Maria, Maria (canção)

"Maria, Maria"
Canção de Milton Nascimento
do álbum Clube da Esquina 2
Lançamento1978
Gravação1978
Gênero(s)MPB[1]
Duração3:03
Gravadora(s)EMI
ComposiçãoMilton Nascimento, Fernando Brant

Maria, Maria é uma canção do cantor brasileiro Milton Nascimento, lançada em 1978 no álbum Clube da Esquina 2. A faixa se tornou uma das canções mais populares de Milton Nascimento, sendo a música mais tocada do artista no Brasil de acordo com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad),[2] tendo se tornado um hino das mulheres,[3] e sendo certificada como single de ouro pela Pro-Música Brasil.[4]

Antecedentes e desenvolvimento

Em meados da década de 1970, Milton Nascimento e o letrista Fernando Brant já eram parceiros constantes e figuras centrais do movimento conhecido como Clube da Esquina, responsáveis por canções como "Travessia", "Ponta de Areia" e "Canção da América".[3] Em 1976, a dupla foi convidada a criar a trilha do primeiro espetáculo do grupo mineiro de dança contemporânea Grupo Corpo, batizado justamente de Maria Maria, com música original assinada por Nascimento, roteiro de Brant e coreografia do argentino Oscar Araiz.[5] O balé, que abordava a figura da mulher brasileira trabalhadora, permaneceu em cartaz por cerca de dez anos e excursionou por diversos países da América Latina e da Europa.[3]

De acordo com reportagem da revista Veja Rio, a peça musical que viria a se tornar "Maria, Maria" surgiu inicialmente como um tema essencialmente instrumental para esse espetáculo: Nascimento cantava apenas vocalizes sobre a melodia, ainda sem letra definida.[2] A associação entre a música e o universo feminino fortaleceu-se também porque o espetáculo do Grupo Corpo tratava, de forma alegórica, da resistência e da dignidade de mulheres anônimas em contexto de exploração e pobreza.[3]

A letra definitiva foi escrita por Fernando Brant algum tempo depois, já em vista da gravação em estúdio, e teve como ponto de partida tanto o enredo do balé quanto a história de uma mulher real, apresentada ao compositor por Milton Nascimento: uma mãe que vivia à beira dos trilhos de trem em uma cidade do interior de Minas Gerais, criava sozinha os três filhos em condições precárias e, apesar das dificuldades, insistia para que todos permanecessem na escola.[6][3][2] Em entrevista publicada pela revista IstoÉ, Nascimento resumiu o processo de criação da personagem e o impacto do relato trazido por Brant:

Após circular por anos associada ao espetáculo do Grupo Corpo, a canção foi registrada em disco por Milton Nascimento no álbum Clube da Esquina 2 (1978), consolidando a versão com letra que se tornaria uma de suas obras mais conhecidas.[3][2] No ano seguinte, "Maria, Maria" voltou a aparecer no repertório de Nascimento no álbum internacional Journey to Dawn, voltado ao mercado norte-americano, ao lado de outras parcerias com Brant e compositores ligados ao Clube da Esquina.

Recepção crítica

Ao longo das décadas, "Maria, Maria" foi amplamente reconhecida pela crítica como uma das canções mais importantes da carreira de Milton Nascimento e um marco da música popular brasileira. Em artigo publicado por ocasião dos 40 anos da composição, o jornalista Sílvio Tamura, do Diário da Serra, descreveu a música como "ícone do movimento feminista do país", ressaltando o retrato da mulher brasileira "que mistura dor e alegria" e se mantém firme diante das adversidades.[8] A emissora de rádio brasileira Novabrasil FM, em texto dedicado à canção, afirmou que "Maria, Maria" "traduz como poucas músicas a força da mulher brasileira, principalmente da mulher negra brasileira" e a definiu como "uma canção sobre resiliência, entrega, força, coragem, batalha, fé, sonhos", acrescentando que a obra se tornou "um hino do universo feminino", especialmente após a célebre regravação de Elis Regina no álbum Saudade do Brasil (1980).[3]

Do ponto de vista de impacto e popularidade, um levantamento do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, divulgado em 2022 por ocasião dos 80 anos de Milton Nascimento, apontou "Maria, Maria" como a canção mais regravada de sua carreira, além de figurar entre as mais tocadas do artista no Brasil, o que reforça seu status de clássico em seu repertório.[9][2]

