Julgamentos de Nuremberga

Tribunal Militar Internacional
Banco de juízes durante o tribunal no Palácio da Justiça em Nuremberg, na Alemanha ocupada pelos Aliados
Início20 de novembro de 1945
Decidido1 de outubro de 1946
Veredito12 condenados à morte, três à prisão perpétua, duas a 20 anos de prisão, uma a 15 anos e outra a 10 anos
AcusaçãoConspiração, crimes de guerra, crimes contra a humanidade, assassínio em massa, crimes de ódio
Juízes
  • Iona Nikitchenko (União Soviética)
  • Geoffrey Lawrence (Reino Unido)
  • Francis Biddle (EUA)
  • Donnedieu de Vabres (França)
Histórico
Ações relacionadasProcessos de guerra de Nuremberg
Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente

Os Julgamentos de Nuremberga (português europeu) ou Nurembergue (português brasileiro) foram conduzidos pelos Aliados contra representantes da derrotada Alemanha Nazista por planejarem e realizarem invasões a outros países da Europa e cometerem atrocidades contra seus cidadãos durante a Segunda Guerra Mundial.[1]

Entre 1939 e 1945, a Alemanha Nazista invadiu vários países da Europa, causando 27 milhões de mortes apenas na União Soviética. As propostas sobre como punir os líderes nazistas derrotados variavam desde um julgamento-espetáculo (defendido pela União Soviética) até execuções sumárias (propostas pelo Reino Unido). Em meados de 1945, França, União Soviética, Reino Unido e Estados Unidos concordaram em realizar um tribunal conjunto em Nuremberg, Baviera, na Alemanha ocupada pelos Estados Unidos, utilizando a Carta de Nuremberg como base legal. Entre 20 de novembro de 1945 e 1 de outubro de 1946, o Tribunal Militar Internacional (TMI) julgou vinte e dois dos principais líderes sobreviventes da Alemanha de Hitler nos âmbitos político, militar e econômico, além de seis organizações alemãs. O objetivo do julgamento não era apenas condenar os réus, mas também reunir provas irrefutáveis dos crimes nazistas, oferecer uma lição histórica aos alemães derrotados e deslegitimar a elite tradicional alemã.[2]

O veredicto do tribunal seguiu a acusação ao declarar que o crime de planejar e travar uma guerra de agressão era o "crime internacional supremo", pois "contém em si o mal acumulado de todos os outros". A maioria dos réus também foi acusada de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, sendo o assassinato sistemático de milhões de judeus no Holocausto um ponto central do julgamento. Além disso, os Estados Unidos conduziram mais doze julgamentos contra criminosos nazistas de escalão inferior, com um foco maior no Holocausto. Embora controversos na época por criminalizarem retroativamente a agressão, a inovação desses julgamentos ao responsabilizar indivíduos por violações do direito internacional é considerada "o verdadeiro começo do direito penal internacional".[3]

Contexto

Pós-Segunda Guerra Mundial e a partilha da Alemanha

Zonas ocupadas pelos Aliados na Alemanha.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, das Potências do Eixo e do regime nazista na Alemanha, severas punições foram aplicadas contra os mesmos. Principalmente na Alemanha, que foi dividida – junto com a Áustria – entre os Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética. Devido a severidade dos atos cometidos pelos generais, militares, médicos e funcionários da Alemanha Nazista, que mataram cerca de 6 milhões de judeus somente no Holocausto.

