Mecânica dos fluidos
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A mecânica dos fluidos é o ramo da física que se preocupa com a mecânica dos fluidos (líquidos, gases e plasmas) e as forças que atuam sobre eles.
Originalmente aplicada à água (hidromecânica), ela encontrou aplicações em uma ampla gama de disciplinas, incluindo as engenharias mecânica, aeroespacial, civil, química e biomédica, bem como na geofísica, oceanografia, meteorologia, astrofísica e biologia.
Pode ser dividida em estática dos fluidos, o estudo de vários fluidos em repouso; e dinâmica dos fluidos, o estudo do efeito das forças no movimento dos fluidos.
É um ramo da mecânica do contínuo, uma disciplina que modela a matéria sem usar a informação de que ela é feita de átomos; isto é, modela a matéria a partir de um ponto de vista macroscópico em vez de microscópico.
A mecânica dos fluidos, especialmente a dinâmica dos fluidos, é um campo ativo de pesquisa, tipicamente complexo matematicamente. Muitos problemas estão parcial ou totalmente não resolvidos e são melhor abordados por métodos numéricos, geralmente usando computadores. Uma disciplina moderna, chamada de dinâmica dos fluidos computacional (CFD, do inglês computational fluid dynamics), é dedicada a essa abordagem.[1] A velocimetria por imagem de partículas, um método experimental para visualizar e analisar o escoamento de fluidos, também tira proveito da natureza altamente visual do fluxo de fluidos.
Etimologia
O primeiro uso da expressão "mecânica dos fluidos" é atribuído a A. H. Jameson em sua obra An Introduction to Fluid Mechanics (1937).[2]
História
Desenvolvimento histórico da mecânica dos fluidos
O estudo da mecânica dos fluidos remonta pelo menos aos dias da Grécia Antiga, quando Arquimedes investigou a estática dos fluidos e o empuxo e formulou sua famosa lei, agora conhecida como princípio de Arquimedes, que foi publicada em sua obra Sobre os Corpos Flutuantes — geralmente considerada a primeira grande obra sobre a mecânica dos fluidos. O estudioso iraniano Abu Rayhan Biruni e, posteriormente, Al-Khazini aplicaram métodos científicos experimentais à mecânica dos fluidos.[3] O rápido avanço na mecânica dos fluidos começou com Leonardo da Vinci (observações e experimentos), Evangelista Torricelli (inventou o barômetro), Isaac Newton (investigou a viscosidade) e Blaise Pascal (pesquisou a hidrostática, formulou a lei de Pascal), e foi continuado por Daniel Bernoulli com a introdução da dinâmica dos fluidos matemática em Hydrodynamica (1739).
Avanços na análise do escoamento de fluidos
O escoamento invíscido foi posteriormente analisado por vários matemáticos (Jean le Rond d'Alembert, Joseph Louis Lagrange, Pierre-Simon Laplace, Siméon Denis Poisson) e o escoamento viscoso foi explorado por uma infinidade de engenheiros, incluindo Jean Léonard Marie Poiseuille e Gotthilf Hagen. Uma justificativa matemática adicional foi fornecida por Claude-Louis Navier e George Gabriel Stokes nas equações de Navier-Stokes, e as camadas limites foram investigadas (Ludwig Prandtl, Theodore von Kármán), enquanto vários cientistas, como Osborne Reynolds, Andrey Kolmogorov e Geoffrey Ingram Taylor, avançaram na compreensão da viscosidade dos fluidos e da turbulência.
