Viva Maria
Viva Maria (programa de rádio)
Viva Maria é um programa de rádio brasileiro criado em 14 de setembro de 1981 pela jornalista Mara Régia Di Perna. Veiculado originalmente pela Rádio Nacional de Brasília, é considerado pioneiro no radiojornalismo brasileiro ao abordar a defesa dos direitos das mulheres e questões de gênero em rede nacional.[1]
Histórico
O programa estreou no contexto de abertura política ao final da ditadura militar brasileira. O nome foi inspirado na canção "Maria, Maria", de Milton Nascimento e Fernando Brant, com o objetivo de criar um espaço de representatividade feminina no rádio. A ideia surgiu após a autora assistir a uma apresentação do Grupo Corpo baseada na canção e perceber a ausência da voz feminina no jornalismo radiofônico da época.[2] Consolidou-se, desde sua estréia, como uma ferramenta de empoderamento feminino, promoção da cidadania e enfrentamento da violência contra as mulheres, especialmente em regiões periféricas e populações pouco atendidas pelos grandes meios de comunicação.[3]
Inicialmente, o Viva Maria era transmitido como um programa de variedades com duas horas de duração, de segunda a sábado. Ao longo de sua trajetória, o formato foi adaptado para programetes de 5 a 10 minutos, veiculados de segunda a sexta-feira. Desde a década de 2010, também passou a ser veiculado em formato podcast.[3]
Em 1990, durante o governo Fernando Collor, o Viva Maria foi retirado da grade da Radiobrás sob a justificativa de que as principais pautas do movimento feminista já haviam sido contempladas na Constituição brasileira de 1988. Durante o período em que esteve fora do ar, o formato foi mantido de maneira independente pela apresentadora na Rádio Capital de Brasília e em edições públicas realizadas em praças do Distrito Federal. A mobilização de ouvintes e organizações feministas pelo seu retorno motivou a criação do Dia Latino-Americano e Caribenho da Imagem da Mulher nos Meios de Comunicação, instituído em 14 de setembro de 1990 durante o V Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, uma homenagem explícita à data de estreia do programa. O Viva Maria retornou posteriormente à grade da Rádio Nacional.[4][5][6]
Formato e distribuição
O programa é produzido em Brasília e distribuído através da Empresa Brasil de Comunicação para milhares de emissoras comunitárias e comerciais em todo o Brasil, atingindo especialmente populações rurais e ribeirinhas da Amazônia.[3]
Campanhas e mobilização social
O programa caracteriza-se pelo jornalismo engajado, tendo atuado como canal de mobilização popular em momentos decisivos da legislação brasileira:
- Constituinte de 1988: divulgou e coletou assinaturas para emendas populares que garantiram direitos na Constituição de 1988.[7]
- Direitos trabalhistas: apoiou a campanha pela ampliação da licença-maternidade para 120 dias e pela licença-paternidade.[7]
- Violência contra a mulher: colaborou para a criação da primeira Delegacia da Mulher do DF em 1985.[8]
- Saúde pública: realizou campanhas contra o escalpelamento na Amazônia, com arrecadação de cabelos e equipamentos para perucas, e produziu radionovelas educativas sobre saúde reprodutiva e parteiras tradicionais.[9]
Repercussão jornalística
O estilo afetivo do programa foi abordado em perfis como o publicado pela Revista Imprensa em junho de 2011. Na entrevista, Mara Régia destacou o desejo de criar um espaço de escuta para mulheres comuns, frequentemente excluídas dos meios de comunicação e do poder.[10] Em 2024, o jornalista Leandro Demori apresentou Mara Régia como “a voz das mulheres, em especial das mulheres da floresta”.[11]
A jornalista e escritora Eliane Brum narrou um episódio ocorrido nos anos 1990, quando percorria a Transamazônica coletando histórias. Ao admitir a uma moradora local que não conhecia Mara Régia, foi imediatamente recriminada pela mulher, chocada com a ignorância da repórter, e corrigida pelo marido dela: “Mara Régia é da rádia. Nunca ouviu, não? A gente aqui ouve ela tudinho”[12]. Mara Régia foi entrevistada por inúmeros outros veículos de comunicação, entre eles o Programa do Jô[13]
Reconhecimentos para o programa e sua criadora
- 2005: Indicação coletiva ao Prêmio Nobel da Paz via projeto 1000 Women for Peace.[5]
- 2016: Recebeu a Ordem do Mérito Cultural no grau de Cavaleira.[14]
- 2021: Premiada com o Troféu Audálio Dantas.[15]
Bibliografia