Tradicionalmente, os julgamentos de Nuremberga eram o tratado de paz entre as potências beligerantes que julgava e resolvia as respectivas queixas e danos, atribuindo os espólios de guerra ao vencedor e impondo compensações e reparações ao vencido. Com o intuito de pôr fim definitivamente ao conflito, um tratado de paz sempre incluía uma cláusula geral de anistia, proibindo permanentemente quaisquer procedimentos futuros, por qualquer motivo, contra a apresentação ou o processamento de ofensas cometidas durante ou em conexão com o conflito.[4][5]

Estatuto do julgamento

Alguns dos réus durante o julgamento. À frente, de cima para baixo: Hermann Göring, Rudolf Heß, Joachim von Ribbentrop, Wilhelm Keitel. Atrás, de cima para baixo: Karl Dönitz, Erich Raeder, Baldur von Schirach, Fritz Sauckel

Em 8 de agosto de 1945, os Quatro Policiais (Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França) assinavam a Carta de Londres,[6] acordo sobre o Tribunal Militar Internacional e os estatutos pelos quais o tribunal deveria ser regido. Estabelecia os direitos e obrigações de todos os que haviam de tomar parte no mesmo, regulamentava a forma de proceder e fixava os fatos e princípios a que tinham de se sujeitar os juízes.[7]

O artigo 24º dos estatutos estabelecia: "...O procedimento deve ser o seguinte:

  • a) Será lida a acusação;
  • b) O tribunal interrogará cada um dos acusados sobre se considera culpado ou inocente;
  • c) O acusador exporá a sua interpretação da acusação;
  • d) O tribunal perguntará à acusação e à defesa sobre as provas que desejem apresentar ao tribunal e decidirá sobre a conveniência da sua apresentação;
  • e) Serão ouvidas as testemunhas de acusação. A seguir as testemunhas de defesa;
  • f) O tribunal poderá dirigir a todo momento perguntas às testemunhas ou acusados;
  • g) A acusação e a defesa interrogarão todas as testemunhas e acusados que apresentem uma prova e estão autorizados a efetuar um contra interrogatório;
  • h) A defesa tomará a seguir a palavra;
  • i) O acusado dirá a última palavra;
  • j) O tribunal anunciará a sentença...".[8]

Acusados e suas penas

O tribunal de Nuremberg decretou 12 condenações à morte, três à prisão perpétua, duas a 20 anos de prisão, uma a 15 anos e outra a 10 anos. Hans Fritzsche, Franz von Papen e Hjalmar Schacht foram absolvidos.

Nome Cargo Condenação
Martin Bormann Chanceler do NASDAP e secretário particular do Führer Morte por enforcamento (In absentia)
Karl Dönitz Presidente da Alemanha, Ministro da Guerra, Comandante Supremo da Kriegsmarine 10 anos de prisão
Hans Frank Governador-geral da Polônia Morte por enforcamento
Wilhelm Frick Ministro do Interior, autorizou as Leis de Nuremberg Morte por enforcamento
Hans Fritzsche Ajudante de Joseph Goebbels no Ministério da Propaganda Absolvido
Walther Funk Ministro da Economia e Presidente do Reichbank Prisão perpétua
Hermann Göring Comandante da Luftwaffe, Presidente do Reichstag e Ministro-Presidente da Prússia. Morte por enforcamento (suicidou-se antes de ser enforcado)
Rudolf Heß Vice-líder do Partido Nazista Prisão perpétua
Alfred Jodl Chefe de Operações do OKW (Oberkommando Der Wehrmacht) Morte por enforcamento
Ernst Kaltenbrunner Chefe do RSHA e membro de maior escalão da Schutzstaffel vivo. Morte por enforcamento
Wilhelm Keitel Chefe do OKW Morte por enforcamento
Gustav Krupp Industrial que usufruiu de trabalho escravo Acusações canceladas por saúde debilitada
Robert Ley Chefe do Corpo Alemão de Trabalho Suicidou-se na prisão
Konstantin von Neurath Ministro das Relações Exteriores, Protetor da Boêmia e Morávia 15 anos de prisão
Franz von Papen Chanceler da Alemanha e Vice-Chanceler da Alemanha Absolvido
Erich Raeder Comandante-chefe da Kriegsmarine Prisão perpétua
Joachim von Ribbentrop Ministro das Relações Exteriores Morte por enforcamento
Alfred Rosenberg Ideólogo do racismo e Ministro do Reich para os Territórios Ocupados do Leste Morte por enforcamento
Fritz Sauckel Diretor do programa de trabalho escravo Morte por enforcamento
Hjalmar Schacht Presidente do Reichsbank Absolvido
Baldur von Schirach Líder da Juventude Hitleriana 20 anos de prisão
Arthur Seyss-Inquart Líder da anexação da Áustria e Gauleiter dos Países Baixos Morte por enforcamento
Albert Speer Líder nazi, arquiteto do regime e Ministro de Armamentos 20 anos de prisão
Julius Streicher Chefe do periódico antissemita Der Stürmer Morte por enforcamento