Ramos principais
Estática dos fluidos
A estática dos fluidos ou hidrostática é o ramo da mecânica dos fluidos que estuda os fluidos em repouso. Ela engloba o estudo das condições sob as quais os fluidos estão em repouso em equilíbrio estável; e contrasta com a dinâmica dos fluidos, o estudo dos fluidos em movimento. A hidrostática oferece explicações físicas para muitos fenômenos da vida cotidiana, como o porquê de a pressão atmosférica mudar com a altitude, por que a madeira e o óleo flutuam na água, e por que a superfície da água está sempre nivelada, independentemente do formato de seu recipiente. A hidrostática é fundamental para a hidráulica, a engenharia de equipamentos para armazenar, transportar e usar fluidos. Ela também é relevante para alguns aspectos da geofísica e da astrofísica (por exemplo, na compreensão das placas tectônicas e das anomalias no campo gravitacional da Terra), para a meteorologia, para a medicina (no contexto da pressão arterial) e muitos outros campos.
Dinâmica dos fluidos
A dinâmica dos fluidos é uma subdisciplina da mecânica dos fluidos que lida com o escoamento de fluidos — a ciência dos líquidos e gases em movimento.[4] A dinâmica dos fluidos oferece uma estrutura sistemática — que fundamenta essas disciplinas práticas — que engloba leis empíricas e semiempíricas derivadas da medição de vazão e usadas para resolver problemas práticos. A solução para um problema de dinâmica dos fluidos tipicamente envolve o cálculo de várias propriedades do fluido, como velocidade, pressão, densidade e temperatura, como funções do espaço e do tempo. Ela própria possui várias subdisciplinas, incluindo a aerodinâmica[5][6][7][8] (o estudo do ar e de outros gases em movimento) e a hidrodinâmica[9][10] (o estudo dos líquidos em movimento). A dinâmica dos fluidos tem uma ampla gama de aplicações, incluindo o cálculo de forças e momentos em aeronaves, a determinação da vazão mássica de petróleo em oleodutos, a previsão da evolução de padrões climáticos, a compreensão das nebulosas no espaço interestelar e a modelagem de explosões. Alguns princípios da dinâmica dos fluidos são usados na engenharia de tráfego e na dinâmica de multidões.
Mecânica do contínuo
A mecânica dos fluidos é uma subdisciplina da mecânica do contínuo, conforme ilustrado na tabela a seguir:
| Mecânica do contínuo |
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De um ponto de vista mecânico, um fluido é uma substância que não suporta tensão de cisalhamento; é por isso que um fluido em repouso adquire a forma do recipiente que o contém. Um fluido em repouso não apresenta tensão de cisalhamento.
Premissas

As premissas inerentes a um tratamento mecânico de fluidos de um sistema físico podem ser expressas em termos de equações matemáticas. Fundamentalmente, assume-se que todo sistema mecânico de fluidos obedece à:
- Conservação da massa
- Conservação de energia
- Conservação do momento linear
- Hipótese do contínuo
Por exemplo, a premissa de que a massa é conservada significa que, para qualquer volume de controle fixo (por exemplo, um volume esférico) — delimitado por uma superfície de controle —, a taxa de variação da massa contida naquele volume é igual à taxa na qual a massa está passando pela superfície de fora para dentro, menos a taxa na qual a massa está passando de dentro para fora. Isso pode ser expresso como uma equação na forma integral sobre o volume de controle.
Hipótese do contínuo
A hipótese do contínuo é uma idealização da mecânica do contínuo sob a qual os fluidos podem ser tratados como contínuos, embora, em uma escala microscópica, eles sejam compostos por moléculas. Sob a hipótese do contínuo, propriedades macroscópicas (observadas/mensuráveis) como densidade, pressão, temperatura e velocidade aparente são consideradas bem definidas em elementos de volume "infinitesimais" — pequenos em comparação com a escala de comprimento característica do sistema, mas grandes em comparação com a escala de comprimento molecular. As propriedades do fluido podem variar continuamente de um elemento de volume para outro e são valores médios das propriedades moleculares. A hipótese do contínuo pode levar a resultados imprecisos em aplicações como escoamentos em velocidades supersônicas ou escoamentos moleculares em nanoescala.[11] Aquelas questões para as quais a hipótese do contínuo falha podem ser resolvidas usando a mecânica estatística ou a dinâmica de gases rarefeitos. Para determinar se a hipótese do contínuo se aplica ou não, avalia-se o número de Knudsen, definido como a razão entre o caminho livre médio molecular e a escala de comprimento característica. Problemas com números de Knudsen abaixo de 0,1 podem ser avaliados usando a hipótese do contínuo, mas a abordagem molecular (mecânica estatística) pode ser aplicada para encontrar o movimento do fluido para números de Knudsen maiores.