A canção também tem sido objeto de análises na área da musicologia. Em artigo publicado na revista acadêmica Vórtex, a estruturação harmônica de "Maria, Maria" é examinada, destacando a articulação do chamado "elemento pedal" como recurso criativo central na exploração da harmonia, que situa a composição dentro da estética particular associada ao Clube da Esquina.[10] Reportagens sobre eventos públicos e manifestações políticas têm registrado o uso recorrente de "Maria, Maria" como canto coletivo em atos ligados à pauta de direitos das mulheres, o que consolidou sua imagem de hino associado às lutas feministas e à valorização da mulher negra no Brasil.[11]

Apresentações ao vivo

Desde a estreia no espetáculo homônimo do Grupo Corpo, "Maria, Maria" passou a ocupar lugar central em montagens cênicas e em shows de Milton Nascimento e de outros intérpretes. Concebida como tema do balé Maria Maria, primeira produção da companhia mineira, a canção era executada ao vivo em apresentações que, entre 1976 e meados da década de 1980, circularam por diversas capitais brasileiras e por cerca de quatorze países da América Latina e da Europa, tornando-se um dos trechos mais reconhecíveis da trilha do espetáculo.[5][2]

Em 1980, a canção foi incorporada ao espetáculo Saudade do Brasil, concebido por Elis Regina e César Camargo Mariano e apresentado no Canecão, no Rio de Janeiro. O show, que misturava música, teatro e dança para retratar tipos populares e paisagens brasileiras, foi posteriormente recriado em estúdio no álbum duplo homônimo, no qual "Maria, Maria" surge como um dos momentos de maior carga emocional do repertório.[12][13][14]

Ao longo dos anos 1980, "Maria, Maria" consolidou-se como ponto obrigatório nos concertos de Milton Nascimento. Uma matéria publicada no Jornal do Brasil sobre o show comemorativo de vinte anos de carreira realizado no Ginásio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, relata que o cantor reuniu cerca de vinte mil pessoas em uma retrospectiva de sucessos que incluía "Maria, Maria" entre as canções mais celebradas da noite, chegando a ser repetida no bis. Desde então, o tema passou a aparecer com frequência nas turnês do artista, figurando em registros ao vivo e em especiais para a televisão.[15]

Na turnê de despedida A Última Sessão de Música (2022), "Maria, Maria" voltou a ocupar lugar de destaque no roteiro. Ao avaliar o show final da excursão, realizado no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, o crítico Carlos Eduardo Lima, do portal Célula Pop, descreveu o concerto como "um registro cronológico dos maiores e mais significativos hits da carreira de Milton", citando "Maria, Maria" entre os "colossos" que desfilaram no bloco final da apresentação.[16]

Após anunciar a aposentadoria dos palcos, Nascimento voltou a cantar "Maria, Maria" em ocasiões especiais. Em março de 2023, foi convidado pelo grupo britânico Coldplay para participar do último show da etapa brasileira da Music of the Spheres World Tour, no Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro; ao lado de Chris Martin e Seu Jorge, interpretou a canção diante de um público que lotava o estádio, em performance amplamente repercutida na imprensa como encontro simbólico entre gerações da música popular.[17][18]

Regravações

Ao longo dos anos, "Maria, Maria" foi regravada por diversos artistas da música popular brasileira. Em 1980, a canção ganhou uma célebre versão de Elis Regina no espetáculo Saudade do Brasil, posteriormente registrado no álbum duplo homônimo; a leitura, com arranjos de César Camargo Mariano, é frequentemente apontada como uma das interpretações definitivas da obra e contribuiu para consolidá-la como um hino do universo feminino.[3][19] A admiração de Elis por Milton Nascimento é sintetizada na frase atribuída à cantora: "Se Deus cantasse, ele teria a voz de Milton Nascimento", repetida em diferentes perfis e textos dedicados ao compositor mineiro.[3][20]

Uma das regravações de maior repercussão comercial foi feita pela banda carioca Roupa Nova, que incluiu "Maria, Maria" no álbum de releituras De Volta ao Começo (1993), composto por versões de clássicos da MPB.[21][22] A gravação voltou a ganhar destaque anos depois ao integrar a trilha sonora da telenovela Caminhos do Coração (2007), da RecordTV, na voz do grupo.[23]

No mesmo ano de 1993, o grupo vocal MPB4 registrou "Maria, Maria" no álbum Encontro Marcado – MPB4 canta Milton Nascimento, dedicado exclusivamente ao repertório do compositor; a faixa aparece ao lado de outras parcerias de Nascimento com Fernando Brant, como "Canções e Momentos" e "Beco do Mota".[24][25]