Processos no caso Nuremberg

Vista do banco dos réus no tribunal de Nuremberg

Acusações

  • Crimes de guerra e Crimes contra a humanidade por participação na deportação e escravização das populações civis de países e territórios sob a ocupação beligerante ou de outro modo controlado pela Alemanha nazista, e de prisioneiros de campos de concentração para uso de trabalho escravo
  • Crimes de guerra e contra a humanidade através da pilhagem e espoliação dos territórios ocupados, bem como a apreensão de plantas, tanto no Ocidente (França) e do Leste (Polônia, Rússia).
  • Crimes contra a humanidade pela participação de perseguição a judeus.
  • Membro do Partido Nazista e do "Círculo de amizades de Himmler"
  • Membro de uma organização criminosa, a Schutzstaffel.

Caso I: Processo contra os médicos (dezembro de 1946–agosto de 1947)

Karl Brandt, médico pessoal de Adolf Hitler foi condenado a pena de morte.

Entre 9 de dezembro de 1946 a 20 de agosto de 1947, houve o primeiro julgamento de Nuremberga. O processo contra os médicos, oficialmente chamado de Estados Unidos vs. Karl Brandt, et al., estes julgamentos foram organizados pelas cortes estadunidenses. Vinte dos 23 acusados eram médicos e acusados de se envolver em experimentos humanos nazistas.[9]

Acusados e punições: Hermann Becker-Freyseng (20 anos de prisão), Wilhelm Beiglböck (15 anos de prisão), Kurt Blome (absolvido), Viktor Brack (morte), Karl Brandt (morte), Rudolf Brandt (morte), Fritz Fischer (prisão perpétua), Karl Gebhardt (morte), Karl Genzken (prisão perpétua), Siegfried Handloser (prisão perpétua), Waldemar Hoven (morte), Joachim Mrugowsky (morte), Herta Oberheuser (20 anos de prisão), Adolf Pokorny (absolvido), Helmut Poppendick (10 anos de prisão), Hans Wolfgang Romberg (absolvido), Gerhard Rose (prisão perpétua), Paul Rostock (absolvido), Siegfried Ruff (absolvido), Konrad Schäfer (absolvido), Oskar Schröder (prisão perpétua), Wolfram Sievers (morte), Georg August Weltz (absolvido).[10]

Caso II: Processo Milch (janeiro–abril de 1947)

Oficialmente chamado de Os Estados Unidos vs. Erhard Milch, o marechal da Luftwaffe, Erhard Milch, foi acusado de cometer crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Milch se considerou "não culpado" em 20 de dezembro de 1946, o julgamento ocorreu entre os dias 2 de janeiro e 17 de abril de 1947. O tribunal considerou Milch culpado em duas acusações e o sentenciou à prisão perpétua, a sentença foi reduzida para 15 anos de prisão em 1951.[11]

Caso III: Processo contra os juristas (fevereiro–dezembro de 1947)

Uma testemunha depondo no julgamento.