Equações de Navier-Stokes
As equações de Navier-Stokes (nomeadas em homenagem a Claude-Louis Navier e George Gabriel Stokes) são equações diferenciais que descrevem o balanço de forças em um dado ponto dentro de um fluido. Para um fluido incompressível com campo de velocidade vetorial , as equações de Navier-Stokes são[12][13][14][15]
- .
Essas equações diferenciais são as análogas para materiais deformáveis às equações de movimento de Newton para partículas – as equações de Navier-Stokes descrevem mudanças no momento linear (força) em resposta à pressão e à viscosidade, parametrizadas pela viscosidade cinemática . Ocasionalmente, forças de campo (forças de corpo), como a força gravitacional ou a força de Lorentz, são adicionadas às equações.
As soluções das equações de Navier-Stokes para um dado problema físico devem ser buscadas com a ajuda do cálculo. Em termos práticos, apenas os casos mais simples podem ser resolvidos exatamente dessa forma. Esses casos geralmente envolvem escoamento permanente e não turbulento, no qual o número de Reynolds é pequeno. Para casos mais complexos, especialmente aqueles envolvendo turbulência, como sistemas climáticos globais, aerodinâmica, hidrodinâmica e muitos outros, as soluções das equações de Navier-Stokes atualmente só podem ser encontradas com a ajuda de computadores. Este ramo da ciência é chamado de dinâmica dos fluidos computacional.[16][17][18][19][20]
Fluidos invíscidos e viscosos
Um fluido invíscido não possui viscosidade, . Na prática, um escoamento invíscido é uma idealização, que facilita o tratamento matemático. De fato, sabe-se que escoamentos puramente invíscidos se realizam apenas no caso da superfluidez. Caso contrário, os fluidos são geralmente viscosos, uma propriedade que costuma ser mais importante dentro de uma camada limite perto de uma superfície sólida,[21] onde o escoamento deve se adequar à condição de não escorregamento no sólido. Em alguns casos, a matemática de um sistema mecânico de fluidos pode ser tratada assumindo que o fluido fora das camadas limites é invíscido, e então combinando sua solução com a de uma fina camada limite laminar.
Para o escoamento de um fluido sobre um contorno poroso, a velocidade do fluido pode ser descontínua entre o fluido livre e o fluido no meio poroso (isso está relacionado à condição de Beavers e Joseph). Além disso, em baixas velocidades subsônicas, é útil assumir que o gás é incompressível — ou seja, a densidade do gás não muda, mesmo que a velocidade e a pressão estática mudem.
Fluidos newtonianos vs. não newtonianos
Um fluido newtoniano (nomeado em homenagem a Isaac Newton) é definido como um fluido cuja tensão de cisalhamento é linearmente proporcional ao gradiente de velocidade na direção perpendicular ao plano de cisalhamento. Essa definição significa que, independentemente das forças atuando sobre um fluido, ele continua a fluir. Por exemplo, a água é um fluido newtoniano, porque continua a apresentar propriedades de fluido, não importa o quanto seja agitada ou misturada. Uma definição um pouco menos rigorosa é a de que o arrasto de um pequeno objeto sendo movido lentamente através do fluido é proporcional à força aplicada ao objeto. (Compare com o atrito). Fluidos importantes, como a água, assim como a maioria dos gases, comportam-se — com boa aproximação — como fluidos newtonianos sob condições normais na Terra.