- BETTI, Juliana Cristina Gobbi. Informação crítico-emancipatória com perspectiva de gênero: os direitos das mulheres em programas radiofônicos femininos. Tese (Doutorado em Jornalismo) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2021. A autora realiza uma análise aprofundada do Viva Maria como estudo de caso para discutir práticas de jornalismo emancipatório.[16]
- VELOSO, Ana Maria da Conceição. Gênero, poder e resistência: as mulheres nas indústrias culturais em 11 países. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2013. A obra examina a presença das mulheres em diferentes segmentos da indústria cultural e inclui discussão sobre programas radiofônicos brasileiros de perfil feminista, entre eles o Viva Maria.[17]
- SILVA, Ellis Regina Araújo da. Gênero e feminismo no rádio: o programa Viva Maria da Rádio Nacional. Trabalho apresentado no X Encontro Nacional de História da Mídia (ALCAR), 2015. O estudo discute o Viva Maria como experiência pioneira na articulação entre comunicação pública, direitos das mulheres e feminismo no rádio brasileiro.[18]
- PAIXÃO, Cláudio Chaves. Viva Maria: o rádio a serviço da igualdade de gênero. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Jornalismo) – Universidade Federal do Tocantins, Palmas, 2013. Apresenta uma análise descritiva do programa e de seu papel na promoção dos direitos das mulheres.[19]
Referências
- ↑ Galvão, Patrícia (12 de outubro de 2017). «Programa Viva Maria é referência na história do rádio e da luta pelos direitos das mulheres». Agência Patrícia Galvão. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ «Viva Maria, 40 anos: uma trajetória de sucesso e superação». Agência Brasil. 11 de setembro de 2021. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ a b c «Programa de rádio Viva Maria completa 44 anos em defesa das mulheres». IstoÉ Dinheiro. 13 de setembro de 2025. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ Prado, Magaly (2012). História do rádio no Brasil. São Paulo, SP: Da Boa Prosa
- ↑ a b Guimarães, Paula (25 de setembro de 2020). «Viva Maria, 39 anos nas ondas do feminismo». Portal Catarinas. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ «Dia Latino-Americano da Imagem da Mulher nos Meios de Comunicação». O Portal da Mulher Paranaense. 14 de setembro de 2025. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ a b Porto, Samuel (8 de março de 2017). «Viva Maria é um marco na agenda política de mulheres e mídia na América Latina e Caribe». FENAJ. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ «Viva Maria: Primeira delegacia da mulher completa 30 anos». Agência Brasil. 6 de agosto de 2015. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ Alves, Nancy (abril de 2015). «Debaixo dos caracóis, muita história pra contar» (PDF). Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ Forti, Pamela (junho de 2011). «Flor Vitoriosa». Maven. Revista Imprensa (269): 44. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ TV Brasil (2 de janeiro de 2024), Mara Régia, apresentadora do Viva Maria, é a convidada do Dando a Real com Leandro Demori, consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ Nuzzi, Vitor (16 de junho de 2023). «As muitas Marias de Mara Régia, voz de mulheres amazônidas». Editora Latitude. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ Programa do Jô | Jornalista Mara Régia Di Perna apresenta programa de rádio na Amazônia | Globoplay, consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ NIC.br. «Na Mídia - Ministério presta homenagem com Ordem do Mérito das Comunicações». NIC.br - Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ Redação, Da (23 de junho de 2023). «Prêmio Audálio Dantas reconhece jornalistas que se destacaram nas trincheiras da imprensa». Portal da Comunicação. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ Betti, Juliana (2021). «Informação crítico-emancipatória com perspectiva de gênero: os direitos das mulheres em programas radiofônicos femininos». Repositório Institucional da Universidade Federal de Santa Catarina. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ VELOSO, Ana Maria da Conceição. Gênero, poder e resistência: as mulheres nas indústrias culturais em 11 países. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2013.
- ↑ Silva, Ellis (3 de junho de 2015). «Gênero e Feminismo no Rádio: O Programa Viva Maria da Rádio Nacional». Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia - Alcar. Consultado em 8 de dezembro de 2025
- ↑ «Claudio Chaves Paixão». Escavador. Consultado em 9 de dezembro de 2025