Oficialmente The United States of America vs. Josef Altstötter, et al., os réus neste caso foram dezesseis (16) juristas e advogados alemães. Nove foram oficiais do Ministério da Justiça, e os outros promotores e juízes das Cortes Especiais e das Cortes Populares da Alemanha Nazista. Os réus foram dentre outras acusações apontados como responsáveis pela implementação e promoção do programa nazista de "pureza racial" através das leis de eugenia e raça.[12]

Acusados e punições: Josef Altstötter (5 anos de prisão), Paul Barnickel (absolvido), Hermann Cuhorst (absolvido), Karl Engert (absolvido), Günther Joël (10 anos de prisão), Herbert Klemm (prisão perpétua), Ernst Lautz (10 anos de prisão), Wolfgang Mettgenberg (10 anos de prisão), Günther Nebelung (absolvido), Rudolf Oeschey (prisão perpétua), Hans Petersen (absolvido), Oswald Rothaug (prisão perpétua), Curt Rothenberger (7 anos de prisão), Franz Schlegelberger (prisão perpétua), Wilhelm von Ammon (10 anos de prisão) e Carl Westphal (não foi julgado, cometeu suicídio antes do julgamento).

Caso IV: Processo Pohl (janeiro–novembro de 1947)

Pohl recebendo sua sentença de morte.

Foi contra o plano solução final da questão judaica, oficialmente chamado de The United States of America vs. Oswald Pohl, et al. Todos os réus declarados culpados foram responsabilizados em todos os pontos da acusação, exceto Hans Hohberg, que não foi declarado culpado no ponto 4. A acusação 1 (conspiração) foi amplamente descartada pelo tribunal e nenhuma acusação sobre este ponto foi proferida.[13]

Acusados e punições: Oswald Pohl (pena de morte), August Frank (prisão perpétua), Georg Lörner (pena de morte), Heinz Karl Fanslau (25 anos de prisão), Hans Lörner (10 anos de prisão), Josef Vogt (absolvido), Erwin Tschentscher (10 anos de prisão), Rudolf Scheide (absolvido), Max Kiefer (prisão perpétua), Franz Eirenschmalz (pena de morte), Karl Sommer (pena de morte), Hermann Pook (10 anos de prisão), Hans Baier (10 anos de prisão), Hans Hohberg (10 anos de prisão), Leo Volk (10 anos de prisão), Karl Mummenthey (prisão perpétua), Hanns Bobermin (20 anos de prisão), Horst Klein (absolvido).

Caso V: Processo Flick (abril–dezembro de 1947)

Oficialmente chamado de Os Estados Unidos da América vs. Friedrich Flick, et al. Acusação 2 não foi aplicada em Terberger, acusação 3 somente aplicada em Flick, Steinbrinck, e Kaletsch, acusação 4 aplicada em Flick e Steinbrinck, enquanto a acusação 5 somente foi aplicada em Steinbrinck, que foi SS-Brigadeführer. Todos os acusados se declararam inocentes.[14]

Acusados e punições: Friedrich Flick (7 anos de prisão), Otto Steinbrinck (5 anos de prisão), Bernhard Weiss (2½ anos de prisão), Odilo Burkart (absolvido), Konrad Kaletsch (absolvido), Hermann Terberger (absolvido).

Caso VI: Processo IG Farben (agosto de 1947–julho de 1948)

Também chamado de The United States of America vs. Carl Krauch et al., 23 executivos sênior da IG Farbenindustrie AG foram responsabilizados em 1947 perante uma corte marcial estadunidense. Em 30 de julho de 1948 foram condenados à prisão 13 dos réus, enquanto os 10 restantes foram absolvidos devido às evidências levantadas.[15]

Acusados e punições: Carl Krauch (6 anos de prisão), Otto Ambros (8 anos de prisão), Ernst Bürgin (2 anos de prisão), Heinrich Bütefisch (6 anos de prisão), Walter Dürrfeld (8 anos de prisão), Fritz Gajewski (absolvido), Heinrich Gattineau (absolvido), Paul Häfliger (2 anos de prisão), Erich von der Heyde (absolvido), Heinrich Hörlein (absolvido), Max Ilgner (3 anos de prisão), Friedrich Jähne (1 ano e 6 meses de prisão), August von Knieriem (absolvido), Hans Kugler (1 ano e 6 meses de prisão), Hans Kühne (absolvido), Carl Lautenschläger (absolvido), Wilhelm Rudolf Mann (absolvido), Fritz ter Meer (7 anos de prisão), Heinrich Oster (2 anos de prisão), Hermann Schmitz (4 anos de prisão), Christian Schneider (absolvido), Georg von Schnitzler (5 anos de prisão) e Carl Wurster (absolvido).