Além dessas gravações, a canção foi interpretada por Maria Bethânia no álbum ao vivo Carta de Amor – Ato 1 (2013), com direção musical de Wagner Tiso,[26] e integra o repertório de artistas como Maria Bragança, Gilvan de Oliveira, Nonato Luiz, Virgínia Rosa & Geraldo Flach e Zimbo Trio, entre outros. Levantamento do site Discografia Brasileira aponta a presença de "Maria, Maria" em mais de quarenta álbuns diferentes, entre versões vocais e instrumentais, reforçando seu estatuto de uma das composições mais revisitadas de Milton Nascimento.[27]

Vendas e certificações

Região Certificação Vendas
Brasil (Pro-Música Brasil)[28] Ouro 50.000

vendas+valores de streaming baseados somente na certificação

Referências

  1. «'A estranha mania de ter fé na vida...': 40 Anos de 'Maria, Maria'». Diário da Serra. Consultado em 14 de março de 2025 
  2. a b c d e f Viola, Kamille. «A história de Maria Maria, música mais tocada do oitentão Milton Nascimento». Veja Rio. Consultado em 14 de março de 2025 
  3. a b c d e f g h i «A história da 'Maria, Maria', de Milton Nascimento e Fernando Brant». Novabrasil FM. 27 de outubro de 2022. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  4. «Certificações de Milton Nascimento». Pro-Música Brasil. Consultado em 14 de março de 2025 
  5. a b «Ocupação Grupo Corpo – os 40 anos». Itaú Cultural. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  6. Silva, Marcos Aurélio (14 de março de 2022). «História da música "Maria Maria" de Milton Nascimento». Versos e Prosas. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  7. «A história de quem inspirou "Maria Maria"». IstoÉ. 7 de outubro de 2018. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  8. Tamura, Sílvio (6 de novembro de 2018). «'A estranha mania de ter fé na vida...': 40 anos de "Maria, Maria"». Diário da Serra. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  9. Farias, Carolina (26 de outubro de 2022). «Milton Nascimento faz 80 anos e ganha ranking de canções mais gravadas e tocadas». CNN Brasil. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  10. Menezes Júnior, Carlos Roberto Ferreira de (2019). «A estruturação harmônica da canção "Maria, Maria" de Milton Nascimento e Fernando Brant – A articulação do elemento pedal como recurso criativo de exploração da harmonia». Curitiba. Revista Vórtex. 7 (3): 1–26. doi:10.33871/23179937.2019.7.3.3200. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  11. «Conferencistas exigem políticas para todas as "mulheridades"». Cultura FM. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  12. Leitão, Egídio (7 de setembro de 2002). «Elis Regina: Saudade do Brasil». Música Brasileira. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  13. Pacheco, Márcia de Andrade (2014). «Cantando suas saudades, Elis inventa um país». Dialnet. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  14. «Elis canta "Maria, Maria"». Facebook – página oficial de Elis Regina. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  15. «A história da "Maria, Maria", de Milton Nascimento e Fernando Brant». Novabrasil FM. 27 de outubro de 2022. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  16. Lima, Carlos Eduardo (13 de novembro de 2022). «A Última Sessão de Música – 13/11/22 – Mineirão». Célula Pop. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  17. «Coldplay recebe Milton Nascimento em último show no Rio de Janeiro». Gshow. 29 de março de 2023. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  18. «Milton Nascimento participa de show do Coldplay no Rio de Janeiro». O Povo. 29 de março de 2023. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  19. «Saudade do Brasil». Discografia Brasileira. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  20. «Milton Nascimento, um claro enigma». O Globo – Amplificador. 26 de outubro de 2012. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  21. Jornal do Brasil (RJ)
  22. «De Volta ao Começo – Roupa Nova». Apple Music. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  23. Xavier, Nilson (27 de dezembro de 2023). «Os Mutantes – Caminhos do Coração – trilha sonora». Teledramaturgia (Observatório da TV). Consultado em 10 de novembro de 2025 
  24. «Encontro Marcado – MPB4 canta Milton Nascimento». CliqueMusic. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  25. «Encontro Marcado – MPB4 canta Milton Nascimento». Apple Music. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  26. «Carta de Amor – Ato 1». Discografia Brasileira. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  27. «Maria Maria». Discografia Brasileira. Consultado em 10 de novembro de 2025 
  28. «Certificações (Brasil) (single) – Milton Nascimento – Maria, Maria». Pro-Música Brasil. Consultado em 23 de julho de 2025