Em contraste, agitar um fluido não newtoniano pode deixar um "buraco" para trás. Esse buraco será preenchido gradualmente ao longo do tempo — esse comportamento é visto em materiais como pudim, oobleck (mistura de amido de milho e água), ou areia (embora a areia não seja estritamente um fluido). Alternativamente, agitar um fluido não newtoniano pode fazer com que a viscosidade diminua, de modo que o fluido pareça mais "fino" (isso é visto em tintas que não pingam). Existem muitos tipos de fluidos não newtonianos, uma vez que são definidos como algo que falha em obedecer a uma propriedade particular — por exemplo, a maioria dos fluidos com cadeias moleculares longas pode reagir de maneira não newtoniana.
Equações para um fluido newtoniano
A constante de proporcionalidade entre o tensor de tensão viscosa e o gradiente de velocidade é conhecida como a viscosidade. Uma equação simples para descrever o comportamento do fluido newtoniano incompressível é
onde
- é a tensão de cisalhamento exercida pelo fluido ("arrasto"),
- é a viscosidade do fluido — uma constante de proporcionalidade, e
- é o gradiente de velocidade perpendicular à direção do cisalhamento.
Para um fluido newtoniano, a viscosidade, por definição, depende apenas da temperatura, não das forças que atuam sobre ele. Se o fluido for incompressível, a equação que rege a tensão viscosa (em coordenadas cartesianas) é
onde
- é a tensão de cisalhamento na -ésima face de um elemento de fluido na -ésima direção
- é a velocidade na -ésima direção
- é a coordenada da -ésima direção.
Se o fluido não for incompressível, a forma geral para a tensão viscosa em um fluido newtoniano é
onde é o segundo coeficiente de viscosidade (ou viscosidade volumétrica). Se um fluido não obedece a essa relação, ele é denominado um fluido não newtoniano, dos quais existem vários tipos. Fluidos não newtonianos podem ser plásticos, plásticos de Bingham, pseudoplásticos, dilatantes, tixotrópicos, reopéticos ou viscoelásticos.
Em algumas aplicações, faz-se outra ampla divisão aproximada entre os fluidos: fluidos ideais e não ideais. Um fluido ideal é não viscoso e não oferece resistência alguma a uma força de cisalhamento. Um fluido ideal não existe de fato, mas em alguns cálculos, a premissa é justificável. Um exemplo disso é o escoamento longe de superfícies sólidas. Em muitos casos, os efeitos viscosos concentram-se perto dos contornos sólidos (como nas camadas limites), enquanto em regiões do campo de escoamento distantes dos contornos os efeitos viscosos podem ser negligenciados e o fluido nessas áreas é tratado como se fosse invíscido (escoamento ideal). Quando a viscosidade é negligenciada, o termo que contém o tensor de tensão viscosa na equação de Navier-Stokes desaparece. A equação reduzida a essa forma é chamada de equação de Euler.
Ver também
- Equações de Navier-Stokes
- Equação de momento para os fluidos
- Mecânica computacional
- Computação científica
- Hidráulica
- Aerodinâmica
- Fluido newtoniano
- Fluido não newtoniano
- Fluidodinâmica computacional
- Convecção
- Modelagem computacional
- Modelos físicos
- Método dos elementos finitos
- Método das diferenças finitas
- Método dos volumes finitos
- Modelo das Partículas Fluidas
- Dinâmica de partículas com dissipação
- Microfluidos
- Hidráulica aplicada a tubulações
- Equações Explícitas Para o Fator de Atrito de Darcy-Weisbach
Referências
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- ↑ «OED- oxford English Dictionary fluid mechanics online entry»
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Ligações externas
- Fenômenos de Transporte CEFET/RJ
- CFD Online (em inglês)
- Advanced Simulation Library
- Coolfluid
- Deal.II
- Gerris
- Nektar++
- OpenFOAM
- SU2 code
- USP - e-Física