Caso VIII: Processo RuSHA (julho de 1947–março de 1948)

Oficialmente The United States of America vs. Ulrich Greifelt, et al., no processo RuSHA, os 14 acusados eram oficiais de variados escalões da SS, responsáveis pela implementação do programa da "raça pura".[16]

Acusados e punições: Ulrich Greifelt (prisão perpétua), Rudolf Creutz (15 anos de prisão), Konrad Meyer (sentença já cumprida; absolvido), Otto Schwarzenberger (sentença já cumprida; absolvido), Herbert Hübner (15 anos de prisão), Werner Lorenz (20 anos de prisão), Heinz Brückner (15 anos de prisão), Otto Hofmann (25 anos de prisão), Richard Hildebrandt (25 anos de prisão), Fritz Schwalm (10 anos de prisão), Max Sollmann (sentença já cumprida; absolvido), Gregor Ebner (sentença já cumprida; absolvido), Günther Tesch (sentença já cumprida; absolvido), Inge Viermetz (inocentado).

Caso IX: Processo Einsatzgruppen (setembro de 1947–abril de 1948)

Otto Ohlendorf e Heinz Jost no julgamento.

Oficialmente chamado de The United States of America vs. Otto Ohlendorf, et al., realizado de 15 de setembro de 1947 a 10 de abril de 1948, na Sala 600 do Palácio da Justiça de Nuremberg, a mesma sala onde ocorreram os Julgamentos de Nuremberg dos principais criminosos de guerra perante o Tribunal Militar Internacional. Ao contrário dos Julgamentos de Nuremberg, o Julgamento dos Einsatzgruppen foi realizado perante um tribunal militar americano (Tribunal Militar de Nuremberg, TMN); não houve supervisão das Quatro Potências. Oficialmente, o caso foi intitulado "Os Estados Unidos da América contra Otto Ohlendorf e outros".[17]

Acusados e punições: Otto Ohlendorf (pena de morte), Heinz Jost (prisão perpétua), Erich Naumann (pena de morte), Otto Rasch (absolvido por razões médicas), Erwin Schulz (20 anos de prisão), Franz Six (20 anos de prisão), Paul Blobel (pena de morte), Walter Blume (pena de morte), Martin Sandberger (pena de morte), Willy Seibert (pena de morte), Eugen Steimle (pena de morte), Ernst Biberstein (pena de morte), Werner Braune (pena de morte), Walter Haensch (pena de morte), Gustave Nosske (prisão perpétua), Adolf Ott (pena de morte), Eduard Strauch (pena de morte), Emil Haussmann (morreu antes do julgamento), Waldemar Klingelhöfer (pena de morte), Lothar Fendler (10 anos de prisão), Waldemar von Radetzky (20 anos de prisão), Felix Rühl (10 anos de prisão), Heinz Schubert (pena de morte), Mathias Graf (sentença já cumprida; absolvido).

Caso X: Processo Krupp (dezembro de 1947–julho de 1948)

Acusados e punições: Alfried Krupp (12 anos de prisão), Ewald Oskar Ludwig Löser (7 anos de prisão), Eduard Houdremont (10 anos de prisão), Erich Müller (12 anos de prisão), Friedrich Wilhelm Janssen (10 anos de prisão), Karl Heinrich Pfirsch (inocentado), Max Otto Ihn (9 anos de prisão), Karl Adolf Ferdinand Eberhardt (9 anos de prisão), Heinrich Leo Korschan (6 anos de prisão), Friedrich von Bülow (12 anos de prisão), Werner Wilhelm Heinrich Lehmann (6 anos de prisão), Hans Albert Gustav Kupke (2 anos e 10 meses de prisão).

Caso XII: Processo contra o Alto Comando (dezembro de 1947–outubro de 1948)

Tribunal do Alto Comando.

