Wuzi
| Wuzi | |||||||||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Chinês tradicional: | 吳子 | ||||||||||||||||
| Chinês simplificado: | 吴子 | ||||||||||||||||
| Significado literal | Mestre Wu | ||||||||||||||||
| |||||||||||||||||
Wuzi é uma obra clássica da literatura chinesa sobre estratégia militar, atribuída a Wu Qi. É considerada um dos Sete Clássicos Militares da China.


Diz-se que havia dois livros sobre a arte da guerra escritos por Wu Qi, mas um se perdeu, restando apenas o Wuzi como o único livro existente a transmitir o pensamento militar de Wu Qi. A mais antiga edição publicada do Wuzi que sobrevive é da Dinastia Song (960–1279). Pela falta de exemplares remanescentes, não há consenso entre os estudiosos modernos quanto à última data de composição do Wuzi, mas presume-se nominalmente que o cerne da obra tenha sido composto por volta da época de Wu Qi (440–381 a.C.), em meados do Período dos Reinos Combatentes. Referências históricas indicam que o Wuzi era muito famoso e popular tanto no Período dos Reinos Combatentes quanto na Dinastia Han. Além dos estudos estratégicos/táticos e da filosofia da guerra, o Wuzi dá atenção considerável à preparação logística para a guerra.
O conteúdo filosófico da obra consiste principalmente em uma síntese entre Confucionismo e Legalismo. O livro tenta conciliar a preocupação humanista (confucionista) com valores morais e governo benevolente, com a necessidade administrativa (legalista) de recompensas e punições estritas e previsíveis. Essa tentativa de síntese entre valores confucionistas e legalistas é comum a outros tratados militares datados de modo mais conclusivo do Período dos Reinos Combatentes.[1]
Teoria militar
O texto atual do Wuzi consiste em seis seções, cada uma tratando de um aspecto crítico dos assuntos militares: Planejamento para o Estado; Avaliação do Inimigo; Controle do Exército; o Tao do General; Respondendo à Mudança; e Estimulando os Oficiais. Embora cada capítulo seja menos específico do que os títulos tradicionais sugerem, eles ilustram o tema e o escopo geral do livro como um todo.[2]
Quando jovem, Wu Qi passou três anos formativos como estudante de Confucionismo. Após adquirir alguns anos de experiência administrativa, passou a crer que, para que a benevolência e a retidão sobrevivessem em sua época, a força e a preparação militares se faziam necessárias. Sem um exército forte para defender o que é justo, Wu Qi acreditava que as virtudes confucionistas desapareceriam, e o mal dominaria o mundo. Por causa de sua ênfase na importância do poder militar para salvaguardar direitos civis e liberdade, o autor do Wuzi afirma que os comandantes devem ser criteriosamente escolhidos, de preferência entre aqueles que demonstram coragem e talento para as artes militares, mas que também possuam boas habilidades de administração civil e apresentem virtudes confucionistas, especialmente sabedoria e autocontrole.[3]
Como os exércitos do Período dos Reinos Combatentes dependiam fortemente do cavalo, tanto para transporte quanto para a força dos carros de guerra, o Wuzi enfatiza mais a criação e a manutenção de uma cavalaria do que da infantaria em suas discussões sobre logística. Por conta da transição de uma guerra entre nobres para a mobilização em massa de exércitos civis, o Wuzi destaca a importância de conquistar o apoio firme e a lealdade do povo comum. Devido ao seu foco na relevância da administração civil como auxílio à força militar, o Wuzi enfatiza a implementação de políticas confucionistas voltadas a melhorar o bem-estar material do povo, conquistar seu apoio emocional e fomentar suas virtudes morais.[4]
Harmonia e organização são igualmente importantes: sem harmonia, uma organização não será coesa; mas, sem organização, a harmonia não será eficaz para alcançar objetivos coletivos. Existem três etapas para se obter uma força de combate disciplinada e eficiente: organização adequada, treinamento intenso e motivação completa. Somente após criar um exército disciplinado e coeso é que vencer passa a ser uma questão de tática e estratégia. Grande parte do Wuzi discute os meios de conseguir tal força.[5]
