Problema de Monty Hall

Em busca do prêmio, o jogador escolhe a porta 1. O apresentador então abre a porta 3, revelando que ela não o tem, e oferece ao jogador a possibilidade de escolher a porta 2 em vez da porta 1.

O problema de Monty Hall, também conhecido por paradoxo de Monty Hall, é um problema matemático e paradoxo que surgiu a partir de um concurso televisivo dos Estados Unidos chamado Let’s Make a Deal, exibido na década de 1970. O problema foi originalmente publicado por Steve Selvin para a revista American Statistician em 1975.[1][2] Tornou-se famoso com uma pergunta do leitor Craig F. Whitaker para Marilyn vos Savant em sua coluna na revista Parade em 1990.[3]

O jogo consistia no seguinte: Monty Hall, o apresentador, apresentava três portas aos concorrentes. Atrás de uma delas estava um prêmio (um carro) e, atrás das outras duas, dois bodes.

  1. O concorrente escolhe uma das três portas (que ainda não é aberta);
  2. Monty abre uma das outras duas portas que o concorrente não escolheu, revelando que o carro não se encontra nessa porta e revelando um dos bodes;
  3. Monty pergunta ao concorrente se quer decidir permanecer com a porta que escolheu no início do jogo ou se ele pretende mudar para a outra porta que ainda está fechada para então a abrir. Agora, com duas portas apenas para escolher — pois uma delas já se viu, na 2.ª etapa, que não tinha o prêmio — e sabendo que o carro está atrás de uma das restantes duas, o concorrente tem que tomar a decisão.

Contexto

Steve Selvin escreveu um artigo para a revista American Statistician em 1975, descrevendo um problema baseado no programa Let's Make a Deal, apresentado por Monty Hall.[1][2] O problema é semelhante ao problema dos três prisioneiros proposto por Martin Gardner em 1959.[4]

Suposições intuitivas

Selvin[1] e Savant[3] explicitamente definem o papel do apresentador:

  1. O apresentador sempre deve abrir uma porta que não foi escolhida pelo apresentador;[5]
  2. O apresentador sempre deve abrir uma porta para revelar o bode, nunca o carro.
  3. O apresentador sempre deve oferecer a possibilidade de trocar a porta que foi originalmente escolhida pela porta que continua fechada.

Os matemáticos também assumem tipicamente que o carro é escondido inicialmente de forma aleatória e que, se o jogador escolhe a porta que contém o carro inicialmente, a escolha do apresentador para definir qual porta abrir também é aleatória.[6] Além disso, alguns autores supõem que a escolha inicial do jogador também é aleatória.[1]

A resposta intuitiva ao problema é a que quando o apresentador revelou uma das portas não premiadas, o concorrente passaria a ter à frente um novo dilema, com apenas duas portas e um prêmio, portanto as chances do prêmio estar em qualquer uma das duas portas passaria a ser de 50%.[7] O apresentador teria ajudado o concorrente, já que as chances para acertar subiram de 33,33% para 50%, no entanto não faria diferença trocar ou não de porta, uma vez que ambas teriam as mesmas chances em 50% de possuírem o prêmio. No entanto, esta análise intuitiva é errada, pois a porta que o apresentador abre depende da porta que o concorrente escolheu inicialmente. O apresentador sabe desde o começo onde está o prêmio e assim ele nunca abrirá uma porta premiada. Ao abrir uma porta não premiada, ele não está criando um jogo novo, mas está dando informações valiosas ao concorrente sobre a localização do prêmio definida no jogo inicial. É por isso que a resposta pode ser contra intuitiva: o apresentador não escolhe a porta que vai abrir aleatoriamente.

As chances de um jogador escolher a porta premiada na primeira tentativa é mais baixa do que a de escolher um bode.[8] Contudo, se o jogador escolher a porta com o carro na primeira rodada, o apresentador não tem liberdade de escolha e só pode abrir a porta não premiada que lhe resta, obrigando-o a continuar mantendo fechada a única porta premiada.

Em um estudo acerca desse problema, de 228 pessoas que foram submetidas ao teste, apenas 13% escolheram trocar de porta.[9]

A solução

A solução apresentada por Savant em Parade apresenta três possibilidades da disposição dos dois bodes e do carro atrás das três portas e suas respectivas probabilidades de ficar ou trocar após escolher, no primeiro momento, a porta A:[3]

Porta A Porta B Porta C Resultado se permanecer na porta 1 Resultado se trocar de porta
Bode Bode Carro Ganha o bode Ganha o carro
Bode Carro Bode Ganha o bode Ganha o carro
Carro Bode Bode Ganha o carro Ganha o bode

Assim, a resposta correta, e talvez contra intuitiva: é mais vantajoso trocar. Isso porque é mais provável estatisticamente ganhar o prêmio se trocar de porta do que se não o fizer, pois a probabilidade em acertar na premiada passa para o dobro: de 33,33% para 66,66%.

