Classe dominante

Classe dominante é um termo utilizado para designar a classe social que controla o processo económico e político. Especificamente para a análise marxista, dentro do sistema capitalista, classe dominante corresponde à burguesia, ou seja, refere-se especificamente à classe social detentora dos meios e da capacidade de organizar a produção capitalista, ainda que não necessariamente tenha o controle total do processo de expansão econômica.[1]

De acordo com alguns teóricos do século XXI, a economia política mundial estabelecida pela globalização criou uma classe capitalista transnacional que não é nativa de nenhum país.[2]

Panorama

Nos modos de produção anteriores, como o feudalismo (propriedades e direitos herdáveis), os senhores do feudo eram a classe dominante; numa economia baseada na escravatura, os proprietários de escravos eram a classe dominante. A economia política do sistema feudal deu poder socioeconômico e jurídico ao senhor feudal sobre a vida, o trabalho e a propriedade do vassalo, incluindo o serviço militar. A economia política de um estado escravista deu ao traficante de escravos poder socioeconômico e legal sobre a pessoa, o trabalho e a propriedade de um escravo.[3]

Na filosofia marxista, a sociedade capitalista tem duas classes sociais dominantes: (i) a classe dominante burguesa (classe capitalista) que possui os meios de produção como propriedade privada; e (ii) o proletariado que a burguesia submete à exploração do trabalho,[4] cuja forma de economia política é justificada pela ideologia prevalente da classe dominante.[5] Para substituir o modo de produção capitalista numa sociedade, o marxismo procura anular a legitimidade política da burguesia como classe dominante e derrubá-la e ao seu aparelho estatal, substituindo-a por um estado controlado pela classe trabalhadora, um estado operário, que abole a propriedade privada e toma os meios de produção sob o seu controle. Na teoria marxista, tal sociedade, na qual o proletariado se tornou a classe dominante ao tomar o poder e substituir as instituições estatais capitalistas por instituições que servem o proletariado, é chamada de ditadura do proletariado.[5][6] O objetivo final deste Estado operário é a abolição das classes e, portanto, do próprio domínio de classe.

Nas economias políticas dos antigos estados marxistas-leninistas, a nomenklatura substituiu a classe dominante capitalista e controla os meios de produção, aloca recursos, etc. para a sociedade, de acordo com as instruções do partido. Eram os administradores da burocracia que executava as funções socioeconômicas do Estado.[7]

O sociólogo C. Wright Mills identificou e distinguiu entre a classe dominante e a elite do poder que toma as decisões para as sociedades capitalistas modernas.[8]

Da mesma forma, para estabelecer uma sociedade sem classes sociais, o anarquismo procura abolir a classe dominante.[9][10] Ao contrário da perspectiva marxista, os anarquistas, como Mikhail Bakunin, procuram abolir o Estado, porque, os anarquistas acreditam que apesar da mudança revolucionária, a classe dominante (capitalista) seria substituída por outra classe dominante (líderes partidários), o que é um ciclo político que anula o propósito de mudança social de uma revolução.[11]

Os estudos de Mattei Dogan - realizados no início dos anos 2000 sobre as elites nas sociedades pluralistas contemporâneas[12] - mostraram que nestes tipos de sociedades, precisamente pela sua complexidade, pela sua heterogeneidade e particularidade devido à divisão social do trabalho e aos muitos níveis de estratificação, não existem, ou não podem existir, classes dominantes coerentes, mesmo que no passado tenha havido exemplos de classes dominantes sólidas, como o regime czarista, o otomano e os totalitarismos mais recentes do século XX ("comunismo" e nazismo).[13]

Referências

  1. Domhoff, G. William (Abril de 2005). «The Class-Domination Theory of Power»
  2. Sprague, Jeb (dezembro de 2009). «Transnational Capitalist Class in the Global Financial Crisis: A Discussion with Leslie Sklair» (PDF). Globalizations (em inglês). 6 (4): 499-507. Cópia arquivada (PDF) em 16 de agosto de 2010
  3. «Slave Ownership» (em inglês). Cópia arquivada em 3 de dezembro de 2007
  4. «Sociology: Marxism» (PDF). Oxford Cambridge and RSA (em inglês). 2015. p. 11
  5. 1 2 Abercrombie, Nicholas; Turner, Bryan S. (1978). «The Dominant Ideology Thesis». The British Journal of Sociology (em inglês). 29 (2): 149–170. JSTOR 589886. doi:10.2307/589886
  6. Marx, Karl (1875). Critique of the Gotha Program. Nova Iorque, NY: International Publishers Company, Incorporated (publicado em 1987). ISBN 978-0-7178-0043-8
  7. Wasserstein, Bernard (12 de fevereiro de 2009). Barbarism and Civilization: A History of Europe in our Time (em inglês). [S.l.]: OUP Oxford. ISBN 978-0-19-162251-9
  8. Codevilla, Angelo. «America's Ruling Class — And the Perils of Revolution». The American Spectator (em inglês). 2 (julho de 2010). 19 páginas. Consultado em 14 de julho de 2015
  9. Deirdre Hogan (2007). «Feminism, Class and Anarchism». The Anarchist Library (em inglês)
  10. Benjamin Franks. «British Anarchisms and the Miners' Strike»: 229. CiteSeerX 10.1.1.604.4418Acessível livremente
  11. Patrick Cannon (2019). «Marx's Leviathan». Philosophy Now (em inglês) (131)
  12. Mais especificamente, falando no caso francês.
  13. Dogan, Mattei (1 de abril de 2003). «Is there a Ruling Class in France?». Elite Configurations at the Apex of Power (em inglês). Leiden: Brill. p. 77. ISBN 90-04-12808-5. This generalised competition, which sometimes takes ferocious forms, is the engine of most successful polyarchies and, because it undermines the cohesion of clusters of elites, is an efficient rampart against the risk of domination by a ruling class. Internal rivalries disaggregate the strongest rocks of class power.
  • Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em inglês cujo título é «Ruling class», especificamente desta versão.

Ligações externas