A respeito das teorias legalistas de provocar ações desejadas mediante o exercício apropriado de recompensas e punições, o Wuzi aponta que recompensas e punições, por si só, são insuficientes: a recompensa excessiva pode levar indivíduos a buscar lucro e glória em detrimento do grupo, enquanto a punição em excesso pode reduzir o moral, em casos extremos fazendo com que os homens prefiram fugir do serviço militar a enfrentar as consequências do fracasso. Além de recompensas e punições, o general deve inculcar (essencialmente valores pseudo-confucionistas) em seus soldados: homens que creem lutar por uma causa moral preferem a morte a viverem desonrosamente, melhorando as chances de sucesso tanto do soldado quanto do exército como um todo. É somente com a combinação de foco moral e recompensas e punições eficazes que o exército se torna uma força disciplinada, com ânimo elevado e fortemente motivada.[6]
O Wuzi aconselha os generais a adotarem táticas e estratégias diferentes com base na avaliação das situações no campo de batalha. Fatores que influenciam as táticas e estratégias adequadas incluem: terreno e condições climáticas relativos ao embate; o caráter nacional dos combatentes; a história pessoal e as características do comandante inimigo; bem como o moral, a disciplina, o nível de fadiga, o número e a qualidade geral das tropas amigas e inimigas. Na obtenção dessas informações, e na prevenção de que o inimigo as obtenha, espionagem e engodo são primordiais.[7]
Autoria
Por conta da falta de evidências arqueológicas, não há consenso entre os estudiosos modernos sobre a data em que o Wuzi foi composto ou modificado pela última vez. Sabe-se que uma obra conhecida como Wuzi estava entre os livros mais amplamente consultados sobre estratégia militar nos registros do Período dos Reinos Combatentes. (Registros contemporâneos notáveis que mencionam o Wuzi incluem os Anais de Primavera e Outono e o Han Feizi.) Sima Qian, em seu Shiji, equipara a popularidade do Wuzi, tanto no Período dos Reinos Combatentes quanto na Dinastia Han, à de A Arte da Guerra, de Sun Tzu.[8] Há indícios de que, no Período dos Reinos Combatentes, existiam dois textos distintos intitulados “Wuzi”, mas (pelo menos) um se perdeu. O fato de grandes partes do texto parecerem ter-se perdido ou sido deliberadamente removidas das edições atuais dificulta ainda mais a datação da obra.[9] Existem evidências que sustentam tanto a hipótese de que grande parte do texto atual foi escrito em meados do Período dos Reinos Combatentes, quanto a de que foi modificado após esse período.
O estudo mais sistemático sobre a data de composição e autoria do Wuzi, baseado em referências históricas e no conteúdo do livro, conclui que o essencial do texto foi provavelmente escrito pelo próprio Wu Qi, mas sofreu perdas de conteúdo, revisões e acréscimos após a morte dele. Essa teoria supõe que os discípulos de Wu Qi inicialmente continuaram a alterar o texto, mas não explica o conteúdo aparentemente inserido até mesmo na dinastia Han (possivelmente para “atualizar” a obra).[10] A seguir, cinco pontos resumem as conclusões desse estudo sobre a data de composição do Wuzi:
Referências históricas
Sabe-se que os escritos de Wu Qi eram largamente difundidos no final do Período dos Reinos Combatentes. A alegação de popularidade precoce da obra se baseia na observação, do Han Feizi, de que “Dentro das fronteiras todos falam de guerra, e por toda parte as famílias secretamente guardam os livros de Sun e de Wu.” O Shiji corrobora essa informação. O Wuzi continuou sendo estudado tanto por grandes figuras da Dinastia Han quanto por personagens do período dos Três Reinos. O registro de atenção contínua reforça a hipótese de que foi transmitido ininterruptamente desde o Período dos Reinos Combatentes até pelo menos o período dos Três Reinos.[11]
Trechos compartilhados entre obras contemporâneas
