of Mary: The Mother of Jesus in Three Ancient Texts. Brewster MA: Paraclete Press. pp. 85–87. ISBN 978-1-55725-536-5
- ↑ Epístola 1, aos monges do Egito, Patrologia Grega; 77:13 B
- ↑ «Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus». Vatican News. Consultado em 31 de dezembro de 2025
- ↑ Theotókos: a celebração do dia 1º de Janeiro, Armando Alexandre dos Santos, IPEC, 31 Dezembro 2020
- ↑ «Dias de preceito na Igreja Católica: quais são eles?». Minha Biblioteca Católica. 29 de outubro de 2025. Consultado em 31 de dezembro de 2025
Bibliografia
- Cirilo de Alexandria, On the Unity of Christ, John Anthony McGuckin, trans. ISBN 0-88141-133-7
- McGuckin, John Anthony, St. Cyril of Alexandria: The Christological Controversy (1994, e reimpresso em 2004) ISBN 0-88141-259-7
- Parreira, Manuel; Castro, José Manuel de; Pinto, J. Manuel de Castro (1985). Prontuário ortográfico moderno: de fácil consulta, atento às dificuldades e dúvidas de quem escreve. [S.l.]: Edições ASA
- São João de Shanghai e San Francisco, "The Orthodox Veneration of Mary, The Birth Giver of God" (2004, Sixth Printing, Third Edition). ISBN 0-938635-68-9
- Ware, Bispo Kallistos, "The Orthodox Way" (1979, Revised Edition, 1995, reimpresso em 1999). ISBN 0-913836-58-3
Ligações externas
- Associação Theotokos - (missão e iconografia)
- Comunidade Católica Shalom; Theotokos
- Exortação Apostólica Signum Magnum do Papa Paulo VI, consagrada ao Culto da Virgem Maria.

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