O acusado deste estudo foram de alta patente, generais de alemães da Wehrmacht (incluindo um marechal-de-campo e um ex-Almirante), alguns dos quais tinham sido membros do Alto Comando das Forças Militares da Alemanha Nazista. Eles foram acusados de terem participado ou planejado ou facilitaram a execução dos inúmeros crimes de guerra e atrocidades cometidas em países ocupados pelo exército alemão durante a guerra.[18]

Acusados e punições: Johannes Blaskowitz (cometeu suicídio durante o julgamento), Karl-Adolf Hollidt (5 anos de prisão), Hermann Hoth (15 anos de prisão), Wilhelm von Leeb (sentença já cumprida; absolvido), Rudolf Lehmann (7 anos de prisão), Georg von Küchler (15 anos de prisão), Georg-Hans Reinhardt (15 anos de prisão), Karl von Roques (20 anos de prisão), Hermann Reinecke (prisão perpétua), Hans von Salmuth (20 anos de prisão), Otto Schniewind (absolvido), Hugo Sperrle (absolvido), Walter Warlimont (prisão perpétua) e Otto Wöhler (8 anos de prisão).

Um tribunal de exceção

Oito juízes, representantes dos quatro países vencedores da guerra, compuseram a corte: Iona Nikitchenko, Geoffrey Lawrence, Francis Biddle e Donnedieu de Vabres. O presidente do tribunal era britânico, mas coube aos estadunidenses o papel mais importante na preparação do processo. Os países neutros não tiveram nenhuma participação.[19] Juristas têm levantado a questão das violações dos direitos fundamentais com a realização de um tribunal ad hoc, um tribunal de exceção, sem a escolha de advogados pelos réus. Segundo alguns doutrinadores do direito, um tribunal de exceção não poderia punir com pena capital, mas somente com prisão, entre outras formas de responsabilização. Todavia, em Nuremberg, os vencedores ditaram todas as regras e todo o funcionamento do tribunal, mesmo em detrimento dos direitos fundamentais dos réus, como o princípio do juízo natural conhecidos dos ingleses desde a Magna Carta de 1215.[20][21]

A aplicação da justiça dos vencedores poderia igualmente explicar por que jamais foi cogitada a possibilidade de julgamento dos responsáveis pela mortandade de civis em decorrência dos inúmeros bombardeios aliados contra as cidades alemãs (Dresden, Colônia, Darmstadt, Hamburgo, Stuttgart e Königsberg, entre outras) ou do lançamento de bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.[19]

Execução das sentenças

Três cadafalsos foram instalados no presídio de Nuremberga para a execução, na manhã de 16 de outubro de 1946, de dez penas de morte contra representantes do regime nazista, por enforcamento, usando-se o chamado método da queda padrão, em vez de queda longa.[22][23] Posteriormente, o exército dos Estados Unidos negou as acusações de que a queda fora curta demais, fazendo com que o condenado morresse lentamente, por estrangulamento, em vez de ter o pescoço quebrado (o que causa paralisia imediata, imobilização e provável inconsciência instantânea). Na execução de Ribbentrop, o historiador Giles MacDonogh registra que:

"o carrasco trabalhou mal na execução, e a corda estrangulou o ex-chanceler por 20 minutos antes que ele morresse."[24][25][26]

Das 12 penas de morte, apenas 10 foram executadas. Martin Bormann, o assessor mais próximo de Adolf Hitler em seu primeiro quartel-general, estava desaparecido, sendo julgado à revelia e condenado à morte.

Hermann Göring suicidou-se na véspera do dia 16. Quando os seguranças do presídio perceberam que ele mantinha-se estranhamente imóvel deitado sobre seu banco, chamaram seus superiores e um médico. Este constatou a morte de Göring por envenenamento. Nunca foi esclarecido quem lhe entregou o veneno, em que pese várias hipóteses terem surgido no decorrer dos anos.