Existem três portas - A, B e C. Quando o concorrente escolheu uma delas, digamos a A, a chance de que ela seja a premiada é de 1/3. Como consequência, a probabilidade de que tenha errado, ou em outras palavras, de que o prêmio esteja nas outras duas portas B ou C é de 2/3. Pode-se comprovar isso somando a probabilidade de cada uma das outras portas ou simplesmente sabendo que a probabilidade de que haja um prêmio é sempre 1. O importante é ter em mente que a chance de o prêmio estar nas outras portas que você não escolheu é de 2/3.[8]

Entendendo isso, basta ver que o apresentador abrirá sem erro uma dessas outras duas portas que contém um prémio mau, digamos que seja a B. Ao fazer isso, ele está lhe dando uma informação valiosa: se o prêmio estava nas outras portas que não escolheu (B ou C), então agora ele só pode estar na porta que você não escolheu e não foi aberta, ou seja, a porta C. Ou seja, se o concorrente errou ao escolher uma porta - e as chances disto são de 2/3 - então ao abrir uma das outras portas não premiadas o apresentador está lhe dizendo onde está o prêmio. Toda vez que o concorrente tiver escolhido inicialmente uma porta errada, ao trocar de porta irá com mais probabilidade ganhar.[8]

Como as chances de que tenha errado em sua escolha inicial são de 2/3, se trocar suas chances de ganhar serão de 2/3 - e por conseguinte a chance de que ganhe se não trocar de porta é de apenas 1/3. É assim mais vantajoso trocar sempre de porta.[8]

A análise pode ser ilustrada em termos da chances de probabilidades iguais que o jogador inicialmente escolheu o carro, bode A, ou bode B:

1.
Apresentador revela
um dos bodes


Jogador escolhe carro
(probabilidade 1/3)
Trocar perde.
2.
Apresentador tem que
revelar Bode B

Jogador escolhe Bode A
(probabilidade 1/3)
Trocar ganha.
3.
Apresentador tem que
revelar Bode A

Jogador escolhe Bode B
(probabilidade 1/3)
Trocar ganha.
O jogador tem uma chance igual de inicialmente selecionar o carro, Bode A, ou Bode B. A troca resulta em uma vitória 2/3 das vezes.

O problema de Monty Hall é exposto em muitos cursos de probabilidades e de estatística, e um exercício com ele seria dado em Harvard e Princeton. Ele demonstra muito bem como nosso cérebro não foi feito para lidar intuitivamente com tais tipos específicos de problemas. Felizmente pode-se resolver o problema de Monty Hall no papel de forma simples e sem erro usando o teorema de Bayes relativo às probabilidades condicionadas.

Ver também

Referências

  1. 1 2 3 4 Salvin, Steve (fevereiro de 1975). «A probem in probability». The American Statistician (em inglês) (1): 67–71. ISSN 0003-1305. doi:10.1080/00031305.1975.10479121. Consultado em 11 de março de 2026
  2. 1 2 Dickey, James; Gridgeman, N. T.; Kingsley, M. C. S.; Good, I. J.; Carlson, James E.; Gianola, Daniel; Kutner, Michael H.; Selvin, Steve (1975). «Letters to the Editor». The American Statistician (3): 131–134. ISSN 0003-1305. Consultado em 11 de março de 2026
  3. 1 2 3 «Game Show Problem | Marilyn vos Savant». marilynvossavant.com (em inglês). Consultado em 11 de março de 2026. Arquivado do original em 21 de janeiro de 2013
  4. Bercker, Pascal (21 de setembro de 2023). «The Problem of the Three Prisoners». Medium. Consultado em 11 de fevereiro de 2026
  5. Mueser, Peter; Granberg, Donald (9 de junho de 1999). «The Monty Hall Dilemma Revisited: Understanding the Interaction of Problem Definition and Decision Making». Experimental. Consultado em 11 de março de 2026
  6. Krauss, Stefan; Wang, X. T. (2003). «The psychology of the Monty Hall problem: Discovering psychological mechanisms for solving a tenacious brain teaser.». Journal of Experimental Psychology: General (em inglês) (1): 3–22. ISSN 1939-2222. doi:10.1037/0096-3445.132.1.3. Consultado em 11 de março de 2026
  7. Mueser, Peter; Granberg, Donald (9 de junho de 1999). «The Monty Hall Dilemma Revisited: Understanding the Interaction of Problem Definition and Decision Making». Experimental. Consultado em 13 de março de 2026
  8. 1 2 3 4 Carlton, Matthew (janeiro de 2005). «Pedigrees, Prizes, and Prisoners: The Misuse of Conditional Probability». Journal of Statistics Education (em inglês) (2). ISSN 1069-1898. doi:10.1080/10691898.2005.11910554. Consultado em 11 de março de 2026
  9. Brown, Thad A. (julho de 1995). «The Monty Hall Dilemma Donald Granberg». Personality and Social Psychology Bulletin (em inglês) (7): 711–723. ISSN 0146-1672. doi:10.1177/0146167295217006. Consultado em 13 de março de 2026

Bibliografia

  • Edward R. Scheinerman (2003). Matemática Discreta - Uma Introdução 1 ed. Brasil: Cengage Learning. 532 páginas. ISBN 85-221-0291-0