O Wuzi compartilha tanto conceitos quanto trechos inteiros com outras obras datadas com maior certeza no Período dos Reinos Combatentes. (Os textos com que o Wuzi mais se assemelha são o Wei Liaozi, A Arte da Guerra de Sun Bin e o Seis Ensinamentos Secretos.) A semelhança estreita entre o Wuzi e essas obras do Período dos Reinos Combatentes sugere que o Wuzi é anterior a elas, em grande parte porque a Arte da Guerra de Sun Bin ficou perdida por dois mil anos, de modo que trechos dessa obra não poderiam ter sido copiados para forjar o Wuzi (logo antes da Dinastia Tang, como se alegou na história chinesa posterior).[12]
Perspectiva / ocupação do autor
Wu Qi foi tanto um líder civil quanto militar, destacando-se em ambas as funções. Esse duplo papel era comum até o início do Período dos Reinos Combatentes, mas desapareceu nos períodos posteriores da história chinesa. O fato de o Wuzi ter sido escrito na perspectiva de um oficial com responsabilidades civis e militares apoia a hipótese de que data do início do Período dos Reinos Combatentes.[13]
Evidências arqueológicas
Estudiosos da dinastia Qing rejeitaram a possível autenticidade do texto, argumentando que ele mencionava práticas militares então consideradas anacrônicas ao Período dos Reinos Combatentes. A lista de itens (na época) tidos como anacrônicos inclui: o uso de flautas no acampamento, termos que supostamente não haviam sido inventados antes do Período dos Reinos Combatentes e a presença de certos estandartes astrológicos utilizados por diferentes unidades. Como descobertas arqueológicas recentes confirmaram que todas essas práticas “anacrônicas” existiam no Período dos Reinos Combatentes, a evidência da era Qing em favor de uma falsificação do Wuzi não se sustenta.[14]
Críticas remanescentes
As críticas restantes que os defensores da autenticidade do Wuzi não esclarecem relacionam-se à descrição do livro de que a cavalaria era um ramo importante e influente do exército. Como o uso de cavalaria (em tese) só se tornou significativo no final do Período dos Reinos Combatentes, a ênfase do texto na cavalaria implicaria que as edições atuais foram editadas após a morte de Wu Qi (a menos que a cavalaria se tornasse proeminente na China muito antes do que se acredita). Salvo se se encontrar evidência de que a cavalaria se tornou relevante na China antes de cerca de 300 a.C. (data geralmente aceita pelos estudiosos para o surgimento da cavalaria), partes do Wuzi, ou o texto inteiro, devem ser atribuídas ao final do Período dos Reinos Combatentes ou ao início da Dinastia Han.
Os estudiosos modernos concluem que a interpretação mais satisfatória para tais fatos é que o texto foi substancialmente criado por “Wu Qi em pessoa, mas, no decorrer da transmissão e revisão, estrategistas posteriores (provavelmente do final dos Reinos Combatentes e estudantes da era Han)... adicionaram passagens sobre cavalaria e possivelmente alteraram parte da terminologia.”[15] Sendo uma obra produzida por uma figura histórica famosa, mas emendada por gerações futuras de estrategistas, a composição do Wuzi assemelha-se muito à maioria dos outros Sete Clássicos Militares.
Ver também
- A Arte da Guerra
- Wu Qi
- Sete Clássicos Militares
- Período dos Reinos Combatentes
- Dinastia Han
- A Arte da Guerra de Sun Bin
Notas
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. p. 454.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. p. 202.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. pp. 202–203.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. p. 203.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. p. 204.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. p. 204.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. pp. 204–205.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. pp. 191–192.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. p. 455.
- ↑ Li Shou-chih and Wang Shih-chin Wu-tzu Ch'ien-shuo. Peking: Chieh-fang-chun ch'u-pan-she. 1986. pp. 3–12.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. pp. 453–454.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. p. 454.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. p. 454.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. p. 454.
- ↑ Sawyer, Ralph D. The Seven Military Classics of Ancient China. New York: Basic Books. 2007. pp. 454–455.