Porém, em 2005, Herbert Lee Stivers, um metalúrgico aposentado que vivia em Hesperia, localidade aos arredores de Los Angeles, Estados Unidos, e foi guarda em Nuremberg durante o Julgamento (era do 26º Regimento da 1ª Divisão de Infantaria, cuja Companhia D fora encarregada), afirmou que estavam todos enganados: "Fui eu que lhe dei". Stivers tinha 78 anos, e disse que manteve este segredo durante quase 60 anos, com medo de poder vir a ser alvo de um processo por parte do Exército dos Estados Unidos e que tinha decidido contar a história a pedido da filha. Na época só tinha 19 anos, e por querer impressionar uma moça que encontrou na rua, aceitou levar "um remédio" a Goering, que supostamente estaria doente.[27]

Cinema

Outros julgamentos

Hideki Tōjō (centro da imagem), ex Primeiro-Ministro do Japão, condenado à morte pelo Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente e executado em 1948.

Alemanha

  • Julgamento de Belsen (Luneburgo, 1945).[28]
  • Julgamentos de Ravensbrück (Hamburgo, 1946-1948).[29]

Japão

Os crimes de guerra do Império do Japão, foram julgados pelo Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente (Tóquio, 1946-1948).[30]

Polônia

União Soviética

  • Julgamentos de crimes de guerra de Khabarovsk, pelos crimes do Exército de Guangdong (Khabarovsk, 1949).[32]

Ver também

Referências

  1. Mouralis, Guillaume (2016). «Le procès de Nuremberg: retour sur soixante-dix ans de recherche» [The Nuremberg trial: a look back at seventy years of research]. Critique Internationale (em francês). 73 (4): 159. doi:10.3917/crii.073.0159
  2. Safferling, Christoph J. M. (2020). «German Participation in the Nuremberg Trials and Its Implications for Today». The Nuremberg War Crimes Trial and its Policy Consequences Today. [S.l.]: Nomos. pp. 41–54. ISBN 978-3-8487-3688-1. doi:10.5771/9783845280400-41
  3. Heller, Kevin Jon (2012). The Nuremberg Military Tribunals and the Origins of International Criminal Law (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-165286-8
  4. Jean-Baptiste Denisard, Coletânea de novas decisões e conceitos relativos à jurisprudência atual, vol.  I, Paris, Desaint,1775, pág.  84.
  5. «A história por trás do Julgamento de Nuremberg». VEJA. Consultado em 18 de março de 2026
  6. «Carta de Londres, de 08 de agosto de 1945». DHNet. Consultado em 24 de julho de 2021
  7. Kevin Jon Heller (2011). The Trials. Introduction: the indictments, biographical information, and the verdicts. The Nuremberg Military Tribunals and the Origins of International Criminal Law. [S.l.]: Oxford University Press. pp. 85–
  8. Heydecker, Joe J. "O Julgamento de Nuremberga. Editora Ibis Ltda, 1966, p. 79
  9. «Online Exhibitions | The Doctors Trial | Indictment». ushmm.org. Consultado em 18 de março de 2026. Cópia arquivada em 13 de outubro de 2007
  10. Fulbrook, Mary (2018). Reckonings: Legacies of Nazi Persecution and the Quest for Justice (em inglês). [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 978-0-19-881123-7. Consultado em 18 de março de 2026
  11. «Nuremberg - Explore the Nuremberg Trials!». nuremberg.law.harvard.edu. Consultado em 18 de março de 2026
  12. «Nuremberg - Transcript Viewer - Transcript for NMT 3: Justice Case». nuremberg.law.harvard.edu. Consultado em 18 de março de 2026
  13. «Photo Archives». www.ushmm.org. Consultado em 18 de março de 2026. Cópia arquivada em 20 de fevereiro de 2005
  14. «Trial 5 - Flick Case | The Gen. Eugene Phillips Nuremberg Trials Collection | University of Georgia School of Law». digitalcommons.law.uga.edu. Consultado em 18 de março de 2026
  15. layout and style sheet based on BlueRobot http://www.bluerobot.com/web/layouts/. «... von Anilin bis Zwangsarbeit». www.bufata-chemie.de. Consultado em 18 de março de 2026. Cópia arquivada em 2 de abril de 2015
  16. Moreira, Júlio (14 de março de 2026). «O julgamento de Nuremberg: quando a barbárie foi para o banco dos réus». Estado de Minas. Consultado em 18 de março de 2026
  17. Johannes Hürter: Líderes do Exército de Hitler: Os Comandantes-em-Chefe Alemães na Guerra contra a União Soviética 1941/42. 2ª edição. Oldenbourg, Munique 2007, ISBN 3-486-58341-7, pp. 520–521.
  18. «The German High Command Trial. Part I. United Nations War Crimes Commission, 1949». www.ess.uwe.ac.uk. Consultado em 18 de março de 2026. Cópia arquivada em 21 de fevereiro de 2005
  19. 1 2 «Le proces de Nuremberg e Tokyo». Consultado em 2 de junho de 2016. Arquivado do original em 26 de maio de 2016
  20. O tribunal de Nuremberga e a polêmica das sanções adotadas. Por Ana Flávia Trevizan e Sérgio Tibiriçá Amaral.
  21. Tribunal de Nuremberg: visão crítica a respeito da moral e da política envolvidas no julgamento Arquivado em 20 de setembro de 2016, no Wayback Machine.. Por Henrique Clauzo Horta.
  22. «Judgment at Nuremberg» (PDF)
  23. «The trial of the century». Consultado em 28 de janeiro de 2011. Arquivado do original em 10 de junho de 2010
  24. MacDonogh G., "After the Reich". John Murray: London, 2008; p.450
  25. War Crimes: Night without Dawn.. Time Magazine, 28 de outubro de 1946.
  26. The Not-So-Fine Art of Hanging, por Tom Zeller Jr.]. The New York Times, 16 de janeiro de 2007.
  27. Público, ed. (10 de fevereiro de 2005). «"Fui eu que dei o cianeto a Goering"». Consultado em 1 de novembro de 2019
  28. «First criminal trial in Lüneburg». www.befreiung1945.de (em inglês). Consultado em 24 de julho de 2021
  29. Michael J. Bazyler & Frank M. Tuerkheimer. Forgotten Trials of the Holocaust. NYU Press, 2015, paǵ. 137, (em inglês) ISBN 9781479899241 Consultado em 24 de julho de 2021
  30. Adam Wakeling (11 de novembro de 2018). «Tokyo Trial: how an Australian judge sentenced a Japanese leader to death». Australian Broadcasting Corporation (em inglês). Consultado em 24 de julho de 2021
  31. «Auschwitz convictions have been few and far between». CBC News (em inglês). 2 de maio de 2015. Consultado em 24 de julho de 2021
  32. Russell Working (5 de junho de 2001). «The trial of Unit 731». The Japan Times (em inglês). Consultado em 24 de julho de 2021

Bibliografia

  • Goldensohn, Leon. As Entrevistas de Nuremberg. Companhia das Letras, 2005, ISBN 8535907130.
  • Ferro, Ana Luiza Almeida. O Tribunal de Nuremberg - Dos precedentes à confirmação de seus princípios . Mandamentos, 2002; ISBN 8587054651;
  • Gonçalves, Joanisval Brito. Tribunal de Nuremberg (1945-1946) - A Gênese de uma Nova Ordem no Direito Internacional. Renovar, 2004, ISBN 8571474435.
  • Mann, Abby. Judgment at Nuremberg. New Directions 2002, ISBN 0811215261 (em inglês)
  • Cooper, Belinda. War Crimes - The Legacy of Nuremberg, TV Books, 1999, ISBN 1575000091. (em inglês)
  • Fontette, François de. Le Proces de Nuremberg. PUF, 1996, ISBN 2130480837. (em francês)
  • Heydecker, Joe J. "O Julgamento de Nuremberga, Editora Ibis Ltda, 1966
  • Kahn, Leo. "Julgamento em Nuremberg" - História Ilustrada da 2ª Guerra Mundial, Renes, 1972

Ligações externas